O Cérebro Humano e a Influência da Cultura: Guia Completo
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O Sistema Nervoso Central
Principais Funções do Sistema Nervoso Central
O sistema nervoso central (SNC) assume uma importância fundamental para o ser humano, sendo responsável pela coordenação das funções exercidas pelo organismo. Ele recebe os estímulos vindos do meio, quer interno quer externo, organiza-os, interpreta-os e produz uma resposta. É, portanto, o sistema nervoso central que estabelece a relação entre nós e o meio ambiente, sendo responsável por todo um conjunto de elementos que tornam possível o nosso comportamento.
Isto implica os seguintes mecanismos:
- Mecanismos de receção: Onde os órgãos dos sentidos captam os estímulos do meio, quer interno quer externo.
- Mecanismos de coordenação: Constituídos pelo sistema nervoso central e periférico, que organizam as informações recebidas pelos órgãos recetores e ordenam as respostas a executar pelos órgãos efetores.
- Mecanismos de reação ou eferentes: Principalmente os músculos e as glândulas, que são responsáveis pelas respostas aos estímulos.
O SNC processa e coordena as informações, transmite os sinais e mensagens de um neurónio para outro. A informação que circula ao longo dos neurónios é o influxo nervoso.
Constituição do Sistema Nervoso Central
O sistema nervoso central é constituído pela medula espinhal (situada na coluna vertebral) e pelo encéfalo (situado na caixa craniana). Também é constituído por dois tipos de células: as células gliais e os neurónios.
Funções dos Seus Principais Componentes
As células gliais são responsáveis pelo processo de alimentação dos neurónios, fornecendo-lhes oxigénio e glicose. São também importantes para o desenvolvimento dos neurónios, para a determinação de quais neurónios funcionam corretamente, para a manutenção do ambiente químico que os envolve, para a sua maturação, para a comunicação cerebral, para o funcionamento das sinapses e para o desenvolvimento do cérebro no período fetal.
Os neurónios são responsáveis por grande parte das funções desempenhadas pelo sistema nervoso central e asseguram o processo de comunicação, transmitindo o impulso nervoso.
Dos outros constituintes, a medula espinhal é a estrutura responsável pelos comportamentos reflexos, sendo também o elemento de ligação entre o cérebro e as outras partes do organismo. Protegida por vértebras, é o elemento fundamental de todas as respostas reflexas e voluntárias produzidas pela zona “abaixo do pescoço”. Desempenha funções como receber informações e transportá-las para o cérebro, bem como transportar informação para os órgãos efetores, promovendo o ato reflexo. A medula espinhal é constituída por dois tipos de matéria: uma que é transmissora da informação para o cérebro e outra, na zona central, que é responsável pelo processamento da informação.
Quanto ao encéfalo, a sua principal estrutura é o cérebro. Este está protegido pela caixa craniana e é constituído por três unidades funcionais: o encéfalo posterior, médio e anterior.
Constituição dos Neurónios
Os neurónios são constituídos por três partes: o corpo celular, as dendrites (que interagem entre si) e o axónio.
Tipos de Neurónios e as Suas Funções
É possível distinguir três tipos de neurónios de acordo com as suas funções:
- Neurónios aferentes ou sensoriais: Responsáveis pela captação de estímulos. Recebem e conduzem a informação para os centros nervosos (medula espinhal e encéfalo).
- Neurónios eferentes ou motores: Conduzem as mensagens dos centros nervosos para os órgãos efetores (músculos e glândulas), promovendo uma resposta.
- Neurónios de conexão (ou interneurónios): Interpretam informações, elaboram respostas e asseguram a comunicação entre os outros tipos de neurónios.
Comunicação no Sistema Nervoso
A comunicação entre os neurónios é feita através do impulso nervoso. Este processo inicia-se quando as dendrites captam o estímulo, integram-no e produzem um impulso nervoso. Este impulso é transmitido ao axónio, seguindo para as ramificações axónicas. As ramificações dos axónios aproximam-se das dendrites do neurónio vizinho e produzem a sinapse. Grande parte do processo inicia-se nos órgãos dos sentidos, que captam as informações do meio (mecanismos de receção ou recetores). Estas informações são interpretadas e tratadas pelo sistema nervoso, que coordena, processa e determina as respostas aos estímulos recebidos (mecanismos de coordenação ou processamento). São sobretudo os músculos e as glândulas que efetuam as respostas (mecanismos de reação ou efetores).
O Que é a Sinapse?
Não existe uma relação física entre neurónios, e a transmissão de informação de uns para os outros ocorre por um processo muito peculiar. A sinapse consiste numa zona de interação entre neurónios vizinhos, sem que para tal estabeleçam contacto físico. Esta permite a troca de informação entre os neurónios. Este fenómeno é possível graças aos seguintes componentes:
- Botão pré-sináptico: Terminação axónica do neurónio emissor.
