Análise das Personagens e Temas de Frei Luís de Sousa
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Personagens de Frei Luís de Sousa
D. Madalena de Vilhena: A Mulher Romântica
D. Madalena de Vilhena, protagonista de Frei Luís de Sousa, é uma figura trágica do Romantismo. Ela sente-se culpada e vive com medo de que seu primeiro marido, D. João de Portugal, regresse e destrua sua família. Apesar do amor intenso por Manuel de Sousa Coutinho, nunca está realmente feliz, pois sente-se dividida entre o dever e a paixão. Além disso, é uma mãe preocupada com a saúde da filha Maria. No final da obra, ela aceita ir para um convento, buscando redenção e seguindo Manuel, renunciando a tudo.
Manuel de Sousa Coutinho: O Herói Romântico
Manuel de Sousa Coutinho é um homem nobre e patriota. Casa-se com D. Madalena de boa-fé, acreditando que o primeiro marido dela estava morto. É desapegado de bens materiais, chegando a sacrificar seu palácio por seus ideais. Muito carinhoso com sua filha Maria, sempre a coloca em primeiro lugar. Mesmo sendo racional, sofre muito com o destino trágico dela, mas nunca para de protegê-la. No final, decide separar-se de D. Madalena e dedicar sua vida a Deus, aceitando o sofrimento como parte do seu dever.
D. Maria de Noronha: A Donzela Teodora
D. Maria, filha de D. Madalena e Manuel de Sousa Coutinho, é uma jovem de 13 anos muito inteligente e curiosa. Apesar da saúde frágil, tem uma personalidade forte e é uma patriota idealista, acreditando no regresso de D. Sebastião e num futuro glorioso para Portugal. Orgulha-se do ato heroico do pai ao incendiar o palácio, mas carrega o peso da sua doença e da vergonha pela sua ilegitimidade. No fim, Maria acaba por morrer tragicamente.
D. João de Portugal: O Romeiro
D. João de Portugal, o primeiro marido de D. Madalena, é um cavaleiro nobre e leal que desaparece em Alcácer-Quibir. Quando retorna como o Romeiro, misterioso, torna-se um agente de destruição para a família, mesmo sendo também uma vítima do destino. No final, reconhece que já não pertence ao mundo dos vivos, auto-nomeando-se "Ninguém". Esse momento simboliza sua exclusão do presente, representando o Portugal do passado.
Telmo Pais: O Fiel Escudeiro
Telmo Pais, o velho aio de D. João de Portugal, é um fiel servidor e confidente que, no início, nutre uma profunda lealdade ao passado e rejeita o casamento de D. Madalena com Manuel de Sousa. É também protetor e amigo de D. Maria, alimentando suas esperanças no regresso de D. Sebastião. Após o ato heróico de Manuel, reconhece seu valor, mas continua dividido entre a lealdade ao passado e o amor por Maria. No final, percebe que seu amor e dedicação à jovem superam sua devoção ao antigo amo, aceitando o presente doloroso.
Frei Jorge Coutinho: O Irmão Amigo
Irmão de Manuel de Sousa, é um frade dominicano. Ele representa a autoridade da Igreja e funciona como confidente da família. Quando D. João de Portugal retorna como o Romeiro, Frei Jorge aconselha D. Madalena e Manuel a buscar conforto e redenção na vida religiosa. Frei Jorge é firme em seus princípios e não aceita soluções baseadas em mentiras, mesmo diante do sofrimento da família.
Simbolismo do Velho e Novo Portugal
O «Velho Portugal»
Portugal do passado que desaparece com a perda da independência.
- Personagens que representam o «velho Portugal»: D. João de Portugal (Romeiro) e duas personagens aludidas: D. Sebastião e Luís de Camões.
- Espaço que o representa: o palácio de D. João, pesado e antigo.
- Elementos que o simbolizam: os retratos da sala do palácio de D. João.
O «Novo Portugal»
Reino aprisionado, integrado na monarquia espanhola, e que se encontra moribundo.
- Personagens que representam o «novo Portugal»: Manuel de Sousa Coutinho, D. Madalena e Maria.
