A Arte de Envelhecer: Reflexões sobre a Vida e a Memória

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(Delmino Gritti)

El tiempo del viejo es el pasado (...) Mientras que el mundo del futuro está abierto a la imaginación, y ya no te pertenece, el mundo del pasado es aquel donde a través de la remembranza te refugias en ti mismo, retornas a ti mesmo, reconstruyes tu identidad, que se ha ido formando y revelando en la ininterrumpida serie de todos los actos de la vida, concatenados entre sí, te juzgas, absuelves, te condenas, y también puedes intentar, cuando el curso de la vida está a punto de consumarse, trazar el balance final” (Norberto Bobbio)1

“Sueñan mucho los que han vivido mucho: los viejos. (Antonio Porchia)

A ciência fala hoje em pistas da imortalidade. Descobriu o papel que desempenham os “radicais livres” do oxigênio, subprodutos do metabolismo e que são muito agressivos ao material genético. O descobrimento realizado por um grupo de investigadores ingleses e norte-americanos, e experimentado em minhocas e vermes, foi batizado com o nome de “Caenorhabditis elegans”. Uma molécula que se protege contra o estresse oxidativo tem permitido alargar a esperança de vida das mencionadas minhocas e vermes em 67%. O elixir da eterna juventude está prestes a ser descoberto, dizem eles. Michael Zey, professor da Montclair State University, afirma: “Acredito que estejamos batendo às portas da eternidade”.

Talvez, num futuro próximo, a partir da engenharia genética, o homem deixe de ser uma criação da natureza, do acaso ou de Deus (consoante as concepções religiosas ou filosóficas de cada um), passando a ser um artigo industrial. As tentações que o imenso poder da biotecnologia apresenta são irresistíveis. Que poderá acontecer? A ciência ainda se move sobre hipóteses.

Na medida em que a proporção de velhos na população aumenta, o problema da velhice atrai a atenção ansiosa de pesquisadores médicos, demógrafos, psiquiatras, sociólogos, reformistas sociais, políticos (hoje no Brasil e em vários países do mundo a reforma da Previdência) e futurólogos.

Atribui-se falsamente à medicina moderna um aumento da expectativa de vida; no entanto, ela diz que tem o poder de estender a vida ainda mais e de abolir os horrores da velhice. Sabe-se também que, desde 1978, têm surgido 30 novas enfermidades e reaparecido algumas que estavam controladas. Na verdade, o aumento da expectativa de vida é consequência de um padrão de qualidade de vida mais elevado.

Este discurso dominante sobre a velhice é, na realidade, um discurso social biologizado que tende a naturalizar a velhice para melhor esquecer ou negar sua natureza sociopolítica. Ao naturalizar a velhice, estamos esquecendo que uma boa parte de nossos semelhantes passa sua curta e explorada vida arrastando-se como vermes, enquanto uns poucos sonham com a imortalidade.

Nas comunidades primitivas indígenas, e no Oriente em alguns povos, quase sempre os velhos foram e são partes vitais da vida comunitária. Viviam e vivem rodeados de crianças. Estiveram e estão sempre presentes em tudo o que acontece e, desta forma, diz-se que o velho volta à infância. Para a cultura e sociedade ocidental, isto tem uma conotação negativa porque leva a supor que a infância é coisa subalterna e incapaz, e a maturidade é coisa digna.

Na velhice
O rosto não tem mais residência.
Só na velhice conheci o brio
De viver com vagar.
Partimos quando nascemos,
Andamos enquanto vivemos
E chegamos
E o tempo que fenecemos.
Assim que quando morremos
Descansamos. (Carpinejar)

Sempre que as pessoas não tinham tarefas a realizar, sentiam-se felizes passando horas sentadas a conversar em paz consigo mesmas e com o mundo. Por que hoje temos que nos manter sempre ocupados ou entretidos? Mesmo assim, nos sentimos muitas vezes anestesiados, desassossegados, apreensivos e irritados.

O medo de nossa solidão só pode ser vencido depois de um corpo a corpo com a total nudez da alma. “Fazer horas”, dizemos quando não temos nada que fazer. Pausa de espera ou vazio não previsto; para isso há lugares idôneos, que o digam os que frequentam os bares, por exemplo, ainda que ali o tempo morto acabe muitas vezes em tempo vivo e inclusive pode deixar de ser espera. O bonito nessas horas é ver o tamanho da amizade e a reserva de humor que a gente tem. Para muitos, os bares são realmente como navegações muito pessoais. Ninguém está livre de tropeçar com alguém poeta ou tornar possível uma nova amizade. Por que não?

Há beleza em todas as partes, mas há mais beleza nos lugares onde experimentamos essa sensação de alívio que consiste em não ter que adiar os próprios sonhos a um incerto futuro que se distancia inexoravelmente. Creio também que é preferível, e muito mais enaltecedor, uma solidão povoada de lembranças do que uma promiscuidade física opaca e insignificante, ouvindo palavras vazias, inúteis. Penso que este ruído da alma nos faz bem e o nosso coração refletir-se-á no nosso rosto; nos nossos olhos haverá uma festa para expor nossa loucura, desnudá-la, compartilhá-la com todos. Talvez estejamos todos nós fazendo isto o tempo todo. Talvez alguns se arrebentem, sejam sufocados, explodam. Seja essa condenação ou nossa busca de santidade, o coração crescerá de todos os lados. Bruna Lombardi, no seu belo livro “Diário do Grande Sertão”, diz: “Não cultivar a expectativa do medo ou do cansaço. Se você escala uma montanha enorme, você não pode ficar olhando para cima, para o que falta ainda para subir, e nem para baixo, que pode dar vertigem. Você se concentra onde está no momento do próximo passo. A vida é aqui e agora; para baixo não olho, para cima não posso ver. Desfruto o prazer do trajeto. Fazer é ir fazendo”.2

Viver felizes, todos nós queremos; no entanto, descobrir o que faz a vida realmente ser feliz, poucos o procuram como devia ser ou, se o procuramos, muitas vezes nos encontramos perdidos diante desta avalanche de “pílulas de felicidade” que esta sociedade de consumo oferece e impõe. Há um provérbio chinês que diz: “Se você quiser ser feliz por uma hora, coma bastante. Se você quiser ser feliz por um dia, beba bastante. Se você quiser ser feliz por um mês, case-se. Mas se você quiser ser feliz para sempre, plante.” Lembro também Afonso de Aragão, sábio espanhol que tinha por costume dizer para amenizar a “velhice”: “A velhice é admirável em quatro coisas: na lenha em que se há de queimar, no vinho em que se há de beber, nos amigos que merecem confiança e nos livros que temos que ler.3

Eis um belo poema de Adélia Prado no que diz respeito a “fazer horas”:

Nas praças
Os velhos aparecem como gatos
Quando há sol.
Quem adivinha sua biografia?
Viúvos e aposentados
Formam grupos em bancos
Onde antigamente sentavam os
Namorados.
Conversam,
Cheios de certezas e mofos e
Prudência que os anos lhes ensinaram.
Nos jogos de cartas
Formam arquipélagos de conspiração de naipes,
Alheios à alegria que anda ao seu redor,
Matando o tempo que lhes resta.
Consumidos por catarros e cautelas
Entregues estão a uma
Estancada obstinação.
A idade não lhes dará mais
Triunfo em sua vida
Com sensatez e resignação,
O horizonte é breve.
Entregues a uma
Confabulação marginal
No topo do mundo
Que já não lhes pertence e
A ruminar a imensa solidão
E esperar a chegada da grande sombra.4

Os gregos chamavam a morte de irmã do sono e filha da noite. Ela é uma mulher da família. Comemos com ela. Daí a julgá-la simples, frequentável e mesmo amável.

Concordo que é engraçado pensar que o que há de mais interessante na vida de um ser humano é a morte, e, em uma obra, sua interrupção. O sofrimento e a morte têm a cruel verdade de nos restituir a nós próprios. Sabemos que se deve morrer; por que escolhemos caminhos tão desagradáveis para chegar à morte?

Lembro aqui uma passagem da vida de Alexandre Dumas, escritor francês. Dizia que não tinha medo da morte. “Ela me será suave”, dizia ele, “porque eu lhe contarei uma história”.

Quanto mais civilizados somos, mais rechaçamos a morte. Para o homem do campo e para os antigos habitantes da terra, a vida e a morte estavam situadas no mesmo plano. O homem da cidade, ao contrário, deixa de lado a morte, a escamoteia e mais ainda: agora a morte é administrada pela medicina, que é sua burocratização. A morte foi substituída pela morte clínica, solitária, vergonhosa e absurda. O homem moderno nasce no hospital, é atendido no hospital, quando está doente é examinado no hospital para comprovar se está com saúde e é devolvido ao hospital na maior parte das vezes para morrer.

