Saude e condiçoes de vida do idoso no brasil

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SAÚDE E CONDIÇÕES DE VIDA DO IDOSO NO BRASIL

Maria Inez Padula Anderson *

RESUMO

O Brasil possui atualmente cerca de 13 milhões de idosos, que correspondem a 8,3% do total da população. Apesar disso, ainda é escasso o conhecimento sobre suas características e das demandas de saúde decorrentes do seu perfil epidemiológico. Este artigo apresenta um perfil do idoso brasileiro, com enfoque nas suas condições de vida e de saúde, destacando sua condição de moradia, nível de renda, trabalho e escolaridade, dados relativos ao índice de massa corporal, à morbidade referida e ao padrão de utilização dos serviços de saúde.

Palavras-chave: Epidemiologia do envelhecimento, avaliação multidimensional, condições de vida do idoso, serviços de saúde para idosos.

1. INTRODUÇÃO

As informações contidas neste artigo são oriundas de dissertação de mestrado1, cuja fonte de informações foi um banco de dados - coletados em inquérito nacional de base domiciliar (Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição), realizado em 1989 - no qual foram entrevistados 63.213 indivíduos, dos quais 4.650 eram idosos de todas as regiões do país.

Considerando o aumento da população idosa no mundo, em especial a dos países em desenvolvimento, a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1989) e outros estudiosos do tema (Kalache, 1993; Malcom, 1993; Kinsella, 1993) recomendam o desenvolvimento de estudos e pesquisas que subsidiem a tomada de decisão e dirijam as ações e prioridades no nível das políticas públicas relativas à terceira idade. Dentre estas recomendações, pode-se ressaltar a necessidade de se realizar análises multidimensionais visando o estabelecimento de um diagnóstico e de indicadores básicos acerca da população idosa, tais como: a) idade, sexo, nível educacional e condições socioeconômicas; b) a descrição dos problemas e necessidades que afetam a população-alvo, com especial ênfase naqueles que influenciam o estado de saúde e o bem-estar geral; c) a busca de dados de morbidade/incapacidade.

2. OBJETIVOS

A partir dessas diretrizes, foi elaborado o presente trabalho, tendo como objetivos estudar: a distribuição da população idosa nas cinco macrorregiões do Brasil e nas zonas rural e urbana; as características do domicílio, o nível de renda e de escolaridade entre os idosos; o índice de massa corporal entre os idosos; a prevalência de cegueira, surdez, paralisia e doença mental e de outros sintomas de saúde referidos por essa população; a procura por atendimento de saúde, a prevalência de internação e do tempo médio de permanência hospitalar dessa população. Estas informações podem ser úteis para o planejamento e o modelo de atenção à saúde, em nível individual ou coletivo, da população idosa no país.

3. METODOLOGIA

Foi realizado estudo transversal, cuja fonte de dados foi a Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição - PNSN2. Utilizando-se o programa Statistical Analysis System (SAS), foi montado um banco com dados da população de 60 anos ou mais, processando-se então as informações desejadas. As variáveis estudadas foram subdivididas em três grupos, de acordo com as condições ou dimensões a elas associadas: socioeconômicas, de saúde e utilização de serviços de saúde. Os dados analisados foram estratificados por sexo, faixa etária, região e âmbitos urbano e rural. As prevalências foram calculadas com os dados expandidos, tendo por referência o censo de 1980 - que serviu de base para o desenho do estudo. Para o cálculo do erro padrão da amostra foi utilizado um programa estatístico que leva em consideração o desenho por conglomerados e os dois estágios da amostragem (SUDAAN).

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1. Considerações gerais sobre a população idosa e sua distribuição no Brasil

A população brasileira estimada para 1989 pela Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição com base no censo de 1980 foi de 144.353.345 de indivíduos (exclusive o Norte rural). Deste total, cerca de 7,7% seriam de pessoas com 60 anos ou mais, perfazendo 11.107.497 a população considerada da "terceira idade". Destes indivíduos, a maior proporção estava concentrada na faixa de 60 a 69 anos - 59%; as outras duas faixas, de 70 a 79, e a dos 80 anos ou mais representavam 30% e 11%, respectivamente. As mulheres predominavam em todas as faixas etárias, em especial na de 80 anos ou mais, na qual o segmento feminino correspondia a 60% do total. Entretanto, quando eram consideradas separadamente as zonas rural e urbana, verificava-se um predomínio de homens idosos na zona rural. As regiões Sudeste, Sul e Nordeste possuíam o maior percentual de idosos. O Sudeste e o Nordeste juntos concentravam mais de 70% do total da população de idosos brasileiros.

4.2. Aspectos socioeconômicos

a) Condições de moradia

Na zona rural, a análise dos itens relativos a saneamento básico, rede elétrica e existência de vaso sanitário demonstraram a total precariedade das condições de vida da grande maioria de idosos que lá moravam. Nessa região, mais de 60% dos idosos não contavam com eletricidade, 75% não tinham água canalizada, e somente 35% possuíam vaso sanitário e filtro de água. Mais de 70% dos idosos da zona rural não possuíam bens eletrodomésticos comuns, como geladeira, telefone, televisão e automóvel. O telefone, meio de comunicação de grande benefício social - sob vários aspectos - para a terceira idade, só estava presente em no máximo 1,5% dos domicílios, ressaltando-se que nenhuma residência de idosos com 80 anos ou mais possuía telefone. O esgotamento sanitário e a coleta de lixo eram pontos também críticos, uma vez que praticamente inexistia rede coletora de esgoto; a população utilizava fossas sanitárias e outros recursos. A coleta de lixo beneficiava menos de 3% dos moradores.

