Segundo Domingo do Advento: Conversão e Esperança

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Introdução

A liturgia do segundo domingo do Advento constitui um veemente apelo ao reencontro do homem com Deus: à conversão. Por sua parte, Deus está sempre disposto a oferecer ao homem um mundo novo de liberdade, de justiça e de paz; mas esse mundo só se tornará realidade quando o homem aceitar reformar o seu coração, abrindo-o aos valores de Deus.

Primeira leitura: Perdão e Novo Êxodo

Na primeira leitura, um profeta anónimo da época do Exílio garante aos exilados a fidelidade de Jahweh e a sua vontade de conduzir o povo — através de um caminho fácil e direito — em direção à terra da liberdade e da paz. Ao povo, por sua vez, é pedido que dispa os seus hábitos de comodismo, de egoísmo e de auto-suficiência e aceite, outra vez, confrontar-se com os desafios de Deus. Consiste, em primeiro lugar, no anúncio do perdão de Deus (vers. 2). Os exilados estavam convencidos de que a dolorosa experiência do Exílio era o castigo pelos pecados cometidos pelo povo de Judá. Viviam angustiados, afogados em sentimentos de culpa, sentindo‑se em transgressão, indignos, pecadores e afastados de Deus. Neste contexto, Deus diz-lhes: o tempo da ruptura e do afastamento terminou e chegou o tempo do reencontro, o tempo de refazer a comunhão e a aliança.

O profeta utiliza, para expressar esta mensagem de perdão, duas imagens. A primeira é ligada ao universo militar: o tempo de serviço que o povo foi obrigado a cumprir já terminou (a palavra utilizada pelo profeta designa com frequência, na língua hebraica, o tempo de vassalagem forçada, o tempo obrigatório de serviço no exército). A segunda é ligada ao universo cultual: o castigo que o povo sofreu foi aceite pelo Senhor como se se tratasse de um sacrifício de expiação — esses sacrifícios de expiação que a liturgia de Israel tão bem conhecia e que serviam para refazer a comunhão com Deus depois do pecado do povo.

Ainda neste enquadramento de consolação, o autor do nosso texto apresenta uma misteriosa voz que convida a preparar "no deserto o caminho do Senhor", a abrir "na estepe uma estrada para o nosso Deus" (vers. 3-5). O que é que isto significa?

O tema do deserto leva-nos, evidentemente, ao Êxodo: recorda esse acontecimento fundamental da história e da fé de Israel que foi a libertação do Egito e a viagem da terra da escravidão para a terra da liberdade — viagem que não foi apenas um percurso geográfico, mas sobretudo uma viagem espiritual, durante a qual o povo fez uma experiência de encontro com Deus, amadureceu a sua fé e passou de uma mentalidade de egoísmo e de escravidão para uma mentalidade de comunhão e de liberdade.

A referência ao caminho pelo deserto sugere claramente que Deus prepara um Novo Êxodo para o seu povo. O profeta anuncia aos exilados que Deus vai traçar um caminho fácil, direito, glorioso e triunfal, pelo qual os exilados irão passar da terra da escravidão à terra da liberdade, numa espécie de "reedição melhorada" do antigo Êxodo. Trata‑se de um caminho geográfico, ou de um caminho espiritual? Provavelmente, o profeta não distingue uma coisa da outra. Ele quer dizer aos exilados que Deus vai tornar fácil esse percurso geográfico que eles devem percorrer, alimentando‑os, salvando‑os dos perigos, ajudando‑os a vencer a fadiga da caminhada; mas, sobretudo, quer dizer que Deus lhes vai oferecer outra vez a possibilidade de uma caminhada espiritual, durante a qual poderão fazer uma nova experiência do amor e da bondade de Deus e redescobrir os caminhos da comunhão e da aliança. Naturalmente, é preciso que os exilados preparem o espírito para acolher esta nova possibilidade que Deus oferece: aceitem confiar em Deus, aceitem o desafio de retornar à aliança, aceitem renunciar à escravidão para correr o risco da liberdade.

Terceira cena: Mensageiro e boa notícia

Na terceira parte, o nosso texto coloca‑nos diante de uma nova cena. Um mensageiro (em grego: um "evangelista") eleva a sua voz sobre uma alta montanha e proclama uma boa notícia a Jerusalém e às outras cidades de Judá: o Deus poderoso do Êxodo ("vem com poder, o seu braço dominará") conduz pessoalmente o seu povo de regresso à Terra Prometida. Ele é o Pastor que reúne o seu rebanho, que o apascenta, que cuida das ovelhas mais frágeis e as conduz "ao seu descanso", que oferece de novo ao seu povo a vida e a fecundidade. A referência às ovelhas mais fracas e às ovelhas recém‑nascidas (objeto de um especial cuidado de Deus, o Pastor) sublinha o amor, a ternura e a solicitude de Jahweh pelo seu povo. Trata‑se, sem dúvida, de uma mensagem de consolação destinada a acordar nos exilados a fé e a esperança.