- Fenda sináptica: Espaço cheio de líquido compreendido entre os neurónios.
- Membrana pós-sináptica: Localizada na dendrite ou corpo celular do neurónio recetor.
As vesículas sinápticas contêm neurotransmissores que, sob o efeito da atividade elétrica do axónio, se libertam para a fenda, atravessam-na e são captados pelos recetores situados na superfície do neurónio pós-sináptico.
Classificação da Energia Nervosa
A energia nervosa é de dois tipos: elétrica nas dendrites e química ao nível dos neurotransmissores. Como tal, as mensagens nervosas ocorrem por processos eletroquímicos.
O Que é o Influxo Nervoso?
Influxo nervoso é o nome que designa a informação que circula ao longo dos neurónios. Este processo consiste no seguinte: as dendrites captam o estímulo e os sinais, que podem ter origem nos neurónios vizinhos. Estes sinais são integrados, gerando um impulso nervoso. Este impulso é transmitido ao axónio e conduzido às suas ramificações, que se aproximam das dendrites do neurónio vizinho, transmitindo o sinal através deste (entrada-saída).
Mecanismos do Comportamento Humano
Os três tipos de mecanismos presentes no comportamento humano são: mecanismos de receção, de coordenação e de processamento.
Componentes Principais do SNC
O sistema nervoso central é constituído pela medula espinhal e pelo encéfalo, que controlam todos os nossos comportamentos.
Funções da Medula Espinhal
A medula espinhal é a estrutura responsável pelos comportamentos reflexos, sendo também o elemento de ligação entre o cérebro e as outras partes do organismo. Protegida por vértebras, é o elemento fundamental de todas as respostas reflexas e voluntárias produzidas pela zona “abaixo do pescoço”. Desempenha funções como receber informações e transportá-las para o cérebro, transportar essa informação para os órgãos efetores e, consequentemente, promover o ato reflexo (forma de comportamento mais elementar, dado que é uma resposta imediata, involuntária e automática a um estímulo). A medula espinhal é constituída por dois tipos de matéria: uma que é transmissora da informação para o cérebro e outra, na zona central, que é responsável pelo processamento da informação. Competem-lhe duas funções: a de coordenação, que remete para a responsabilidade em coordenar a atividade reflexa, e a função de condução, que transmite mensagens do cérebro para o resto do corpo e vice-versa. Em condições muito extremas, pode ocorrer uma debilidade nas extremidades do corpo, até à paralisia total e à perda dos reflexos de sensibilidade.
Tipos de Comportamento Humano
Existem dois tipos de comportamento: o comportamento simples (ato reflexo) e o comportamento complexo (que envolve a intervenção do cérebro).
O Ato Reflexo
O ato reflexo é a forma de comportamento mais elementar, dado que é uma resposta imediata, involuntária e automática a um estímulo.
Localização do Encéfalo
O encéfalo encontra-se localizado no interior do crânio, protegido por um conjunto de três membranas, as meninges.
A Perspetiva dos Frenologistas
Os frenologistas foram os primeiros a defender a relação íntima entre o cérebro e as características da personalidade e do temperamento das pessoas. A partir dos crânios de condenados à morte e de doentes mentais, bem como de bustos de homens célebres, procuraram estabelecer uma relação entre as proeminências da caixa craniana e o comportamento. Gall foi o primeiro a desenhar um mapa do cérebro, sem rigor científico, onde alertou para a possibilidade de se relacionarem certas áreas do cérebro com certas funções psíquicas. É claro que não existe relação entre as irregularidades da caixa craniana e as nossas características e capacidades. No entanto, os frenologistas foram os primeiros a afirmar que o estudo da mente humana se deve basear no conhecimento biológico do cérebro.
Especialização Funcional do Cérebro
A especialização do cérebro consiste no modo como este se organiza segundo as funções a desempenhar. O ser humano apresenta o cérebro dividido em dois hemisférios, o esquerdo e o direito, que estão separados por uma fissura longitudinal e ligados por um sistema de fibras nervosas, o corpo caloso. O córtex cerebral (que controla os movimentos voluntários) é a camada cinzenta que cobre os hemisférios cerebrais e onde residem as capacidades superiores dos seres humanos.
Lateralização Hemisférica
Os hemisférios desempenham funções diferentes; cada um especializa-se em funções diversas. Efetivamente, os hemisférios controlam a parte oposta do corpo devido aos feixes nervosos que conduzem as instruções até aos músculos, que se cruzam no percurso. Este fenómeno é conhecido como lateralização hemisférica.
Funções Específicas dos Hemisférios Cerebrais
As principais funções desempenhadas pelos hemisférios são:
- Hemisfério direito: Responsável por imagens, relações espaciais, pensamentos concretos, etc.
