Anatomia Cirúrgica do Trato Gastrointestinal Equino e Bovino
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Anatomia Cirúrgica do Trato Gastrointestinal
A compreensão da topografia do trato gastrointestinal do equino é fundamental para o diagnóstico e tratamento, principalmente nas síndromes cólicas. A abordagem cirúrgica mais comum para a maioria das afecções intestinais é a laparotomia exploratória pela linha média ventral. A sequência de palpação e exploração durante uma celiotomia segue uma ordem lógica para facilitar a identificação das estruturas e do problema.
Partindo do flanco direito, a primeira estrutura de grande relevância que se encontra é o ceco.
Ceco – Flanco Direito do Equino
- É um grande órgão em formato de "vírgula" que ocupa a maior parte do flanco direito do abdômen.
- Sua base está fixada dorsocranialmente, enquanto seu corpo e ápice são livres.
- O ceco é o ponto de partida para a exploração sistemática do intestino. Possui quatro tênias (faixas longitudinais de musculatura lisa) que ajudam na sua identificação.
Prega Ileocecal e Cecocólica
- Prega Ileocecal: Conexão mesentérica entre o íleo e o ceco. É crucial para localizar o íleo. Ao palpar o ceco e seguir sua tênia medial, encontra-se a prega ileocecal, que leva ao final do intestino delgado (íleo). É mais delgada e menos vascularizada que a prega cecocólica.
- Prega Cecocólica: Conecta o ceco ao cólon ventral direito. É mais espessa, curta e mais forte que a ileocecal.
Fluxo e Anatomia do Intestino Grosso (Cólons Maior e Menor)
A partir do ceco, o conteúdo digestivo passa para o cólon maior, seguindo geralmente o trajeto do ingesto:
- Cólon Ventral Direito: Continuação do ceco. Possui 4 tênias e é saculado (haustrado). Segue ventralmente e cranialmente no abdômen.
- Flexura Esternal: O cólon ventral direito se dobra sobre si mesmo no plano mediano, próximo ao esterno, formando uma curva de aproximadamente 90 graus para se tornar o cólon ventral esquerdo.
- Cólon Ventral Esquerdo: Corre caudalmente no lado esquerdo do abdômen. Também possui 4 tênias e saculações, sendo uma das porções mais móveis do cólon maior.
- Flexura Pélvica: Curva acentuada de 180 graus, onde o cólon ventral esquerdo (de maior diâmetro) se estreita significativamente para se tornar o cólon dorsal esquerdo. Esta é uma localização extremamente comum para impactações devido à sua súbita redução de diâmetro e motilidade mais lenta. *Nota: Diferente de anotações antigas, a flexura pélvica não é fixa, sendo muito móvel, o que a predispõe a deslocamentos e torções.*
- Cólon Dorsal Esquerdo: Corre cranialmente, acima do cólon ventral esquerdo. Possui apenas 1 tênia visível e parede mais lisa, sem saculações evidentes.
- Flexura Diafragmática: O cólon dorsal esquerdo dobra-se medialmente, próximo ao diafragma, para se tornar o cólon dorsal direito.
- Cólon Dorsal Direito: Porção de maior diâmetro do intestino grosso. Corre caudalmente no lado direito do abdômen, dorsalmente ao cólon ventral direito. Possui 3 tênias e fixação mais robusta.
- Cólon Transverso: Após o cólon dorsal direito, o diâmetro se reduz drasticamente. Cruza o abdômen da direita para a esquerda, cranialmente à raiz do mesentério. É um local comum de impactação em pôneis.
- Cólon Menor (Cólon Descendente): Continuação do cólon transverso, responsável pela formação das fezes em formato de cíbalas (bolas fecais). Possui 2 tênias e é facilmente identificável por essa característica.
Outras Estruturas do Intestino Delgado
- Íleo: Porção final do intestino delgado. Identificado pela prega ileocecal. Local comum de impactação e hipertrofia da musculatura.
