A Cobiça de Acabe: Lições sobre Desejo e Consequências
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Nesta aula, trataremos a respeito da cobiça de Acabe. A cobiça é um desejo forte, constante e insaciável; ela pode levar o homem a pisar no seu próximo para subir na vida, chegando a roubar e matar. O mundo em que vivemos é orientado por um estilo de vida materialista, hedonista e pragmatista; todavia, o Evangelho demanda de cada um de nós um estilo rigorosamente contrário ao mundano.
Existe o desejo legítimo e a cobiça. O primeiro refere-se ao suprimento das necessidades e, em alguns casos, um pouco mais, atingindo o nível do conforto; o segundo vai muito além, alcança o excesso e avança rumo ao proibido. Mas onde está a exata fronteira entre uma e outra coisa? É difícil dizer onde o desejo correto se transforma em cobiça, assim como não podemos determinar com certeza a exata quantidade de comida que alguém precisa consumir. Cada indivíduo é capaz de reconhecer que a sua necessidade foi suprida e seu apetite saciado. Depois disso, o desejo torna-se cobiça.
Disse o sábio Salomão: “Se achaste mel, come somente o que te basta, para que porventura não te fartes dele, e venhas a vomitar” (Pv 25:16). Deus estabeleceu limites: Adão poderia comer do fruto de todas as árvores, exceto uma (Gn 2:16,17). Quando desejamos o que Deus proibiu, está caracterizada a cobiça. O décimo mandamento assevera: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Êx 20:17). Portanto, o direito do outro é um dos nossos limites.
A proposta que Acabe fez a Nabote parecia justa, generosa e irrecusável, pois oferecia em troca uma outra vinha melhor ou, se desejasse, lhe daria em dinheiro o que ela valia. Acontece que o valor da vinha para Nabote ia para além das questões mercantilistas. Ele considerava aquela propriedade uma herança inegociável, cuja venda implicaria em transgressão ao mandamento do Senhor (cf. Lv 25:13-28 e Nm 36:7,9).
Nabote procedeu corretamente; de acordo com o livro de Levítico, a terra pertencia ao Senhor (Lv 25:23). Assim sendo, Nabote não poderia vender aquilo que lhe fora dado como uma herança do Senhor. Diante da resposta e posicionamento de Nabote, a reação de Acabe foi de desgosto e indignação, pois o seu capricho não fora alcançado, o que desencadeou no rei uma crise emocional (1Rs 21:4). Mas Acabe queria aquela propriedade a qualquer custo; aquele espaço de terra era o seu objeto de maior desejo. Por ser rei, imaginava que podia atropelar a lei de Deus e emplacar injustiça social.
Para concretizar o seu intento, esse rei fraco e sem personalidade arquitetou, em conluio com sua impiedosa esposa Jezabel, uma das mais sórdidas tramas registradas nas Páginas Sagradas: a morte do inocente Nabote. Mas o juízo de Deus foi severo contra a casa de Acabe; veja isso no tópico IV abaixo. Atualmente, muitos líderes e irmãos caprichosos, que não se contentam com aquilo que possuem e que acham que seus desejos precisam ser atendidos e satisfeitos por todos, estão dominados pela cobiça. Tenhamos cuidado, pois a cobiça é abominação ao Senhor (Dt 7:25) e a raiz de muitos males (cf. Tg 4:1-2).
II. AS CAUSAS DA COBIÇA DE ACABE
A principal causa da cobiça de Acabe foi o domínio incontrolado do “ter”, de “possuir” aquilo que é do outro — neste caso, a vinha de Nabote. Esta vinha era próxima ao palácio real, isto é, da casa de verão, e, aparentemente, Acabe, levado por um capricho, desejava transformá-la em uma horta.
Entendemos pelo texto sagrado que aquela propriedade fora passada a Nabote por herança: “Porém Nabote disse a Acabe: guarda-me o Senhor de que eu te dê a herança de meus pais” (1Rs 21:3), o que fortalecia a convicção de Nabote de que ele não deveria vendê-la nem trocá-la por outra propriedade. É provável que Nabote tenha sido criado naquele terreno, dedicando-se com seus pais ao cultivo de uvas. Se Nabote tivesse feito essa venda ou troca, ele teria transgredido não só uma tradição, como também a sua consciência (cf. Lv 25:23-28; Nm 36:7ss).
