Ditadura de Franco: Ideologia e Apoios Sociais
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Fundamentos Ideológicos e Apoio Social na Ditadura de Franco
1. Introdução
A ditadura de Francisco Franco surgiu durante a Guerra Civil Espanhola e consolidou-se após a vitória do general sobre o exército republicano, num contexto de ascensão de regimes autoritários na Europa. Em 1 de abril de 1939, o fim da guerra resultou na implementação de uma ditadura militar, levando muitos republicanos ao exílio, à prisão ou a campos de concentração. O regime de Franco perdurou até 1975.
De 1939 a 1975, o regime político em Espanha foi uma ditadura pessoal do General Franco. Ele permaneceu no poder por muitos anos, o que levou o seu regime a sofrer uma evolução em vários aspectos da política interna e externa, adaptando-se às sucessivas circunstâncias nacionais e internacionais. A sociedade permaneceu passiva, alheia à política. Franco concentrou todo o poder nas suas mãos: o exército, o poder legislativo e o executivo. Entre 1945 e 1950, o seu regime foi condenado pela ONU por apoiar a Alemanha e a Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Esta situação mudou com o início da Guerra Fria. Franco tornou-se um aliado dos EUA, e a Espanha foi admitida na ONU em 1953. Acredita-se que o regime de Franco teve duas fases principais: a primeira até aproximadamente 1957-1959 (autarcia e isolamento); e a segunda a partir de 1959, marcada por mudanças que levaram a uma nova era de "desenvolvimento" e à tentativa de institucionalizar um sistema que se pretendia apresentar como um Estado de Direito.
2. Desenvolvimento: Ideologia Franquista e Apoios Sociais
Uma vez no poder, em setembro de 1936, Franco nunca o cedeu. As suas ideias eram poucas e claras: comando único, ordem pública, catolicismo nacional. Queria um estado que banisse de Espanha:
- Liberalismo e democracia liberal
- Maçonaria
- Partidos políticos
- Comunismo
- Separatismo (nacionalismos)
- Recuperar o poder da Igreja
1) Fontes Ideológicas do Franquismo:
a) O antivermelho, "abrangendo" desde a extrema-esquerda até à revolução democrática burguesa. Serviu como um "trunfo" na Guerra Fria, embora tenha moderado as suas críticas ao sistema parlamentar, que considerava uma política fraca.
b) Identificação da Igreja Católica com os rebeldes: Cruzada. Espanha é equiparada à tradição religiosa. Domínio absoluto da Igreja sobre a vida social, a educação e a aplicação de uma estrita moralidade católica, pública e privada, cujo incumprimento era punido pelo Código Penal. Nacional-Catolicismo (em oposição ao nacional-socialismo alemão): Doutrina e força política durante o regime de Franco, que significava a união entre a ordem religiosa católica e o Estado. Envolveu a subjugação da Igreja ao poder político e a hegemonia do catolicismo na moralidade social.
c) Tradicionalismo: A ideia de Espanha baseava-se em raízes históricas, muitas vezes adulteradas. Retirou ideias dos carlistas (Deus, Pátria, Rei) e, sobretudo, dos militares: a unidade do país. Referências constantes ao Império de Carlos V e exaltação da Reconquista (D. Pelayo, El Cid), dos Reis Católicos (jugo e flechas), dos Áustrias maiores (Escorial, Vale dos Caídos). Defesa da "unidade da Pátria": recusa de qualquer tipo de autonomia política das regiões, construção de uma Espanha unicamente castelhana. Proibição rigorosa das outras línguas peninsulares numa fase inicial, para depois evoluir para uma certa tolerância. Identificava como antiespanhola a democracia, o liberalismo e a autonomia das regiões: proibição do uso de qualquer outra língua além do castelhano ("Fale a língua do Império").
d) Uso de símbolos militares e organização militar (militarismo) nos usos civis quotidianos (milícias universitárias, Flechas e Pelayos,...). Vestuário militar ou azul (camisa da Falange), emblemas (jugo e flechas), desfiles, educação física, exaltação da bandeira e do hino nacional. (A partir da década de 60, a modernização do país relegou para segundo plano este conjunto de valores).
