Análise do Sermão de Santo António aos Peixes
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Estrutura do Sermão
Estrutura por Capítulos:
• 1. Introdução (Exórdio/Exordium): Capítulo I
• 2. Desenvolvimento (Exposição e Confirmação): Capítulos II a V
• 3. Conclusão (Peroração ou Epílogo): Capítulo VI
Louvores em Geral
- Obediência: São obedientes, ouvem e não falam. "Aquela obediência com que, chamados, acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor"; "ouvem e não falam".
- Primazia: Foram os primeiros animais a serem criados. "Vós fostes os primeiros que Deus criou".
- Magnitude: São os mais numerosos e os mais volumosos. "Entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais e os maiores".
- Liberdade: Não são domesticáveis, presos ou submissos. "Só eles, entre todos os animais, não se domam nem domesticam".
Capítulo I
As simetrias evidenciam e são um exemplo da estruturação do sermão — um exercício mental de grande lógica que permite aos ouvintes atingirem mais facilmente o objetivo da mensagem. O texto foca nas respostas à justificação do facto de a terra estar corrompida e no que se há de fazer ao sal que não salga e à terra que se não deixa salgar.
Capítulo II
O sermão é uma alegoria porque os peixes são metáforas dos homens: as suas virtudes são, por contraste, metáforas dos defeitos humanos, e os seus vícios são diretamente metáforas dos vícios dos homens. O pregador fala aos peixes, mas quem escuta são os homens.
Os peixes ouvem e não falam; os homens falam muito e ouvem pouco. O pregador argumenta de forma lógica, partindo de duas propriedades do sal para dividir o sermão: o sal conserva o são (o pregador louva as virtudes dos peixes) e o sal preserva da corrupção (o pregador repreende os vícios dos peixes).
Para que a alegoria seja clara, o pregador refere frequentemente os homens, utilizando articuladores de discurso (assim, pois...), interrogações retóricas, anáforas, gradações crescentes e antíteses. Demonstra as suas afirmações através do contraste entre o bem e o mal, citando São Basílio, Cristo, Moisés, Aristóteles e Santo Ambrósio. Confirma-as com exemplos como o Dilúvio, Santo António, Jonas e os animais domésticos.
| Virtudes que dependem sobretudo de Deus | Virtudes naturais dos peixes |
|---|---|
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Capítulo III
| O Peixe de Tobias | A Rémora | O Torpedo | O Quatro-Olhos |
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| Efeitos | |||
| • Sarou a cegueira do pai de Tobias. • Lançou fora os demónios. | • Pega-se ao leme de uma nau. • Prende a nau e amarra-a. | • Faz tremer o braço do pescador. • Não permite pescar. | • Defende-se dos peixes. • Defende-se das aves. |
| Comparação com Santo António / Pregador | |||
| Santo António: • Alumiava e curava as cegueiras dos ouvintes. • Lançava os demónios fora de casa. | Santo António: • A sua língua domou a fúria das paixões humanas: Soberba, Vingança, Cobiça e Sensualidade. | Santo António: • 22 pescadores tremeram ouvindo as suas palavras e converteram-se. | O Pregador: • O peixe ensinou o pregador a olhar para o Céu (para cima) e para o Inferno (para baixo). |
Defeitos dos Peixes
- Roncadores: Embora pequenos, roncam muito (simbolizam a arrogância e a soberba).
- Pegadores: Sendo pequenos, pregam-se aos maiores, não os largando (simbolizam o parasitismo).
- Voadores: Sendo peixes, tentam ser aves (simbolizam a presunção, vaidade e ambição).
O pregador utiliza o imperativo verbal, a repetição anafórica, a exclamação, a apóstrofe e a ironia ("Mas ah sim, que me não lembrava! Eu não prego a vós, prego aos peixes!"). A língua de Santo António teve a força de dominar as paixões humanas, guiando a razão; foi o freio que impediu quedas em desgraças.
| Imagens | Nau Soberba | Nau Vingança | Nau Cobiça | Nau Sensualidade |
|---|---|---|---|---|
| Vocabulário Essencial | Critica a soberba humana. • Velas, vento, inchadas, rebentavam. | Critica os que procuram vingança. • Artilharia, bota-fogos, acesos, queimariam. | Critica os que cobiçam o alheio. • Gáveas, sobrecarregada, aberta, incapaz de fugir. | Critica os que se deixam levar pelas paixões. • Cerração, enganados, perder. |
| Efeitos da língua de S. António | Mão no leme. | Detém a fúria. | Detém a cobiça. | Contém-nos. |
| Finalidade | Convencer os ouvintes e alertar para as tentações que precisam de ser evitadas. | |||
Capítulo IV
Para comprovar a tese de que os homens se comem uns aos outros, o orador usa uma lógica implacável. Os ouvintes conheciam a verdade: os peixes maiores comem os mais pequenos. Vieira apoia-se na Sagrada Escritura e numa argumentação que, ainda hoje, impressiona pela sua clareza.
O ritmo do discurso é variado: lento, rápido e muito rápido. Frases longas trazem repouso; frases curtas com anáforas trazem vivacidade (como no exemplo do defunto e do réu). O discurso assemelha-se ao ondular do mar. A repetição da forma verbal "vedes" cria um forte visualismo, reforçado pelo uso de deícticos demonstrativos e pela substantivação do infinitivo, que transforma a ação numa situação alargada.
O orador expõe a repreensão e comprova-a: os peixes caem no engodo da isca, tal como os homens enganam os indígenas. A crítica à exploração dos negros é cerrada e implacável. Conclui afirmando que os peixes são cegos e ignorantes, contrastando-os com Santo António, que, pela sua humildade e pobreza, "pescou" muitos para a salvação.