Rilke, sentindo a morte aproximar-se, pediu para sua enfermeira “Nike” (Wonderly Volkar) que o ajudasse a ter uma morte adequada: “Não quero a morte dos médicos — quero minha liberdade. Ajuda-me a morrer de minha morte”.

Señor, da a cada cual la muerte que le es propia
El morir que da aquella vida nace
En el que tuvo amor, sentido y pena.

A morte hoje não é mais um desfecho natural, mas é uma falência da técnica. O nosso encontro com a morte tem muito a ver com a forma como foi nossa vida.

Por isso que o dito homem civilizado, principalmente o ocidental, ao sentir-se mal, procura logo o médico, o farmacêutico. Na verdade, trata-se do terror ao sofrimento. E o sofrimento nos ensina muito porque a dor fertiliza. Só na dor e sofrimento nos aproximamos de verdade de nossos semelhantes e só então nossa vida será digna e bela. Na viagem adentro nunca se perde o caminho.

É natural temer a morte. E nesta sociedade capitalista tecnocrática que eliminou completamente o sentimento do sagrado, o temor é maior ainda. A velhice inspira apreensão não só porque representa o início da morte, mas porque as condições da maioria das pessoas velhas hoje têm se deteriorado muitíssimo. No entanto, nesta sociedade altamente tecnificada, que sempre diz que o desenvolvimento tecnológico vai dar respostas a todas as necessidades do ser humano, o que vemos é cada vez mais miséria moral.

A atual civilização tecnológica global torna-se cada vez mais hostil a todas as formas de vida, exceto talvez aos mais resistentes ratos de esgoto e de cais, outros parasitas variados e àqueles poucos prodígios bacterianos que podem sobreviver até mesmo em lixo altamente radioativo. A atual tecnologia intensificou tanto a velocidade e a magnitude dos retornos da consequência, que a terra poderá realmente tornar-se inabitável se os processos que a história humana tem dominado não forem modificados agora. E muito antes que o planeta torne-se inabitável, ficaria mergulhado numa insatisfação tão penetrante que o desassossego social alcançaria proporções descomunais. Lembro o que disse o grande chefe Seattle (era sábio, bondoso e tinha espírito) num discurso para os brancos sobre a terra e o respeito que ela merecia: “Vós deveis ensinar aos vossos que a terra, sob os seus pés, é feita de cinzas dos nossos avós. Para que eles a respeitem, dizei aos vossos filhos que a terra é rica de vida do nosso povo. Ensinai aos vossos filhos o que nós ensinamos aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontece à terra acontece aos filhos da terra. Quando os homens escarram sobre a terra, é sobre si próprios que escarram”.

Diante desta realidade tão atroz que vivemos hoje, podemos concluir dizendo que tudo isto que esta sociedade supertecnificada produziu irá nos engolir. “Vocês da civilização morrerão sufocados pelo lixo que produzem”, como concluiu o índio Seattle.

Em relação à morte e natureza, cito dois exemplos de mortes belíssimas e serenas: Guy de Maupassant queria que o pusessem em contato direto com a terra, com as árvores e os cães. Desejava que, após a morte, seu corpo fosse se reunir à mãe-Terra, para que, como escrevera havia pouco diante dos despojos de Victor Hugo, “as raízes das plantas e das árvores viessem buscá-lo, pegando-o, transformando-o até a superfície e pondo-o novamente em contato com o Sol e com a brisa”. O mesmo quis José Lutzenberger, ecologista que muito lutou para que o ser humano respeitasse a natureza.

O homem primitivo sentiu ter cumprido a sua tarefa, ficando assim preparado para aceitar a velhice e a morte: envelhecer bem como os elefantes que não se queixam do peso dos anos, nem das rugas que têm, e quando percebem a hora da morte, caminham pausadamente para certo lugar — “o cemitério dos elefantes” — e aí morrem completamente com grandeza existencial, só aos grandes permitida.

Clarice Lispector toca justamente nesta grandeza existencial ao dizer: “Conseguirei captar o regozijo infinitamente doce de morrer? Ah, como me inquieta não conseguir viver o melhor, e assim poder enfim morrer melhor. Como me inquieta que alguém possa não compreender que morrerei numa ida para uma tonta felicidade de primavera perfumada de amor. Morta e exalando a alma viva.5

Não compreendemos a morte, só devemos aprender a aceitá-la. A história de Édipo e a Esfinge tem algo a dizer a respeito. Ela havia provocado uma peste na terra e a única maneira de erradicá-la era resolver o enigma proposto por ela: “O que é que anda com quatro pernas, depois com duas e em seguida com três?” Resposta: “O homem”. A criança engatinha com quatro pernas, o adulto anda com duas e o velho usa uma bengala.

O enigma da Esfinge é a imagem da própria vida através do tempo: infância, maturidade, velhice, morte. Quando enfrentamos e aceitamos o enigma da Esfinge sem medo, a morte não interfere mais em nós e a maldição da Esfinge cessa. O domínio sobre o medo da morte é a recuperação da alegria de viver. Só chegamos a experimentar uma afirmação incondicional da vida depois de aceitarmos a morte não como algo contrário à vida, mas como um aspecto da vida. Com esta visão, estaremos procurando uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida no plano puramente físico tenham ressonância no interior de nosso ser e da nossa realidade mais íntima, pois só assim podemos sentir o encanto de estarmos vivos.

A consciência da morte faz amadurecer nossa vida; por isto deveríamos refletir um pouco mais sobre o assombro de termos nascido, que é tão grande como o espantoso assombro da morte. Assim, nossa sabedoria não será uma meditação sobre a morte, mas sobre a vida. E o nosso tempo será um presente das coisas passadas, um presente das coisas presentes e um presente das coisas futuras. Por esta razão, a vida nunca deveria deixar-nos indiferentes. E ao perguntarmos se a vida tem sentido, o que devemos saber é se nossos esforços morais serão recompensados, se vale a pena trabalhar honradamente e respeitar o próximo ou se é o mesmo que se entregar a vícios criminosos; numa palavra, se acreditamos em algo mais além da vida ou apenas no túmulo. E mesmo não acreditando em algo mais além, respeitar o próximo e trabalhar honradamente deveria ser natural e intrínseco ao ser humano.

Há um provérbio chinês que diz: “A morte do corpo é menos dolorosa do que a morte do coração”. Há também um texto muito importante na filosofia: “Diálogo de Meneceu e Epicuro”. Meneceu diz a Epicuro:

Así es, en efecto maestro, puesto que, según lo que expones, no procede temer la muerte desde que se la exhibe como el no tener sensaciones. Si vivir es precisamente tener sensaciones, si vivir es sentir, no hay razón para temer lo que no se ha de sentir. La muerte, por así decirlo, no se topa con nosotros, o para expresarlo con palabras, para nosotros no es.

Epicuro: Por cierto, Meneceo. El estado de muerte no es susceptible de ser vivido. Aceptado esto, no se ve razón para tenerle miedo. Mientras soy, mi muerte no es, y cuando la muerte es, yo no soy. ¿Cómo ver entonces en la muerte un motivo de temor, querido Meneceo?6

A morte não é um acontecimento da vida; não se vive a morte. Se entendermos a eternidade não como uma duração temporal infinita, mas como uma intemporalidade, então vive eternamente aquele que vive no presente. A aflição pela morte não é, em absoluto, o mesmo que o confronto com a morte. As pessoas morrem o tempo todo no mundo inteiro; no entanto, como é possível que tão pouca gente tenha sabedoria?

O homem moderno sente-se cada vez mais perturbado. Por que será? Falta de realização pessoal? Não empregou bem o seu corpo? Não ganhou dinheiro suficiente? Não preencheu sua vida de outra forma, com outros valores?

A morte está todos os dias nos jornais e na TV. A morte como espetáculo para dar Ibope, portanto, meras estatísticas: é a banalização da morte. Precisamos vê-la de outra maneira e tenhamos cuidado: a vida e a morte não são o que se lê cada dia nos jornais e vemos na TV.

Os antigos sabiam morrer. Elevar-se por cima da morte foi o ideal constante de sua sabedoria. Para nós, que nos consideramos modernos e pós-modernos, a morte é uma surpresa horrível.

Na Idade Média, vivia-se o sentimento da morte com uma intensidade única. Soube, porém, com força especial incorporá-lo ao tecido íntimo do ser. Ninguém tentava tramas com ela. Com o Renascimento, começa o eclipse da resignação. Daí a auréola trágica do homem moderno, preocupado constantemente com a ciência para suprimir a morte. E o que vemos é um embrutecimento do espírito, reduzindo sua consciência metafísica.

“Nada revela mejor nuestra decadencia que el espectáculo de una farmacia: todos los remedios que se quiera para cada uno de nuestros males, pero ninguno para nuestro mal esencial, para aquel del que ninguna invención humana puede curarnos”, assim se expressou Emil Cioran.