Embora o regime evoluísse, manteve-se fiel a princípios políticos como:
- Oposição à democracia parlamentar liberal, à liberdade de reunião, expressão e associação. Proibição de partidos, sindicatos e controlo (censura) da informação.
- Dois inimigos de Espanha: o comunismo e o separatismo.
- Uma série de leis escritas para manter a situação sob controlo.
Desmantelou todas as instituições republicanas (constituição, direitos e liberdades dos cidadãos, proibição de partidos políticos e sindicatos, estatutos de autonomia...). Não existia uma Constituição nem liberdades democráticas.
Institucionalização do Regime
- O novo sistema político foi estabelecido como um sistema totalitário, com todos os poderes concentrados na figura do Chefe de Estado, com o título de Caudilho (só tinha de responder "perante Deus e perante a História"), o que lhe conferia poder absoluto. Era o comandante supremo das Forças Armadas e do partido único, a Falange Espanhola Tradicionalista e das JONS. Imitação da Itália e Alemanha. Inspirado no falangismo de Serrano Suñer. Acabou por ser renomeado como Movimento Nacional. Era também o chefe de governo, presidia ao Conselho Nacional, nomeava o Presidente das Cortes e dispunha de poderes excecionais. Outra grande força era a Organização Sindical Nacional (1940), o único sindicato vertical, formado por empresários, técnicos e operários. Dependia de um secretário-geral com a categoria de ministro.
- A filiação era obrigatória. Tinha também o controlo do território em cada província, com um governador civil, que por sua vez era o Chefe Provincial do Movimento e Governador Militar. Elaborou diferentes leis ao longo do governo. As primeiras focavam-se em reprimir os vencidos. Entre elas:
- Lei de Responsabilidades Políticas (1939): Repressão política sobre os vencidos na guerra.
- Lei de Repressão da Maçonaria e do Comunismo (1940)
- Lei de Segurança do Estado (1941): Reforçava as anteriores.
- Lei de Imprensa (1939 até 1966): Censura rigorosa.
- Foro do Trabalho (1938): Desaparecimento dos sindicatos de classe.
- Lei Constitutiva das Cortes (1942): Assembleia consultiva. Procuradores nas Cortes, não eleitos pelo povo e membros do poder (incluindo ministros, membros da Falange, alcaides de grandes cidades, reitores de universidades, representantes da Igreja...). Definiu-se como "o órgão superior de participação do povo espanhol na obra do Estado". O seu objetivo: proporcionar uma representação ao regime. A sua função: preparar e iniciar a legislação, embora necessitasse da sanção de Franco. A realidade: as Cortes aprovavam as leis que o governo ordenava. Os seus membros eram nomeados pela cúpula do regime, não por eleição democrática.
- Lei de Ordenamento Universitário: Nas mãos da Falange e da Igreja. Estudos obrigatórios de Religião e de Formação do Espírito Nacional (FEN). Criação do CSIC (Conselho Superior de Investigações Científicas).
- Em 1945, uma mudança de imagem do regime (não real, Franco continuava a controlar tudo), quando os fascistas perderam a 2ª Guerra Mundial. Queria aproximar-se dos aliados. Criou o conceito de "democracia orgânica", assim chamada porque ampliava a participação política da população, mas através da família, do município e do sindicato. Franco nomeou ministros da Ação Católica, para se aproximar dos partidos democratas-cristãos que governavam em muitos países europeus. Promulgou uma série de leis, como a Lei do Regime Local: eleição do conselho municipal por um sufrágio orgânico: 1/3 dos chefes de família, 1/3 dos sindicatos e 1/3 das associações de famílias. Também a Lei da Educação Básica (baseada na doutrina católica). Supressão da saudação fascista e amnistia parcial para os presos políticos.
As suas leis fundamentais são:
- A Carta dos Espanhóis (1945), uma espécie de declaração de direitos e deveres. "A liberdade de expressão inclui-se", desde que não atente contra o Estado.
- A Lei do Referendo (1945), que consiste numa consulta nacional sobre a legislação fundamental. Reconhece, pela primeira vez, a possibilidade do sufrágio universal em Espanha.
