Cultura: definição, socialização e identidade humana

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Cultura — definição (E. B. Tylor)

Definição de E. B. Tylor: "Cultura é um todo complexo que inclui os conhecimentos, as crenças, a arte, a moral, as leis, os costumes e todas as outras disposições e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade."

Características da cultura

  • A cultura é um modo de adaptação que ultrapassa a biologia. Permite que o indivíduo se adapte a novas situações de modo mais eficaz e versátil do que a adaptação orgânica.
  • A cultura é um conjunto de respostas para melhor satisfazer as necessidades e os desejos humanos.
  • A cultura é informação: um conjunto de conhecimentos teóricos e práticos que se aprende e transmite aos contemporâneos e aos vindouros.
  • A cultura é o resultado dos modos como os diversos grupos humanos foram resolvendo os seus problemas ao longo da história.
  • A cultura é criação. O homem não só recebe a cultura dos seus antepassados como também cria elementos novos que a renovam.
  • A cultura é fator de humanização. O homem só se torna homem porque vive no seio de um grupo cultural.
  • A cultura é um sistema de símbolos partilhados com que se interpreta a realidade e que conferem sentido à vida dos seres humanos.

Fatores importantes no processo de tornar‑se humano

  • As características dos seres humanos incluem capacidades para produzir e lidar com símbolos e para criar e servir‑se de instrumentos.
  • Estas competências específicas, possibilitadas pela rede neuronal complexa do cérebro, desenvolvem‑se no convívio com as outras pessoas, através de aprendizagens feitas com os outros.
  • A sociabilidade torna‑se uma necessidade radical, pois só na interação com os outros é que adquirimos condutas capazes de compensar a indigência biológica da espécie, completamente desprovida de instintos.
  • Para além da estrutura anatómica e fisiológica, herdamos a abertura aos outros — o ser humano como animal gregário.
  • Existe no ser humano uma predisposição genética para a sociabilidade, relacionando‑se com outras predisposições inatas que fazem parte da bagagem logo ao nascer, tais como:
    • Competências perceptivas — órgãos sensoriais para captar o mundo, mediante a discriminação de estímulos visuais, auditivos, táteis, olfativos, etc.
    • Competências cerebrais — maturação pré e pós‑natal dos mecanismos corticais em correlação com o desenvolvimento de uma rede complexa de neurónios, que permite a manifestação de capacidades especificamente humanas.
    • Competências simbólicas — entre as capacidades que se incluem no património hereditário, existe a predisposição para a criação de sistemas linguísticos, essencial para a interação com as pessoas.
    • Competências relacionais — predisposição ao nascença para se relacionar com os outros.
  • Estas capacidades não são entregues de modo acabado, necessitando de um meio social propício.
  • O caso das “crianças selvagens” mostra que o ser humano só consegue completar a sua natureza no convívio com os outros; ao tentar reeducá‑las, apenas se conseguiram resultados parciais, visto que o desenvolvimento das potencialidades hereditárias ficou atrofiado devido à ausência de estimulação social e humana durante os primeiros tempos de vida. O período de maturação das estruturas biológicas herdadas tinha sido ultrapassado.
  • O desenvolvimento social ocorre com o desenrolar de dois aspetos:
    • Integração — o desenvolvimento social permite que o indivíduo se integre no grupo, ajustando as suas condutas às regras sociais vigentes.
    • Diferenciação — permite que o indivíduo construa a sua identidade de modo único, tendente à conquista de um lugar adequado na sociedade.

Socialização

  • Processo pelo qual o indivíduo se integra no grupo social, adquirindo as atitudes, as crenças e os valores mais significativos da cultura desse grupo e assumindo‑os como seus.
  • Tudo é sugerido ao indivíduo que, através da imitação, vai padronizando as suas condutas, ajustando‑as aos ditames sociais.
  • O indivíduo faz uma aprendizagem dos traços da cultura da sociedade em que vive.
  • Processo de interiorização de atitudes, costumes, valores, normas e modos de agir característicos de uma comunidade, os quais tendem a ser reproduzidos pelas gerações vindouras.
  • Esta socialização é feita de forma espontânea, sem nos apercebermos de que os outros têm intenção de nos condicionar.
  • Tipos de socialização:
    • Socialização primária — decorre essencialmente durante a infância e adolescência e tem por objetivo a aquisição de um conjunto de hábitos necessários para uma adaptação às mais diversas situações da vida quotidiana (ex.: aquisição de hábitos de alimentação; habituação no domínio da linguagem).
    • Socialização secundária — processo de adoção de novas atitudes e novos comportamentos que permitem aos adultos continuar a viver integrados na comunidade; ocorre a propósito de alterações significativas na condição social das pessoas (ex.: entrada no mundo do trabalho, mudança de estado civil).
  • A adaptação implicada na socialização é ativa, pois a submissão às normas é desejada pelo indivíduo que reconhece a necessidade de se integrar socialmente.
  • O indivíduo não segue estereotipadamente os ditames sociais, mas integra algo pessoal que vai influenciar também os grupos que deseja integrar.