- Hemisfério esquerdo: Responsável pelo pensamento lógico, linguagem verbal, discurso e cálculo.
Além destas funções específicas, nunca podemos esquecer a complexidade do cérebro humano, pelo que os hemisférios funcionam de forma complementar e apresentam um funcionamento integrado.
Comunicação Entre os Hemisférios
Os hemisférios comunicam entre si pelo corpo caloso (que liga os dois hemisférios) e estão revestidos pelo córtex cerebral, a camada cinzenta onde se localizam as capacidades superiores da espécie humana.
Importância do Funcionamento Integrado
É graças ao funcionamento integrado dos hemisférios que atribuímos, por exemplo, um significado a uma expressão verbal, a uma conversa. Quando desenvolvemos um diálogo, é o hemisfério esquerdo que permite a produção do discurso, contudo, é o direito que dá a entoação ao que se diz. É também este hemisfério que permite aos ouvintes compreender e atribuir significado às nossas palavras. “Quase nada é regulado só pelo hemisfério direito ou só pelo hemisfério esquerdo”.
Constituição dos Hemisférios: Os Lobos Cerebrais
Cada hemisfério é constituído por quatro lobos:
- Lobos occipitais: Situam-se na parte inferior do cérebro e encontram-se revestidos pelo córtex cerebral.
- Lobos temporais: Situam-se acima das orelhas.
- Lobos parietais: Situam-se na parte superior do cérebro.
- Lobos frontais: Situam-se na parte frontal do cérebro e são responsáveis pelos movimentos executados pelos músculos.
Tipos de Áreas Corticais
No córtex cerebral são identificados dois tipos de áreas: a área primária, que recebe e produz a informação sensorial, e a área secundária, que interpreta as informações recebidas pela área primária, coordenando os dados sensoriais, as áreas psicossensoriais, as funções motoras e as áreas psicomotoras. Outros tipos de áreas incluem:
- Área motora: Responsável pelos movimentos corporais.
- Área psicomotora: Responsável pela coordenação de movimentos com vista à eficácia.
- Área somestésica: Local de convergência das informações relativas ao frio, ao calor, à sensibilidade tátil, etc.
- Área psicossensorial: Coordena e sintetiza as mensagens da pele e dos músculos.
- Área visual: Onde se encontram as informações captadas pelos olhos.
- Área auditiva primária: Recebe os sons elementares.
- Área psicoauditiva: Interpreta e analisa as informações auditivas recebidas.
- Área pré-frontal: Estabelece relações entre todas as outras áreas do cérebro.
As áreas corticais atuam de forma complementar e coordenada para realizar determinados processos.
Os Lobos Cerebrais e as Suas Áreas
Em cada lobo encontram-se diferentes áreas que desempenham funções específicas. Apesar destas especificidades, não se podem entender como áreas isoladas; elas exercem uma complementaridade.
- Lobos occipitais: Contêm uma área designada por córtex visual, pois é aqui que se recebem e processam os estímulos visuais. São formados pela área visual primária, responsável pela receção dos estímulos visuais, que são enviados para a área visual secundária, que os interpreta. Esta interpretação é feita através da cooperação com outras áreas cerebrais, tendo em conta as experiências vividas.
- Lobos temporais: Constituem a área auditiva primária, que capta os estímulos auditivos, e a área auditiva secundária, que, em parceria com outras áreas cerebrais, os interpreta e identifica.
- Lobos parietais: A sua zona anterior designa-se córtex somatossensorial e é responsável pela capacidade de receber sensações. Nela estão representadas todas as zonas do corpo humano, sendo que as mais sensíveis exigem um maior espaço nesta área. A área posterior é uma área secundária que interpreta, organiza e integra toda a informação recebida pela área anterior, possibilitando a localização do nosso corpo e a identificação de objetos através do tato.
- Lobos frontais: Muitas vezes designados como a “sede da humanidade”, são responsáveis pelas atividades cerebrais superiores, como concentração, comportamentos de antecipação, planificação, pensamento abstrato, memória de trabalho, raciocínio complexo e emoções. Incluem o córtex motor, responsável pelos movimentos dos músculos, e a área de Broca, responsável pela fala e pela produção do discurso. A área de Wernicke e a área de Broca interagem entre si: antes de reproduzir qualquer discurso, a forma e as palavras adequadas são selecionadas pela área de Wernicke, passando para a área de Broca, onde são traduzidas em sons e, posteriormente, em movimentos adequados à produção do discurso.
Consequências de Lesões Cerebrais
- Lesões nos lobos parietais: Podem ocorrer ao nível da área somatossensorial primária, originando uma anestesia cortical (perda de sensibilidade tátil, térmica e de dor), ou ao nível da área somatossensorial secundária, originando uma agnosia somatossensorial (incapacidade de reconhecer objetos pelo tato, de discriminar pesos, de localizar sensações táteis e térmicas).