- Jejuno: A maior parte do intestino delgado, suspenso por um longo mesentério (mesojejuno), tornando-o muito móvel e suscetível a estrangulamentos e torções.
- Duodeno: Porção inicial do intestino delgado. Relativamente fixo e segue um trajeto em "C" ao redor da cabeça do pâncreas.
- Estômago: Localizado cranialmente no abdômen, principalmente à esquerda. Não é acessível para palpação externa e dificilmente exteriorizado em cirurgia.
Bovinos: Acessos Cirúrgicos e Patologias
Em bovinos, a maioria dos procedimentos abdominais é realizada com o animal em estação (em pé), sob anestesia local, utilizando o acesso pelo flanco.
Acessos para Incisão (Laparotomia)
- Fossa Paralolombar Esquerda ou Direita: Acesso mais comum e versátil, permitindo a exploração da maior parte da cavidade abdominal com o animal em pé.
- Incisão Vertical: Mais comum para cesarianas e exploração geral.
- Incisão Oblíqua: Segue a direção das fibras musculares, podendo oferecer melhor cicatrização em alguns casos.
- Paramamária: Realizada com o animal em decúbito dorsal ou lateral. Para acessar o lado esquerdo (ex: cesariana), o animal é posicionado em decúbito lateral direito.
Laparotomia Exploratória: O que se Acessa?
A escolha do flanco depende da suspeita clínica:
Flanco Esquerdo
- Órgãos Primários: Rúmen (estrutura dominante), retículo, baço, face esquerda do abomaso.
- Indicações Cirúrgicas: Laparotomia Exploratória, Rumenotomia (remoção de corpos estranhos, esvaziamento em sobrecarga), Cesariana e Afecções Uterinas, Abomasopexia pelo Flanco Esquerdo (correção de deslocamento de abomaso à esquerda).
Flanco Direito
- Órgãos Primários: Omaso, abomaso (em posição normal ou deslocado à direita), fígado, vesícula biliar, intestinos delgado e grosso (ceco, cólon espiral).
- Acesso a outras estruturas: Rins (o direito é mais palpável), bexiga, trato reprodutivo e a face visceral (direita) do rúmen.
- Indicações Cirúrgicas: Laparotomia Exploratória (suspeita de indigestão vagal, torção de ceco), Abomasopexia pelo Flanco Direito (técnica mais comum para DAE), Correção de Afecções do Intestino (Tiflite, dilatação/torção cecal, intussuscepção).
Protocolo Anestésico e Acesso Cirúrgico
A dessensibilização do flanco (Lidocaína 2%) é a chave para a cirurgia em estação. Técnicas comuns:
- Bloqueio em "L" Invertido: Cria barreira de anestésico cranialmente e dorsalmente ao local da incisão. Simples tecnicamente.
- Bloqueio Paravertebral Proximal: Considerada a melhor técnica. Anestesia os nervos espinhais toracolombares (T13, L1 e L2) no forame intervertebral, removendo sensibilidade e tonicidade muscular da parede abdominal.
- Bloqueio Paravertebral Distal: Anestesia os ramos dorsal e ventral dos nervos (T13, L1, L2) nas extremidades dos processos transversos das vértebras lombares.
Tecidos Incisados (em ordem)
Pele → Tecido Subcutâneo e Músculo Cutâneo do Tronco → Músculo Oblíquo Abdominal Externo (fibras caudoventral) → Músculo Oblíquo Abdominal Interno (fibras cranioventral) → Músculo Transverso do Abdômen (fibras dorsoventral) → Peritônio. Imediatamente abaixo, no flanco esquerdo, encontra-se o saco dorsal do rúmen.
Patologias Cirúrgicas Comuns em Bovinos
Síndrome do Corpo Estranho (Reticuloperitonite Traumática)
- Causa: Ingestão de objetos metálicos perfurantes (arames, pregos) que perfuram a parede do retículo e o peritônio.
