Argentina (1880–hoje): Darwinismo social e modernização

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Argentina e o mundo (1880 até hoje): Darwinismo social

A partir do século XIX formou-se uma nova ideologia de caráter social que se fortaleceu entre 1890 e 1945. Entrou em crise na década de 1960 e, apesar de seu esgotamento, ainda persiste em algumas expressões populares como: "Você tem cérebro de mosquito", "não tem metade de um cérebro", "o pai era um bêbado?", etc.

Essa ideologia pressupõe superioridade ou inferioridade intelectual em virtude de caracteres hereditários, antropofísicos ou adquiridos.

Ela surgiu em parte como reação ao fracasso da Revolução Francesa, quando soberanos e príncipes passaram a desprezar e perseguir o liberalismo — processo conhecido politicamente como a "Restauração" ou "Santa Aliança".

A revolução ficou vista por muitos como utópica, seus princípios liberais como teoria sem aplicação prática. Alguns intelectuais tentaram demonstrar cientificamente princípios liberais, como a "sobrevivência do mais apto" e a "adaptação ao meio", procurando nas ciências naturais uma base incontestável para ideias políticas.

Herbert Spencer (1820–1903) dedicou-se ao estudo da natureza para verificar se os princípios liberais estavam presentes em processos naturais. Spencer divulgou ideias como a "sobrevivência do mais apto" e a adaptação ao meio, estendendo sua influência até os Estados Unidos.

A tarefa continuada por outros autores biológicos incluiu Charles Darwin, cuja teoria da evolução abordou adaptação ao ambiente e forneceu bases para discussões sobre hereditariedade.

Ao mesmo tempo, médicos franceses e belgas dedicaram-se a estudos antropométricos, identificando tipos cranianos: braquicefálico, mesocefálico e dolicocéfalo. A frenologia procurou associar características do crânio a níveis de inteligência, chegando a conclusões absurdas, como acreditar que indivíduos braquicefálicos seriam automaticamente mais inteligentes por ter maior massa cerebral, ou que elefantes seriam "mais espertos" por terem crânios maiores — daí surgiu a expressão pejorativa sobre o "cérebro de mosquito".

Esses pesquisadores mediram crânios de chefes e líderes para tentar avaliar sua aptidão.

Friedrich Ratzel e a geografia humana

Em meados do século, o geógrafo Friedrich Ratzel fundou a "Geografia Humana" (antropogeografia, 1856). Em seus estudos classificou humanos em diferentes "raças": branco, amarela, preta e vermelha, propondo origens geográficas para cada uma. Sem intenção, Ratzel tornou-se uma referência para ideias racistas. Segundo suas conjecturas, a raça amarela teria origem no Círculo Polar Ártico, a negra no Equador, e a branca entre os trópicos e o Círculo Polar Ártico americano — hipóteses que foram espalhadas sem base científica.

Os princípios frenológicos, cruzados com as teorias de Ratzel, levaram à conclusão equivocada de que raças negras e amarelas seriam braquicefálicas e inferiores aos brancos; argumentos pseudoambientalistas sustentavam que transplantes para regiões diversas levariam à morte, enquanto permanências locais garantiriam sobrevivência. Dessa forma concluiu-se, erroneamente, que "a raça branca é superior".


Social-darwinismo (parte 2)

Mendel, o pai da genética, foi um monge austríaco (Gregor Mendel) que formulou as leis da herança e distinguiu traços dominantes e recessivos. A partir daí, foram feitas interpretações equivocadas sobre a imutabilidade genética.

Darwin expôs princípios de adaptação ao ambiente e lançou bases para a discussão da hereditariedade, mas interpretações simplistas alegavam que a herança determinava tudo de forma rígida. Na realidade, cada indivíduo carrega informações genéticas próprias, sujeitas a mutações e variações.

Ratzel não reconheceu que a cor da pele poderia ser explicada, em grande parte, por adaptação ao ambiente em que a espécie humana viveu.