Como seres humanos dignos, a morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitece e a gente nem soubesse que era o fim. E como diz João Silvério: “Diante de tudo isto, que Deus me dê a graça de morrer emocionado diante da vida. Comovido com a despedida. Inteiramente encantado com a luminosidade do adeus. Querer morrer sem desolação, lançando ao mundo um último olhar de encantamento, e talvez de compaixão. Porque é tão frágil o mundo. Graças a Deus que a velhice ensina a viver da saudade. E as lágrimas, que são tantas, também deveriam ser lágrimas suaves, de uma tristeza legítima, à qual temos o direito. Terão o gosto de nossa vida vivida profundamente.”7

O futuro não é o que vai acontecer; é aquilo que fizemos e fazemos agora, está presente no presente. O passado só tem sentido quando vivo. O verdadeiro passado não é aquilo que não existe mais; é aquilo que conserva um sentido para as nossas vidas de hoje. Diz um provérbio da região dos mares Cáspio e Negro: “Nosso futuro é como os chifres do caramujo; retraem-se quando tocam alguma coisa, e só conseguem ver quando estão completamente esticados”. O passado não como algo morto e esquecido, mas como algo que levamos conosco, que fecunda o presente e torna atrativo o futuro. O futuro, dizemos que não é nosso porque depende de circunstâncias múltiplas que escapam à nossa decisão. Por outro lado, não devemos considerá-lo totalmente estranho, como se não pudéssemos influir sobre ele, como se tudo fosse imposto desde fora de nós mesmos. Aceitando isto, estaríamos anulando completamente nossa liberdade. E do nosso passado temos que pensar o que disse Alceu Amoroso Lima: “O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou”. Assim, a nossa memória não será uma faculdade de retenção passiva daquilo que foi, mas a aplicação ao passado de uma vontade de ordem que aplaca dissonâncias, que dissolve e emenda para ele o mal em que no passado houvera. O trabalho da memória é conservar estas prodigiosas coisas, defendê-las do desgaste banalíssimo do cotidiano com garra, porque talvez não tenhamos outra melhor riqueza. Recolhamo-nos a um diálogo interior que tente adivinhar outros diálogos, que preveja perguntas e construa respostas. E talvez as respostas não sejam tão importantes quanto as perguntas. Olhemos demoradamente dentro de nós sem esperar respostas de políticos, economistas. Quieta dentro do casulo, a larva prepara-se para virar borboleta.

A memória honrada das coisas bem feitas por muito tempo permanecerá. A verdadeira memória será, então, ficar na memória daqueles que deixamos pelas boas obras que fizemos. Esta deveria ser sempre a herança a deixar. Permanece eterno o que a memória ama. A morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

O silêncio que mantemos em relação ao que acontece e aconteceu equivale à morte e ao esquecimento. Por isto que a mitologia grega colocava o rio da Memória (Mnemosine) junto ao rio do Esquecimento (Leteo), porque Morte, Memória e Esquecimento ajustam a tríade primordial da condição humana.

Para os gregos, a Memória era como a mãe de todas as musas. Nesta condição, estará sempre junto a Zeus para engendrar as nove musas, começo e origem da experiência humana. Desta forma, a Memória preserva e ensina.

Há pessoas que na vida nunca se enterneceram, nem se emocionaram, nem choraram com outros, nem perderam a razão por gosto, nem disseram palavras doces e aromáticas, nem arrulharam como um pombo todas as vezes que o deveriam ter feito. Se isto aconteceu entre nós, façamo-lo agora, não por arrependimento ou porque deixamos de aproveitar a vida, mas porque isto nos torna plenos. Ser realmente humano é isso.

Nossos atos são como os alimentos, e os pensamentos e os sentimentos são os temperos. Quem salga ou tempera um doce com vinagre terá problemas.

O tempo, cujos estragos contínuos, segundo a segundo, nos vão convertendo em outros sem que o percebamos por causa do nosso trato diário. Por casualidade, ele impede-nos que morramos de tristeza e permite-nos conservar a ilusão de que somos uns eternos adolescentes a quem tudo pode ser perdoado.

Percebemos que estamos envelhecendo no cruel e verídico espelho dos outros. E quando nos olhamos no nosso espelho diário, quantos monólogos, quanta habitada claridade sentimos! Depois de conduzir para baixo nossas raízes, chegamos ao lugar de onde partimos: de quem são estes olhos que nos absorvem? Estas marcas de cansaço tão longo? Somos nós mesmos? Como nos veem os outros? Ah, quantas lembranças mescladas na arca confusa da memória! Não somos apenas o instante em que nos contemplamos no espelho. De outras imagens passadas que recordamos, somos nostalgia e a certeza de outras futuras que adivinhamos. Muitos rostos todos temos; em estantes giratórias estamos; a cada momento um rosto mostramos, a máscara que levamos como defesa.

Eu tenho sessenta anos, setenta anos. Será verdade que os tenho? De que modo: eu os possuo ou eles me possuem? Perco-os ou eles mesmos me perdem? Por que deveria ser a morte a única realidade mortal?

Na verdade, o espelho é um objeto, um instrumento muito útil na teoria do conhecimento. Apesar de todas estas marcas e lembranças, devemos continuar sonhando porque o sonho não é apenas uma comunicação (e às vezes uma comunicação codificada), é também uma atividade estética, um jogo da imaginação, e esse jogo tem em si mesmo um valor. O sonho é a prova de que imaginar, sonhar com aquilo que não acontece, é uma das mais profundas necessidades do ser humano. O chinês fala que há uma maneira de você adoecer: negar seu sonho. Um ser humano que não se alimenta de sonhos envelhece muito depressa.

Busquemos na arte, na amizade, a força para poder olhar a morte na cara e perguntar-lhe onde está sua vitória. Oh morte, por que te atreves tanto em nós, que nem pequenos nadas somos?

Que os nossos lazeres não sejam de passividade ou de evasão, que não passam de compensações, e sim lazeres ativos, criativos, que sejam a celebração da vida, a criação alegre de uma vitalidade interior a explodir numa leitura, numa dança, num canto, no convívio amigo como símbolos do ato de viver. Assim, “a vida só é possível reinventada”, como disse Cecília Meireles. E quando nosso coração fala, não é conveniente que a razão faça objeções. Somente corações meninos veem coisas indizíveis, dizem coisas invisíveis. E o nosso coração é uma permanente pergunta sem solução.

É necessário convencer-nos de que se vive quando se está sonhando e se sonha quando se vive. Não pode ter esperança quem não tem recordações. É o caminho percorrido que nos dá força para percorrer o que falta.

Que a nossa casa seja o espaço das lembranças e onde mora o nosso coração. Antigamente o sótão era cheio de coisas e a fantasia nos acompanhava sempre. Neste espaço, nosso ser sentia o silêncio e abrigava os sonhos. Da minha antiga casa sinto o calor cor de brasa que vem dos sentidos ao espírito. A experiência da memória profunda da recordação, o homem moderno não a considera mais necessária. Quem souber escutar a casa do passado terá ecos.

Tenhamos então aquele estado de espírito agradável e sonhador dos dias de chuva em que se escutam melodias nas gotas e assim perseguiremos com prazer velhas recordações.

A vida é uma bolsa elástica onde cabe tudo, até a morte. A vida adquire mais valor quando se começa a comprovar que se está fazendo sua viagem de regresso.

Ultimamente tenho olhado muito para dentro do meu coração. Isso quer dizer que estou maduro: o suficiente para não me privar de olhar com persistência para trás. Olho em meu coração e vejo os companheiros e companheiras que nele habitam e, por isto, contemos nossos jardins pelas flores, nunca pelas folhas que caem. Contemos nossos dias pelas horas alegres e esqueçamos por completo as nuvens. Contemos nossas noites pelas estrelas, não pelas sombras. Contemos nossas vidas pelos sorrisos, não pelas lágrimas. E alegremente, ao correr do tempo, contemos nossas vidas pelo que fizemos, não pelos anos.

Diz-se que a vida é um vaivém entre a lembrança e a esperança. Portanto, não se improvisa um velho: vai se fazendo desde criança, desde jovem, desde adulto.

“Quando se fala em aniversário e digo que tenho 65 anos, este número é abatido pela soma, um a um, dos anos que vão do dia do meu nascimento, em 1940, até hoje. A conta está certa, mas o restante está errado, como diz Rubem Alves no seu belo livro 'Retorno e Terno'. Pois 65 anos são, precisamente, os anos que não tenho. Sessenta e cinco são os anos que já se passaram, anos com que não posso mais contar e que não mais se acenderão como paus de fósforos riscados. Os anos de uma vida nunca se somam; eles sempre se subtraem.

Assim, a pergunta correta a ser feita num aniversário não é 'quantos anos você está fazendo', mas antes, 'quantos anos você está desfazendo?'. E as respostas, para serem verdadeiras, terão de assumir a forma de 'eu não tenho 25 anos', 'Eu não tenho 37 anos', 'Eu não tenho 72 anos'.