- Lesões nos lobos frontais: Podem ocorrer ao nível da área motora primária, originando uma paralisia cortical (incapacidade de produzir movimentos), ou ao nível da área motora secundária, originando uma apraxia (incapacidade de coordenar movimentos numa sequência), uma agrafia (incapacidade de escrever) ou uma afasia de Broca (dificuldade em formar palavras ou expressão verbal lenta e incorreta).
- Lesões nos lobos occipitais: Podem ocorrer ao nível da área visual primária, originando cegueira cortical (perda de visão), ou ao nível da área visual secundária, originando agnosia visual (incapacidade de identificar objetos conhecidos) ou cegueira verbal ou alexia (incapacidade de reconhecer o significado das palavras escritas).
- Lesões nos lobos temporais: Podem ocorrer ao nível da área auditiva primária, causando surdez cortical (perda de audição), ou ao nível da área auditiva secundária, que causa agnosia auditiva (incapacidade de reconhecer alguns sons) ou surdez verbal (incapacidade de atribuir significado ao discurso oral, onde as palavras não têm sentido).
Casos de Estudo: Phineas Gage e Elliot
Phineas Gage era um funcionário dos caminhos-de-ferro americanos que se tornou famoso aos vinte e cinco anos devido a um acidente. Ao colocar um explosivo para abrir caminho numa rocha, provocou uma explosão. A barra de ferro usada para empurrar os explosivos atravessou-lhe a cabeça, penetrando no queixo, arrancando-lhe o olho esquerdo e saindo pela parte superior do crânio. Foi assistido no hospital e sobreviveu por 12 anos. Para além de crises de epilepsia esporádicas, manteve as suas funções motoras e capacidades intelectuais, contudo, a sua personalidade sofreu alterações profundas. Antes do acidente, era um homem calmo, educado e trabalhador; após o acidente, apresentava comportamentos de fácil irritação, era grosseiro e colérico. Acabou por perder o emprego e tornou-se vagabundo. Quando morreu, o seu cérebro foi investigado e reconstituído, e constataram que as áreas responsáveis pelo movimento e pela linguagem não apresentavam qualquer anomalia. A zona verdadeiramente afetada foi a frontal, o que levantou a necessidade de explicar a relação entre esta zona e a personalidade.
Durante as investigações, dois neurologistas compararam este acidente com o de um paciente, Elliot. Este homem de trinta anos, devido a um tumor, teve de retirar parte do córtex. A sua personalidade sofreu grandes transformações, que se manifestavam por uma indiferença afetiva. Parecia também incapaz de gerir a sua atividade, podendo perder horas com questões insignificantes ao mesmo tempo que se esquecia de atividades importantes. Face a estes sintomas, é colocada a hipótese de as emoções e as capacidades de reflexão estratégica estarem relacionadas, ou seja, a emoção pode ser um guia das nossas escolhas. A partir destas investigações, concluiu-se que as relações entre o córtex pré-frontal e as emoções se dão nos dois sentidos: o córtex apoia-se nas informações emocionais para tomar decisões adaptadas, mas, por outro lado, tem um papel inibidor das emoções. O córtex controla as nossas pulsões e impulsos, impedindo-nos de reagir de forma desadequada. Se ocorrer uma rutura entre o centro emocional e o córtex frontal, estamos perante uma indiferença. No caso de Phineas e de Elliot, não há controlo das emoções, ocorrendo um comportamento impulsivo e descontrolado. Estes casos demonstram que o cérebro tem várias áreas com funções distintas.
Teoria das Localizações Cerebrais
A perspetiva clássica acerca do funcionamento do cérebro acreditava que este era constituído por áreas com funções específicas, as designadas localizações cerebrais. Com o desenvolvimento científico, esta conceção foi abandonada porque hoje se sabe que existem diferentes áreas cerebrais com funções específicas, mas que não funcionam isoladamente. Estas áreas funcionam como um todo, uma totalidade integrada, ou seja, uma rede funcional. Esta visão defendia que o cérebro seria um programa genético pré-determinado, caracterizado pela estabilidade das suas conexões, que seriam imutáveis. Estudos recentes demonstram que o cérebro é muito mais maleável, modificando-se com o efeito das experiências. Isto significa que a relação que o ser humano estabelece com o meio produz modificações no sentido de uma adaptação mais eficaz, um processo que decorre ao longo da vida.
Perspetiva da Integração Sistémica do Cérebro
O cérebro humano funciona de forma sistémica, constituído por várias áreas que interagem entre si, possibilitando toda uma complexidade de comportamentos. Contudo, o cérebro humano tem de ser entendido como um sistema que funciona de forma interativa. É um conjunto complexo de elementos em que as componentes especializadas que o constituem são independentes, mas funcionam de forma interligada. Este é um sistema unitário que trabalha como um todo, com uma dinâmica própria, daí a dificuldade em estudá-lo e o resultado da sua extraordinária capacidade. A perspetiva tradicional de caracterizar o cérebro foi ultrapassada pela perspetiva sistémica.