Cultura (conceito ampliado)

  • Herança social constituída por condutas, ideias, costumes, sentimentos, atitudes e tradições comuns a uma coletividade e transmitidos às gerações seguintes.
  • À medida que as regras de conduta da tradição social começam a exercer influência no indivíduo, as respostas naturais, diretas, universais e instintivas vão sendo substituídas por outras menos naturais, que concordam com os valores, crenças e costumes próprios do contexto social em que o indivíduo se desenvolve.
  • Os caracteres inatos (natureza dada) perdem terreno em favor de caracteres adquiridos e de influência social (natureza adquirida → cultura).
  • Elementos da cultura: tudo o que é humano é cultura, desde o que o homem faz até àquilo que diz e pensa (aspeto material e espiritual).
  • Particularmente, a cultura refere‑se aos comportamentos implicados no fabrico de objetos materiais, no estabelecimento de relações sociais e na elaboração de sistemas simbólicos.
  • A cultura desenvolveu‑se a partir do momento em que se começaram a sentir necessidades de segunda ordem, derivadas das necessidades primárias ou biológicas (ex.: necessidade de fabricar veículos motorizados como resposta à necessidade de deslocamento).

Padrões culturais

  • Formas coletivas de comportamento que permitem aos seres humanos aferir a sua conduta e prever a conduta dos outros.
  • O facto de as comunidades obedecerem a padrões culturais contribui para homogeneizar as pessoas dentro de uma cultura, diferenciando‑as das pessoas de outras culturas.
  • Cada cultura tem um enquadramento geográfico, social e histórico próprio e, consequentemente, os seus membros apresentam formas de conduta específicas.
  • Vantagens dos padrões culturais:
    • Contribuem para facilitar a adaptação dos indivíduos à comunidade; uma vez adquiridos, identificam‑se com hábitos sociais, permitindo‑nos atuar adequadamente em diversas situações.
    • São úteis pelo seu poder cognitivo e preditivo, pois fornecem conhecimento antecipado sobre hábitos, gostos e preferências da sociedade em que vivemos, permitindo agir de acordo com o esperado.
  • A cultura de uma comunidade, a socialização enquanto processos de integração nessa comunidade e as normas e padrões cujo seguimento permite tal integração são fatores de ordem aprendida que nos permitem atualizar e completar a nossa natureza humana; possibilitam a sobrevivência, a adaptação aos outros e às condições do meio, e favorecem a realização pessoal.

A história pessoal como contínuo entre fatores internos e externos

  • O ser humano possui uma identidade multifacetada:
    • Identidade específica — permite que nos vejamos como pertencentes à espécie humana, dotados de caracteres que nos assemelham e nos distinguem de outras espécies.
    • Identidade sociocultural — irmana‑nos aos seres humanos da nossa cultura, regendo‑nos um conjunto de normas e padrões que nos distanciam de outras culturas.
    • Identidade individual — leva‑nos a ver cada um de nós como uma singularidade irrepetível, dotada de caracteres que nos diferenciam de todos os demais.
  • As facetas específica e sociocultural são significativas para a nossa identidade, mas sujeitam‑nos a condicionalismos biológicos e culturais que impõem restrições ao longo da vida.
  • Relativamente à construção do eu, não há determinismos: resistindo à força padronizadora de fatores externos, a pessoa vale‑se da sua autonomia e enfrenta‑os com fatores internos, o que lhe permite ultrapassar entraves próprios da biologia, da sociedade e da cultura.