- Lei de Sucessão à Chefia do Estado (1947), aprovada em referendo. Lei: "Espanha é um reino". Franco, até à sua morte, seria o Chefe de Estado. O Chefe de Estado proporia ao Parlamento o seu sucessor. Não ficou claro quem o iria substituir.
Cria o Conselho de Regência e o Conselho do Reino. Começa o fim do isolamento internacional, a Espanha é admitida na ONU, UNESCO... Assina a Concordata com a Santa Sé: o Vaticano continuou a apoiar Franco. Privilégio de apresentação. Também acordos de defesa com os Estados Unidos para criar bases americanas. Entre 1959 e 1975, ocorrem mudanças, mas o regime de Franco não evolui ao ritmo da população. Alguns franquistas são aberturistas e a oposição começa a organizar-se e a unir-se para a morte de Franco.
Politicamente, é a institucionalização do regime e a continuidade. Com a Lei de Princípios do Movimento Nacional (1958), enfatiza a unidade de Espanha, o catolicismo, a família, o município, o sindicato... Ocorrem entradas de ministros aberturistas: sentiam um grau de liberalização. Solís Ruiz tenta criar associações políticas, mas não é aprovado.
Reforma do Sindicato: Solís Ruiz não consegue uma grande mudança, mas os líderes da oposição caem. Lei de Imprensa de Fraga: a censura desaparece, aumenta o número de revistas, livros, jornais...
Completou a institucionalização a Lei Orgânica do Estado de 1966, aprovada em referendo, que unifica toda a legislação anterior (Lei de Sucessão, Lei Orgânica do Movimento, Lei Sindical...). Separa o Chefe de Estado e o de Governo. Acaba por ser imposta pelo setor ultraconservador. Em 1967, Carrero Blanco é nomeado vice-presidente do governo. Aumentam os conflitos sociais: trabalhadores, estudantes e os primeiros ataques da ETA. Em 1969, nomeia Juan Carlos de Borbón como seu sucessor. De 1969 a 1975, no franquismo há uma maior divisão: uns querem a continuidade (Carrero Blanco) e outros querem uma alternativa política para o futuro. Avançam lentamente as associações políticas e as bancadas de extrema-direita (Fuerza Nueva) atacam violentamente a oposição.
2) Apoios Sociais: as "Famílias" do Regime
As bases sociais da ditadura de Franco estabeleceram o seu novo regime:
- A oligarquia latifundiária recuperou a sua hegemonia financeira e social e foi a maior beneficiária da política económica intervencionista do regime. Incorpora militares e falangistas.
- Classes médias rurais do norte e de Castela, sob forte influência do catolicismo. A maioria das classes médias urbanas e a classe operária apoiaram a ditadura. Nos primeiros anos, a repressão sistemática, a pobreza e a desmoralização após a derrota impediram que a falta de apoio se transformasse em oposição. Na década de sessenta, o desenvolvimento económico fez com que o sistema tivesse mais consenso social entre as classes média e trabalhadora, mas, ao mesmo tempo, a tímida liberalização do país levou ao desenvolvimento da oposição.
"Famílias"
Durante todos os anos, o regime contou sempre com o apoio social das chamadas "Famílias do regime", ou seja, falangistas, carlistas, católicos e monárquicos. O seu regime nunca se sustentou num único grupo político ou ideologia. O poder expressava-se sempre em três áreas: civil, militar e eclesiástica. Eram as três autoridades reconhecidas. Estas "famílias" estiveram representadas nos sucessivos governos, tal como o Exército, a Igreja e a Opus Dei. A sua base social era a burguesia, a aristocracia e o proletariado rural.
A Igreja foi uma das grandes bases ideológicas do regime. A Igreja, que se tinha comprometido com o levantamento fascista como uma cruzada, tornou-se um poder real, gozava de privilégios e impôs a unidade católica oficial, com exclusão de qualquer outra religião. O catolicismo foi o principal fundamento da ideologia do regime e do sistema educativo. A Opus Dei forneceu quadros de formação de um nível muito superior ao de outras elites do regime.