O Cérebro como uma Rede Funcional
A evolução dos conhecimentos conduziu à identificação de funções desconhecidas, bem como à redistribuição das que já estavam identificadas. Mas, fundamentalmente, modificou-se a ideia de funcionamento. A uma conceção que privilegiava a localização das funções de forma compartimentada opõe-se, atualmente, uma conceção que constata que o cérebro funciona como um todo, ou seja, como uma rede funcional.
A Função Vicariante ou de Suplência
Constata-se que uma função perdida devido a uma lesão pode ser recuperada por uma área vizinha da zona lesionada. É o que se designa por função vicariante ou de suplência do cérebro. É devido a esta função que pessoas que perderam a fala devido a um acidente cerebral acabam por recuperar a capacidade perdida.
Auto-organização Permanente do Cérebro
Esta começa com o processo de corticalização, que dá origem à construção do córtex cerebral. No momento do nascimento, o ser humano tem todas as áreas corticais formadas, porém, isto não significa que não se verifique mais qualquer desenvolvimento cerebral. Após o nascimento, dão-se inúmeros contactos entre as células devido às muitas ramificações que se produzem. Nos primeiros seis meses de vida, produzem-se mais modificações na estrutura do córtex cerebral do que em todo o resto da existência. As diferentes capacidades humanas serão o resultado da existência de boas conexões cerebrais, que não são fruto de uma determinação genética rígida, mas sim de fatores internos e externos. O meio intrauterino já tem importância para o desenvolvimento de conexões nervosas. Todo o processo de desenvolvimento cerebral é um processo auto-organizado. Ao contrário do que tradicionalmente se pensava, o desenvolvimento do cérebro humano não termina na adolescência; esta auto-organização cerebral continua a ser fundamental nas aprendizagens mais complexas.
Fatores no Processo de Auto-organização
O processo de seleção das redes neuronais está relacionado com o potencial genético característico da espécie, que possibilita o desenvolvimento cerebral num dado sentido. Tal não significa que esteja determinado geneticamente, como prova o facto de gémeos monozigóticos não terem as mesmas conexões sinápticas. Para além do fator aleatório na formação das redes neuronais, estas dependem de fatores epigenéticos que decorrem da relação com o meio e que refletem a história de cada indivíduo. Esta história pessoal, que envolve elementos afetivos, sociais e culturais, define o caráter único da estrutura das redes neuronais. Após o nascimento, as experiências do sujeito cristalizam-se sob a forma de ligações sinápticas entre neurónios. É o que se designa por epigénese. Há como que um processo de moldagem que se mantém ao longo da vida, sempre que os neurónios se modificam quanto à forma e dimensão em resposta à estimulação ambiental.
Estabilidade e Mudança nos Circuitos Sinápticos
Tradicionalmente, acreditava-se que o desenvolvimento cerebral era um processo contínuo e quantitativo: mais e mais neurónios, mais e mais sinapses. Hoje, sabe-se que não é assim. O processo de desenvolvimento cerebral é não apenas quantitativo, mas também qualitativo. No cérebro humano, verifica-se um processo de seleção de redes neuronais: umas são eliminadas, outras reformuladas. Este processo acontece devido às necessidades do ser humano. Quando certas conexões neuronais não são mais importantes para o indivíduo, eliminam-se. As conexões neuronais nunca obedecem apenas a uma determinação genética; além das bases genéticas, são influenciadas por fatores epigenéticos. Assim, é a história pessoal de cada indivíduo que vai influenciar o estabelecimento de conexões neuronais, tornando-as únicas. O processo de formação de sinapses, bem como a modificação dos neurónios, deve-se à estimulação ambiental, o que comprova a possibilidade de certas áreas cerebrais se desenvolverem mais do que outras devido à sua estimulação.
Lentificação e Individuação Cerebral
O cérebro humano passa por um processo de desenvolvimento lento. Esta “lentidão” verifica-se também em comparação com o desenvolvimento de outros órgãos. Esta lentificação (desenvolvimento lento do cérebro que permite superar o processo de inacabamento biológico) é submetida à influência do meio, o que obriga à aprendizagem. Esta é possível pela imaturidade do cérebro humano, que obriga a uma adaptação ao meio, produzindo, em função dos estímulos, mais sinapses, modificações e a renovação de neurónios adultos. Este processo de lentificação conduz e promove a individuação. Esta vem contrariar a ideia de que o cérebro humano obedece a um modelo único. Hoje, sabe-se que nenhum cérebro é igual a outro. A individuação (a distinção entre indivíduos) é possível pela existência de diferenças, umas pré-programadas geneticamente, mas sempre considerando a influência do meio. As experiências do indivíduo influenciam as estruturas físicas do cérebro, tornando-o único. O principal motor do cérebro é a plasticidade — a capacidade de se modificar ao longo da vida.