Experiência na história pessoal

Tudo o que nos acontece ao longo da vida, podendo exercer influências positivas ou negativas, vai deixando marcas no nosso modo particular de ser; as experiências vividas constituem‑se como forças que interferem na direção seguida pela nossa autoorganização pessoal.

As experiências não são boas nem más por si; dependem do caráter subjetivo com que cada um as vive — há experiências para uns e situações para outros.

Vivendo as coisas à nossa maneira, fazemos uma interpretação que mais ninguém pode fazer, em virtude de resultar da projeção do nosso universo psicológico sobre as situações, transfigurando‑as de modo a que se tornem vivências exclusivas.

Esta projeção, movimento de si para o exterior, é compensada por um movimento simultâneo de tendência oposta, do exterior para o interior; todos os episódios marcantes são assumidos, interiorizados e passam a fazer parte integrante da identidade.

É com a interpretação e a organização destes episódios que o ser humano vai modelando a sua História Pessoal — narrativa organizada pelo indivíduo, que expressa o modo como vê e sente, dando significado às vicissitudes por que passou.

Na história pessoal, cada ser humano interpreta a sua vida, efetuando uma síntese pessoal dos episódios que considera mais marcantes, resultantes da ação conjugada da natureza, da sociedade e da cultura.

Auto‑organização e criação sociocultural

  • Cada ser humano é capaz de se auto‑organizar, ordenar as suas vivências e organizá‑las em função dos objetivos que escolheu e das normas de conduta que lhe permitem alcançá‑los.
  • A história pessoal que cada um constrói, com os seus episódios e os significados que lhes atribui, tende a invadir o quotidiano e a refletir‑se no espaço físico e cultural, alterando o meio e o seu autor.
  • Auto‑organizar‑se significa construir uma narrativa pessoal em que o ser humano toma consciência de si e da sua vida; trata‑se de elaborar uma síntese de tudo o que de marcante capta, entende e sente, traduzindo assim a individualidade de cada ser humano.

O Eu — uma criação sociocultural

  • Auto‑organizando‑se, a pessoa vai construindo a sua identidade de modo autónomo; tal construção é feita com ajuda das situações por que passa e dos acontecimentos que vivencia, deixando sinais que ficam a fazer parte integrante do eu.
  • É na interação com os outros que cada um desenvolve a sua identidade, a par da interiorização dos modos de ver, pensar, sentir e agir dos grupos com que interage.
  • Pelo facto de nos desenvolvermos no interior de uma cultura em que vigoram padrões, normas, crenças e valores, o meio social torna‑se um condicionamento significativo na formação psicológica, social e moral do nosso eu; nós, seres ativos que produzimos cultura, somos simultaneamente por ela produzidos.
  • Ser humano é ser cultural e social, escapando à rigidez das condutas naturais e instintivas.
  • Mais do que limitações, a sociedade e a cultura são condição de realização, oferecendo‑nos grande número de possibilidades quanto ao nosso projeto pessoal — tudo isto em liberdade, daí a autonomia do ser humano.
  • As influências social e cultural não invalidam que o indivíduo seja original na sua auto‑organização, mantendo a sua singularidade.

Riqueza da diversidade humana

A diversidade humana refere‑se ao facto de nenhum ser humano ser igual a outro — a diversidade é a condição da individuação.

A diversidade em todos os seus aspetos (biológico, cultural e social) é a condição essencial para que as pessoas construam de modo original a sua história pessoal, conferindo significados a tudo o que lhes acontece e ao que veem acontecer à sua volta.

Se aliarmos as diferenças estruturais e funcionais da biologia, a heterogeneidade dos elementos culturais, a diversidade dos contextos sociais e as experiências significativas aí ocorridas, o leque de diversidade amplia‑se, mostrando como é possível às pessoas manifestarem caracteres que as individualizam, tendo cada uma a sua forma de ser, estar, sentir e comportar‑se.

Aspetos positivos da diversidade humana:

  • Fator de aprendizagem — o convívio com pessoas diferentes multiplica as hipóteses de efetuar novas aprendizagens.
  • Fator de abertura e tolerância — o convívio com outras pessoas desbrava horizontes novos, levando‑nos à descoberta de valores que nos enriquecem.
  • Fator de desenvolvimento intelectual — a coexistência com outras pessoas oferece um número superior de possibilidades de exercitar as nossas competências mentais.
  • Fator de progresso cultural — a diversidade possibilita a renovação em todas as culturas.

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