Na zona urbana os números revelaram um quadro mais favorável. Ainda assim, chama atenção o fato de que quase 30% daqueles com 80 anos ou mais não possuíam geladeira. Aliás, na maioria das vezes os idosos "mais idosos" - 80 anos ou mais - eram os menos beneficiados com a existência desses bens e serviços, o que pode refletir uma perda progressiva do padrão de vida que acontece - com freqüência- na terceira idade e/ou uma melhoria nas condições de vida das coortes mais recentes.

As condições de habitação, como as de facilidades domésticas, e a existência de fontes de lazer dentro de casa são aspectos importantes para uma avaliação da qualidade de vida na terceira idade. Uma moradia adequada, provida de recursos eletrodomésticos básicos e de infra-estrutura sanitária decente, ainda é o sonho de muitos idosos do Brasil de hoje e do futuro próximo.

b) Renda

A renda domiciliar per capita foi obtida indiretamente, através da divisão da renda domiciliar pelo número de habitantes do domicílio. A figura 1 apresenta a renda per capita em função da faixa etária. Como pode ser observado, quase 50% dos idosos com 80 anos ou mais tinham renda até meio salário mínimo, ao passo que na faixa etária entre 60 e 69 anos este percentual foi de cerca de 35%. Dentro deste quadro, a situação do Nordeste rural é um caso a ser destacado, uma vez que foi a região de pior distribuição de renda. Independentemente de faixa etária, mais de 80% da população idosa dessa região ganhava até meio salário mínimo, sendo irrisório o percentual daqueles que tinham renda igual ou superior a dois salários.

Do outro lado, mas ainda longe de representar níveis de renda condignos, o Sudeste urbano estava entre as regiões com melhor distribuição e menor concentração de renda, onde o percentual de indivíduos que ganhava dois ou mais salários era superior ao dos que recebiam até meio salário mínimo. Não foram constatadas diferenças marcantes entre a renda de homens e mulheres - conforme se observa usualmente - provavelmente pelo fato dessa renda representar uma média.

No Brasil, como pode ser constatado, a pobreza é uma característica da velhice. Os dados da PNSN mostraram que os idosos eram mais pobres quando comparados aos adultos de 40 a 59 anos de idade e, entre si, os idosos "mais idosos" eram mais pobres do que "os idosos mais jovens". O tipo de estudo realizado não permite avaliar se esta tendência é uma expressão real do progressivo empobrecimento dos idosos ou se, como já comentado anteriormente, significa também uma melhoria das condições de renda das gerações posteriores. O fato é que, na maioria das vezes, há perda de rendimentos por ocasião da aposentadoria, que aliada à dificuldade de se conseguir atividade remunerada nesta fase, torna a vida do idoso uma dura realidade a ser enfrentada quotidianamente.

c) Trabalho na terceira idade

O trabalho na terceira idade é um tópico que merece ser analisado com cuidado. Se por um lado ele pode ser um indicador da capacidade de manter atividade laborativa - sem dúvida um dado positivo per se - por outro ele pode refletir a necessidade de continuar trabalhando, sabe-se lá em que condições, para manter a sobrevivência. A OMS (1984) chama a atenção para a proporção de idosos que se mantém economicamente ativa em países do Terceiro Mundo (como o Quênia - 63%), comparada à proporção daqueles que vivem em países desenvolvidos (como a França - 12%).

Os dados mostraram que uma boa parcela dos homens idosos estava realizando algum tipo de atividade remunerada (tabela 1). Evidenciaram também as diferenças - regionais e entre as zonas rural e urbana - existentes em relação a esta questão, chamando atenção para o maior percentual de idosos que trabalhava onde os níveis de renda eram mais baixos. Na zona rural, mais de 70% dos idosos de 60 a 69 anos, e mais de 16% daqueles com 80 anos ou mais continuavam trabalhando.

Na região urbana a realidade era menos árida, embora os percentuais ainda fossem significativos, especialmente na região Centro-Oeste (40% na faixa entre 70 e 79 anos). Ressalte-se que a maior parte desses idosos relacionou como sua principal atividade os trabalhos manuais, ou seja, trabalhos que requerem aptidão e esforço físico para serem realizados.


No Brasil, considerando-se o nível de pobreza da população, pode-se afirmar que o trabalho, em especial em idades mais avançadas, serve para manter a subsistência. Ressalte-se que a competitividade do mercado de trabalho diminui, cada vez mais, a chance "dos mais velhos" manterem-se economicamente ativos.


d) Escolaridade

Foram constatadas taxas elevadas de analfabetismo entre os idosos, embora decrescentes nas coortes mais recentes (tabela 2). Mais uma vez as regiões Nordeste e Sudeste representaram os extremos dessa realidade. No Nordeste, aproximadamente 65 em cada 100 idosos não sabiam ler ou escrever, enquanto que, na região Sudeste, embora ainda elevado, o percentual era de cerca de 30%. O nível de escolaridade, tendo como referência o total de séries concluídas, também foi baixo: mais de 80% dos idosos tinha cursado, no máximo, até a quarta série, o que correspondia, à época, ao primário completo. No Nordeste, de cada dez idosos, sete nunca concluíram sequer um ano de estudo.


Esse baixo nível de escolaridade deve ser considerado quando do planejamento de programas e ações, tanto no nível coletivo quanto no individual. O nível educacional interfere diretamente no desenvolvimento da consciência sanitária, na capacidade de entendimento do tratamento prescrito e na prática do autocuidado, interferindo diretamente na relação médico-paciente

e) Com quem mora o idoso

Embora a maioria da população idosa estivesse morando com duas ou mais pessoas, um percentual importante morava sozinho. A maior proporção de idosos morando sozinhos recaiu sobre as mulheres com 70 anos ou mais (15%). Para os homens a proporção era menor, ficando em torno de 6%.