A Diversidade dos Cérebros Humanos
Ao nascer, o ser humano apresenta um cérebro imaturo e inacabado. O processo de desenvolvimento lento do cérebro após o nascimento permite ao ser humano ter vantagens, ao possibilitar a influência do meio e, portanto, uma maior capacidade de aprendizagem. É precisamente o caráter embrionário do cérebro, o seu inacabamento, que permite a adaptação biológica do indivíduo, mesmo no estado adulto. Diferentemente de outras espécies, o caráter imaturo do cérebro humano prolonga-se ao longo da vida, tornando-se uma vantagem. Assim, conclui-se que o cérebro é um órgão que apresenta múltiplas configurações, não havendo nenhum cérebro igual a outro.
Plasticidade Cerebral
Tradicionalmente, pensava-se que o funcionamento e o desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso eram determinados geneticamente. Este programa genético definiria a estrutura e as funções das diferentes áreas cerebrais. O cérebro humano era entendido como uma estrutura com conexões estáveis e imutáveis, e aceitava-se que o seu desenvolvimento terminava na puberdade, assistindo-se à sua degradação com a idade. Hoje, estas “verdades” já não são aceites. Os avanços científicos possibilitaram uma conceção totalmente diferente. Esta rigidez e determinação genética já não se aceitam. O cérebro humano modifica-se sob a influência dos estímulos do meio: experiências, perceções, ações, comportamentos. Ele resulta da flexibilidade do equipamento humano, permitindo uma constante e bem-sucedida adaptação ao meio. Estas modificações verificam-se principalmente nos primeiros meses de vida, mas decorrem também ao longo de toda a vida. Esta capacidade do cérebro em se auto-organizar e modificar chama-se plasticidade cerebral. Consiste na sua remodelação das conexões nervosas em função das experiências pessoais e é fundamental para o ser humano, pois é ela que permite as mais diversas aprendizagens. A plasticidade e a redundância das funções cerebrais explicam o facto de outras regiões do cérebro poderem substituir as funções afetadas por lesões.
O Processo Cultural
Objeto de Estudo da Psicologia Social
O objeto de estudo da psicologia social é o comportamento dos indivíduos quando estes estão em interação. O que nos torna humanos depende de muito mais do que a herança genética e biológica; temos que ter em conta as dimensões sociais e culturais para compreendermos os seres humanos e a forma como se comportam.
Objetivo dos Psicólogos Sociais
Os psicólogos sociais procuram compreender os “como?” e os “porquês?” do comportamento social.
Questões da Psicologia Social
Algumas das questões que os psicólogos sociais procuram responder são:
- Porque é que reagimos de certa forma perante uma determinada situação?
- Porque é que mudamos de atitude face a certos acontecimentos?
Definição de Cultura
Cultura é “a totalidade dos conhecimentos, das crenças, das artes, dos valores, leis, costumes e de todas as outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. Ou seja, a cultura é uma totalidade, um todo, onde se conjugam diversos elementos materiais e simbólicos. Esta palavra apresenta uma diversidade de sentidos, como cultura geral, indivíduo com boa educação ou cultura como sinónimo de civilização. Outra definição possível seria: cultura é “tudo aquilo que os homens criaram ao longo do tempo e em todos os domínios numa dada sociedade e que se mantém em determinadas condições sociais”. Todos os elementos encontram-se organizados de forma dinâmica no todo cultural, isto é, mudam e influenciam-se a cada momento.
A Importância da Cultura
A cultura é uma criação do homem para melhor proporcionar a sua adaptação ao meio. É um fenómeno próprio da sociedade humana, transmitido pela linguagem, que permite a evolução humana. As principais características da cultura são: ser um fenómeno universal e comum a todas as sociedades humanas, a diversidade de culturas e a sua variação no espaço e no tempo. A cultura é, então, uma influência que condiciona a forma como o homem se adapta e modifica o meio ambiente.
O Homem como Ser Biocultural
O comportamento humano é fruto de uma dimensão biológica e também de uma dimensão cultural. Apresenta sempre uma matriz biológica, sendo condicionado pela existência de certas necessidades. A forma como satisfaz estas necessidades é sempre influenciada pela cultura. A forma de comer ou dormir é sempre condicionada pela cultura em que estamos integrados. A cultura aproxima os homens e distingue-os dos animais. É importante analisar o comportamento de indivíduos humanos afastados da cultura, como no exemplo das “crianças selvagens”. O seu comportamento aproxima-os mais dos animais do que dos seres humanos. Este estudo permite demonstrar a importância da cultura para o homem e também destruir a crença na existência de uma natureza humana pré-determinada. Deste modo, o Homem não nasce Homem, faz-se Homem.
