Análise Simbólica dos Poemas de Mensagem de Pessoa

Classificado em Língua e literatura

Escrito em em português com um tamanho de 5,5 KB

INFANTE - I

A “posse do mar” inicia-se com uma referência simbólica ao nascimento do Império. Pode haver um ligeiro duplo sentido: o Infante aqui seria apenas “o sonho do Infante”, o Infante “despido de carne”. A referência ao “Infante”, puramente simbólica, é ao nascimento, ou pelo menos ao começo de algo, à juventude. Por isso, “O Infante” é o começo de tudo, da obra, no sentido material e alquímico da mesma, em que se sucedem diversos passos até à sua conclusão.

HORIZONTE - II

“Horizonte” é um objetivo, final de uma viagem sem fim; o horizonte é algo que sempre foge, mas que sempre se persegue, destino final e travessia perpétua. É neste contínuo paradoxo que vive Pessoa com seus símbolos, na meia-compreensão das suas verdades ocultas. Neste poema, Pessoa descreve o encantamento dos navegadores quando, ao aproximarem-se de desconhecidas costas, tornavam concreto o que antes era apenas abstrato (mistério). O descobrimento como revelação segue o tema geral de Mensagem, que é uma obra intelectual, ocultista e simbólica.

PADRÃO - III

Depois de chegar à costa (com “Horizonte”), F.P. debruça-se sobre o tema da marcação de território pelos novos descobridores. Toda a segunda parte é marcada pelo ascendente dos feitos sobre as figuras centrais dessa ação. A procura de Pessoa dos duplos sentidos, da imagética enganadora e ambígua, junto com as referências ocultas, contribui para o escalar de um discurso que se torna cada vez mais nebuloso e hermético.

MOSTRENGO - IV

Constitui um momento de exceção em Mensagem, tanto pela sua constituição poética quanto pela intenção. ”Mostrengo” é um poema reduzido em simbolismo, é uma aproximação a um tema de Camões e uma aproximação lírica ao tema da ação dos homens. No entanto, este não é um poema de "pura exaltação" devido à presença do número três e ao facto de muitas vezes ser ignorado que não se trata realmente de um diálogo entre o piloto e o rochedo. O poema dá a sensação de que o pobre homem do leme e o Mostrengo são armas sensíveis de um poder maior do que eles mesmos, ou até do que o destino de ambos.

FERNÃO DE MAGALHÃES - VIII

Pessoa fala sobre a obra de Magalhães – a circum-navegação – e não sobre Magalhães como herói dos Descobrimentos.

MAR PORTUGUÊS - X

Este poema é um acrescento à história marítima, deixa sequer de ser relatada em termos de figuras, para passar a ser relatada em termos de simbolismo absoluto. Pessoa faz isto de maneira intencional: Mensagem é um longo poema que vai do “real” para o “ideal”, do “físico” para o “metafísico”, do “passado” para o “futuro”. Abandona também cada vez mais a epopeia em favor da profecia.

A ÚLTIMA NAU - XI

Este poema é uma espécie de introdução à Terceira Parte de Mensagem, que ainda não se iniciou. É este um período intermédio de poesia, palavras de anoitecer, saindo da luz (a vida) do que é conhecido, em que fomos ainda guiados pelos sentidos, para entrarmos na escuridão completa da noite (a morte), onde apenas os símbolos nos vão guiar. Inicia-se com este poema a anunciação da morte, com a qual virá a ressurreição da alma Portuguesa.

PRECE - XII

“Prece” surge como princípio da noite do “Mar Português”, sendo que o dia havia começado com o poema “O Infante”. Se “O Infante” é todo ele potência, dever, ambição, mesmo que permeado já por um sabor amargo a derrota futura, “Prece” é um poema totalmente escurecido, rendido às evidências da história, sem esperança numa realidade que falhou, de uma sorte que se mostrou impiedosa e mortal.

SEBASTIANISMO

O que simboliza na Mensagem o rei D. Sebastião?

A obra distingue a figura do rei morto em Alcácer-Quibir e torna-o uma figura mítica, fruto do seu sonho e da sua “loucura” enquanto energia criativa e motor da construção de um novo império português.

Que aspetos da vida de D. Sebastião são valorizados na Mensagem?

A Mensagem valoriza o rei morto não pelos atos que cometeu, mas pelo sonho que perseguiu. A “loucura” de D. Sebastião torna-o um mito nacional cuja energia criativa é canalizada para a reconstrução nacional.

Por que razão o mito sebastianista ganha protagonismo na Mensagem?

Consciente da situação decadente de Portugal no início do século (as feridas do liberalismo oitocentista, a invasão napoleónica e a cobardia da dinastia de Bragança, a humilhação infligida por Inglaterra na negociação do mapa cor-de-rosa, a crise da República), F.P. adivinhou-lhe um passado dorido e pressentiu um futuro perturbante. Para contrariar esta fatalidade, o autor da Mensagem fez despertar um nacionalismo de impulso messiânico: o Sebastianismo.

Deste modo, F. P. viu nesse rei desaparecido misteriosamente o Messias que um dia viria para que finalmente Portugal cumprisse a missão que lhe fora superiormente predestinada. Pessoa fez erguer das cinzas D. Sebastião, cujo regresso era há muito esperado, porque o mito faz mais facilmente mover um povo do que a força da razão; confirmou a missão de Portugal como instauradora do Quinto Império; e enalteceu o homem português.

O mito do Quinto Império foi inventado por F.P.?

O mito do Quinto Império vem da Bíblia e é retomado por Bandarra, pelo Padre António Vieira e por F.P. na Mensagem.

Entradas relacionadas: