Critérios da Verdade, Conhecimento e Método Científico
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Critérios para reconhecer a verdade
1. Critério do conhecimento claro: existe quando há um conhecimento claro que nos dá sensação de segurança e nos leva a não duvidar de sua veracidade. Esse sentimento de certeza apoia-se nas provas, mas é um estado mental e, portanto, é algo subjetivo. Por ser subjetivo, não constitui um critério totalmente satisfatório para determinar a verdade.
1.2 Critério intersubjetivo: o conhecimento é considerado objetivo quando é compartilhado por várias pessoas e não apenas por um indivíduo isolado. O reconhecimento por muitos tem a vantagem de aumentar a confiabilidade, mas não garante absoluta infalibilidade. A verdade não é algo estritamente privado: requer, idealmente, o consenso da comunidade; contudo, a ausência de consenso não transforma automaticamente uma proposição em inegável.
Os limites do conhecimento
2.1 A possibilidade do conhecimento — diferentes posições filosóficas sobre se podemos obter conhecimento seguro e universal:
- Dogmatismo: posição que admite a aquisição de conhecimentos seguros, universais e de certeza absoluta; defende a ampliação contínua do saber.
- Ceticismo: posição oposta ao dogmatismo. O ceticismo moderado admite a possibilidade de conhecimento firme e seguro em alguns casos; o ceticismo radical nega que tal conhecimento seja possível.
- Crítica (filosofia crítica): posição intermédia entre dogmatismo e ceticismo. Pensadores críticos (por exemplo, Kant) aceitam a possibilidade do conhecimento, mas defendem que ele não é definitivo: deve ser continuamente revisto e criticado para detectar possíveis falsificações e erros.
- Relativismo: nega a existência de verdades absolutas válidas em qualquer contexto; sustenta que as opiniões são válidas apenas em um determinado contexto social, cultural ou histórico.
- Perspectivismo: não nega teoricamente uma verdade absoluta, mas afirma que cada indivíduo ou grupo tem uma visão parcial da realidade; assim, múltiplas perspectivas podem conter verdades parciais, cuja reunião ideal poderia aproximar-se de uma verdade mais ampla.
2.2 Conquista da verdade: tarefa coletiva — a busca pela verdade é uma tarefa coletiva e contínua com duas direções complementares: combater a ignorância ampliando o conhecimento por meio do estudo e da pesquisa; e combater o erro por meio da crítica às ideias falsas e às ideologias. Essa dupla tarefa é coletiva e permanente.
A especificidade do conhecimento científico
1. A ciência pretende oferecer explicações sistemáticas dos fenômenos e distingue-se de outras formas de conhecimento pelo método que emprega. Entre as características valorizadas estão a neutralidade (ausência de preconceito), a exigência crítica e a intersubjetividade.
1.1 O surgimento da ciência
A ciência surge quando o ser humano passa a acreditar que os fenômenos naturais podem ser integrados num sistema coerente e ordenado. Inicialmente, ciência e filosofia eram disciplinas indistintas; ao longo do tempo, a ciência desenvolveu métodos próprios, processo que culmina naquilo que se chama Revolução Científica.
1.2 Características específicas
- Experimentação: Galileu percebeu que alguns pressupostos não são observáveis no cotidiano e, por isso, criou situações controladas em que elementos perturbadores (como o atrito) eram eliminados ou minimizados.
- Matematização: a natureza responde a regularidades expressáveis por funções matemáticas. A matematização tornou-se pedra angular da nova ciência, em nítido contraste com períodos anteriores da física.
1.3 Classificação das ciências
- Proposições formais: tratam das relações entre símbolos; não têm conteúdo empírico e baseiam-se na coerência interna do sistema. Ex.: lógica e matemática.
- Proposições empíricas: tratam de eventos do mundo e de suas relações; têm conteúdo empírico resultante da observação e experiência. Dividem-se em:
- Ciências naturais: lidam com realidades físicas ou biológicas.
- Ciências sociais: lidam com a realidade humana e social.
O método e os seus limites
2.1 Linguagem científica
A ciência cria uma linguagem técnica para garantir objetividade e precisão em conceitos, leis e teorias.
Conceitos: termos específicos usados pela ciência. Três tipos:
- Qualificadores: permitem organizar conjuntos da realidade ou grupos.
- Comparativos: permitem ordenar um conjunto de objetos de forma gradual.
- Métricos: permitem medir numericamente propriedades dos objetos.
Leis: conjunto básico do conhecimento científico; caracterizam regularidades da natureza com precisão e universalidade a partir de conceitos bem definidos.
Teorias: conjunto de leis científicas interligadas, formando sistemas coerentes, sistemáticos e compactos — as teorias científicas.
2.2 A explicação científica
Uma explicação científica responde por que um determinado evento ocorreu. Podem ser classificadas em quatro tipos:
- Explicação dedutiva: baseada em dedução lógica que leva a uma conclusão que coincide com o fenômeno estudado.
- Explicação probabilística: baseada em várias deduções das quais apenas algumas podem estar corretas, oferecendo uma medida de probabilidade para o evento.
- Explicação teleológica (ou histórica): interpretação baseada em fatos históricos ou informação que explica fins ou propósitos; não pode fornecer certeza absoluta em muitos casos.
- Explicação genética: típica da história, mas também presente em ciências naturais, que explica a origem ou desenvolvimento de um fenômeno ao longo do tempo.
2.3 O método científico
O método científico é um processo relativamente estável, composto por etapas que nos permitem chegar a conclusões justificadas. Três abordagens principais são:
- Método dedutivo: extrai conclusões particulares a partir de princípios gerais. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão é certa.
- Método indutivo: generaliza conclusões a partir de múltiplos casos observados; produz leis aplicáveis a eventos semelhantes, mas fornece apenas segurança probabilística.
- Método hipotético-dedutivo: combina indução e dedução, valorizando dados empíricos e consistência lógica. Etapas típicas:
- Definição do problema: identificação de uma situação problemática.
- Formulação de hipótese: proposta coerente que seja compatível com a atitude científica.
- Dedução de consequências: extração das previsões que se seguiram à hipótese.
- Verificação da hipótese: checagem das consequências previstas.
- Refutação: se as consequências previstas não se verificam, rejeita-se a hipótese e formula-se outra.
- Confirmação: se as consequências se verificam, a hipótese é corroborada.
- Resultados iniciais: a hipótese pode originar uma nova lei ou teoria, ou confirmar uma teoria já proposta.
2.4 Progressos e limites do cientificismo
A ciência é frequentemente vista como a realização mais perfeita da racionalidade humana. O cientificismo é a corrente que prevê progresso indefinido e avanços sem limites. Entre as contribuições e críticas relevantes estão:
- Karl Popper — progresso contínuo da ciência: para Popper, o avanço científico ocorre por falsificação: uma teoria é substituída por outra mais explicativa quando a anterior é refutada; a teoria substituta é considerada melhor por enfrentar menos problemas e aproximar-se mais da verdade.
- Thomas Kuhn — revoluções científicas: Kuhn, a partir da história da ciência, criticou a visão de progresso contínuo e cumulativo. Um paradigma científico pode conviver com anomalias; só em condições especiais essas anomalias provocam uma crise que leva a uma revolução científica e a uma mudança de paradigma. Devemos rejeitar um cientificismo ingênuo que prevê progresso ilimitado, mas também evitar cair em relativismos e ceticismos exagerados.
Dimensão social da ciência
3. A institucionalização da ciência: o conhecimento coletivo é aquilo que uma dada sociedade entende por verdade em determinado momento. Esse conhecimento coletivo é mais decisivo que o conhecimento pessoal, pois permite o desenvolvimento contínuo sem exigir que cada indivíduo verifique tudo pessoalmente.
Embora a ciência seja poderosa e excepcional em comparação com outros tipos de conhecimento, é preciso abandonar visões ingênuas. Fatores que mostram a dimensão social da ciência:
- A pesquisa científica depende de instituições políticas e econômicas, incluindo subsídios e relações de clientelismo, públicos e privados.
- As prioridades econômicas e sociais influenciam os objetivos e a direção da pesquisa científica.
- Existe uma comunidade científica internacional que acompanha e toma conhecimento das investigações realizadas no mundo.
- A divulgação detalhada das pesquisas e descobertas tornou os cientistas e as instituições científicas mais conhecidos e interligados do que no passado.
O conjunto desses fatos caracteriza a institucionalização da ciência. O grande salto tecnológico ocorreu quando a técnica passou a estar estreitamente ligada à ciência: os avanços científicos são utilizados pela tecnologia, e muitas pesquisas atuais dependem dos recursos que a tecnologia fornece.