Penso que deveríamos inverter o ritual. Na sala escura e silenciosa um fósforo é riscado e uma vela é acesa, vela que nenhum sopro vai apagar, e que vai ficar brilhando por todo o tempo que durar a festa. Com o acender da vela explode a alegria, não pelos anos que foram desfeitos, mas por aqueles à espera para serem vividos. Ao invés de soprar a vela, acender a vela.”8

De alguma coisa hão de valer as cicatrizes. A herança que deixaremos será a lembrança do amor que tivemos aos outros, a luta pela verdade, justiça, liberdade — a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer ser humano por este mundo. Assim, seremos como rio feliz a ir de encontro ao mar e desaguar e, em largo oceano, eternizar.

Ter presente que a suprema fortuna é saber corajosamente merecer a vida, e a suprema desgraça é covardemente não saber perdê-la. Chorar por dentro será a única maneira que temos de aliviar e ocultar o desespero. Seremos então como as árvores altas que só resistem ao vento quando têm raízes profundas. E mesmo não encontrando resposta a muitas perguntas da vida, esta será nossa força para continuar andando. E o ponto culminante desta vida será a compreensão da vida. Assim, a nossa sabedoria será a arte de empregar bem a ignorância, quer dizer, o adequado uso de nossos erros.

Saber não é dar respostas, mas saber perguntar através das dúvidas.

  • Sou uma pergunta.
  • Quem fez a primeira pergunta? Quem fez o mundo?
  • Se foi Deus, quem fez Deus?
  • Por que se morre?
  • Por que se ama?
  • Por que há infinito?
  • Por que existo?
  • Por que faço perguntas?
  • Por que não há respostas?
  • Por que eu poderia perguntar indefinidamente por quê?
  • E por que deveria parar de fazer perguntas?

Por quê?9

Somos o efêmero fôlego formado por aquilo que amamos, por aquilo que os amigos e amigas nos amaram e na nossa memória deixaram. Desta forma, ser velho não será um estigma. Será como a ânfora de barro que já não retém mais a alegria e a espalha para que o cotidiano não seja banal.

Não esperemos nada deste mundo. O mundo para esta sociedade só tem sentido como espetáculo. Reservemos nossas lágrimas para alguns versos de Dante, Manuel Bandeira, Mario Quintana, para a multidão de mendigos que ainda lhes resta o gesto de pôr as mãos no lixo. Poderemos mudar um pouco o mundo se o contemplarmos com um olhar de emoção ou de compaixão. Sócrates, indagado a que deviam cheirar os velhos, respondeu: Ternura, bondade”.

O humor na velhice também é necessário. “Bendito aquele que aprendeu a rir de si mesmo, porque sempre estará entretido”, diz John Powell.

Quem se toma em demasiado a sério corre o risco de parecer ridículo. Não acontece o mesmo com quem sempre é capaz de rir de si mesmo.

Graças ao humor percebemos o irracional no que parece racional; o sem importância no que parece importante.

Para os orientais, transmitir um ensinamento por meio do humor é uma arte, desconhecida para nós ocidentais, marcados por um racionalismo torpe.

Na medida em que nos tornamos adultos, perdemos a relação com o suave, o flexível, com o riso, com o jogo. Aí está o sentido do humor para recordar-nos que crescer e tornar-se adulto não implica que o mundo e a vida sejam só seriedade, que viver não é sinônimo de ausência de humor, ausência do riso e do lúdico; que podemos crescer e guardar a vivacidade, a simplicidade e aprender através do humor que nós somos pequenos nadas, transitórios, finitos.

O sentido do humor é um instrumento tão necessário para viver, que paradoxalmente nos permite ter uma visão mais profunda do que acontece ao nosso redor. O humor despoja as coisas do superficial e nos faz ver o mais essencial.

Às vezes nos tomamos muito a sério a nós mesmos e somos inflexíveis com os outros. O humor é uma maneira de superar muitas situações, sem que isto possa supor complacência com a realidade ou a injustiça. O riso e o humor podem manter-nos salvos de muitas situações incômodas.

Muitas vezes, pelo fato de ser velho, vai se apoderando em nós a aparência de indivíduos aparentemente sérios, responsáveis, porém rígidos, secos e inflexíveis.

A importância pessoal, as considerações, a mentira sobre nós mesmos, pouco a pouco nos envenenam e perdemos o sentido do humor como uma maneira de olhar o mundo.

Desta forma, amargurados, o humor pode ser utilizado de diversas maneiras para a própria importância pessoal: para o engano ou para o ridículo; para atacar ou fazer mal aos outros ou para escapar das circunstâncias com medo de enfrentá-las.

Através do humor temos um caminho para o conhecimento de nós mesmos, o que nos dá uma qualidade de vida diferente e nos permite ser mais honestos conosco mesmos.

É preciso aprender a ignorar, a ignorar-se, esquecer um pouco mais as mágoas antigas. Ver apenas, falar apenas com o silêncio e assim a solidão em nós será sonora. Estamos sós, fomos sós e seremos sós. Serei ativo no ato do meu nada que sou. Compreenderei que a vida pode diminuir de ser, mas aumentar de intensidade. Seremos apenas uma solidão a ser curada. A solidão é o revelador fundamental do valor profundo de toda a sensibilidade humana. Este ritmo de vida que hoje sentimos submete e destrói o nosso ser íntimo e ao mesmo tempo o reergue. A solidão é necessária para colocar-nos diante de nós mesmos e fazer-nos mais íntimos. É precisamente nas coisas mais profundas e importantes que estamos indizivelmente sós. Assim estaremos maduros como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades. Amemos essa solidão verdadeira! Com certeza a beleza nascerá. Gozar e não morrer de contentamento. Sofrer e não ser vencido na dor: oh, que exemplar serenidade de gozo e que serenidade de sofrimento!

Viver as perguntas num dia e no outro as respostas; e se não vierem as respostas, são as perguntas que nos fazem andar e os nossos caminhos terão janelas e portas para a aurora. Lá fora haverá andorinhas sempre e dentro de nós ternuras que pedem olhares. Ficaremos comovidos pela bela preocupação com a vida e estaremos alegres no silêncio. Que seria da solidão que não tivesse grandeza?

Prestemos atenção a tudo que nasce dentro de nós. Estes acontecimentos interiores merecem todo nosso amor. Qualquer inquietação, dor e melancolia trabalham no aperfeiçoamento de nossa alegre substância.

Se quisermos ser imortais, sentemo-nos debaixo de um parreiral, de laranjeiras ou de ciprestes e pinheiros que são árvores perfumadas pelo canto dos pássaros; vislumbremos ou recordemos aqueles dias de liberdade no passado de nossa infância, na sombra destas árvores talvez o amor perdido ou proibido, as vozes felizes soando onde brincávamos. Lembremos aquela menina ou menino que foi nosso sonho e que esteve à espera de nossa ternura e desejo. Lembremo-nos daquela mulher ou homem que um dia acenou de forma admirável do alto de uma varanda, mas sem nome, e que numa tarde nos disse adeus, ou daquelas que estremeceram só pelo olhar enquanto que junto a nós balanceavam-se. Na infância, imaginar uma mulher era quase um ato de fé. E muitas vezes na palma da tempestade aprendíamos o alfabeto da ternura. Lembremo-nos de quando ficávamos na varanda à espera da Lua chegar ou quando íamos para o campo assistir à germinação da semente e a menina de nosso sonho, cabeleira solta ao vento. Lembremo-nos das nossas respirações em suspenso, das longas confidências no jardim de magnólias ou das pandorgas empinadas frente ao arco-íris querendo atravessá-lo de braço dado com a menina ou menino de nosso sonho! Se quisermos ser imortais, lembremo-nos dos dias azuis. Sentemo-nos frente à aurora e construamos de novo a casa que é a chama onde nossas lembranças reduzem-se a cinzas. Selecionemos de nosso passado um instante feliz, queimemo-lo nas nossas pálpebras com a luz do Sol do meio-dia e se com ela lograrmos esculpi-lo como um diamante, então seremos já imortais.

De encontro ao que disse acima, Alain Saury diz: “No se dura un año, o veinte o cien años; se dura un solo instante y asumirlo como es nos hace entrar de inmediato en la eternidad. Con todo, la muerte es la compañera fraternal de toda nuestra vida que nos hace sentir el gozo por la conciencia de la precariedad”.10

Fazer sessenta anos ou mais é fazer catálogo de esquecimentos, ruínas e alegrias também. Conforme os anos passam, multiplicam-se os juízos que nos julgam; conforme os anos passam, com menos vozes dialogamos. Vemos o Sol com outros olhos e tudo o que nos rodeia também. E o poeta Oscar Bertholdo diz: “A velhice é um jarro tão frágil de alegrias, tão cheio de ocasos.”11

Desta vida só levamos o que ficou gravado em nossa mente, em nossa memória. E na memória só se gravam as emoções e os sentimentos. E então, “iremos para a morte como para uma festa ao crepúsculo12, como disse Fernando Pessoa.