Relatividade Cultural
A cultura é universal, no entanto, é relativa a cada grupo social.
Padrões de Cultura
A cultura é um fenómeno tipicamente humano que varia de sociedade para sociedade e de época para época. Diferentes sociedades apresentam comportamentos culturais diferentes, dependendo do contexto social. Estes variam de acordo com o meio, sendo também determinantes para a adaptação a este. Por exemplo, os hábitos alimentares são condicionados pelos padrões culturais dos povos, ou seja, o conjunto de hábitos e comportamentos comuns aos membros de uma comunidade. Estes resultam também da oferta que o meio proporciona. Os padrões de cultura são importantes para podermos prever os comportamentos dos membros de uma sociedade; sem eles, a vida em sociedade seria impossível. O padrão cultural é interiorizado, sendo vivido maioritariamente de forma inconsciente, e determina o comportamento dos membros de uma sociedade. Não são realidades estáticas; cada padrão de cultura muda permanentemente através do contacto com outras culturas (aculturação).
A Natureza Normativa dos Padrões Culturais
O padrão cultural é normativo porque impõe regras que os indivíduos seguem. O que foge ao padrão poderá ser aceite ou rejeitado. Orientamo-nos segundo estas regras; caso contrário, seria impossível viver em sociedade.
O Fenómeno de Aculturação
O fenómeno de aculturação resulta do contacto entre elementos culturais ou entre pessoas pertencentes a culturas diferentes. A aculturação diz respeito ao conjunto dos fenómenos resultantes do contacto contínuo entre grupos de indivíduos pertencentes a diferentes culturas, assim como às mudanças nos padrões culturais de ambos os grupos que decorrem desse contacto. Este fenómeno pode originar novas culturas ou destruí-las. As aculturações levam a mudanças culturais, quer estas culturas sejam maioritárias ou minoritárias.
Exemplos de Aculturação
Este processo é particularmente sentido nos nossos dias, em que se pode falar de uma sociedade global. Exemplos disso são as viagens de turismo, as migrações e as comunicações.
O Fenómeno de Socialização
O processo de socialização consiste na aprendizagem de hábitos culturais, assimilados a um padrão cultural que permite a integração na sociedade. Ou seja, é o processo através do qual cada um de nós aprende e interioriza os padrões de comportamento, as normas, as práticas e os valores da comunidade em que se insere. Esta interiorização permite não apenas a integração de cada pessoa no grupo sociocultural, como a reprodução deste mesmo grupo e das suas formas de organização. Este processo é feito por vários agentes, como a família, a escola, os meios de comunicação social, etc. O ser não se limita a integrar as práticas do seu grupo; ele participa ativamente na produção, recriação e transmissão dos seus padrões culturais e sociais.
Fases da Socialização
A socialização dá-se em dois momentos: inicialmente, temos a socialização primária e, seguidamente, a socialização secundária.
A Importância da Socialização
A socialização é uma aprendizagem, e é graças a este processo que o indivíduo aprende a adaptar-se a grupos, normas e valores. Deste modo, após a aprendizagem destas condutas, o indivíduo terá uma melhor integração no seu grupo social. A socialização surge, assim, como um processo pelo qual o grupo transmite aos seus membros os traços culturais que o identificam e, simultaneamente, como o processo pelo qual o indivíduo realiza a interiorização e assimilação de identidade, sob pena de assumir atitudes e comportamentos desadequados e de vir, em consequência, a ser objeto de sanções. A socialização, a par das sanções sociais, surge como uma forma de controlo social.
Socialização Primária vs. Secundária
A socialização primária (aprendizagens básicas) é feita durante os primeiros anos de vida e tem como principal agente a família. Transmite ao indivíduo hábitos, costumes e regras da sociedade, permitindo-lhe uma posterior integração nesta. Quanto à socialização secundária, esta é feita num momento de existência mais tardio, ou seja, quando se dá a integração do indivíduo num novo grupo. Esta integração obriga-o a aprender os comportamentos próprios deste grupo, necessitando de novas adaptações.
Principais Agentes de Socialização
Os principais agentes de socialização são a escola, a família, os meios de comunicação, entre outros. A importância e o papel de cada agente de socialização variam no tempo e de sociedade para sociedade. Assim sendo, a socialização é um processo dinâmico e permanente de transmissão cultural, que nunca nos abandona.