- A família representa o embrião do que poderia ser um Portugal futuro, uma nação renascida das cinzas, mas está ensombrada pelo passado e acaba por ser destruída com o regresso do «velho Portugal».
- Espaço que o representa: o palácio de Manuel de Sousa Coutinho, que é incendiado.
- Elementos que o simbolizam: o retrato de Manuel de Sousa Coutinho, que é destruído.
Patriotismo e Sebastianismo em Frei Luís de Sousa
Patriotismo
- Frei Luís de Sousa encena o problema político (mas também individual e familiar) de um Portugal sob domínio espanhol.
- A família de Sousa Coutinho revela um forte sentimento patriótico, rejeitando a união com Espanha. A ação de Manuel de Sousa Coutinho, quando incendeia o seu palácio, e os sonhos de independência da sua filha Maria e de Telmo vão no sentido de manter viva a ideia de Portugal. Todos aspiram a ver o reino recuperar a sua liberdade e reerguer-se de novo.
- Caracterização das personagens que nutrem um sentimento patriótico ou das que renegam a pátria: Manuel de Sousa Coutinho, D.Madalena, Maria e Telmo. Os governadores portugueses ao serviço de Espanha.
O Sebastianismo
- O Sebastianismo é uma crença portuguesa que se inicia com o desaparecimento do rei D. Sebastião em Alcácer-Quibir. Como o corpo do jovem monarca não foi encontrado, alguns acreditaram que o rei estaria escondido ou tinha sido feito prisioneiro e que um dia iria regressar para libertar Portugal do domínio espanhol e para conduzir o reino ao esplendor e à prosperidade.
- A figura do Salvador voltará a ressurgir muito tempo após a morte de D. Sebastião.
O Sebastianismo em Frei Luís de Sousa
As personagens centrais da peça são patriotas que assumem diferentes atitudes face à esperança de que D. Sebastião esteja vivo e regresse:
- Maria e Telmo anseiam pela chegada do rei, que, segundo eles, libertará Portugal.
- Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena, apesar de patriotas, inquietam-se com a ideia de regresso de D. Sebastião, porque a associam à eventualidade de D. João, primeiro marido de Madalena, não ter morrido na batalha e poder voltar: o seu regresso significaria o fim da família.
Estrutura Trágica (Elementos Aristotélicos)
Hybris
- D. Madalena de Vilhena apaixona-se por Manuel de Sousa Coutinho quando ainda estava casada com D. João de Portugal.
- Manuel de Sousa Coutinho desafia os governadores e incendeia o seu palácio, num desafio à ordem política.
Ágon
- Telmo está dividido entre o afeto por Maria e a lealdade a D. João de Portugal.
- D. Madalena de Vilhena sente culpa por se ter apaixonado por Manuel de Sousa Coutinho quando ainda estava casada com o primeiro marido.
Peripécia
- O incêndio ateado por Manuel de Sousa Coutinho obriga à mudança da família para o palácio onde se desencadeará a catástrofe.
- A chegada do Romeiro questiona a legitimidade da família de Manuel de Sousa e empurra-a para o seu fim trágico.
Anagnórise
O reconhecimento dá-se com a chegada do Romeiro e a sua identificação como D. João de Portugal.
Ananké
Literariamente, representa-se uma força que conduz o rumo dos acontecimentos, que determina o regresso de D. João de Portugal e desencadeia o desenlace trágico.
Pathos
O sofrimento atinge as várias personagens da peça e é sentido de forma crescente:
- A inquietação e a culpa de D. Madalena;
- A dor de Manuel de Sousa Coutinho pelo sofrimento da filha;
- A doença de Maria, a «vergonha» e a morte no final;
- A revolta e o sofrimento de D. João de Portugal;
- A angústia de Frei Jorge, que assiste ao fim da família.
Clímax
Acontece no momento em que o Romeiro anuncia que D. João de Portugal está vivo.
Catástrofe
- Maria morre.
- D. Madalena e Manuel de Sousa Coutinho «morrem» para o mundo.