Não morrer — mas ser colhido pela morte,
Ser colhido, porque maduro, para o silêncio.
Não morrer — mas pender para a morte,
Como as frutas que, tocadas pelo tempo,
Inclinam-se para o único chão.
Não morrer — mas estar com a morte ampla e serena
Nos olhos, no coração e no corpo e na alma.
Estar para o fim, maduro como as amoras de vez,
Como as amoras da montanha.
Sentir em si a harmonia dos últimos passos
E o consolo dos olhares que não querem mais ver.
Ser levado pelas mãos da morte
E estar com a morte em si, como a esperança,
Como a única esperança. (Augusto Frederico Schmidt)

Mesmo que não a compreendamos, aprendamos a aceitá-la e assim estaremos no caminho da arte de morrer como festa do adeus, rodeados de amigos próximos e verdadeiros.

Para os sábios das culturas primitivas, a morte de um ancião de uma tribo significava como um incêndio de uma biblioteca para os ocidentais. Na África Negra, a oralidade é antes de tudo uma forma de entretenimento. Para a maioria das sociedades não tem sentido a necessidade de dotar-se de um sistema de escrita. A transmissão do sentido comum de sua história é feita através dos anciãos.

As pessoas velhas deveriam ser hoje as grandes contadoras de histórias. Isto representa seu valor: transferir experiências. Elas têm dentro de si todas as idades. A curiosidade, surpresa e a admiração que formaram a infância; o entusiasmo, a generosidade e o ímpeto que formaram a juventude; a reflexão, a ponderação e a serenidade que formaram sua madurez.

Meus avós disseram-me e os meus pais confirmam que as rugas são só marcas da dor e da felicidade. Percebo que seu tempo é íntimo e qualitativo, que a sua relação com a morte e a natureza é mais tranquila. Meus avós, para poder viver, sentiam necessidade de contar suas histórias. E este saber o adquiriram pelo olhar e pelo corpo. Ensinaram-me que a vida não é um “curriculum vitae”. Que a vida escapa ao documento, a qualquer certificado de existência ou de identidade. Que a vida é perturbadora e subversiva. Que a vida é mais perguntas que respostas. Que o saber não se ensina. Que não se deve ter medo e que muitas vezes se deve rir da própria vida, rir igual que chorar. Meus pais não me transmitiram somente a vida; confiaram-me também uma bagagem tão lentamente acumulada no decorrer dos anos, o patrimônio espiritual que eles mesmos receberam e construíram.

Miguel Torga, escritor português, ao completar oitenta e três anos: “O calendário não mente. Nem o meu corpo. Todo ele é um mostruário de velhice cansada. O espírito é que se mantém, ou parece teimosamente vivaz. E Deus o conserve assim, e ele me conceda a graça de assistir com lucidez à minha rendição. Ser jovem não é só ter vinte anos no corpo. É tê-los também, intemporalmente na alma, em cada instante rendido ao milagre permanente da vida e pronta a enriquecê-la. 'Envelhecer' não é para covardes. E morrer, muito menos.13

Ao envelhecer descobre-se que se vive profundamente se estivermos emocionalmente vivos, se somos curiosos, abertos às mudanças, às novas esperanças. O envelhecimento detém-se. Não é algo cronológico, mas psíquico. Só devemos conhecer a idade de nossa alma. Só assim estaremos sempre emocionados, próximos sempre da bondade humana.

Viver é expandir, é iluminar. Viver é derrubar barreiras entre os seres humanos e o mundo. Viver é compreender. Saber que muitas vezes nossa jaula somos nós mesmos, que vivemos polindo as grades em vez de libertar-nos delas. Viver é procurar descobrir nos outros sua dimensão universal e única. Não podemos viver permanentemente grandes momentos, mas podemos cultivar sua expectativa. A gente só é o que faz aos outros e consequência dessa ação.

A vida consiste num árduo equilíbrio entre a lembrança e o esquecimento. Viver é encontrar quando nada se procura.

Esta sociedade não nos ajuda a envelhecermos bem e quando fala em “terceira idade”, é apenas uma invenção para o aumento consumista. Preocupa-se em prolongar a vida e, no entanto, no final da mesma a empobrece, a deixa inquieta. A maioria dos seres humanos envelhece de uma forma estúpida; os animais, de uma forma discreta. Hoje não se tem a idade do coração ou da pele, mas a idade daquilo que se compra e se consome.

A natureza nos dá o rosto que temos aos vinte anos; cabe a nós merecer o rosto que temos aos sessenta ou setenta. Nosso rosto é a nossa biografia. Sabemos que as rugas do coração e da alma são mais difíceis de apagar.

Precisamos perguntar continuamente se ainda não envelhecemos por dentro. Por isto queremos viver até a velhice mais extrema. Velhíssimos até sermos confundidos com árvores mais próximas da terra. Desta maneira, a idade transfigura-se; caso contrário, petrifica-se.

Quando se é jovem, a esfinge que nos interpela na entrada das Tebas do mundo é sempre uma mulher. Na velhice é ainda um vulto feminino, mas sinistro, vestido de negro e de foice na mão.

A velhice é aceitar nossos limites, dar-se conta daquilo que somos, do que podemos ser, ou melhor, do que não podemos ser, sobretudo. Pelo que sentimos e pressentimos, não é ser velho que custa: é transitar para a velhice.

Estar nas profundezas da tristeza é uma experiência tão importante quanto ficar exuberantemente feliz. A verdadeira generosidade para o futuro está em dar tudo para o presente. Se formos capazes de celebrar o que somos e temos agora, mesmo enquanto estamos lutando para abolir o “agora” a bem de um “ainda não” melhor, tornaremos mais rico o “ainda não” quando for agora. Quem não tem futuro não tem passado. A memória é uma força rejuvenescedora, antimelancólica. Há algo de intrinsecamente belo no ato da lembrança.

No dizer de Rubem Alves:Se há um tempo de nascer, há também um tempo para morrer. Que o último momento seja belo como um pôr do Sol, longe do frio elétrico metálico das máquinas. A modernidade transferiu a morte do lar, lugar do amor, para as instituições, lugar de poder, dinheiro. A vida é uma criança. Brinca pela manhã, trabalha ao meio-dia, ama pela tarde. Mas chega a hora do crepúsculo, a hora do cansaço. Que triste não poder descansar.

Ah, os velhos! Estremecido fico ao olhá-los e adivinhar nos olhos o que foram, o que desejaram ser! E adivinhar também aquilo em que ficaram: uns descartados, colocados onde está tudo o que sobra: o lixo.

Na morte”, disse Isadora Duncan, “não quero nenhuma dessas palhaçadas que fazem da morte um horror macabro em vez de uma exaltação. Que magnífico o gesto de Byron queimando o corpo de Shelley numa fogueira à beira-mar e lançar suas cinzas no mar, ou espalhar as cinzas num jardim como pediu Lou Salomé. Os funerais modernos são de uma fealdade bárbara”.

Muitas vezes a idade vai fazendo avanços por dentro. Não são os anos que contam, mas a intensidade da luz que carregamos por dentro.

Criar é uma forma de espantar a velhice, a feiura. Até escrever é possível aos noventa anos. Escrever é criar sonhos. Escrever para deter o tempo. Escrever para não morrer e suplantar esta realidade tão banal muitas vezes e que sufoca nossa criatividade.

Nesta sociedade em que vivemos, dá-se muito valor à força física, à destreza. Define-se como eixo fundamental a produtividade, excluindo consequentemente os velhos. Presenciamos continuamente na TV o culto e a apologia da beleza e da força. Resultado: a desvalorização da sabedoria da idade e a má reputação de todas as formas de autoridade (inclusive a autoridade da experiência). Sabemos que os valores que esta sociedade impõe, como a beleza, a celebridade e o poder, declinam com o tempo.

A sabedoria é um dos poucos consolos da idade. Este valor real acumulado pode ser passado às futuras gerações. Nossa sociedade, no entanto, perdeu ou não quer mais este conceito de sabedoria e conhecimento. Não lhe dá lucro. A constante mudança tecnológica torna o conhecimento obsoleto e, em consequência, intransferível. Muitos velhos podem até não entender de internet, de computador, mas seu coração, sua memória, suas ressacas da alma, o bem que fizeram é muito maior que isto porque a memória é essencial para a humanidade. Sem memória não há identidade. Aquilo que a memória ama permanece eterno. Possuir o tempo da memória é a mais bela capacidade; é esse fio de Ariadne que nos salva da dor, da incerteza, de um labirinto e devolve-nos para a alegria de viver. Esta é a nossa beleza, nossa verdade que nos permite olharmo-nos no espelho com toda a serenidade e dizer até que temos a idade do mundo.