No final do século XIX surgiram figuras delirantes associadas ao que se poderia chamar de um segundo darwinismo social, como Cesare Lombroso e Friedrich Nietzsche, cuja leitura política e social foi apropriada por interpretações distorcidas.

  • Lombroso: Em 1887 publicou trabalhos de "antropologia criminal" e é considerado, por alguns, o pai da criminologia moderna por acidente. Sua teoria do "criminoso nato" afirmava que criminosos nascem com características que os predisponham ao crime. Lombroso chegou a estudar criminosos antropofisicamente buscando padrões e a associar traços físicos a tipos de delito, o que levou a esteriótipos e julgamentos precipitados.
  • Nietzsche: Concluiu que haveria dois tipos humanos: os homens-leão, minoria nascida para governar, e os homens-cordeiro, nascidos para obedecer. Essa dicotomia foi usada para justificar teorias de liderança e políticas autoritárias.

Infelizmente, o darwinismo social espalhou-se pelo mundo e teve forte influência nos Estados Unidos. Nos anos 1930, por exemplo, em festas e celebrações de elites, percebia-se uma visão de que a ajuda aos pobres “atrasaria” a seleção natural — ideia sustentada por alguns setores que defendiam a não intervenção social para manter a ‘qualidade’ humana conforme critérios eugênicos.

Ao mesmo tempo, surgiram reformadores liberais que buscavam preservar o liberalismo sem eliminar os pobres, resultando em partidos e movimentos políticos que procuravam instituir reformas sociais moderadas (ex.: surgimento do Partido Trabalhista na Inglaterra, 1892).

A Primeira Guerra Mundial teve consequências desastrosas, mas também efeitos que mudaram a sociedade, como a maior participação das mulheres no trabalho industrial e público, o que impulsionou mudanças culturais e sociais nas décadas seguintes.

Na década de 1920 o mundo experimentou crescimento populacional e crise social em muitas regiões da Europa devastada pela guerra. Surgiram modelos políticos totalitários que buscavam lidar com as massas, muitas vezes inspirados por ideias de hierarquia humana e liderança forte. Entre os nomes associados a regimes autoritários estão Benito Mussolini, Adolf Hitler, Salazar, Franco, Pétain, Stalin e, em contextos diferentes, Roosevelt nos Estados Unidos foi visto como um líder com políticas de grande intervenção estatal.

  • Resultados associados a esses regimes: superpopulação percebida, governos opressores e a ascensão de sistemas totalitários diante de crise econômica e social.

Quando governos autoritários caíram nas mãos de ideólogos doentios, como Hitler, o darwinismo social foi usado para justificar genocídios e políticas racistas contra judeus, negros e outros grupos.

Na década de 1960, movimentos como o Maio de 1968 na França expressaram resistência contra o que jovens consideravam um mundo decadente e formalista, ampliando críticas aos modelos estabelecidos.


Positivismo e progresso técnico

Jean-Paul Sartre acabou influenciando gerações distintas, mas o positivismo científico do século XIX e XX — representado por Auguste Comte — enfatizava a crença no progresso através da ciência. Muitos positivistas eram ateus e viam a religião como entrave ao progresso, chegando a criar rituais e um calendário positivista que homenageava ciência, arte e personalidades.

Os positivistas criaram a sociologia como disciplina que reunia estudos das sociedades humanas; atribuíram grande importância à Primeira Revolução Industrial (c. 1770–1820) e às inovações como a máquina a vapor aplicadas à tecelagem, minas e transporte.

Um entrave técnico até meados do século XIX foi a limitação na produção de ferro fundido e aço, por não existirem fornos capazes de atingir altas temperaturas. O desenvolvimento do processo de Bessemer e do alto-forno permitiu a produção em larga escala de aço, gerando a Segunda Revolução Industrial, a "era das máquinas que fabricam máquinas".