Dentre as muitas questões relevantes para a terceira idade, uma delas é o fato de morar sozinho. Pelas dificuldades em relação à sua saúde, já comentadas anteriormente, o fato de morar só (em especial para a população masculina das coortes estudadas) pode trazer uma série de dificuldades adicionais, que vão desde o sentimento de solidão e de exclusão social (que freqüentemente associa-se e/ou leva à depressão), até à má alimentação, qualitativa e quantitativa, passando pelos cuidados com a saúde e com a higiene pessoal e domiciliar. Ou seja, morar só pode ser bom para o idoso, desde que exista condição econômica e física mínima para manutenção do autocuidado.

4.3. Morbidade

a) Depressão e nervosismo

Dentre os sintomas avaliados pela PNSN, o relato de depressão e nervosismo foi destacado para análise devido a sua importância para os idosos.

Os sintomas de nervosismo e depressão apresentaram uma prevalência significativa entre os idosos brasileiros - cerca de 27%. Esta prevalência (embora avaliada com base em uma única questão) alcançou valores próximos aos obtidos para o diagnóstico de depressão e de sintomas depressivos em estudos nacionais e internacionais que se utilizaram de metodologia sofisticada para realizar o diagnóstico - a exemplo de Veras (1994), no Brasil, e Farmer (1988), Constock (1982) e Murrel (1987) - estes dois últimos citados em Farmer. No caso do Brasil, Veras, analisando a população de idosos da Cidade do Rio de Janeiro, encontrou uma prevalência de depressão da ordem de 25% (Veras, 1994).

A associação da queixa de depressão com o nível de renda também foi verificada neste estudo, encontrando-se uma relação inversa: prevalências mais elevadas em níveis de renda mais baixos (gráfico 3).

O sentimento de solidão tem sido apontado como fator associado a sintomas depressivos, e morar sozinho pode ser considerado um dos elos dessa ligação. Neste sentido, foram exploradas estas duas associações, verificando-se que as queixas de nervosismo e depresssão eram mais frequüentes entre os idosos que moravam sós (tabela 3).


b) Cegueira, surdez, paralisia e doença mental

A capacidade do idoso em manter suas atividades da vida diária e ter uma vida autônoma está diretamente relacionada às suas condições físicas e mentais. O comprometimento da visão, da audição e a perda da mobilidade de um ou mais de seus membros são problemas. Da mesma forma, os déficits cognitivos devem ser considerados no planejamento de serviços de saúde que tenham por objetivo a melhoria da qualidade de vida.

Os resultados da PNSN demonstraram que os déficits visual e auditivo comprometiam um considerável percentual da população idosa. Na faixa de 70 a 79 anos, cerca de 17% referiram cegueira ou surdez parcial, e na população de 80 anos ou mais este percentual foi maior que 21%. Esses percentuais, aplicados ao total de idosos no Brasil de hoje, indicam que no mínimo cerca de 2 milhões de indivíduos com 60 anos ou mais estariam necessitando de avaliação oftalmológica ou otorrinológica.

O relato de paralisia parcial foi informado por cerca de 7% dos homens idosos com 80 anos ou mais, e 4% das idosas na mesma faixa etária. Esses dados indicam que os serviços básicos de saúde para idosos deveriam estar aptos a diagnosticar e tratar esses problemas, reforçando a necessidade de trabalho em equipe multidisciplinar, com a participação de profissionais raramente incluídos em projetos de atenção primária, como fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.

O relato de doença mental alcançou percentuais expressivos - 4% - nas idosas de 80 anos ou mais. O relato de dificuldade de entendimento e/ou aprendizado também foi relevante e, do mesmo modo que o relato de demência, mostrou-se progressivo com a idade (tabela 4). A importância deste sintoma é que ele pode ser indicativo de estágios iniciais de quadro demencial, muitas vezes subdiagnosticados nos serviços de saúde, por serem considerados tanto pelos profissionais de saúde como pela família como "esclerose de velho". Entretanto, é nesses estágios iniciais que devem ser concentrados os esforços terapêuticos que, apesar de não necessitarem de grandes aparatos tecnológicos, podem retardar o agravamento do quadro e, deste modo, postergar uma das situações mais complexas do ponto de vista social, que é a do idoso demenciado. Apesar da necessidade de outros estudos - que empreguem protocolos adequados para o diagnóstico de distúrbios cognitivos e de demência na população idosa no Brasil - as informações obtidas dão uma dimensão da freqüência desses problemas e podem, desde logo, contribuir para a formulação de diretrizes médico-assistenciais adequadas. Para o caso específico dos distúrbios cognitivos, pode-se estimar que, atualmente, cerca de 20% a 24% (mais de 1 milhão) dos idosos com 70 anos ou mais estariam necessitando de orientação e acompanhamento individual ou familiar específico, de modo a melhorar suas condições de vida, de ambientação e conforto domiciliar.

c) Baixo-peso e obesidade

Segundo a PNSN e tendo por referência a mais recente classificação 3 do índice de massa corporal, o sobrepeso e a obesidade comprometem principalmente as mulheres da zona urbana, com prevalências da ordem de 35% e 20%, respectivamente. Na zona rural estes valores foram de 25% e 12%. Entre os homens urbanos, o sobrepeso, mais do que a obesidade, teve maior relevância, atingindo percentuais de até 32%, enquanto que a obesidade não comprometia mais que 8%.

O baixo-peso destacou-se na zona rural, de modo equivalente entre os sexos, atingindo percentuais mais elevados do que a obesidade, comprometendo até 18% dos idosos na faixa etária de 80 anos ou mais. A maior proporção de peso normal foi observada entre os homens da zona rural - cerca de 70% - e da zona urbana - cerca de 56%.

