Descartes: A existência de Deus — Prova cartesiana

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Descartes: A questão da existência de Deus

Resumo e análise das provas cartesianas sobre Deus

É necessário provar a existência de Deus sem referência ao mundo exterior, apenas a partir da análise das minhas ideias.

Cogito, ergo sum nos dá a certeza de que existem ideias na minha mente, mas não nos dá segurança sobre se os objetos que elas representam permanecem na realidade externa.

As ideias não são diferentes se consideradas do ponto de vista da sua realidade subjetiva, mas, quando consideradas do ponto de vista objetivo, são muito diferentes umas das outras.

Todas essas ideias são causadas e é claro que deve haver pelo menos tanta realidade na causa quanto no efeito.

As ideias que representam outras pessoas ou coisas naturais não contêm nada tão perfeito que eu não possa produzi-las por mim mesmo.

Mas, no que respeita à ideia de Deus, é difícil conceber que eu a tenha criado: por 'Deus' entendo uma substância que é infinita, eterna, onisciente, independente e poderosa. Essas qualidades não podem ter sido produzidas por mim.

A ideia de Deus é a única em que há algo que não poderia vir de mim; eu não possuo nenhuma das perfeições que estão representadas nessa ideia.

A simples presença, em mim, da ideia de Deus prova que eu não estou sozinho no mundo: demonstra a existência de Deus.

Segundo Descartes, porque eu duvido e sou finito, o cogito, ergo sum necessariamente se relaciona com a ideia de perfeição e com a causa dessa ideia, que é Deus. A ideia do infinito deve ser anterior à noção do finito.

Nas Meditações (Meditação III), Descartes pergunta como eu poderia saber que duvido e desejo, se eu tivesse alguma ideia de algo mais perfeito do que eu.

Ele alega que a noção de infinito é, de alguma forma, anterior à noção de finito; ou seja, a noção de Deus é anterior à noção de mim mesmo.

A afirmação do meu eu como sujeito de dúvida (ser finito e falível) contrasta com a afirmação de Deus como perfeição; entretanto, a consciência de Deus é posterior, em certo sentido, à consciência de mim mesmo. A mesma consciência de mim como ser pensante implica a consciência da ideia de Deus.

Descartes indaga se suas demonstrações da existência de Deus envolvem o uso de certos princípios, como o princípio de causalidade, já que a existência de Deus não foi demonstrada até a conclusão da prova. Consequentemente, deve-se considerar a possibilidade de existência de um Deus enganador até que a prova seja concluída.

Antoine Arnauld diz que a única razão para acreditar que o que percebemos de modo claro e distinto é verdadeiro é o fato de que Deus existe; por sua vez, só podemos ter certeza de que Deus existe porque percebemos com clareza e distinção. Portanto, antes de estar certo de que Deus existe, devemos estar certos de que tudo o que percebemos clara e distintamente é verdadeiro.

Descartes, porém, questiona as dúvidas sobre as ideias claras e distintas com a hipótese do gênio maligno.

Foi proposto, em exercícios escolares, que a simples ideia de Deus poderia levar à existência de Deus; Descartes endossa essa linha ao apresentar sua demonstração de modo que se assemelha a uma prova matemática. A questão é: posso mostrar a existência de Deus apenas considerando a perfeição contida na ideia de Deus?

Uma vez que a existência é uma das perfeições atribuídas a Deus e pertence à essência divina, ser supremamente perfeito não pode ser concebido como desprovido dessa perfeição. Assim, não se pode conceber Deus exceto como existente: não está ao meu alcance pensar Deus fora da existência, ou seja, pensar num ser supremamente perfeito desprovido da perfeição que é a existência.

Para Descartes, quando entendemos o que a palavra 'Deus' significa, entendemos que Deus existe na realidade e não apenas na mente.

O papel fundamental que Descartes reconhece em Deus é o de garantia da verdade. A concepção cartesiana de Deus é apresentada de modo filosófico e metafísico, desprovida de qualquer exame de caráter estritamente religioso na argumentação epistemológica.

Principais conceitos mencionados

  • Cogito: fundamento da certeza da existência do sujeito pensante.
  • Ideias claras e distintas: critério de verdade, mas dependente da garantia divina.
  • Princípio de causalidade: exige que a causa possua pelo menos tanta realidade quanto o efeito.
  • Prova ontológica: argumento que sustenta que a essência divina inclui a existência.

Conclusão

Descartes constrói uma sequência na qual a consciência do eu pensante e a presença da ideia de infinito conduzem à necessidade de uma causa adequada para essa ideia — Deus. A partir daí, argumenta que a existência faz parte da essência divina e que Deus é garantia da verdade, o que resolve, no seu sistema, a dúvida radical introduzida pela hipótese do gênio maligno.

Observação: o texto foi corrigido quanto à ortografia, pontuação e capitalização, mantendo o conteúdo e as ideias originais, e formatado para melhorar a legibilidade e a otimização para mecanismos de busca.

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