A História Pessoal
A história pessoal do ser humano é o resultado de um processo no qual o indivíduo desempenha um papel ativo. É o resultado da interação de fatores internos (biológicos) e fatores externos (socioculturais). No entanto, nunca se pode considerar este processo como o resultado de um mero determinismo. O ser humano é sempre muito mais do que isto. É antes o resultado de uma construção pessoal que resulta do processo dialético estabelecido entre estes dois tipos de fatores, mais a capacidade de autodeterminação. A história pessoal é o resultado de todas as situações vividas, da atribuição de significado e valor, mas é única. É um encontro do meu “eu” com o mundo e o exercício de uma dupla influência: eu com o mundo e o mundo comigo. Esta história pessoal resulta de um contínuo acontecimento que condiciona os futuros e possibilita a minha construção enquanto ser humano, único e singular. O homem é um ser autónomo, capaz de participar nos processos de transformação e determinação de si e dos seus ambientes socioculturais.
A Importância da Atribuição de Significados
É esta capacidade de autodeterminação humana que leva à individualidade. Cada ser humano é situado pela sua singularidade biológica e pelo contexto cultural, mas tem a capacidade de lhes atribuir um significado. Esta leva à construção do eu próprio, mas também à construção do meio. Assim, a capacidade de atribuição de significados torna-nos únicos, e a forma como o fazemos resulta de vários fatores. Tem um caráter subjetivo, pois cada ser atribui um significado pessoal diferente.
Relação Entre Experiência e Significado
As experiências são um conjunto de situações vivenciadas que levam à atribuição de um sentido ou significado. Este é também um processo dialético, uma vez que esta atribuição é influenciada pelo tipo de experiências vividas. O significado é, assim, o resultado da síntese entre a singularidade de cada um e o contexto cultural em que está inserido. Ou seja, em cada momento, em todas as situações, estamos perante um mundo no qual participamos e em que encontramos formas de nos conhecermos e de conhecermos os outros. A ligação que cada um estabelece com estas experiências faz-se através dos significados que cada um lhe atribui.
O Mundo Intersubjetivo
O mundo intersubjetivo é onde todos nós existimos no seio de um grupo humano. É na relação com os outros que nos construímos e construímos esse mundo. O nosso mundo humano é o resultado da partilha, da relação com os outros que me levam a situar-me face a eles e a mim próprio. Entende-se, então, por mundo intersubjetivo, a forma como conhecemos a realidade, a interpretamos, o que resulta de uma visão partilhada. Toda a realidade humana é duplamente constituída: a realidade física e uma realidade partilhada, o outro e as relações que com ele mantemos — a realidade interpessoal. Cada um de nós, ao construir os significados para as suas experiências, integra-os na sua forma pessoal, daí o caráter subjetivo de cada um.
A Realidade Humana como Realidade Interpessoal
O mundo é construído na relação com o outro; não é caracterizado pela individualidade. O ser humano vive situado em sociedade — um fenómeno cultural — integrado num grupo social e que se compreende pelo padrão cultural.
Superando o Determinismo Biológico e Cultural
O homem é fruto de uma dimensão biológica e cultural. Apesar da influência dos aspetos biológicos e sociais, nunca somos completamente determinados, nem em termos biológicos nem socioculturais. É preciso ter em conta a autonomia e a autodeterminação do ser humano, rejeitando qualquer tipo de determinismo radical. Enquanto ser autodeterminado, o ser humano escapa a estes aspetos, experienciando o mundo enquanto ser biológico e social.
Auto-organização do Indivíduo
O homem é um ser auto-organizado, visto que cria ordem e sentido ao conjunto das suas experiências. Através desta auto-organização, um indivíduo organiza-se no seu envolvimento com o mundo. É a forma como cada um processa, interpreta, atribui significados e organiza, íntima e subjetivamente.
O Sentido de Si
O ser humano percebe-se a si como um ser com determinado comportamento. O “eu” resulta do contacto com o outro.
O Homem: Produto e Produtor de Cultura
Para além de produtos da cultura, somos também os seus produtores. As formas como pensamos e nos comportamos, o que escolhemos, as opções que tomamos, fazem parte da cultura em que estamos integrados, da sua construção, transmissão e transformação. A influência entre os processos psicológicos e a cultura é mútua, dinâmica e permanente.
O Conceito de Natureza Humana
Natureza humana é um conjunto de características descritas, incluindo formas de agir e pensar, que todos os seres humanos teriam em comum. Seria a parte do comportamento humano que se acredita ser normal ou invariável através de longos períodos de tempo e de contextos culturais variados. É uma perspetiva ultrapassada. Pelo facto de nascermos humanos, teríamos de agir como qualquer outro humano. Com o desenvolver da ciência, percebeu-se que a natureza humana era um conceito artificial.
Natureza Humana e as "Crianças Selvagens"
O ser humano é um ser ativo que interage com o meio para se construir. Com o aparecimento das “crianças selvagens”, concluímos que o ser humano não nasce construído. “Nós não nascemos humanos, aprendemos a sê-lo.”