O baixo-peso obedeceu a uma relação inversa ao nível de renda: a mais elevada prevalência de baixo-peso - cerca de 16% - foi encontrada na população masculina que recebia até meio salário mínimo. Para quem recebia mais de dois salários mínimos, o percentual de baixo-peso não alcançou 5% e a prevalência de obesidade chegou a 24% (gráfico 4).

a) Procura por atendimento de saúde

Os dados relativos à procura por atendimento de saúde mostraram que os idosos, mais do que os adultos entre 40 e 59 anos, e as idosas, mais do que os idosos, demandaram atendimento. Entretanto, houve uma diferença importante entre essa demanda, quando analisadas as zonas urbana e rural. Talvez pela pouca disponibilidade e precariedade dos serviços de saúde nas regiões rurais, a demanda de atendimento nessa área foi menor. Outra explicação possível é a dada por Monteiro (1991), de que o nível socioeconômico influencia diretamente a atenção que o indivíduo dispensa à sua saúde. Tanto a percepção da doença como a taxa de utilização de serviços de saúde são maiores em populações mais instruídas e com maior nível de renda.

Os "problemas de pressão" foram aqueles que mais levaram os idosos a procurar atendimento, fato para 40% dos indivíduos que apresentaram o problema. Os "problemas respiratórios", "nervosismo e depressão", além da "falta de apetite" e "perda de sono", também representaram importantes demandas de atendimento de saúde.

A modalidade de atendimento mais procurada pelos idosos foi a ambulatorial (57%), através de consulta a médico particular ou em ambulatório da rede pública - postos ou centros de saúde e postos de assistência médica (PAMs) do antigo INAMPS. Cerca de 20% dos idosos buscaram a farmácia para resolver seus problemas de saúde, sendo que os homens utilizaram mais este tipo de recurso do que as mulheres, exceto para a faixa etária de 80 anos ou mais.

A consulta a médicos particulares alcançou percentuais significativos: em torno de 28% para os idosos da zona urbana, e 18% na zona rural. Além disso, a farmácia foi o local mais procurado pelos idosos dessas regiões (exceto para a faixa etária dos 80 anos ou mais), o que deve estar correlacionado ao menor poder aquisitivo dessa população. Outro aspecto que merece destaque são os dados relativos à procura por outros tipos de atenção - categoria que incluía curandeiros, benzedeiras, centros religiosos e outros - que alcançaram percentuais de até 8,7% para os idosos residentes na zona rural.

b) Internação hospitalar

A proporção de idosos relatando internação no período de um ano variou de 10,3% (idosas de 60 a 69 anos) a 21,2% (idosas de 80 anos ou mais). Considerando-se que o Brasil tem hoje cerca de treze milhões idosos e respeitando-se as taxas de internação encontradas para cada faixa etária, pode-se estimar que aproximadamente 1,9 milhão de internações no Brasil - atualmente - correspondem a pessoas com 60 anos ou mais. Este número equivale a cerca de 10% dos 19 milhões de internações esperados para o total da população brasileira - tomando-se como base de cálculo as taxas médias de internação hospitalar no Brasil, situadas em torno de 125 por 1.000 habitantes/ano 4.

Os idosos da zona urbana tiveram uma percentual de internação mais elevado que os da zona rural; contudo este dado não parece ser um indicador de melhor padrão de saúde. Antes, deve ter ocorrido devido a uma menor oferta de leitos hospitalares, sabidamente escassos nessas regiões. Dentre os idosos que se internaram, a maioria esteve internada uma única vez. Os homens idosos apresentaram uma média de internações maior que as mulheres. Dos idosos que se internaram, a maioria - cerca de 85% - recebeu alta nos dez primeiros dias. As idosas de 70 anos ou mais, comparativamente aos demais idosos, tiveram uma proporção maior de internações - entre 11 e 20 dias.

Os dados sobre utilização de serviços de saúde podem ser úteis para o dimensionamento de serviços de saúde. Entretanto, no Brasil, conforme assinalado por Médici (1992), dada a má qualidade e distribuição dos serviços públicos existentes, além do baixo nível socioeconômico da maioria da população, a procura espontânea por serviços de saúde não serve como parâmetro isolado para estimar a necessidade de serviços de saúde. Entretanto esses dados dão conta de informações básicas que podem colaborar para estabelecer o perfil de unidades assistenciais elementares, e mesmo projetar o número de leitos hospitalares necessários para atender à população idosa.

5. CONCLUSÃO

O perfil epidemiológico identificado neste estudo reforça os achados de alta prevalência de morbidades crônico-degenerativas na população idosa, bem como sugere a associação de variáveis psicossociais com este perfil de morbidade. A este respeito, alguns fatores se destacaram: depressão e nervosismo, morar sozinho e renda per capita.

As características socioeconômicas (baixo nível de renda e de escolaridade, atividade remunerada em idades avançadas e a carência de saneamento básico) são fortes indicadores da precariedade das condições e da qualidade de vida para a grande maioria dos idosos no país, em especial na zona rural.

O padrão de utilização de serviços de saúde sugere que a maioria dos idosos não demanda substantivamente mais recursos que a população adulta entre 40 e 59 anos.

O baixo-peso, especialmente na zona rural, e a obesidade, na zona urbana, denunciam também as implicações das diferenças sociais nas condições de vida dos idosos brasileirosEssas diferenças remetem à necessidade de se estabelecer políticas diferenciadas de atuação, de acordo com as características sociais, culturais e regionais.

