Análise do Auto: Transição Medieval e Humanismo
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Obra escrita em um período de transição da Idade Média para a Idade Moderna. Está ligada tanto ao medievalismo quanto ao humanismo. Esse conflito faz com que Gil Vicente pense em Deus e, ao mesmo tempo, exalte o homem livre. Este auto tem como cenário um porto imaginário, onde estão ancoradas duas barcas: uma, com destino ao paraíso, tem como comandante um anjo; a outra, com destino ao inferno, tem como comandante o diabo, que possui um companheiro.
O auto está em linguagem coloquial, ou seja, aproxima-se da usada na fala.
No começo, o anjo e o diabo dividem o palco. Os dois últimos estão muito eufóricos enquanto se preparam na barca, que partirá cheia de almas. As posturas assumidas pelo anjo e pelo diabo acentuam ainda mais a tradicional oposição entre o bem e o mal. As poucas falas, que tornam o anjo uma figura quase estática, contrapõem-se à alegria e ironia do diabo. Assim, o diabo, que conhece muito bem cada um dos personagens que serão julgados, revelando o que cada um tenta esconder, torna-se o centro das atenções e praticamente domina a peça.
Julgamento das Almas
A primeira alma a chegar ao julgamento é o fidalgo, que vem vestido com roupa requintada e acompanhado por um pajem, que carrega uma cadeira, simbolizando seu status social (representa a nobreza, condenado ao inferno por ter levado uma vida tirana, cheia de luxúria e pecados).
A segunda alma que sofre julgamento é o onzenário ambicioso, que o diabo chama de "meu parente". Condenado pela ganância, usura e avareza, ele tenta convencer o diabo a voltar ao mundo dos vivos para buscar seu dinheiro.
A terceira alma a chegar é o parvo, desprovido de tudo. Ele é recebido pelo diabo, que tenta convencê-lo a entrar no inferno, mas, por causa de sua humildade e modéstia, ele vai para o paraíso.
A quarta alma é o sapateiro, que traz suas ferramentas de trabalho. Ele recorre ao anjo, mas é condenado por roubo e falsidade religiosa.
A quinta alma é o frade, acompanhado da amante, alegre e vestido com roupa sacerdotal e instrumentos de esgrima. É condenado por falso moralismo religioso.
A sexta alma é uma mistura de feiticeira com alcoviteira. Ela tem muitas joias e materiais de feitiçaria, enganava homens prostituindo meninas que não eram virgens e é condenada pela prática de feitiçaria, prostituição e intermediação em relações amorosas (alcovitagem).
A sétima alma é o judeu, com seu bode. Nem o diabo nem o anjo quiseram levá-lo de início, mas o diabo acabou aceitando-o.
A oitava alma é o corregedor, que traz vários processos e argumenta em sua defesa ao ser convidado para a barca do inferno. Mas o anjo o condena por usar o poder do judiciário em benefício próprio.
Dentro do inferno, o corregedor, o procurador e a feiticeira (Brisida Vaz) mostraram que se conheciam muito bem (Brisida Vaz respondeu a vários processos judiciais; já a segunda remete à ideia de que ela ofereceu seus serviços aos burocratas).
A nona alma é o enforcado, que cometeu suicídio e trouxe a corda consigo. Ele trabalhava no judiciário e que todos se conheciam. Dessa forma, a ideia de que Brisida Vaz respondeu a vários processos judiciais é reforçada e a questão da corrupção nos meios burocráticos retorna à cena. É condenado.
Os últimos que entram são os cinco cavaleiros que morreram nas cruzadas em defesa do cristianismo. Eles passam cantando pelo matel infernal, o diabo os convida a entrar, mas eles seguem em direção ao batel da glorificação, onde são recebidos pelo anjo. O fato de morrerem pelo triunfo do cristianismo garante a eles a glorificação.
Gêneros Literários
- Lírico: sentimentos / emoções; poesia em geral; há ritmo / melodia / rima / métrica; preocupa-se com o mundo interior de quem escreve o poema, o eu-lírico.
- Dramático: textos para encenação; diálogos; dirige-se ao público; não há narrador.
- Épico: apresenta episódio heroico da história de um povo.
Conceitos Importantes
Paráfrase = recriar o texto com outras palavras.
Paródia = recriação baseada em um caráter contestador.