- Consequências (Sequelas): Reticuloperitonite, Reticulopericardite Traumática (prognóstico grave, levando à insuficiência cardíaca congestiva), Abscessos Torácicos ou Hepáticos.
Indigestão Vagal
A inflamação crônica na região do retículo pode lesionar o nervo vago (tronco vagal ventral), afetando a motilidade do trato gastrointestinal. Resulta em "falha de transporte" do abomaso para o intestino, causando distensão abdominal progressiva, com acúmulo de conteúdo no rúmen e abomaso (formato de "pêra" ou "maçã e pêra").
Deslocamento de Abomaso à Esquerda (DAE)
- Fisiopatologia: O abomaso, cheio de gás e com hipomotilidade, desloca-se por baixo do rúmen, ficando aprisionado entre o rúmen e a parede abdominal esquerda.
- Fatores de Risco: Período pós-parto, alta produção de leite, dieta rica em concentrados, hipocalcemia, cetose.
- Diagnóstico: Som característico de "ping" metálico à ausculta e percussão entre a 9ª e a 13ª costelas no flanco esquerdo.
- Tratamento: Cirúrgico (abomasopexia) é o tratamento de escolha para evitar recidivas. Técnicas comuns: abomasopexia pelo flanco direito (omentopexia ou piloropexia) e abomasopexia pelo flanco esquerdo.
Tipos de Feridas e Processos de Cicatrização
Classificação quanto à Causa
- Incisão (Cirúrgica): Provocada por bisturi; bordas lineares e regulares.
- Laceração: Trauma por rasgamento; bordas irregulares (ex: arames farpados).
- Abrasão (Escoriação): Lesão superficial por atrito ("ralados").
- Contusão: Trauma de impacto sem rompimento da pele; causa hematoma e edema.
- Perfuração: Causada por objeto pontiagudo; alto risco de infecção anaeróbica (ex: pregos).
- Avulsão: Tecido arrancado com perda de substância.
- Queimaduras: Térmicas, químicas ou elétricas, causando necrose tecidual.
Classificação quanto ao Grau de Contaminação (Cirúrgica)
Fundamental para prever o risco de infecção:
- Limpa: Ferida cirúrgica, sem penetração de tratos (risco < 2%).
- Limpa-Contaminada: Penetração controlada de tratos (risco 5-10%). Ex: enterotomia.
- Contaminada: Traumática recente (< 4-6h) ou quebra grosseira da assepsia (risco 15-20%).
- Suja ou Infectada: Traumática antiga (> 6h) ou com infecção clínica estabelecida (pus) (risco > 30%).
Fases da Cicatrização
- Fase Inflamatória (ou Exsudativa): Dura de 2 a 5 dias. Caracterizada pela hemostasia, inflamação, vasodilatação e limpeza da ferida por neutrófilos e macrófagos.
- Fase Proliferativa (ou de Granulação): Começa no 3º ao 5º dia. Formação do tecido de granulação, angiogênese, fibroplasia (produção de colágeno) e epitelização. Contração da ferida por miofibroblastos.
- Fase de Maturação (ou de Remodelagem): Dura semanas a mais de um ano. O colágeno tipo III é substituído por colágeno tipo I, mais forte. A cicatriz se torna mais pálida e plana, atingindo no máximo 80% da força tênsil original.
Tipos de Cicatrização (Intenção)
- Cicatrização por Primeira Intenção: Ocorre em feridas limpas com bordas próximas (suturadas). Processo rápido, com mínima formação de granulação e cicatriz fina.
- Cicatrização por Segunda Intenção: Ocorre em feridas com grande perda tecidual ou infecção, deixadas abertas. Processo lento, preenchido por grande quantidade de tecido de granulação, resultando em cicatriz maior e irregular.
- Cicatrização por Terceira Intenção (Fechamento Primário Retardado): Método híbrido. A ferida é limpa e debridada por dias (tratada como segunda intenção) e, após controle da infecção, as bordas são aproximadas e suturadas. Indicada para feridas contaminadas ou sujas.