As conclusões deste trabalho evidenciam a malha de interações multidimensionais que condicionam a saúde do idoso. Refletem a complexidade do seu processo de adoecimento, realçando as inúmeras limitações do modelo biotecnicista (que domina o cenário da medicina contemporânea) e a incompetência da atual estrutura dos serviços públicos de saúde para atender às demandas da terceira idade. Por conseguinte, reforçam a necessidade de aplicação de alguns princípios e critérios, baseados na integralidade da atenção médico-sanitária, que já vêm sendo incorporados a projetos inovadores no campo da saúde do idoso.


Projeto Saúde do Idoso

Constituem objetivos do Projeto : vacinar adultos maiores de 60 anos contra doenças respiratórias , em parceria com o Ministério da Saúde e a sociedade civil, e realizar cursos de cuidadores de idosos portadores de doenças limitantes e/ou incapacitantes. Desde 1999, a população de maior de 60 anos recebe a vacina anti-gripal anualmente por meio de campanhas, estando as coberturas acima de 100%; a antipneumocócica (para asilados e pacientes especiais) e a vacina dupla adulto. Nesse ano, iniciou-se também o Curso de Cuidador de Idoso que já formou 1.425 alunos até 2001. O Curso é financiado pelo Convênio entre o Ministério do Trabalho e a Secretaria de Estado do Emprego e Relações do Trabalho; e realizado pela SESA, em parceria com a Secretaria de Estado da Criança e Assuntos da Família e a Associação Brasileira de Geriatria e Gerontologia - Seção Paraná.

AÇÕES VOLTADAS AO IDOSO

O Governo do Estado do Paraná pretende reforçar o atendimento ao segmento populacional do idoso, que se amplia rapidamente, constituindo em termos proporcionais, o que mais cresce no Paraná. É importante considerar que algumas das necessidades de saúde dos idosos requerem atenção específica que podem evitar altos custos para o Sistema de Saúde e, sobretudo, proporcionar melhores condições de vida e saúde a essas pessoas.

O objetivo desta política é permitir um envelhecimento saudável, o que significa preservar a sua capacidade funcional, a sua autonomia e manter o nível de qualidade de vida.

O processo de transição demográfica no Paraná caracteriza-se pela rapidez com que os aumentos absoluto e relativo das populações adulta e idosa vem alterando a pirâmide populacional. Até os anos 60, todos os grupos etários registravam um crescimento praticamente idêntico; a partir daí, o grupo de idosos passou a liderar esse crescimento.

O Paraná conta hoje com 722.782 idosos acima de 60 anos, o que corresponde a 7,61% da população do Estado. É sentido o processo de urbanização, pois 77,7% dos idosos encontram-se residindo nas cidades.

Nos países desenvolvidos, essa transição ocorreu lentamente, efetivando-se ao longo de mais de cem anos. Alguns desses países apresentam hoje um crescimento negativo da sua população, com uma taxa de nascimentos mais baixa que a de mortalidade. A transição acompanhou a elevação da qualidade de vida das populações urbanas e rurais, graças à adequada inserção das pessoas no mercado de trabalho e às oportunidades educacionais mais favoráveis, além de melhores condições sanitárias, alimentares, ambientais e de moradia.

Durante o Projeto Protegendo a Vida da Secretaria Estadual de Saúde do Paraná, em parceria com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, foram reciclados 1.781 profissionais, desde médicos, odontólogos, auxiliares de enfermagem, psicólogos, fisioterapeutas e outros, visando inserir no contexto de atendimento do SUS uma abordagem médica e psicossocial adequada. A abordagem médica tradicional do adulto hospitalizado centrada em uma queixa principal e o hábito médico de procurar explicar todas as queixas e sinais a partir de um único diagnóstico, de um modo geral adequada para o adulto jovem, não se aplica em relação ao idoso. Estudos populacionais demonstram que a maioria dos idosos (85%) apresenta pelo menos uma doença crônica e que uma significativa minoria destes idosos (10%) possui, no mínimo, cinco destas patologias (Ramos e cols., 1993). A falta de difusão do conhecimento geriátrico junto aos profissionais de saúde tem contribuído decisivamente para as dificuldades na abordagem médica do paciente idoso.

A maioria das instituições de ensino superior brasileiras ainda não está sintonizada com o atual processo de transição demográfica e suas conseqüências médico-sociais. Há uma escassez de recursos técnicos e humanos para enfrentar a explosão desse grupo populacional no terceiro milênio.

A transição demográfica no Brasil requer, na verdade, novas estratégias que façam frente ao aumento exponencial do número de idosos potencialmente dependentes, com baixo nível socioeconômico, capazes de consumir uma parcela desproporcional de recursos da saúde destinada ao financiamento de leitos de longa permanência.

A internação dos idosos em asilos, casas de repouso e similares está sendo questionada mesmo nos países desenvolvidos, onde estes serviços alcançaram níveis altamente sofisticados em termos de conforto e eficiência. Os custos desse modelo e as dificuldades em torno de sua manutenção estão a exigir medidas de maior resolutividade e menos onerosas. O retorno ao modelo de cuidados domiciliares, bastante discutido, não pode ter como única finalidade baratear custos ou transferir responsabilidades. A assistência domiciliar aos idosos cuja capacidade funcional está comprometida demanda programas de orientação, informação, com a assessoria de especialistas. Por isso, o Estado do Paraná prioriza a permanência do idoso no domicílio ou no Centro Dia.

A maioria das doenças crônicas que acometem o indivíduo idoso tem, na própria idade, seu principal fator de risco. Envelhecer sem nenhuma doença crônica é antes exceção do que regra. No entanto, a presença de uma doença crônica não significa que o idoso não possa gerir sua própria vida e viver o seu dia-a-dia de forma independente.