Acabe reconhecia isso; ele era cônscio de que Nabote estava religiosamente obrigado a conservar a posse de sua terra e que essa obrigação não poderia ser contrariada. Entretanto, ele ainda assim queria essa área; ele estava totalmente dominado pela cobiça, como um viciado em drogas. Somente a casa de verão não lhe satisfazia; queria agora construir uma horta ao lado dela para que seus desejos pudessem ser realizados, não se importando em quebrar o mandamento divino: “não cobiçarás” (Êx 20:17).
Desta feita, o que fez Acabe diante da resposta negativa de seu súdito? Ficou entristecido, como uma criança mimada, e não quis se alimentar. O desejo despertado pela cobiça é tão poderoso que acaba por tornar-se ocupação única do cobiçoso. Acabe não desejava mais comer ou fazer qualquer outra coisa (1Rs 21:4).
Ao observar o estado em que se encontrava Acabe, Jezabel, sua mulher, procurou tomar conhecimento do que havia acontecido (1Rs 21:5-6). Diante do que ouviu, Jezabel — que já havia em outros episódios demonstrado a sua influência e força no reino, tomando decisões sem pedir a aprovação do seu manipulável e omisso marido — toma para si as dores de Acabe e declara: “Governas tu, com efeito, sobre Israel? Levanta-te, come, e alegre-se o teu coração; eu te darei a vinha de Nabote, o jezreelita” (1Rs 21:7).
Jezabel se coloca aqui como aquela que satisfará a cobiça de Acabe. Uma esposa sábia não adota tal postura; antes, aconselha o seu marido sobre os princípios do contentamento. Enfim, o desejo exacerbado e maligno de Acabe resultou no assassinato do obediente Nabote, resultando assim na inobediência a outro mandamento da lei moral de Deus: “não matarás” (Êx 20:13).
III. O FRUTO DA COBIÇA
O fruto da cobiça de Acabe foi o assassinato do obediente Nabote. O pecado de Acabe envolveu várias pessoas, inclusive os anciãos e os nobres de Israel (1Rs 21:8), os quais, sem temor e piedade, coparticiparam do plano maligno da esposa de Acabe. Como Acabe não se apossou imediatamente da vinha de Nabote, Jezabel continuou com seu plano diabólico.
Sem escrúpulos, sem temor a Deus, sem piedade e sem misericórdia, Jezabel articula um plano onde Nabote seria vitimado por uma terrível calúnia. Usando o nome e o sinete de seu marido, ela escreveu cartas aos anciãos e aos nobres da cidade onde dizia o seguinte:
“Apregoai um jejum e trazei Nabote para a frente do povo. Fazei sentar defronte dele dois homens malignos, que testemunhem contra ele, dizendo: Blasfemaste contra Deus e contra o rei. Depois, levai-o para fora e apedrejai-o, para que morra.”
Os homens da sua cidade fizeram como Jezabel lhes ordenara. “É interessante observar que o maligno plano de Jezabel se reveste de um caráter espiritual, com direito a proclamação de um jejum e com o argumento de que Nabote teria blasfemado contra Deus. É possível ‘espiritualizar’ até a cobiça. Em nome de Deus, e com a máscara da falsa espiritualidade, muitas barbáries e injustiças são realizadas sob a influência do ‘espírito de Jezabel’” (Pr. Altair Germano).
Este sincero israelita foi apedrejado de acordo com a lei (cf. Lv 24:13-16), sob o testemunho de duas falsas testemunhas (cf. Dt 17:6,7). Com o assassinato de Nabote, Acabe se apropriou indevidamente da sua vinha. É curioso ver que pessoas malignas não adoram ao Senhor nem o temem, mas não se furtam de usar o Seu nome para perverter o juízo. Mas lembremo-nos de que Deus não se deixa escarnecer.
IV. AS CONSEQUÊNCIAS DA COBIÇA
A combinação de pecados relacionados à cobiça produz um veneno tão poderoso que ameaça de morte tanto as pessoas à sua volta como o próprio cobiçoso. O mundo “jaz no Maligno” e tem se tornado um “ninho” para que o pecado cresça e cause destruição. Precisamos estar alertas para este fato: a consequência do pecado é a morte (Rm 6:23).