Conceitos Fundamentais de Toxicologia e Toxicocinética
Classificado em Medicina e Ciências da Saúde
Escrito em em
português com um tamanho de 12,88 KB
Conceitos Fundamentais em Toxicologia
Toxicologia: Estudo dos efeitos nocivos das substâncias.
Tolerância: Capacidade de um organismo vivo suportar sem dano aparente os efeitos de agentes aos quais está exposto.
- Tolerância Natural: Inata, nasce com o indivíduo.
- Tolerância Metabólica: Adquirida por exposição continuada, manifestada pela produção aumentada de enzimas. É reversível.
- Tolerância Farmacodinâmica: Manifestada no receptor farmacológico, alterando o mecanismo de ação (ex: tolerância à cocaína). É um tipo de neuroadaptação.
- Tolerância Cruzada: O uso frequente de uma substância A induz tolerância a uma substância B (ex: barbituratos induzem síntese de desidrogenases).
Latência de Efeito: Período entre a primeira exposição ao agente e o aparecimento de sinais e sintomas observáveis.
Idiossincrasia: Hipersensibilidade inata e individual frente a um agente (endógeno ou exógeno), determinada geneticamente, resultando em uma resposta tóxica anormal.
Taquifilaxia: Aquisição rápida de tolerância (ex: morfina). Substâncias taquifiláticas geram dependência na 1ª ou 2ª dose.
Intoxicação Aguda: Quadro clínico patológico, às vezes severo, decorrente de exposição única ou múltipla em um período não superior a 24 horas.
Avaliação da Toxicidade
A avaliação da toxicidade é feita através de indicadores, sendo o mais importante a DL50 (Dose Letal 50%).
Relações Dose-Efeito e Dose-Resposta
- Relação Dose-Efeito: Avaliação individual; verifica o aumento do efeito em relação ao aumento da dose. Não é efetiva se o efeito buscado for a letalidade.
- Relação Dose-Resposta: Relação entre a dose e a proporção de uma população que apresenta resposta específica (teste feito em animais).
Quanto maior a DL50, menos tóxica é a substância. A DL50 depende da via de administração e da espécie.
Limitações da DL50
- Diferenças interespecíficas (teste em animais para humanos).
- Não observa subletalidades ou sequelas.
- Não considera idiossincrasia nem indivíduos tolerantes.
Toxicocinética
A via de entrada da substância altera seu grau de importância e toxicidade. As vias mais importantes são a percutânea e a respiratória.
O transporte do toxicante geralmente obedece ao gradiente químico. A absorção cutânea é influenciada pela lipossolubilidade, espessura da pele e gradiente de concentração.
Para reverter intoxicação com ácido fraco no estômago, aumenta-se o pH para desprotonar o ácido, tornando-o mais hidrossolúvel. Para bases fracas, não há como impedir a absorção, apenas acelerar a eliminação.
Proteção e Metabolismo
Complexos enzimáticos que oferecem proteção contra radicais livres (diferentes das CYPs): Glutationa e Desidrogenases.
A Glutationa (trípeptídeo) cede um par eletrônico de sua sulfidrila para o radical livre, gerando ácido mercaptúrico. Isso aumenta a solubilidade em água do radical livre. A síntese de glutationa é lenta e limitada; jejum pode reduzi-la em cerca de 50%. Ácido mercaptúrico na urina é indicativo de proteção hepática; indicadores de lesão são as transaminases.
Bioativação: A substância entra no organismo com toxicidade mínima e é potencializada após o metabolismo.
Etanol
Características Toxicocinéticas: Absorção estomacal alta; volume de distribuição baixo (50 L), baixa penetração no SNC; cinética de ordem zero (enzimas desidrogenases saturáveis). 90% da eliminação é via desidrogenase.
Polimorfismo Genético: Diferença inata na concentração enzimática. O etanol induz produção de desidrogenases, principalmente a aldeído desidrogenase.
Biotransformação: 90-98% no fígado (cinética de ordem zero). Taxa de metabolização de 120 mg/kg/h. 2 a 10% eliminados por rins e pulmões.
Oxidação: Álcool desidrogenase (citosol, zinco) e Aldeído desidrogenase (mitocôndria). A deficiência da ALDH é fator anti-alcoolismo (alta incidência em orientais); o tratamento envolve inibição da ALDH (dissulfiram).
Principais Sintomas de Intoxicação Aguda: Acidose lática, hipoglicemia (inibição da gliconeogênese), coma alcoólico (depressão do SNC, parada respiratória).
Tratamento de Emergência: Infusão de glicose; hemodiálise em casos extremos. Em alcoolistas com deficiência nutricional, administrar tiamina (pode prevenir encefalopatia de Wernicke-Korsakoff).
Intoxicação Hepática Alcoólica: Esteatose hepática, hiperlipidemia, cirrose.
Solventes Orgânicos
Caracterizam-se por solubilizar substâncias orgânicas.
Benzeno
Intoxicação ocupacional. Via de introdução líquida principal: cutânea.
Características: Incolor, volátil (p.e. 80,1 ºC), alta pressão de vapor, altíssima solubilidade em lipídeos, baixo ponto de ignição (explosivo).
Cinética: Absorção pulmonar e cutânea (50-90%); rápida distribuição tecidual com tendência a depósito.
Biotransformação: Hepática e medular (via CYP450), bioativado após a 1ª etapa metabólica (via fenol ou abertura de anel).
Eliminação: Inalterado pelos pulmões (12%); 0,1-0,2% pela urina.
Metabólitos na Urina
- Fenol (13-50%): Instável, não é o analito de escolha. Resultado do metabolismo via CYP2E1 (gera benzeno epóxido).
- Hidroquinona (5%) e Catecol (1,3 a 1,6%): Produtos da continuação do metabolismo do fenol, conjugados com glutationa (ácido di-hidroxi-fenilmercaptúrico).
- Ácido Fenilmercaptúrico (0,1 a 0,5%): Resultado da conjugação direta com glutationa; marcador alternativo.
- Ácido trans-trans-mucônico (2%): Analito de escolha oficial por lei. Produto da via de abertura do anel (via CYP2E1 → dioxetano → desidrogenases).
Toxicodinâmica: Carcinogênico do grupo 1.
- Aguda: Efeitos de embriaguez, cefaleia, tonturas, tremores, distúrbios respiratórios/circulatórios e morte.
- Crônica: Fadiga, palidez, trombocitopenia, leucopenia, anemia aplástica.
Análise Toxicológica: Busca do ácido trans, trans-mucônico urinário.
- Vantagens do AC. trans-trans-mucônico: Sensibilidade, simplicidade analítica, boa correlação com níveis no ar.
- Desvantagens: Fumantes excretam mais; sorbitol e tolueno em altas concentrações podem interferir.
- Alternativa: Ácido fenilmercaptúrico urinário (sensível e específico, meia-vida de 9h).
Tolueno
Conservante. Volátil (110,6°C), indolor, odor aromático.
Toxicocinética: Absorção pulmonar (40% do inalado) e cutânea (baixa devido à volatilidade, mas rápida devido à lipossolubilidade).
Metabolismo Principal: Oxidação da metila pela CYP2E1 ou CYP3A4 → álcool → desidrogenases → Ácido Benzóico → conjugado com glicina → Ácido Hipúrico.
Marcador: Ácido Hipúrico (30 a 80% dos metabólitos), coletado ao final da jornada de trabalho.
Metabolismo Secundário: Oxidação do anel pela CYP2E1 → cresóis (dosados na impossibilidade de dosar ácido hipúrico).
Falso Positivo: Ácido benzóico (conservante alimentício).
Distribuição Rápida: Fase 1 (3 min, tecidos vascularizados); Fase 2 (40 min, tecidos moles); Fase 3 (738 min, tecido adiposo).
Fatores que influenciam o Ácido Hipúrico: Dietas ricas em ácido benzóico (refrigerantes, ketchup) aumentam a excreção. Certos medicamentos (isocarboxazida, cocaína) também aumentam a excreção.
Alternativa de Análise: o-cresol (menor variação que o ácido hipúrico).
Xileno (Dimetilbenzeno)
Alta lipossolubilidade, incolor. O isômero p-xileno é o de maior importância.
Toxicocinética: Absorção cutânea e pulmonar. 90% biotransformado hepaticamente (oxidação das metilas, mais comum, gerando ácido p-metil-hipúrico, ou oxidação do anel, gerando xilenóides).
Toxicodinâmica: Não é carcinogênico. Ações: irritante de pele/mucosa, depressor do SNC, hepatotoxicidade (em altas concentrações). Interage com etanol.
Tratamento Sintomático: Lavagem com água e sabão, lavagem gástrica.
Monitorização: Ácido metil-hipúrico urinário (coleta 4h após a jornada; t ½ de 5h).
Metanol
Incolor, volátil, baixa lipossolubilidade, baixo CP a/s (coeficiente partição sangue/ar).
Via Metabólica: Bioativado no fígado em ácido fórmico pelas desidrogenases (10x mais lento que o etanol). O formato paralisa a fosforilação oxidativa, gerando acidose intensa e asfixia química.
Característica da Intoxicação: Dor ocular, fotofobia, diminuição do campo visual, edema de retina e cegueira (irreversível). Sintoma grave: acidose hiperlactocidêmica.
Tratamento: Bicarbonato para reverter acidose; Glicosalina ou Dextrose com etanol (5% ou 10%); 4-metilpirazol (bloqueia a álcool desidrogenase).
Lesão Característica: Lesão óptica e convulsão pela acidose hiperlactocidêmica.
Hexano (n-Hexano)
Solvente alifático mais tóxico e de tratamento mais difícil.
Toxicocinética: Absorção cutânea e respiratória. Distribuição para tecidos lipídicos, atravessa a barreira placentária.
Biotransformação: Hepática (CYP 450 e álcool desidrogenase) → metabólitos hidroxilados inativos e cetocompostos (neurotóxicos).
Toxicodinâmica: Aguda: irritante. Crônica: Neuropatia periférica (lesão característica: polineurite periférica), podendo causar degeneração de vasos e necrose tecidual.
Marcadores Urinários: 2-hexanol e 2,5-hexanodiona.
n-Hexano (Revisão de Toxicodinâmica)
2,5-Hexanodiona é o metabolito urinário adotado para monitorização. Produtos de biotransformação de outros solventes alifáticos (ex: 2-butanona, 2-hexanona) exacerbam a neurotoxicidade.
Toxicodinâmica: Desmielinização, degeneração e desintegração dos axônios (polineurite periférica). Dano hepático.
- Exposição Aguda: Tontura, náuseas, cefaleia, euforia, parestesias.
- Exposição Crônica: Alterações sensoriais simétricas, fraqueza muscular, perda de reflexos, alterações visuais e perda de memória.
Tetracloreto de Carbono (CCl4)
Lipossolúvel, incolor, volátil. Uso: limpeza de peças metálicas, composição de espuma.
Toxicocinética: Absorção inalatória e cutânea. Tropismo por tecidos gordurosos. 30-50% eliminado inalterado pelos pulmões.
Toxicodinâmica: Formação de radicais livres. Causa degeneração gordurosa, vômitos, diarreia, proteinúria.
Bioativação: Peroxidação lipídica, necrose hepática, fibrose, inativação da CYP2E1, diminuição da Vitamina A.
Tratamento: N-acetilcisteína (3 a 10 horas após a exposição).
Paracetamol
Absorção: 2h. Tempo ½: 2h. Dose fatal > 20g.
Intoxicação: Nas primeiras 24h: náuseas, vômitos, anorexia, dor abdominal. Lesão hepática: 2 a 4 dias (aumento de transaminases, bilirrubina, tempo de protrombina).
Metabolismo: 90% por glicuronidação e sulfatos. Hidroxilação gera N-acetil-p-benzoquinoneimina (NAPQI), responsável pela hepatotoxicidade e nefrotoxicidade.
Tratamento: Lavagem gástrica (máx. 4h); diálise (retira 58% dos metabólitos); N-acetilcisteína. Etanol induz a CYP2E1, aumentando a formação de NAPQI.