À semelhança de outros países latino-americanos, o envelhecimento no Brasil é um fenômeno predominantemente urbano, resultando sobretudo do intenso movimento migratório iniciado na década de 60, motivado pela industrialização desencadeada pelas política desenvolvimentistas. Esse processo de urbanização propiciou um maior acesso da população a serviços de saúde e saneamento, o que contribuiu para a queda verificada na mortalidade. Possibilitou, também, um maior acesso a programas de planejamento familiar e a métodos anticoncepcionais, levando a uma significativa redução da fecundidade.

A persistir a tendência do envelhecimento como fenômeno urbano, há dados que no século XXI 82% dos idosos brasileiros estarão morando nas cidades.

Embora grande parte das populações ainda viva na pobreza nos países menos desenvolvidos , certas conquistas tecnológicas da medicina moderna, logradas ao longo dos últimos 60 anos - assepsia, vacinas, antibióticos, quimioterápicos e exames complementares de diagnóstico, entre outros -, favoreceram a adoção de medidas capazes de prevenir ou curar muitas doenças até então fatais. O conjunto dessas medidas provocou uma queda da mortalidade infantil e, conseqüentemente, um aumento da expectativa de vida ao nascer.

No Brasil, em 1900, a expectativas de vida ao nascer era de 33,7 anos; nos anos 40 era de 39 anos; nos anos 50, aumentou para 43,2 anos e, na década de 60, era de 55,9 anos. De 1960 a 1980, essa expectativa ampliou-se para 63,4 anos, isto é, foram acrescidos vinte anos em três décadas, segundo revela o Anuário Estatístico do Brasil de 1982 (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/Fundação IBGE). De 1980 ao ano 2000, o aumento estimado se situa em torno de cinco anos, ocasião em que cada brasileiro, ao nascer, tem a esperança de vida de 68 anos e meio. As projeções para o período de 2000 a 2025 permitem supor que a expectativa média de vida do brasileiro estará próxima de 80 anos, para ambos os sexos (Kalache e cols., 1987).

Paralelamente a esse aumento na expectativa de vida, tem sido observado, a partir da década de 60, um declínio acentuado da fecundidade, levando a um aumento importante de idosos na população brasileira. De 1980 a 2000, o grupo etário com 60 anos e mais de idade deverá crescer 105%; as projeções apontam para um crescimento de 130% no período de 2000 a 2025.

Mesmo considerando que uma parcela do contingente de idosos participe da atividade econômica, o crescimento deste grupo populacional afeta diretamente a razão de dependência, usualmente definida como a soma das populações jovem e idosa em relação à população economicamente ativa total. Este coeficiente é calculado tomando por base a população de menos de 15 anos e a de 60 e mais anos de idade em relação àquela considerada em idade produtiva (situada na faixa etária dos 15 aos 59 anos de idade).

O processo de urbanização e a conseqüente modificação do mercado de trabalho aceleram a redistribuição da população entre as zonas rural e urbana do País. Em 1930, dois terços da população brasileira viviam na zona rural; hoje, mais de três quartos vivem em zona urbana. O emprego nas fábricas e as possibilidades mais diferenciadas de trabalho nas cidades alteraram a estrutura familiar brasileira, transformando a família extensa do campo na família nuclear urbana. Com o aumento da expectativa de vida, as famílias passaram a ser constituídas por várias gerações, requerendo os mecanismos necessários de apoio mútuo entre as que compartilham o mesmo domicílio.

Observa-se também uma feminilização do envelhecimento no Brasil. O número de mulheres idosas, se comparado ao de homens de mais de 60 anos de idade, já constitui uma contingente expressivamente maior há muito. Da mesma forma, a proporção de mulheres idosas em relação à população total de mulheres supera aquela correspondente aos homens idosos. No Brasil, desde 1950, as mulheres têm maior esperança de vida ao nascer, e esta diferença está ao redor de sete anos e meio.

O apoio informal e familiar constitui um dos aspectos fundamentais na atenção à saúde desse grupo populacional. Isso não significa, no entanto, que o Estado deixe de ter um papel preponderante na promoção, proteção e recuperação da saúde do idoso nos três níveis de gestão do SUS, papel este capaz de otimizar o suporte familiar sem transferir para a família a responsabilidade em relação a este grupo.

Além das transformações demográficas descritas anteriormente, o Brasil tem experimentado uma transição epidemiológica, com as alterações relevantes no quadro de morbimortalidade. As doenças infecto-contagiosas que, em 1950, representavam 40% das mortes registradas no país, hoje são responsáveis por menos de 10% destas mortes (RADIS: Mortalidade nas Capitais Brasileiras, 1930-1980). O oposto ocorreu em relação às doenças cardiovasculares: em 1950, estas eram responsáveis por 12% das mortes, representando hoje mais de 40% do total de mortes. Em menos de 40 anos, o Brasil passou de um perfil de morbimortalidade típico de uma população jovem, para um perfil caracterizado por enfermidades crônicas, próprias das faixas etárias mais avançadas, com custos diretos e indiretos mais elevados.

Essa mudança no perfil epidemiológico acarreta grandes despesas com tratamentos médicos e hospitalares, ao mesmo tempo em que se configura como um desafio para as autoridades sanitárias, em especial no que tange à implantação de novos modelos e métodos para o enfrentamento do problema. O idoso consome mais serviços de saúde, as internações hospitalares nesta população são mais freqüentes e o tempo de ocupação do leito é maior do que o de outras faixas etárias. Em geral, as doenças dos idosos são crônicas e múltiplas, perdurando por vários anos e exigindo acompanhamento médico e de equipes multidisciplinares permanentes, com intervenções contínuas.