A Falange, outro dos pilares, foi perdendo gradualmente poder e os seus ideais primitivos de tipo fascista foram-se transformando numa lealdade cega ao Caudilho. Aos poucos, tornaram-se membros de uma burocracia que só manteve algum poder no Conselho do Movimento Nacional (uma espécie de segunda corte) e nos sindicatos. Com organizações juvenis: Frente da Juventude (era necessário ser sócio), organizava acampamentos, comícios e, a nível educacional, a educação política. Também organizações estudantis como o SEU (Sindicato Espanhol Universitário) e organizações femininas como a Secção Feminina, de filiação obrigatória, que consistia na realização do Serviço Social, equivalente ao serviço militar para os homens.
O Exército foi sempre a espinha dorsal do sistema e nunca discutiu o poder do Generalíssimo. A sua lealdade foi recompensada com inúmeras nomeações para altos cargos na administração civil, dirigentes sindicais e gestão de empresas públicas e privadas. Mas esforçou-se com alguns generais que queriam o regresso à monarquia. Parece que Franco nunca pensou em regressar à monarquia e teve uma relação difícil com Don Juan de Borbón, herdeiro de Afonso XIII.
Monárquicos: conjunto de tendências, por vezes, opostas:
- Carlistas: muito conservadores, com um papel muito menor, geralmente no Ministério da Justiça.
- "Donjuanistas": desiludidos com a não instauração da monarquia, continuaram a trabalhar com Franco, especialmente no campo diplomático. Distanciamento entre Franco e Don Juan devido ao Manifesto de Lausanne, no qual apoiava uma transição democrática, umas cortes constituintes e uma amnistia. Franco recusou estabelecer uma ditadura militar temporária na esperança de restaurar a monarquia ou continuar com a República, uma vez restabelecida a ordem social (que era a ideia de Mola). Estas "famílias" não deixaram de ser fictícias, pois Franco não tinha uma ideologia política clara. Os critérios para a escolha dos seus colaboradores eram: lealdade pessoal, prudência, eficiência e falta de ambição. Tentou impedir que alguém acumulasse demasiado poder e procurou sempre o equilíbrio entre os diferentes grupos do governo e altos cargos do sistema para contrabalançar o seu poder.
3. Conclusão
No final da Guerra Civil, Franco instaurou uma ditadura militar que pretendia banir de Espanha qualquer ideia de liberalismo e democracia liberal, e também de comunismo. O novo regime era um sistema totalitário em que todos os poderes estavam concentrados na figura do Chefe de Estado, bem como a existência de um partido único, a FET e das JONS. O novo regime baseava-se ideologicamente no catolicismo conservador e num sistema de Estado unitário. Inspirou-se nos estados fascistas: Alemanha e Itália, mas depois de 1945, após a derrota destes, o regime foi mudando um pouco e adaptando-se aos tempos, mas sem nunca perder a sua natureza totalitária. A vontade do ditador era evidente, com o desmantelamento das instituições republicanas e a supressão dos direitos individuais e coletivos. Ao mesmo tempo, tentou dar uma imagem de Estado de Direito com a promulgação de uma série de leis básicas, que são conhecidas como Leis Fundamentais. Numa aparente imobilidade, o sistema foi-se adaptando às diferentes situações internacionais com as quais teve de conviver, desde o isolamento do pós-guerra até ao reconhecimento e apoio, especialmente dos EUA, na Guerra Fria. A expansão económica da década de sessenta trouxe prosperidade, mas também a entrada de movimentos culturais e ideológicos europeus e o aumento das manifestações contra a ditadura.
A crise final ocorre em 1973, quando foi nomeado, pela primeira vez, um presidente do governo, Carrero Blanco. Isso significava a continuidade após a morte de Franco. Mas nesse mesmo ano foi assassinado pela ETA. À morte de Carrero, sucede-lhe como presidente Arias Navarro (1974), que não cumpre as promessas de reformas e torna-as incríveis. Os protestos de rua tornaram-se mais intensos (manifestações, greves, atentados...). Em 1974, Franco, doente, entrega o poder a Juan Carlos, a título provisório, mas sem poder. A 20 de novembro de 1975, Franco morre e começa a Transição Democrática.