Análise do Soneto 'Carpe Diem' de Góngora
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O Tema do Carpe Diem no Soneto de Góngora
No soneto "Mientras por competir con tu cabello", Luís de Góngora desenvolve o tema clássico da efemeridade e do desvanecimento da juventude e da beleza humana, conhecido como carpe diem. Este tropo clássico é geralmente traduzido como "aproveita o dia", um convite para desfrutar da juventude antes que ela se vá, sem pensar no amanhã.
O poema é um apelo para desfrutar imediatamente da juventude e da beleza, mas também um aviso de que a morte inexorável reduzirá todos os triunfos alegres e frescos de hoje ao esquecimento, ao nada. Podemos distinguir três elementos interligados: a beleza, o tempo e a mortalidade. Esta análise examinará como estes se relacionam para transmitir o tema.
Análise Estrutural do Poema
Estrutura Externa
Trata-se de um soneto clássico perfeito: catorze versos hendecassílabos, agrupados em dois quartetos e dois tercetos com o seguinte esquema rímico: ABBA ABBA CDC DCD.
Estrutura Interna
A divisão interna é determinada pela estrutura sintática e temática, podendo-se distinguir as seguintes partes:
- Parte 1 (versos 1-8): Os dois quartetos apresentam uma descrição canónica da beleza feminina. Encontramos quatro orações subordinadas adverbiais de tempo, introduzidas por "enquanto", que funcionam como complementos circunstanciais do verbo principal, "goza" (desfruta), presente no primeiro terceto.
- Parte 2 (verso 9): O verbo "goza" (desfruta) é o núcleo da oração principal que estrutura todo o soneto, revelando a sua importância temática.
- Parte 3 (versos 10-14): O restante do poema constitui outra estrutura subordinada que depende do imperativo "goza", funcionando como o elemento-chave que completa a mensagem do poema.
Análise das Metáforas e Hipérboles
Cada um dos elementos descritos recorre à hipérbole (exagero) para enaltecer a beleza da amada. Vejamos como:
- Versos 1 e 2: O cabelo é comparado ao ouro polido que brilha ao sol. O cânone da beleza lírica provençal exigia que a mulher fosse loira.
- Versos 3 e 4: A testa é comparada ao lírio, uma flor branca tradicional na poesia para simbolizar a pureza e a palidez. A pele branca era considerada um sinal de beleza e nobreza, em contraste com o rosto bronzeado, que indicava o trabalho no campo.
- Versos 5 e 6: Os lábios são comparados ao cravo. Lábios vermelhos eram um sinal de saúde e beleza. O cravo é "precoce", exibindo o vermelho mais intenso. A superioridade dos lábios reside no seu maior poder de atração, pois "seguem mais olhos que ao clavel temprano" (atraem mais olhares que o cravo). Era um ponto de honra para o amante cortês ter a amada mais bela do mundo.
- Versos 7 e 8: O pescoço da amada é comparado ao "luciente cristal" (cristal polido). A competição entre os dois é resolvida com a expressão "triunfa con desprecio lozano" (triunfa com desdém gentil), indicando a superioridade da beleza natural. A palavra "gentil" é também expressiva, realçando a elegância do pescoço que une a cabeça ao tronco.