Tomando-se por base os dados relativos à internação hospitalar pelo Sistema Único de Saúde - SUS, em 2000, e a população estimada pelo IBGE para este mesmo ano, pode-se concluir que o idoso, em relação às outras faixas etárias, consome muito mais recursos de saúde. No ano 2000 de janeiro a outubro, o Sistema arcou com um total de 827.808 internações, sendo que 173.531 internações ocorreram em idosos acima de 60 anos.

Com relação à taxa de hospitalização, que corresponde ao número de internações por 1.000 habitantes/ano, verificou-se que a população acima de 60 anos apresentou uma taxa de 242,12, enquanto que a população de 0 a 14 anos apresentou uma taxa de hospitalização de 56,33, a de 15 a 39 anos de 77,95 e de 40 a 59 anos 97,91.

Calculando-se o número de dias de hospitalização por habitante/ano, verificamos que o tempo médio de permanência hospitalar é de 1,35 dias, contra 0,26 na faixa de 0 a 14 anos, 0,43 dias de 15 a 39 anos e 0,78 na faixa de 40 a 59 anos.

A despesa anual de internações no ano 2000 (Janeiro-Outubro) foi de 372.204.094,80, sendo que os idosos acima de 60 anos consumiram R$ 97.204.707,60, o que equivale a 26% dos recursos.

O custo médio por hospitalização/ano é de R$ 560,16 para os idosos acima de 60 anos.

CENTRO DIA

O Centro Dia atende, durante o dia, num período de 8 a 10 horas, idosos semi-dependentes que possuam limitações para o desenvolvimento das atividades da vida diária (AVDs), que convivem com a família, e, no entanto, não tem quem os cuide no domicílio. Para a locomoção do idoso, de sua casa para o Centro Dia, o projeto dispõe ainda de um veículo. O idoso retorna ao lar por volta das 18:00 horas, permitindo a sua permanência na família a noite e nos finais de semana.

Durante o período de permanência no Centro Dia, os idosos são atendidos por uma equipe multidisciplinar que realiza as mais diversas atividades, tais como: avaliação de saúde, caminhadas, artesanato, trabalhos terapêuticos e culturais, jogos, sessão de vídeo e televisão, fisioterapia, entre outros. Além disso, recebem três refeições (café da manhã, almoço e lanche da tarde).

As tendências mundiais têm levado as instituições ao aprendizado de novas técnicas de trabalho para a atualização e renovação de sua metodologia de atendimento à pessoa idosa.

Há propostas no sentido de incrementar as ações das Secretarias Municipais de Saúde nos Centros Dias,com ênfase para o Programa de Saúde da Família,que poderá prestar atendimento aos idosos dos Centros-Dias,desde que a localização destes Centros esteja incluída no território a ser coberto pela equipe do Programa Saúde da Família.

A implantação do Centro Dia, modalidade não asilar, constitui-se um poderoso veículo de estímulo e socialização do idoso, evitando seu asilamento e proporcionando sua permanência na família.

MANUTENÇÃO DA CAPACIDADE FUNCIONAL

A maior parte dos idosos é, na verdade, absolutamente capaz de decidir sobre seus interesses e de se organizar, sem necessidade de ajuda de quem quer que seja. De acordo com os mais modernos conceitos gerontológicos, esse idoso que mantém sua autodeterminação e prescinde de qualquer ajuda ou supervisão para agir no seu cotidiano deve ser considerado idoso saudável, ainda quando portador de uma ou mais de uma doença crônica.

Decorre daí o conceito de capacidade funcional, ou seja, a capacidade de manter as habilidades físicas e mentais necessárias a uma vida independente e autônoma. Do ponto de vista da saúde pública, a capacidade funcional surge como um novo conceito de saúde, mais adequado para instrumentalizar e operacionalizar a atenção à saúde do idoso. Ações preventivas, assistências e de reabilitação devem objetivar a melhoria da capacidade funcional ou, no mínimo, a sua manutenção e, sempre que possível, a recuperação desta capacidade, uma vez perdida pelo idoso. Trata-se, portanto, de um enfoque que transcende o simples diagnóstico e tratamento de doenças específicas.

A promoção do envelhecimento saudável e a manutenção da máxima capacidade funcional do indivíduo que envelhece, elo maior tempo possível - foco central deste Projeto -, significa a valorização da autonomia e da autodeterminação e a preservação da independência física e mental do idoso. Tanto as doenças físicas quanto as mentais podem levar à dependência e, consequentemente, à perda da capacidade funcional. Na análise da questão relativa à reabilitação da capacidade funcional, é importante reiterar que a grande maioria dos idosos desenvolve, ao longo da vida, alguma doença crônica, decorrente da perda contínua da função de órgãos e sistemas biológicos. Essa perda de função pode ou não levar a limitações funcionais que, por sua vez, podem gerar incapacidade, conduzindo, em última instância, à dependência da ajuda de outrem ou de equipamentos específicos para a realização de tarefas essenciais à sobrevivência no dia-a-dia.

Estudos populacionais revelam que cerca de 40% dos indivíduos com 65 anos ou mais de idade requerem algum tipo de ajuda para realizar pelo menos uma tarefa como fazer compras, cuidar das finanças, preparar refeições e limpar a casa. Uma parcela menor, mas significativa (10%), requer auxílio para realizar tarefas básicas, como tomar banho, vestir-se, ir ao banheiro, alimentar-se e, mesmo, sentar e levantar de cadeiras e camas (Ramos e cols., 1993). É imprescindível que, na prestação dos cuidados aos idosos, as famílias estejam devidamente orientadas em relação às atividades de vida diária (AVDs).

