Desenvolvimento Moral na Adolescência: Piaget e Kohlberg
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Desenvolvimento Moral na Adolescência
A adolescência caracteriza-se por ser um período de construção de valores sociais e de interesse por problemas éticos e ideológicos. O adolescente confronta os seus próprios valores com os valores do "mundo adulto", na tentativa de alcançar a tão desejada autonomia. Piaget, ao analisar o desenvolvimento moral, colocou em relevo a importância dos pares no processo de socialização, defendendo que a relação de obediência da criança com o adulto favorece o desenvolvimento de uma moral heterónoma. Ao falar-se em desenvolvimento moral está a assumir-se que existem níveis de moralidade mais elevados que outros, tendo por base determinados critérios teóricos. Piaget veio opor-se ao postulado empirista que defendia o desenvolvimento moral como o resultado da interiorização de valores e regras sociais exteriores ao sujeito. Este defendia, ainda, que quando uma criança cooperasse autonomamente com outra sentiria uma necessidade intrínseca de ser leal, com o intuito de perpetuar a confiança mútua. Seria movido pelo desejo de ser aceite pelos outros e pela convicção de que seria útil tratar os outros da forma como gostaria de ser tratada. Segundo os estudos desenvolvidos por Piaget, parecem existir duas morais distintas nas crianças: autonomia e heteronomia. Desta forma, defendeu que não se poderia falar em estádios morais, mas sim em fases caracterizadas pela heteronomia e pela autonomia. Relativamente ao período da adolescência, Piaget defendia que o estádio predominante seria o da autonomia, pelo que os adolescentes, ao ingressarem no período das operações formais, tornar-se-iam capazes de construir os seus próprios juízos e raciocinar moralmente de forma autónoma. As regras, para o adolescente, deixariam de ser impostas e exteriores, havendo compreensão da relatividade das normas.
De forma contrária, a teoria do julgamento moral de Kohlberg é única pelo facto de postular uma sequência universal, da qual os estádios mais altos constituem o designado pensamento pós-convencional. Para Kohlberg, a maturidade moral seria atingida quando o indivíduo fosse capaz de entender que a justiça é diferente da lei, que algumas leis existentes poderiam ser moralmente erradas e deveriam ser modificadas. Lawrence Kohlberg elaborou a teoria do desenvolvimento moral, constituída por seis estádios. Depois de Piaget, Kohlberg seria o investigador mais importante da moralidade: retoma e aperfeiçoa o modelo piagetiano. Kohlberg propôs modos de interferir na passagem de um estádio para outro, ou seja, de se possibilitar que as pessoas desenvolvam a capacidade de fazer julgamentos morais. Para o estabelecimento dos seis estádios e para o diagnóstico do desenvolvimento moral, Kohlberg considerou três pontos:
- Primeiro, o valor moral defendido, representado pelo conteúdo intrínseco dos argumentos apresentados (punição, lei, vida, liberdade, justiça, papéis afetivos e autoridade).
- Segundo, a justificativa dos julgamentos (estrutura e coerência da argumentação).
- Por último, a orientação sócio-moral consciente do sujeito.
Kohlberg desenvolveu inúmeros estudos sobre o desenvolvimento do pensamento moral. Desses estudos, surge a distinção de três níveis de desenvolvimento moral: nível pré-convencional, convencional e pós-convencional. A moralidade pré-convencional seria a correspondente à moralidade heterónoma de Piaget, refletindo o nível moral dos sujeitos que encaram as regras como exteriores a si, reduzindo a justiça e a moralidade. A moralidade convencional refere-se aos sujeitos que já interiorizaram as normas e as expectativas sociais. O terceiro nível seria de designado de nível pós-convencional, ou da autonomia e dos princípios morais. Além dos três níveis de moralidade que foram analisados, a teoria de Kohlberg aponta para a existência de seis estádios de desenvolvimento moral. Desta forma, procuraram-se delinear as etapas do juízo moral na adolescência, através do desenvolvimento de um modelo de identificação dos estádios do pensamento moral:
- Estádio 1: a moral do castigo;
- Estádio 2: a moral do interesse;
- Estádio 3: a moral do coração;
- Estádio 4: a moral da lei;
- Estádio 5: a moral do relativismo da lei;
- Estádio 6: a moral da razão universal.
Em suma, a sequência de estádios proposta por Kohlberg afigura-se como um dos instrumentos mais fidedignos para identificar as mudanças ocorridas no domínio moral durante a adolescência.