  • Aplicações do aço: trilhos ferroviários, construção de pontes e casco de navios.

O desenvolvimento dos transportes e a introdução de conforto nas viagens (ex.: carros Pullman, categorias em navios como o Titanic) favoreceram a expansão do capitalismo, tornando mais viáveis as viagens de negócios e o circuito internacional de comerciantes e fazendeiros.

Em 1900 a Argentina vivia uma fase de grande prosperidade: produtores rurais podiam viajar à Europa, manter casas no exterior e exibir elevado padrão de vida. Em 1907 a Argentina foi um dos principais produtores mundiais de grãos.

A sociedade da época ainda era marcada por grande desigualdade, mas já se percebia o surgimento de uma classe média em formação.

Grandes palácios e casarões (ex.: Palácio San Martín, Palacio Anchorena, Palácio Errázuriz-Alvear — hoje Museu Nacional de Arte Decorativa) mostravam a concentração de riqueza: famílias que passavam parte do ano na Europa e mantinham luxo em Buenos Aires.

Exemplos de figuras sociais e histórias locais ilustravam essa época, como a trajetória de mulheres da alta sociedade que casavam cedo e exerciam papéis sociais destacados ou de patronos culturais que fundaram instituições.


Formação do Estado argentino e política (1874–1880)

Na Argentina do século XIX ainda faltava a noção consolidada de país unificado; o território era visto como um conjunto de províncias e Buenos Aires exercia papel central. Em 1874, quando Nicolás Avellaneda assumiu a presidência, a disputa entre interesses provinciais e nacionais acentuou as tensões políticas.

A Constituição de 1853 estabelecia um sistema eleitoral indireto: o povo elegia eleitores, e estes escolhiam presidente e vice. Sarmiento, por exemplo, atuara como embaixador em Washington e teve influência na cena política. As disputas entre caudilhos, líderes políticos e facções resultavam em revoltas e tentativas de subversão do processo eleitoral.

Mitre tentou contrariar Avellaneda e chegou a organizar uma revolução em 1874, mas sem apoio militar suficiente foi derrotado e seus seguidores presos.

Em 1875 Avellaneda promoveu o chamado "Acordo de Notáveis", reunião de poderosos que agrupou setores diversos e deu origem ao Partido Autonomista Nacional (PAN). O PAN funcionava como um pacto de elites que se reuniam em clubes e sociedades de alto nível (Club del Progreso, Sociedad Rural Argentina, Círculo Militar, etc.), onde as decisões eram negociadas entre poderosos parentescos e alianças sociais.

O regime funcionava por meio de controle do Executivo e influência sobre legisladores: senadores indicados por governadores provinciais e deputados eleitos em sistemas que favoreciam listas completas (o partido vencedor tomava as vagas). Fraudes eleitorais, suborno e manipulação do processo garantiam a manutenção do poder por parte das oligarquias.

Avellaneda conseguiu pacificar a política interna e consolidar o PAN, mas a economia da Argentina permanecia dependente de poucos produtos de exportação — a chamada monoprodução do final do século XIX e início do XX:

  • Exportação de couro (para correias de transmissão das máquinas);
  • Exportação de lã (ciclo das ovelhas);
  • Exportação de carne bovina, a partir do uso de navios refrigerados (após 1875), que permitiu colocar carne argentina na Europa.

O manejo extensivo de ovelhas e gado, a necessidade de pastagens e a expansão para territórios do sul (Patagônia) colocaram em questão a posse e a incorporação de terras habitadas por povos indígenas.


Território argentino e a Campanha do Deserto

Até então, as fazendas ricas em lã exportavam o produto para a Europa para ser lavado e processado. Viu-se a necessidade de diversificar a produção e evitar a monocultura que extenuava as pastagens. Para isso foi preciso controlar terras que permitissem o deslocamento das ovelhas dos pampas à Patagônia, enquanto o gado permaneceria nos pampas. A incorporação do território patagônico ainda estava em debate e gerou disputa entre facções federais e unitárias.

