O Cérebro e a Construção da Identidade Humana

Classificado em Psicologia e Sociologia

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1. A importância das áreas pré-frontais no comportamento humano

Os estudos do neurocientista António Damásio, a partir dos casos de Phineas Gage e Elliot, revelam que as áreas pré-frontais são responsáveis pelas funções intelectuais superiores: a memória (permitindo-nos recordar o passado e planear o futuro), o pensamento reflexivo e a imaginação. É nestas áreas que se processa a resolução de problemas, a tomada de decisões, a planificação e a capacidade de prever o efeito das nossas ações. É também nestas áreas que se faz a coordenação entre as emoções e a capacidade de decidir.

Phineas Gage, em 1848 (séc. XIX), sofreu um acidente no seu local de trabalho: uma barra de ferro atravessou-lhe a cabeça, penetrando no queixo e saindo pela parte superior do crânio. Apesar de manter as funções motoras e intelectuais, a sua personalidade sofreu alterações profundas: deixou de ser um homem calmo e educado para se tornar grosseiro e irritável. António e Hanna Damásio comparam este caso ao de Elliot, que, após retirar parte do córtex devido a um tumor, manifestou uma grande indiferença afetiva.

Face a estes sintomas, Damásio coloca a hipótese de as emoções e as capacidades de reflexão estratégica estarem relacionadas. Ele contraria Descartes (que defendia que as emoções se opõem à razão) ao afirmar que a emoção está intimamente relacionada com as escolhas racionais, funcionando como um guia. O córtex apoia-se nas informações emocionais para tomar decisões adaptadas e atua como inibidor de impulsos, impedindo reações desadequadas.

2. Princípios básicos do funcionamento do cérebro

  • Especialização: O cérebro não funciona de forma indiferenciada; existem zonas que dão o seu contributo específico para o comportamento.
  • Integração Sistémica: Apesar das zonas específicas, o cérebro funciona como um todo. Diferentes capacidades dependem do funcionamento integrado de várias áreas.

O cérebro funciona de forma sistémica porque é um conjunto complexo de elementos independentes que funcionam de forma integrada (ex: linguagem e memória). Além disso, existe a função vicariante ou suplência: uma função perdida por lesão pode ser recuperada por uma área vizinha graças à plasticidade cerebral.

3. O desenvolvimento cerebral humano e a lentificação

O desenvolvimento do sistema nervoso humano é muito mais lento do que o de outros mamíferos. Ao nascer, o ser humano apresenta um cérebro imaturo e inacabado. Esta lentidão (neotenia) é uma vantagem, pois possibilita a influência do meio e uma maior capacidade de aprendizagem. O caráter embrionário do cérebro permite a adaptação biológica e a plasticidade ao longo de toda a vida.

4. O conceito de plasticidade cerebral

A plasticidade cerebral é a capacidade do cérebro de se remodelar e reformular conexões em função das experiências e do meio ambiente. As redes neuronais modificam-se com as vivências, permitindo a aprendizagem contínua.

5. Diversidade dos cérebros e o processo de individuação

Hoje sabe-se que o cérebro apresenta múltiplas configurações; não há um cérebro igual a outro. As pessoas distinguem-se pelas suas aptidões mentais e formas cerebrais diversas. Embora parte dessas diferenças seja genética, o processo de individuação é influenciado pelas experiências (desde as intrauterinas). A plasticidade é o motor que torna cada indivíduo único.

6. A dimensão social no tornar-se humano

Tornamo-nos humanos através da aprendizagem e de formas partilhadas de ser. A vida em sociedade e a criação de culturas são decisivas para o desenvolvimento humano.

7. Consequências da privação social: crianças selvagens

O termo "crianças selvagens" refere-se a quem cresceu privado de contacto humano. Casos como Victor de Aveyron, Amala e Kamala, Genie e a portuguesa Isabel mostram que, sem interação social, a linguagem verbal é nula ou reduzida e o comportamento social não segue padrões humanos. Estas crianças têm dificuldade no controlo emocional e em reconhecer emoções alheias. A sua existência prova que dependemos do contacto sociocultural para desenvolver competências humanas; a genética não atua sozinha.

8. Conceitos de Cultura e Socialização

  • Cultura: Conjunto de atividades, conhecimentos e valores através dos quais o ser humano interpreta a realidade e se adapta.
  • Socialização: Processo de interiorização de padrões de comportamento e normas de uma comunidade.

9. Socialização Primária e Secundária

  • Primária: Ocorre na infância e adolescência; responsável pelas aprendizagens básicas da vida em comum.
  • Secundária: Ocorre ao longo da vida sempre que o indivíduo precisa de se adaptar a novas situações sociais.

10. A história pessoal como auto-organização

Cada indivíduo possui uma história de vida singular que o individualiza. Os seres humanos são auto-organizados: organizam o seu fluxo de experiências para o tornar compreensível. Não somos passivos; somos agentes ativos de transformação de nós próprios e das nossas comunidades.

11. Imaturidade biológica do bebé e competências básicas

O bebé nasce prematuro e dependente, mas dotado de competências comunicacionais para garantir a sobrevivência:

  • Choro: Meio eficaz para manifestar necessidades.
  • Sorriso: Desencadeia confiança e afeto nos cuidadores.
  • Vocalizações (lalações): Emissões vocais repetitivas (3 a 6 meses).
  • Expressões faciais: Transmitem mensagens com expectativa de resposta.

13. A comunicação materna como competência básica

A capacidade da mãe (ou cuidador) de comunicar com o bebé e responder positivamente às suas necessidades é uma competência básica fundamental para o desenvolvimento saudável.

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