Vemos também em muitos velhos esta ânsia, quase que uma obrigação de aprender o novo: aprender a lidar com o computador, a internet, como se fosse a maior sabedoria, e seu passado apagado ou tentam apagar e acabam considerando o jovem como referência deste mundo. Com isto estão estimulando o corte de seus laços com o passado e assim serão adultos “macaqueando” estilos jovens.

Nesta sociedade tudo está posto em cima da utilidade. Seres inúteis é seu estigma. Tremenda solidão, a menos sonora esta, a da velhice. Eu não compreendo aqueles que zombam dos velhos, pois não pensam que eles serão talvez uns velhos ainda mais desgraçados e terão que aceitar novos conhecimentos.

Uma sociedade da qual os velhos foram banidos não é mais uma comunidade viva, mas uma fábrica, uma prisão. Como pode contagiar-nos sua fria indiferença? Uma sociedade que perdeu ou eliminou a preocupação pelo futuro de seus cidadãos é uma sociedade perversa. Aquele que não respeita a velhice não é digno dela.

Quando a perspectiva de ser substituído torna-se intolerável, a própria paternidade, que garante que isto acontecerá, aparece como uma forma de autodestruição.

A velhice não deveria ser um desastre. E o que aparece hoje na discussão da Reforma da Previdência? Como uma das maiores causadoras de problemas sociais deste país. Que se pode esperar desta Previdência que pretende prolongar a vida de trabalho dos velhos até à morte, enquanto condena os jovens ao desemprego ou a um trabalho precário?

Na Antiguidade grega e latina, nessas sociedades os velhos criavam assembleias com personalidades veneráveis que possuíam sabedoria. Falava-se do velho como nobre, enquanto que na atualidade o termo é pejorativo, carrega preconceitos. Fala-se então de “terceira idade”, “gente de certa idade”, ou de “pessoas maiores”.

Por que esta grande mudança? E como diziam os filósofos antigos: “Se o velho é verdade, é também beleza”. E beleza tremenda onde está retratada a idade do mundo.

A ciência trata de tornar a vida mais longa — para acentuar o que já disse no início deste texto — no entanto, a velhice converte-se num problema para a sociedade. Na verdade, para os velhos não lhes assusta a morte, mas sim a vida, e o temor ao futuro e seu breve futuro é o que os mata. Define melhor um povo inteiro a forma de tratar os velhos que a de tratar as crianças: com a esperança é mais fácil relacionar-se que com os resultados.

Em relação ao “Estatuto do Idoso” aprovado há pouco tempo pelo Congresso, o que tenho visto e sentido é o não cumprimento do mesmo, principalmente no que se refere a questões mais importantes ali inseridas.

Um país que tem muitas leis é também sinal que há muito descumprimento das mesmas. Existe um provérbio que diz: “Feita a lei, feita a tramoia”. Em todas as leis se estabelece o segredo e não a observância.

O que faltou nas discussões para a aprovação do “Estatuto do Idoso” foi uma participação maior da sociedade, dos setores que foram envolvidos para que o Estatuto se concretizasse de forma tal que pudesse ser cumprido e respeitado. Na verdade, a questão fundamental não é a lei em si que vai “salvar a velhice, o idoso”, mas sim a consciência e respeito que cada um deveria ter pelo ser humano e mais ainda pelo fato deste ser humano estar em idade avançada e pelo que representa e significa dentro da sociedade.

Eu penso que é muito triste um país que precisa criar um Estatuto específico para o velho, quando na verdade já existe uma Constituição e Previdência e nelas já existem referências ao velho. Da mesma forma poder-se-ia dizer com relação ao “Estatuto da Criança e do Adolescente”, “Da Mulher”, “Do Índio”. Por que tantos estatutos? O velho, a mulher, a criança, o negro e o índio são seres marginalizados nesta sociedade. Por quê? Preconceitos? Seres inferiores? A mesma sociedade que marginaliza cria depois leis para dizer-lhes que se preocupa com estes seres marginalizados. Isto é hipocrisia, incoerência. Não estou afirmando que não há necessidade de leis. Uma coisa é certa: países que têm poucas leis são países que mais cumprem as mesmas e menos problemas sociais têm.

Os Estatutos que carrego no meu coração e na mente são os do poeta Thiago de Mello. Estes têm me ajudado e proporcionado muitas alegrias nesta caminhada toda.

  • Artigo 1: fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira.
  • Artigo 2: fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra. E que as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança.
  • Artigo 3: fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. Parágrafo único: o homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.
  • Artigo 4: por decreto irrevogável fica estabelecido o reino permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
  • Artigo 5: fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de sua dor, de seu suor. Mas que, sobretudo, tenha sempre o quente saber da ternura.
  • Artigo 6: fica decretado, por definição, que um homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
  • Artigo 7: fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar a festa do dia que chegou.
  • Artigo final: fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e sua morada será sempre o coração do homem.14

Também não compreendo como não se preparam os mais jovens para envelhecer com imaginação, com curiosidade, surpresa e assombro!

O estigma de inúteis ou de pessoas que cultivam a tristeza é a maior injúria que pesa sobre eles. Dizer que possuem o maior tempo possível, que lhes sobra tempo, que não sabem fazer nada. Imagens de pessoas ociosas, desocupadas e indolentes que molestam a vida dos que trabalham. Com tantos preconceitos e estigmas, o difícil para eles não é morrer bem, mas viver bem.

A velhice torna-se então um peso. Que resta para muitos? O hospício e os asilos, que não são nada mais que depósitos de “inúteis”. E o panorama nestes asilos e hospícios é quase um panorama de horror onde os velhos, com olhar perdido (ficam sós com as recordações fazendo concessões, conversando sós com os botões e acabando sós com as emoções), como se tivessem sido lobotomizados, passam os dias rodeados de TVs ligadas em pleno volume a que ninguém presta atenção. Nada mais desolador que esta solidão. Lawrence Durrell, falando sobre a velhice, diz: “En occidente la vejez es algo tremendo. No es de extrañar que se la tema. Ni que a los viejos se los encierre en remotos apartamentos o asilos para ancianos (para quien puede) y se los dejan morir. Ya no son útiles y han perdido la alegría que deberían tener”.15

A solidão é um estado natural do ser humano como a companhia. No entanto, a cultura atual, e principalmente a ocidental, imposta pelos meios de comunicação, está montada como se a solidão fosse uma desgraça. Pergunto: por que tanto correr, tanto fazer, buscar, se onde temos que ir é para nós mesmos? A agitação, o ruído e a velocidade são para escapar de si mesmo?

Se não somos capazes de fazer frente a um presente tão inquietante, o que nos espera é um futuro ainda pior. O fato de não haver projetos históricos em longo prazo que dissimulem a própria finitude torna a velhice mais desprezada e inquieta ainda.

Os velhos continuam criativos porque o pensamento criativo inclui fundamentalmente brincar com o que se sabe fazer, parecer até estranho, um pouco louco diante das normas e assim o tempo toma outro gosto na velhice e o prazer de haver trabalhado para construir um mundo melhor, mais humano. Se tivermos presente isto, poderemos amar a solidão, mas não estaremos sós: teremos nossas lembranças. Depende do que se semeia e a maneira de cultivar o que foi semeado. Na velhice estão todas as idades e a solidão é uma boa amiga da bondade e da beleza. Quando estamos sós (olhar para dentro), mais intensamente nos compreendemos. E as lembranças terão poder de conforto porque serão colheitas de uma longa semeadura. E a ideia também da morte, do sofrimento, fará muitas vezes o papel de jardineira que arranca as más ervas do nosso jardim.

Os velhos são seres mais capacitados para acolher o riso e um instante de prazer. Não pedem muito. Pedem o que é melhor. Eles conhecem a arte de fazer devagar aquilo que não se pode fazer depressa. Conhecem a arte de amar melhor as crianças, de fazê-las rir, de incentivar brincadeiras, de encantá-las com histórias do tempo passado. A Arte de Transmitir a Seiva Profunda das Coisas Permanentes, duradouras, o gosto pelo trabalho criador. O que pedem em troca? Bondade e carinho. Esta é a sua fome maior.

Tenho presente também que a sociedade estabelece diferenças entre envelhecimento do homem e da mulher. Do homem é mais aceitável. Pode envelhecer de uma forma nobre como uma estátua de bronze, possuir caráter e qualidade. Para a mulher, a sociedade não perdoa o envelhecimento. Exige que sua beleza não mude nunca. Por quê? Será a mulher apenas um objeto de prazer para o homem? Lamento profundamente que o envelhecimento da mulher seja como flores que murcham. (A TV continuamente oferece esta imagem; a jovem e a mulher aceitam este papel em troca de dinheiro), enquanto que o homem deve ser mais parecido ao envelhecimento da arquitetura, com a velha crença que as mulheres devem amar os homens por seu caráter e as mulheres devem ser amadas pela qualidade efêmera, o que chamamos de beleza física apenas.