Características contrastantes entre litoral e interior:

  • Buenos Aires (costa): economia liberal; terreno plano; clima temperado-quente; úmido; rios permanentes e hidrovias; chuvas regulares.
  • Interior: economia mais conservadora; terreno montanhoso; clima continental; seco; rios sazonais não navegáveis; chuvas irregulares.

A Campanha do Deserto (1878–1879) visou conter ataques e invasões de grupos indígenas que viviam em territórios que a expansão agropecuária desejava ocupar. Até então, a política oficial muitas vezes combinava subornos e trocas para evitar ataques, mas sem resultados duradouros: comunidades indígenas por vezes realizavam incursões para roubar gado, vendendo-o aos fazendeiros do sul do Chile, o que alimentava conflitos entre brancos e indígenas.

Havia várias tribos; entre elas, destacaram-se os Mapuche (chamados erroneamente de "araucanos" em algumas fontes), que tinham uma história de movimentos entre o Chile e a Argentina, chegando à Patagônia.

Quando Avellaneda resolveu a pacificação política interna, o PAN voltou-se para a questão territorial. Adolfo Alsina, ministro da Guerra, propôs inicialmente uma estratégia de proteção por meio de um fosso — a chamada "trinchera de Alsina" — e de subornos controlados aos indígenas como tentativa de evitar ataques.

Julio Argentino Roca, comandante do Exército na fronteira de Río Cuarto, criticou e substituiu essas medidas por uma campanha militar mais ativa quando assumiu o ministério da Guerra após a morte de Alsina e a posse de Roca.

Alsina idealizou fossos e paliçadas com hastes cravadas (tacuara) para deter passagens indígenas; porém, as tribos encontraram maneiras de transpor esses obstáculos. Roca defendeu a criação de um exército e a interrupção dos pagamentos e subornos, atacando locais estratégicos como as Salinas Grandes para cortar rotas de incursão. Em 25/05/1879 Roca conquistou o território do Río Negro, com apoio de cientistas e do fotógrafo Antonio Pozzo, documentando a campanha.

Todas as ovelhas foram transferidas para a Patagônia até o Rio Negro; a Campanha do Deserto consolidou grandes extensões territoriais sob controle do Estado.


A campanha mais recente que consolidou territórios australes foi concluída em 1911 com a incorporação da Terra do Fogo. As campanhas no Chaco estenderam-se de 1892 a 1919, finalizando, na prática, a configuração territorial da Argentina como a conhecemos em torno de 1920.

O nacionalismo que se desenvolveu entre 1900 e 1930 conquistou grande apoio popular; em 1930 a Revolução "fascista" de Uriburu trouxe críticas e revisões sobre a campanha contra os indígenas. A Campanha do Deserto foi alavanca para a carreira política de figuras como Roca, que usou sua posição militar para avançar politicamente.

Ao final do mandato de Avellaneda houve intensas disputas pela capital. Em 1880 Roca assumiu a presidência após confrontos com o governador de Buenos Aires, Carlos Tejedor, que se opôs à transferência de poderes e à definição da cidade de Buenos Aires como capital da nação. Houve confronto militar e, eventual derrota das forças provinciais, com o estabelecimento definitivo da capital federal.

Roca, ao assumir em 12/10/1880, buscou formalizar medidas que garantissem a centralização do poder e a modernização da cidade. Indicou amigos e aliados para cargos, promovendo obras urbanas e fundações de instituições, como a Universidade Provincial de La Plata (apoiada por personalidades como Francisco Moreno).

Roca ajudou a transformar a Argentina em um país mais conectado com a modernidade internacional, consolidando instituições estatais e infraestrutura, embora também tenha fortalecido práticas oligárquicas e políticas de exclusão dos povos indígenas e de marginalização social.

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