Tanto a tendência física quanto a mental constituem fatores de risco significativos para a mortalidade nesta população, mais relevantes até do que as próprias doenças que levaram à dependência, visto que nem todo doente torna-se dependente, conforme revelam estudos populacionais de segmentos de idosos residentes em diferentes comunidades (Ramos e cols., 1993). No entanto, nem todo idosos dependente perde sua autonomia e, neste sentido, a dependência mental deve ser objeto de atenção especial, na medida em que leva, com muito maior freqüência, à perda de autonomia. Doenças como depressão e demência já estão, em todo mundo, entre as principais causas de anos vividos com incapacidade, exatamente por conduzirem à perda da independência e, quase necessariamente, à perda da autonomia.

Dentro desse contexto é que são estabelecidas no Estado do Paraná novas prioridades dirigidas a esse grupo populacional, que deverão nortear as ações em saúde nesta virada de século e milênio.

PROMOÇÃO DO ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

O cumprimento dessa diretriz compreende o desenvolvimento de ações que orientem os idosos e os indivíduos em processo de envelhecimento quanto à importância da melhoria constante de suas habilidades funcionais, mediante a adoção precoce de hábitos saudáveis de vida e a eliminação de comportamentos nocivos à saúde.

Entre os hábitos saudáveis, deverão ser destacados, por exemplo, a alimentação adequada e balanceada; a prática regular de exercícios físicos; a convivência social estimulante; e a busca, em qualquer fase da vida, de uma atividade ocupacional prazerosa e de mecanismos de atenuação do estresse. Em relação aos hábitos nocivos, merecerão destaque o tabagismo, o alcoolismo e a automedicação.

Tais temas serão objeto de processos educativos e informativos continuados, em todos os níveis de atuação do SUS, com a utilização dos diversos recursos e meios disponíveis, tais como: distribuição de cartilhas e folhetos do MS, bem como o desenvolvimento de campanhas em programas populares de rádio; veiculação de propagandas na televisão; treinamento de agentes comunitários de saúde e profissionais integrantes da estratégia de saúde da família para, no trabalho domiciliar, estimular os cidadãos na adoção de comportamentos saudáveis.

Ênfase especial será dada à orientação dos idosos e seus familiares quanto aos riscos ambientais, que favorecem quedas, e que podem comprometer a capacidade funcional destas pessoas. Deverão ser garantidas aos idosos, assim como aos portadores de deficiência, condições adequadas de acesso aos espaços públicos, tais como rampas, corrimões e outros equipamentos que facilitem o deslocamento dos indivíduos idosos.

MANUTENÇÃO DA CAPACIDADE FUNCIONAL

Em paralelo às medidas voltadas para a promoção de hábitos saudáveis, serão promovidas ações que visem à prevenção de perdas funcionais, em dois níveis específicos:

* Prevenção de agravos à saúde;
* Detecção precoce de problemas de saúde potenciais ou já instalados, cujo avanço poderá pôr em risco as habilidades e a autonomia dos idosos.

As ações de prevenção envolvidas no primeiro nível estarão centradas na aplicação de vacinas, medida já consolidada para a infância, mas com prática ainda limitada e recente entre idosos. Deverão ser aplicadas vacinas contra o tétano, a pneumonia pneumocócica e o influenza, que representam problemas sérios entre os idosos no Brasil e são preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para este grupo populacional.

A grande maioria das hospitalizações para o tratamento do tétano ocorre em indivíduos acima dos 60 anos de idade. Nesse sentido, essa população será estimulada a receber doses de reforço da vacina antitetânica a cada dez anos, tendo em vista a sua comprovada efetividade. De quase 100%.

As pneumonias, em especial a de origem pneumocócica, estão entre as patologias infecciosas que mais trazem riscos à saúde dos idosos, com elevadas taxas de internação, além de alta letalidade nesta faixa etária. Estas infecções são apontadas como fatores de descompensação funcional e deterioração de quadros de insuficiência cardíaca, desencadeadoras de edema agudo de pulmão e fonte de deterioração nos quadros pulmonares obstrutivas crônicas.

ASSISTÊNCIA ÀS NECESSIDADES DE SAÚDE DO IDOSO

A) Unidade de Saúde: Na unidade de saúde a consulta geriátrica constituirá base dessa assistência. Para tal, deverá ser estabelecido um modelo específico, de modo a alcançar-se um impacto expressivo na assistência ao idoso, em particular na redução das taxas de internação hospitalar, e mesmo em asilos, bem como a diminuição da demanda aos serviços de emergência e aos ambulatórios de especialidades. A consulta geriátrica deverá ser fundamentada na coleta e registro de informações que possam orientar o diagnóstico a partir da caracterização de problemas, com a utilização rotineira de escalas diagnosticas para depressão, déficit cognitivo e avaliação funcional.

B) Reabilitação da capacidade funcional comprometida: As ações nesse contexto terão como foco especial a reabilitação preventiva, mediante a qual buscar-se-á prevenir a evolução e recuperar a perda funcional insipiente, de modo a evitar-se que as limitações da capacidade funcional possam avançar e que aquelas limitações já avançadas possam ser amenizadas. Esse trabalho envolverá as práticas multiprofissionais de medicina, enfermagem, fisioterapia, terapia ocupacional, nutrição, fonoaudiologia, psicologia e serviço social sempre que possíveis.

A atenção a pessoa idosa ao Programa Saúde da Família terá como condição básica a manutenção e melhoria, ao máximo, da capacidade funcional dos idosos, a prevenção de doenças, a recuperação da saúde dos que adoecem e a reabilitação daqueles que venham a ter a sua capacidade funcional restringida de modo a garantir-lhes permanência no meio em que vivem, exercendo de forma independente as suas funções na sociedade.

Secretaria de Estado da Saúde do Paraná - Clique AQUI e visite o site do projeto.


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