Evangelho: João Batista e o batismo de conversão

No Evangelho, João Batista convida os seus contemporâneos (e, claro, os homens de todas as épocas) a acolher o Messias libertador. A missão do Messias — diz João — será oferecer a todos os homens esse Espírito de Deus que gera vida nova e permite ao homem viver numa dinâmica de amor e de liberdade. No entanto, só poderá estar aberto à proposta do Messias quem tiver percorrido um autêntico caminho de conversão, de transformação, de mudança de vida e de mentalidade. O corpo central do nosso texto apresenta‑nos a missão de João Batista (vers. 2‑3), a sua pregação (vers. 4), a reação dos ouvintes (vers. 5), o seu estilo de vida (vers. 6) e o testemunho de João sobre Jesus (vers. 7‑8).

Qual é, pois, a missão de João? De acordo com o nosso texto, é ser o "mensageiro" que prepara o caminho para o Messias, Filho de Deus (vers. 2). A propósito da apresentação da missão de João, o autor apresenta uma citação atribuída ao profeta Isaías, mas que é, na realidade, um conjunto de afirmações retiradas do Êxodo (cf. Ex 23,20), de Isaías (cf. Is 40,3) e de Malaquias (cf. Mal 3,1): "Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas". A acumulação de citações tiradas da Torá e dos Profetas sugere que João é esse mensageiro de Deus do qual falavam as promessas antigas, e que devia vir anunciar e preparar o povo de Deus para acolher a intervenção definitiva de Jahweh na história dos homens.

Em que consistia a pregação de João? João "apareceu no deserto a proclamar um batismo de penitência para remissão dos pecados" (vers. 4). De acordo com a catequese judaica, o Messias só chegaria quando Israel fosse, na verdade, a comunidade santa de Deus. Antes de o Messias chegar, o povo devia, portanto, realizar um caminho de purificação e de conversão, de forma a tornar‑se um povo santo. O "batismo de penitência" (literalmente, "batismo de conversão" — ou de "metanoia") proposto por João deve ser entendido neste contexto e representa um convite à mudança radical de vida, de comportamento e de mentalidade.

Este batismo proposto por João não era, na verdade, uma novidade insólita. O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água; era, inclusive, um rito usado na integração dos prosélitos (os pagãos que aderiam ao judaísmo) na comunidade do povo de Deus. Na perspectiva de João, provavelmente, este batismo é um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava este batismo passava a viver uma vida nova e aceitava integrar a comunidade do Messias.

A pregação de João é feita "no deserto". O deserto é, no contexto da catequese judaica, o lugar onde o povo de Deus realizou uma caminhada de purificação e de conversão. Foi no deserto que os israelitas libertados do Egito passaram de uma mentalidade de escravos a uma mentalidade de homens livres, de uma mentalidade de egoísmo a uma mentalidade de partilha, de uma atitude descomprometida a uma aliança com Jahweh, da desconfiança em relação à proposta libertadora que Moisés lhes apresentou à confiança total num Deus que cumpre as suas promessas e que é fonte de vida e de liberdade para o seu povo. A pregação de João lembrava aos israelitas a necessidade de voltar ao deserto e de percorrer um caminho semelhante ao que os antepassados tinham percorrido.

Reação do povo e estilo de vida de João

Como reagiam os interlocutores de João às suas propostas? Marcos diz que "acorria a Ele toda a gente da região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém" para serem batizados, confessando os seus pecados (vers. 5). A afirmação de que "toda a gente" acorria ao apelo de João parece manifestamente exagerada. Ao apresentar esta perspectiva ideal da forma como a mensagem foi acolhida pelo povo, Marcos está, provavelmente, a sugerir o caráter decisivo e determinante da proposta que João faz: não é "mais um" convite à conversão, mas é o último e definitivo apelo de Deus ao seu povo.

João vestia‑se de pelos de camelo, com um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava‑se de gafanhotos e de mel silvestre. O estilo de vida de João — sóbrio, desprendido, austero, simples — é um convite claro à renúncia aos valores do mundo. É a aplicação prática dessa austeridade de vida e dessa renovação de atitudes, de comportamentos e de mentalidade que João pede aos seus conterrâneos. O estilo de vida de João corrobora a mensagem que ele apresenta.

