Adam Smith: O espetador imparcial e o autocontrolo

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Adam Smith 2 - autocontrolo. O autocontrolo é apropriado quando me regulo de forma a tornar-me mais equilibrado; tenho de negar o que agora me apetece. O caminho da virtude é o caminho do autocomando: controlar os nossos impulsos.

A moral é “elástica”. Vamos ajustando a pressão — o grau com que respondemos ou reagimos às coisas — através do autocontrolo, colocando as reações na faixa que achamos correta. O nosso único critério não pode ser simplesmente o que os outros fariam; é necessário um critério verdadeiramente independente. Quando não existe ninguém a observar e estamos sozinhos, como saber o que é apropriado? Qual é o critério a utilizar? Como é que eu meço a minha própria ação? É fácil ajuizar as ações dos outros, pois copiamos as suas reações e imaginamos como faríamos; mas como medir se a minha ação é adequada? De onde vem esse padrão não observável quando a ação é nossa?

Segundo Adam Smith, a verdadeira moral vem de quando observamos a nossa própria ação — devemos dividir-nos, como que em dois, e imaginar a ação como se a estivéssemos a ver de fora. Imaginamo-nos a nós próprios como espectadores. Se uma pessoa insulta outra e esta reage, como sabemos se a reação é apropriada? Vemos como reagiríamos. Se a ação nos acontecesse a nós, dividimo-nos em dois e vemos de fora. O que acontece quando iniciamos esse processo do espetador imparcial, quando nos dividimos em dois? Qual é a reação correta quando somos nós a reagir? Tentamos ver-nos como se estivéssemos a ver-nos de fora.

Há uma diferença entre reagir com o espetador e sem o espetador: reagir a um insulto de imediato é diferente de reagir como se nos estivéssemos a ver por fora. A pessoa que ofende pensa que está correta, assim como a pessoa que reage — o espetador imparcial é isso mesmo: imparcial; mede o grau de insulto e a proporcionalidade da reação. O espetador imparcial está mais desinteressado e analisa a reação.

O espetador imparcial não é o pai ou a mãe (estes são parciais); é uma espécie de transeunte que não conhece nenhuma das pessoas e que, por isso, é a melhor pessoa para analisar a situação. Mas, se o espetador imparcial for alguém que está a ver, já não existe um espetador verdadeiramente imparcial: a simpatia pode aproximar o caso. É necessário um critério: imaginar-se do lado de fora e ser imparcial. Mas, se assim, eu não sou totalmente imparcial — contudo, os melhores críticos de teatro são os que se envolvem, conhecem a peça e os autores; esse envolvimento pode ajudar a analisar. Partilhar algumas emoções começa a ser parcial. Adam Smith não se preocupa excessivamente com isso, pois esse momento de exteriorização funciona suficientemente como filtro. Colocar-nos do lado de fora pode ser suficiente para pensarmos que o insulto não foi, na verdade, dirigido especificamente a nós. Quando existe uma ação e uma reação, as pessoas estão muitas vezes muito presas ao seu papel, sendo necessário um momento de descentração. Um insulto dirigido a nós é sempre mais duro, e por isso a reação mais forte parece, de imediato, mais apropriada.

A ideia do espetador imparcial vem de nós próprios — é imaginada; ele sou eu quando ajo. Sendo assim, de onde vem o critério? Se o critério é meu, como devo reagir? Por que não posso reagir à letra? No momento do insulto, o espetador imparcial é uma voz interior que nos lembra de que somos apenas um entre muitos; é a voz que nos lembra da nossa pequenez. O espetador imparcial, que somos nós, é mais um entre todos, entre milhões. Para que serve ter consciência dessa pequenez? Temos uma reação diferente, mais modesta e moderada — é como se saíssemos de nós próprios. Ir para fora de mim dá-me acesso à minha pequenez, mas é um acto de grandeza que me aproxima da virtude (a noção de virtude já foi associada à virilidade, força física e militar, a ser bruto, conquistar terreno; o significado muda e passa a envolver o refinar e a delicadeza).

Isto significa que eu sou um qualquer e os meus infortúnios não são assim tão grandes. É necessário atenuar os efeitos e o pulsar do amor‑próprio: eu sou apenas mais um. O amor‑próprio leva‑nos a querer reagir e a responder à letra — baixar o nível de reação e a preeminência do amor‑próprio implica moderar os impulsos autocentrados, pondo‑nos no lugar do outro — passamo‑nos a ver como outro qualquer. O impulso do amor‑próprio é tão forte que é necessário moderá‑lo. O espetador imparcial põe os nossos sentimentos na distância correta, como um corretor de visão: vemos sempre a nosso favor e os outros muito afastados. Começamos a interiorizar este mecanismo. Para Adam Smith, o homem virtuoso é aquele que interiorizou este efeito e se habituou a pensar dessa forma. Por vezes esquecemo‑nos e é necessário um espetador real para nos lembrar do espetador imparcial — isso introduz um elemento de moderação; é uma espécie de consciência. Dá‑nos certa ideia de sentido de dever. Procurar alguém que não seja interessado no assunto. Quem é o espetador? Tentativa de ser imparcial, mas não em excesso — não se trata de negar os nossos instintos, mas de corrigi‑los: é uma espécie de filtro, um mapa para aferir a melhor ação.

O espetador imparcial pode compreender que nos preferimos a nós próprios; mas quando nos preferimos de tal forma que passamos por cima de alguém, a sua simpatia desaparece e ele reprova‑nos. Ele aplaude quando não somos autocentrados, quando amamos o próximo, um desconhecido — quando contrariamos os impulsos do amor‑próprio e a preferência por nós mesmos. Essa é uma virtude necessária: saber que não sou o mais importante. Premia‑se a ação centrada no outro, a ação benevolente. O impulso do nosso amor‑próprio é muito forte; o da benevolência é uma faísca. Não são apenas os sentimentos humanos que nos vão dar o critério moral — é um amor maior, um apego ao que consideramos correcto. Queremos a excelência de carácter mais do que o aplauso dos outros; queremos ser merecedores do aplauso mais do que o aplauso em si. Saber que agimos bem é o objectivo. Sabemos que o espetador imparcial nos aprova — é um aplauso em silêncio. Queremos ser aplaudidos pelos outros e pelo espetador imparcial — ser generosos e benevolentes é difícil e exige esforço.

Existem dois tipos de esforços, virtudes, dois conjuntos bastante diferentes:

  • Humanity: virtude de observação, exterior — quando observamos alguém e ajudamos; é o que nos leva a chorar ao ver outro chorar. Ser indulgente com a tristeza do outro; atuar assim quando estou contente e vejo alguém triste.
  • Self‑denial — aponta para dentro; Adam Smith parece dar‑lhe mais importância: devo tê‑la quando estou triste, pensando que a minha situação não é assim tão má.

O espetador imparcial parece combinar estas duas dimensões. Na moral procuramos a aprovação do espetador imparcial e, na rua, procuramos a dos espetadores. Eu devo ter self‑denial e os espetadores têm de ter humanity, deixar‑se ir. Para obter a aprovação do espetador, o trapezista comporta‑se como o espetador para o qual precisa de self‑denial; o espetador precisa de humanity, simpatizar com o trapezista — mundo ao contrário: o ator imita o espetador; o espetador imita o ator. O mundo é um teatro em que estamos sempre a atuar; atuamos pondo‑nos no lugar do outro — ambos ficam muito parecidos quando ator e espetador se imitam. Quem age é avaliado.

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