Documentário: definições, distinções e história (anos 90)
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Documentário e não-ficção
O documentário situa-se na não-ficção, juntamente com a reportagem.
A não-ficção refere-se aos filmes cujas imagens e sons remetem para o que tem existência fora dessas imagens e sons. Assim, o documentário coloca-se em oposição a um conjunto de filmes designados por ficção, cujas imagens e sons não remetem de modo tão direto e incisivo para o mundo.
Distinção entre documentário e reportagem
Distinção sobre o documentário e a reportagem:
A distinção principal entre documentário e reportagem não passa pela questão autoral; mesmo numa reportagem é possível manifestar a marca ou estilo do autor. A diferença reside, essencialmente, nos procedimentos adotados para abordar o mundo quotidiano. O autor de uma reportagem deve seguir pressupostos jornalísticos. Para além disso, o jornalista segue um código deontológico.
Já no documentário, embora existam recursos que imediatamente lhe são associados (como o plano-sequência), não existe qualquer obrigatoriedade formal estabelecida à partida. Por outro lado, o documentarista não possui um código deontológico escrito; a ética profissional está dependente dos critérios de cada realizador. Assim, na reportagem existem um conjunto de procedimentos que devem ser aplicados, independentemente do tema; no documentário é o tema que deverá determinar a forma.
Procedimentos realistas e recursos associados
Para além das interferências entre ficção e documentário, é possível assumir que qualquer filme pode ser entendido como uma ficção, uma vez que nenhum filme pode substituir, efetivamente, a experiência vivida de um acontecimento.
É importante ter presente que há uma distinção entre a natureza realista do cinema (toda a imagem, independentemente do género a que pertence, é, pela sua própria natureza, realista) e os procedimentos realistas associados ao documentário. Exemplos de procedimentos frequentemente associados ao documentário incluem:
- registo in loco;
- actores naturais;
- cenários naturais;
- voz-off de um narrador, do realizador ou dos intervenientes;
- câmara ao ombro;
- plano-sequência;
- entre outros.
Esses procedimentos podem alterar-se por influência da cultura ou de paradigmas teóricos e artísticos.
Subgéneros do documentário
Documentário é um termo alargado que pode ser mais especificado quando nos referimos a filmes concretos, ou seja, a subgéneros do documentário, por exemplo: biográfico, histórico, de vida selvagem, etnográfico, etc.
Definições de documentário
Definições de documentário:
- “Tratamento criativo da realidade” — definição de John Grierson (anos 30, Movimento Documentarista Britânico). A década de 30 foi quando o documentário se afirmou enquanto género, tendo estabilizado um conjunto de procedimentos de produção (ex.: uso da voz-off) e garantido uma comunidade de espectadores.
- Possibilidade de encontrar/propor uma definição a partir de um enquadramento institucional. Por exemplo, no caso português, o Decreto-Lei n.º 124/2013, de 30 de agosto, no artigo 2.º, define documentário cinematográfico como “a obra cinematográfica que contenha uma análise original de qualquer aspeto da realidade, que reflita uma atividade de criação inerente a um ponto de vista de autor e não possua caráter predominantemente noticioso.”
- Documentário entendido como uma constante negociação entre o evento e a sua representação.
- A diferença entre documentário e ficção residir apenas no espectador.
Documentário é um termo que designa mais do que um objeto cinematográfico (ou seja, um género); designa também uma relação subjetiva com um filme. Todos os filmes são uma experiência de visionamento subjetiva onde os objetos são apresentados à nossa perceção. Assim, é a consciência do espectador que decide que género de filme está a ver. Quanto mais dependente o espectador estiver da imagem para obter conhecimento sobre o que vê, menos documental o filme se torna.
Os documentários dos anos 90
Nos anos 90, os documentários passaram a ser bastante utilizados como um meio de comercialização no cinema nacional e foram amplamente disseminados em festivais e mostras competitivas. Além disso, tornou-se cada vez mais comum a difusão do tema em revistas especializadas.
Todavia, nos últimos anos as produções audiovisuais de documentários foram ganhando espaço no circuito cinematográfico, ficando os anos 90 marcados pelo uso mais generalizado do digital. Em Portugal realizou-se o festival AMASCULTURA com 12 edições e formaram-se os primeiros concursos do ICA de apoio ao documentário.
A pluralidade de temas da década de 90 é evidenciada nos diversos documentários produzidos no período, tornando-se fortes críticas à sociedade portuguesa da altura, como, por exemplo, os filmes “Outros Bairros”, “Esta televisão é sua” e “Mulheres do Batuque”.