As mulheres de hoje (de cinquenta ou mais anos) estão perplexas. O problema vai mais além da menopausa, dos estiramentos da pele da cara. Tem a ver com toda uma imagem de identidade numa cultura enamorada da juventude e sem nenhum amor às mulheres como seres humanos. As mulheres de cinquenta anos estão num estado de perplexidade e raiva. Não chegou a acontecer nada daquilo que esperavam. Mulher, que aconteceu com os vinte e cinco anos de protestos para não querer ser mais umas “Barbies” de plástico? Que houve da raiva, da psicanálise e dos mitos de beleza?

São os homens que obrigam as mulheres a temer o envelhecimento ou são as mulheres mesmas que estão aterrorizadas porque só conhecem um tipo de poder, o poder da beleza e da juventude? É preciso também perguntar: quem impõe os parâmetros da beleza?

Hoje se dão bofetadas por causa do vazio espiritual em que se encontram. Sem espírito é impossível encarar que se envelhece e se morre. E como podem encontrar com facilidade as mulheres o espírito numa sociedade em que sua mais permanente identidade é a de consumidoras, em que toda a luta pela autonomia e identidade choca com os implacáveis ditados do mercado; um mercado que as vê como consumidoras de tudo e prestam-se a ser veículos de propaganda, desde carros, cosméticos e cirurgia plástica?

Por que a propaganda suprime a questão da morte quando fala da velhice, principalmente se a referência é a mulher? Claro que não é agradável contemplar a própria morte se a vida que levamos não foi digna. Para esta propaganda, uma vida digna não lhe serve.

Muitos talvez se perguntem do tempo perdido. E eu aqui me lembro de um belo poema de Mario Quintana que diz: “Houve um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro de casa era um grande personagem. E também o relógio da parede. Ele não media o tempo simplesmente, ele meditava o tempo.16

Outro escritor brasileiro que tão bem nos coloca diante da velhice é Affonso Romano de Sant’Anna:Na verdade se devia envelhecer maciamente. Nunca aos solavancos. Os elefantes envelhecem bem. Os vinhos, melhor ainda. Ficam ali nos limites de sua garrafa, na espessura de seu sabor, na adega do prazer. Vão envelhecendo e ganhando vida, envelhecendo e sendo amados, e, porque velhos, desejados. Os vinhos envelhecem densamente e dão prazer. A gente devia ir se gastando, se gastando até desaparecer sem dor, como quem, caminhando contra o vento, de repente, se evaporasse. E aí iam perguntar: Cadê fulano? E alguém diria: gastou-se, foi vivendo, vivendo e acabou.17 Bilac dizia que a gente deveria aprender a envelhecer com as velhas árvores. Walt Whitman tem um poema que diz: “Creio que poderia viver com os animais. São tão plácidos e sofridos. Permaneço olhando-os dias e dias sem cansar-me. Não perguntam, nem se queixam de sua condição. Não andam acordados à noite, nem choram por seus pecados. E não me incomodam discutindo seus deveres para com Deus. Não há nenhum descontentamento, nem ganho pela loucura de possuir coisas. Ninguém se ajoelha diante dos outros, nem diante dos mortos de sua classe.18

É preciso não se esquecer da arte de sonhar. Quem é rico em sonhos não envelhece nunca. Pode alguém morrer de repente. Mas morreu em pleno voo, o que é muito bonito. E como diz Alberto Caeiro (Fernando Pessoa):

E o tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase maliciosos,
Sentir-nos ir,
Tendo as crianças
Por nossas mestras
E os olhos cheios de natureza.

Quando digo passado, não é como algo morto e esquecido, mas como algo que levamos conosco, que fecunda o presente e torna atrativo o futuro e assim poderei salvar-me do medo da morte para que seja capaz de morrer dignamente.

Guimarães Rosa diz que os rios não querem chegar, eles querem ficar mais largos e mais fundos.

E para terminar, Cecília Meireles diz: “Devíamos ser como a flor que se cumpre sem pergunta. A cigarra queimando-se em música, ao camelo que mastiga sua longa solidão. O pássaro que procura o fim do mundo, o boi que vai com inocência para a morte. Sede assim qualquer coisa serena, isenta, fiel. Não como os demais homens.19

E Oscar Bertholdo:

(...) Todos os caminhos cabem
Na cadeira de balanço.
De saber-se sem pressa
Mesmo sem ter chegado.
A velhice é um jarro
Tão frágil de alegrias,
Tão cheio de ocasos”20

“Um animal, ao envelhecer conserva sua graça. Por que a bela argila humana (o homem) estraga-se assim?”. 21

(Delmino Gritti)

Cito mais alguns escritores e pensadores e o que disseram sobre a velhice:

  • "A velhice anuncia ao homem o seu destino: o homem insensato, que afinal todos somos mais ou menos, tende a recusá-lo, maquilando-a, disfarçando-a enquanto pode e depois a encerrando longe da vista e do coração. O reverso da medalha é o culto da juventude. Televisões, rádio, publicidade, lazer, estão cada vez mais virados para os jovens e adolescentes. Mas sob o lema 'o futuro pertence aos jovens' está normalmente mais uma aposta comercial do que uma verdadeira preocupação social. Num mundo em que a aparência é tudo, as rugas não têm direito à vida". (Esther Mucznik)
  • “Los primeros cuarenta años de vida nos dan el texto; los treinta siguientes, el comentario”. (A. Schopenhauer)
  • “Para pesar a vida numa balança justa, devemos sempre recordar-nos da fragilidade humana”. (Plínio, o Antigo)
  • “Agora que sou velho aprendo o Sol nos olhos, a água na garganta. Prendo-me no que posso e no que espero e rego os jardins e canto”. (Delmino Gritti)
  • Envelhecer não é contar tempo, / É aceitar o rumor silencioso do Corpo, / Pequeno grito de uma folha / Despencando do ramo e / Arrepio de sombra na quietude. (Delmino Gritti)
  • “O segredo de uma boa velhice é fazer um conveniente contrato com a solidão: Isto quer dizer: saber merecê-la e preservá-la”. (Gabriel García Márquez)
  • “Quando morreres, só levarás aquilo que tiveres dado”. (Sabedoria árabe)
  • A velhice é quando um dia as moças começam a nos tratar com respeito e os rapazes sem respeito nenhum”. (Mario Quintana)
  • “Tem sonhos fundos a velhice. O tempo se abre para dentro”. (Oscar Bertholdo)
  • Carlos Drummond de Andrade, referindo-se a um retrato juvenil de Cecília Meireles, diz: “O mais extraordinário não é a moça bonita que ela foi. É a velha bonita que ela é”.
  • “Torna-te velho cedo, se queres ser velho por muito tempo”. (Cícero)
  • “O esquecimento, bálsamo devorador da memória, é uma dádiva, mas é também uma arte”. (Casimiro de Brito)
  • “La ciencia alarga la vida, pero ¿cómo se corta la muerte?” (Roberto Juarroz)
  • “Si eres viejo y sabes ser viejo, oh, cuánto sabes!” (Antonio Porchia)
  • “La juventud vive de juventud y la vejez de tiempo”. (Antonio Porchia)
  • “La vida se mide por su intensidad, no por su duración”. (Avicena)
  • Envejecer es pasar de la pasión a la compasión”. (A. Camus)
  • “Saber envejecer es la obra maestra de la sabiduría, y uno de los capítulos más difíciles en el gran arte de vivir”. (H. Melville)
  • “La vida de uno no es lo que sucede, sino lo que uno recuerda y cómo lo recuerda”. (G. G. Márquez)
  • “No me siento de ninguna idade. Si hay alguna edad, quizá sea la infancia; la eternidad y la infancia”. (Marguerite Yourcenar)
  • “Porque eso son los viejos: la cuerda, la ligazón que hay entre la vida y el abismo de la muerte”. (F. G. Lorca)
  • “¿Por qué no recuerdan los viejos las deudas ni las quemaduras? ¿La muerte será de no ser o de sustancias peligrosas? Cuando se fueron los huesos ¿Quién vive en el polvo final?” (Pablo Neruda)
  • “Unas gotas de luna en los ojos de los ancianos ayudan a bien morir”. (Jaime Sabines)
  • “Voy a envejecer para todo. Para el amor, para la mentira. Pero nunca envejeceré para el asombro. Siempre me seguirán asombrando as coisas elementales”. (Chesterton)
  • “¿Tenemos un espléndido pasado por delante? Para los navegantes con ganas de viento, la memoria es un puerto de partida”. (Eduardo Galeano)
  • Oda a la edad: Yo no creo en la edad. Todos los viejos llevan en los ojos un niño, y los niños a veces nos observan como ancianos profundos. (Pablo Neruda)
  • Los Indios Viejos: Los hombres viejos, muy viejos, están sentados junto a sus cabras, junto a sus pequeños animales mansos. Los hombres viejos están sentados junto a un río que siempre va despacio. Ante ellos el aire detiene su marcha, el viento pasa, contemplándolos, los toca con cuidado para no desbaratarles su corazón de ceniza. Los hombres viejos sacan al campo sus pecados, este es su trabajo. Los sueltan durante el día, pasan el día olvidando, y en la tarde salen a lazarlos para dormir con ellos calentándose. (Joaquín Pasos-Granada)
  • “Cuando nacemos, en general, somos envueltos por brazos protectores. Es mi ambición que cuando sea vieja, muy vieja, también sea envuelta por brazos protectores cuando lo necesite, ojalá por los mismos seres a quienes les brindé protección, de esta manera cumplir el ciclo de la vida como me siento que debe ser”. (Ana Arroba)
  • “Con la edad (ser más viejo) se gana paciencia, más serenidad y madurez por supuesto. Puede ser también que los años le regalen a uno más lucidez, porque las cosas empiezan a verse no sólo con los ojos del presente sino también con los del pasado, y entonces uno puede tener una visión más aproximada del futuro. Pero también cuando uno se hace más viejo, el cuerpo se va deteriorando e a energia muda, embora o corpo seja a meseta onde se apoiam as coisas do espírito”. (Mario Benedetti)
  • “As pessoas velhas têm a morte e as pessoas jovens têm o amor; a morte chega apenas uma vez, e o amor, muitas vezes”. (Yasunari Kawabata)
  • “Só na velhice a mesa fica repleta de ausências. (...) Envelheci, tenho muita infância pela frente”. (Fabricio Carpinejar)
  • “Todos desejam viver por muito tempo, mas ninguém quer chegar a ser velho”. (Simone de Beauvoir)
  • “Morte, desperdiças teu tempo sobre minha vida ferida, pois aquele que nunca viveu não morrerá.” (Francisco de Quevedo)
  • Perguntaram a Diógenes (o filósofo) qual era a coisa mais miserável da vida, disse: “O velho pobre”.
  • “La idea de la muerte es lo único que templa nuestro espíritu”. (C. Castaneda)
  • “Mi fuerza es no haberle encontrado respuesta a nada”. (Emil Cioran)
  • “Quem pratica a filosofia corretamente aprende a morrer e não teme a morte”. (Sócrates)
  • “De lo que me queda de la vida, me preocupa no tener la serenidad que necesito para envejecer correctamente y vivir sin molestar a nadie”. (Félix Grande)
  • “Solamente tenemos un recurso frente a la muerte: hacer arte antes que ella”. (René Char)
  • “Llevar la decrepitud como una flor. O como una corona. Es envidiable el otoño, la segura y hermosa dignidad con que se acuestan las hojas de los árboles sobre la tierra. Es envidiable el invierno de esas latitudes donde la nieve y el silencio se parecen a la sabiduría que nos seduce por su ausencia de sombra”. (Blanca Varela)
  • La vejez. En principio, por la coherencia con la memoria. Somos seres con memoria, sin ella no seriamos nada. La memoria sustenta la amizade, e a energia da idade também. Quando queres ver teu rosto, olhas num espelho; mas quando queres saber quem és, te olhas no rosto de um amigo, porque o amigo é outro eu”. (Emilio Lledó)
  • “Los que viven en la vejez son tiempos frontera. Los recorres, pero siempre mirando lo que ha acontecido en la vida y sin ese camino no te encuentras con la amistad, eres o ser mais desgraciado da vida”. (Fernández Alba)
  • “Seguramente no hay una vida después de la muerte, pero fijo que hay una vida antes de la muerte, y hay que construirla tan rica como podamos”. (Jean-Claude Carrière)
  • Usted: Usted que es una persona adulta —por lo tanto— sensata, madura, razonable, con gran experiencia y que sabe muchas cosas, ¿Qué quiere ser cuando sea niño? (Aníbal Niño)
  • “Alguien me habló todos los días de mi vida al oído, despacio, lentamente. Me dijo: ¡vive, vive, vive! Era la muerte”. (Jaime Sabines)
  • “Bastante raro que el pasado esté siempre tan presente”. (Carlos Villamil)
  • “Quem possui a faculdade de ver a beleza não envelhece”. (F. Kafka)
  • A velhice faz-nos mais rugas no espírito do que na cara”. (Michel de Montaigne)
  • Envelhecer ainda é a única maneira que se descobriu de viver muito tempo”. (C. Sainte-Beuve)
  • “Saber envelhecer é a obra-prima da sabedoria e um dos capítulos mais difíceis na grande arte de viver”. (Hermann Melville)
  • Envejecer sin agriarse como los buenos vinos”. (Cicerón)
  • Envejecer es como escalar una gran montaña: mientras se sube as forças diminuem, mas a mirada é mais livre, a vista mais ampla e serena”. (Ingmar Bergman)
  • “Vieja madera para arder, viejo vino para beber, viejos amigos en quien confiar y viejos autores para leer”. (Francis Bacon)
  • “Una bella ancianidad es, ordinariamente, la recompensa de una bella vida”. (Pitágoras)
  • “Los que en realidad aman la vida son aquellos que están envejeciendo”. (Sófocles)

Delmino Gritti (1942). Licenciado em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul. Desenvolvi trabalhos em relação ao livro desde 1965. Participei do livro “Matrícula” (poesia) junto com Oscar Bertholdo, José C. Pozenato, Jayme Paviani e Ari N. Trentin, publicado em 1967. Em 1969, fui premiado com o filme (curta-metragem) “Hoje o susto eletrônico” no festival de cinema do Jornal do Brasil. O filme teve a direção de Alpheu Godinho e o roteiro e argumento de Delmino Gritti. Em 2004, prêmio de poesia no 38° Concurso Anual de Caxias do Sul. Em 2006, premiado pelo Fundoprocultura de Caxias do Sul com o livro “Dos tijolos da Suméria aos megabytes pós-humanos do terceiro milênio” e, em 2008, de novo premiado pelo Fundoprocultura de Caxias do Sul com o livro “Conc(s)ertos em dó maior para as perdas do espanto” (poesia).

NOTAS:

  1. Norberto Bobbio“De senectude y otros escritos autobiográficos” — Madrid — Ed. Taurus — 1997.
  2. Bruna Lombardi“Diário do Grande Sertão” — Ed. Rio Gráfica — 1986.
  3. Delmino Gritti“Sobre o livro e o escrever” — Ed. do Maneco — Caxias do Sul, RS — 2002.
  4. Adélia Prado“Poesia Reunida” — Ed. Siciliano — SP — 1999.
  5. Clarice Lispector“A Descoberta do Mundo” — Ed. Francisco Alves — RJ — 1992.
  6. José Echeverria“Aprender a filosofar preguntando con Platón, Epicuro, Descartes” — Ed. Anthropos — Madrid, España — 1997.
  7. João Silvério“Ana em Veneza” — Ed. Best Seller Círculo do Livro — SP — 1994.
  8. Rubem Alves“O Retorno e Terno” — Crônicas — Papirus Ed. — SP — 1992.
  9. Clarice Lispector“A Descoberta do Mundo” — Ed. Francisco Alves — RJ — 1992.
  10. Alain Saury“La vida autosuficiente — revivir con la naturaleza” — 2 vols. Ed. Blume — Barcelona, España — 1987.
  11. E. M. Cioran“El libro de las Quimeras” — Ed. Tusquets — Barcelona, España — 1996.
  12. Fernando Pessoa“Obra Poética” — Ed. José Aguilar Ltda. — RJ — 1960.
  13. Miguel Torga“Diário — vol. XVI — 1941-1993” — Gráfica Coimbra — Portugal.
  14. Thiago de Mello“Faz escuro, mas eu canto” — Ed. Civilização Brasileira — RJ — 1968.
  15. Lawrence Durrell“La celda de Próspero” — Ed. Edhasa — España — 1999.
  16. Mario Quintana“Caderno H” — Ed. Globo — Porto Alegre, RS — 1973.
  17. Affonso Romano de Sant’Anna“O homem que conheceu o amor” — Ed. Rocco — RJ — 1988.
  18. Walt Whitman“Obra poética completa” — 4 vols. — Ed. Río Nuevo — España — 1985.
  19. Cecília Meireles“Crônicas de Viagem” — 3 vols. Ed. Nova Fronteira — RJ — 1999.
  20. Oscar Bertholdo“Bocca Chiusa” — Ed. EDUCS — Caxias do Sul, RS — 1996.
  21. Antoine de Saint-Exupéry“Terra dos Homens” — Ed. Nova Fronteira — RJ — 1988.

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