Documentário: Realidade, Ética e Linguagem
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Se dividirmos a produção/realização audiovisual em dois campos, o da ficção e o da não ficção, o documentário situa-se na não ficção, juntamente com o filme institucional, o filme publicitário, a reportagem, etc.
A não ficção refere-se aos filmes cujas imagens e sons remetem para o que tem existência fora dessas imagens e sons. Assim, o documentário coloca-se em oposição a um conjunto de filmes designados por ficção, cujas imagens e sons não remetem de modo tão direto e incisivo para o mundo.
Documentário vs. Reportagem
Dentro da não ficção, o género que mais comumente se confunde com o documentário é a reportagem. A distinção principal entre documentário e reportagem não passa pela questão autoral; mesmo numa reportagem é possível ser manifestada a marca ou estilo do autor da mesma. Assim, a diferença reside, essencialmente, nos procedimentos adotados para abordarem o mundo quotidiano.
O autor de uma reportagem deverá seguir pressupostos jornalísticos (apresentar o quem, o quando, o onde, o como e o porquê e adotar procedimentos considerados objetivos do ponto de vista jornalístico, como seja a apresentação de depoimentos das diferentes pessoas envolvidas num mesmo assunto). Para além disso, o jornalista segue um código deontológico.
Já no documentário, embora existam recursos que imediatamente lhe são associados (como o plano-sequência), não existe qualquer obrigatoriedade formal estabelecida à partida. Por outro lado, o documentarista não possui nenhum código deontológico escrito; a ética profissional está apenas dependente dos critérios de cada realizador. Assim, na reportagem existe um conjunto de procedimentos que devem ser aplicados, independentemente do tema; no documentário, é o tema que deverá determinar a forma.
A Representação da Realidade
“Um documentário representa a realidade”. A ficção assume-se, desde logo, como um desvio da realidade. No caso do documentário, abordar a realidade assume-se como sinónimo de a representar com veracidade, fielmente. (Questão: um mapa não tem uma escala 1:1 e nem por isso a sua veracidade é posta em causa).
Para além das interferências entre ficção e documentário, em especial no que diz respeito aos recursos utilizados, é possível assumir que todo e qualquer filme pode ser entendido como uma ficção, uma vez que nenhum filme pode substituir, efetivamente, a experiência vivida de um acontecimento. E, de igual modo, todo e qualquer filme pode ser entendido como um documentário, uma vez que é sempre cultural, política, social e/ou historicamente datado.
Ética e a Representação do Outro
Há questões que se encontram mais diretamente ligadas ao documentário e menos à ficção, nomeadamente as de carácter ético. Também na ficção podemos discutir esses aspetos, mas a ficção apresenta-se como um desvio da realidade, o que lhe permite diluir a responsabilidade ética.
No documentário, as questões éticas colocam-se de modo mais premente porque está, quase sempre, em causa uma representação do Outro. O modo como cada realizador lida com as dificuldades de representação do Outro depende apenas do próprio realizador já que, ao contrário do jornalista, o documentarista não possui um código deontológico ao qual possa recorrer para antecipar, solucionar ou sanar conflitos.
Natureza Realista e Subgéneros
É importante ter presente que há uma distinção entre a natureza realista do cinema (toda a imagem, independentemente do género a que pertence é, pela sua própria natureza, realista) e os procedimentos realistas associados ao documentário, tais como:
- Registo in loco;
- Atores naturais;
- Cenários naturais;
- Voz off de um narrador, do realizador ou dos intervenientes;
- Câmara ao ombro;
- Plano-sequência, etc.
Esses procedimentos podem alterar-se por influência da cultura ou paradigmas teóricos e artísticos. Documentário é um termo alargado que pode ser mais especificado quando nos referimos a filmes concretos, ou seja, a subgéneros do documentário, por exemplo: biográfico, histórico, da vida selvagem, etnográfico, social e político, sobre arte, musical, mockumentary, etc. Mas, acima de tudo, “documentário” é um termo que abarca uma grande diversidade de filmes (de conteúdo e forma).
Estudo de Caso: Inventário de Natal (2000)
Visionamento de: Inventário de Natal (2000), de Miguel Gomes. Sobreposição de documentário e ficção:
- O filme é sobre um dia de Natal: por se tratar de um dia que possui rituais, o filme tem já um argumento, no caso, encontrado na realidade (lado ficcional da realidade);
- O espectador reconhece tratar-se de um dia de Natal, mas recebe a visão subjetiva do realizador a respeito desse dia passado em família; o presépio que serve de motivo para as brincadeiras das crianças, os diálogos entre os membros da família (o tio e os sobrinhos; o avô e a neta) (lado documental e ficcional do filme).