Além disso, o estilo de vida de João evoca o profeta Elias que, de acordo com 2 Re 1,8, se vestia "de peles" e "trazia um cinto de couro em volta dos rins". O profeta Elias era, no universo da esperança judaica, o profeta elevado para junto de Deus e destinado a aparecer de novo no meio dos homens para anunciar a chegada iminente da era messiânica (cf. Mal 3,22‑24). A identificação física de João com Elias significa que a era messiânica chegou e que João é o mensageiro esperado, cuja mensagem prepara a chegada do Messias libertador.

O Messias: força e Espírito

O que diz João sobre esse Messias libertador, do qual ele é o arauto e o mensageiro? João fala da força do Messias e define a sua missão como "batizar no Espírito". Tanto a fortaleza como o dom do Espírito são prerrogativas do Messias, segundo a catequese profética (cf. Is 9,6; 11,2). O Messias terá, portanto, a força de Deus e a sua missão será comunicar esse Espírito de Deus, que transforma, renova e recria os corações dos homens.

Em resumo: João é o mensageiro enviado por Deus para preparar os homens para a chegada do Messias. A mensagem transmitida por João — com a palavra e com a própria atitude de vida — é um apelo veemente à mudança de vida e de mentalidade, a fim de que a proposta do Messias libertador encontre lugar no coração dos homens. João deixa claro que a missão do Messias é comunicar o Espírito que transforma o homem.

Atualização

Na reflexão, considerar os seguintes desenvolvimentos:

  • Mensagem principal: João, o Batista, afirma claramente que preparar a vinda do Messias passa pela metanoia — isto é, por uma transformação total do homem: por uma nova atitude de base, por outra escala de valores, por uma radical mudança de pensamento, por uma postura vital inteiramente nova, por um movimento radical que leve o homem a reequacionar a sua vida e a colocar Deus no centro da sua existência e dos seus interesses. Neste tempo de Advento, de preparação para a celebração do Natal do Senhor, este apelo é central.

A segunda leitura aponta para a parúsia, a segunda vinda de Jesus. Convida‑nos à vigilância — isto é, a vivermos dia a dia de acordo com os ensinamentos de Jesus, empenhando‑nos na transformação do mundo e na construção do Reino. Se os crentes pautarem a sua vida por esta dinâmica de contínua conversão, encontrarão no final da sua caminhada terrena "os novos céus e a nova terra onde habita a justiça".

O texto que hoje nos é proposto apresenta duas partes, embora estreitamente ligadas entre si pelo tema da parúsia (a "segunda vinda" do Senhor Jesus, no final dos tempos). A primeira integra uma reflexão (cf. 2 Pe 3,1‑10) sobre o "dia do Senhor"; a segunda integra uma exortação (cf. 2 Pe 3,11‑16) aos cristãos no sentido de levarem uma vida santa.

Os cristãos dos primeiros tempos estavam convencidos da iminência da chegada de Jesus para eliminar definitivamente o mal e instaurar o Reino de Deus. No entanto, o tempo passava e a segunda vinda do Senhor não acontecia. Os crentes estavam decepcionados e eram objeto da irrisão dos adversários. É neste contexto que a leitura de hoje nos situa. O autor explica sumariamente aos membros da sua comunidade cristã as razões pelas quais o Senhor ainda não veio. A primeira é que Deus não está dependente do tempo como nós que vivemos na história ("um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia" — vers. 8); a segunda é que Deus é paciente e pretende prorrogar o tempo da história para dar a todos a oportunidade de acolherem a salvação que Ele oferece (vers. 9). De resto, não é possível definir o momento exacto da segunda vinda de Jesus: será algo inesperado e surpreendente, que os crentes devem esperar vigilantes e preparados.

O que significa estar vigilante e preparado? O nosso autor responde a esta questão na segunda parte do nosso texto (vers. 11‑14). Os crentes devem viver uma vida consentânea com a vocação a que foram chamados — isto é, uma vida irrepreensível, "santa" (ao serviço de Deus), cheia de piedade, "sem pecado nem motivo algum de censura". Essa conduta, na opinião do autor da carta, apressará a segunda vinda do Senhor e, consequentemente, a concretização da promessa desses "novos céus e nova terra onde habitará a justiça".

Conclusão

O conjunto das leituras do segundo domingo do Advento oferece, assim, uma dupla mensagem: por um lado, a consolação e a promessa de Javé de restaurar o seu povo (Novo Êxodo); por outro, o apelo urgente à conversão pessoal e comunitária, preparado por João Batista, e a chamada contínua à vigilância na expectativa da parúsia. A resposta esperada dos fiéis é uma transformação concreta da vida, acolhendo o Espírito que o Messias comunica.

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