Eça de Queirós — Corridas em Belém: crítica social
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Este é outro episódio que se insere na crônica de costumes.
1. Objetivos
- Novo contacto de Carlos com a sociedade de Lisboa, incluindo o próprio rei.
- Visão panorâmica da sociedade lisboeta (masculina e feminina) sob o olhar crítico de Carlos.
- Tentativa frustrada de igualar Lisboa às capitais europeias, sobretudo Paris.
- Criticar o cosmopolitismo postiço da sociedade.
- Possibilidade de Carlos encontrar novamente a mulher que viu à entrada do Hotel Central.
2. Caracterização do ambiente geral
2.1. Largo de Belém
- Tosca guarita de madeira, armada de véspera → improvisação;
- Monotonia;
- Tristeza e silêncio;
- Pasmaceira (o trabalhador com o filho ao colo e a mulher);
- Desinteresse (o garoto apregoando o programa das corridas que ninguém compra; a mulher da água fresca sentando-se na sombra a catar o filho);
- O trintanário que fora comprar o bilhete de Craft demora-se em discussão com o bilheteiro, que não tem troco de uma libra; Craft apeia-se para ir resolver o problema e é insultado;
- As pessoas em trajes domingueiros;
- Traços realistas: descrição do calor, do colorido, dos sons e dos costumes de uma cidade estagnada;
- Falta de motivação e entusiasmo pelo fenómeno desportivo em causa;
- Provincianismo.
2.2. Entrada do hipódromo
- «... abertura escalavrada num muro de quintarola...»;
- Primeira desordem / discussão;
- Motivo: um sujeito queria entrar sem pagar a carruagem, porque o sr. Savedra lho tinha prometido;
- O engarrafamento de dog-carts e caleches de praça;
- Os insultos dos ocupantes;
- A intervenção deselegante da polícia;
- O grande rebuliço e a poeirada;
. Falta de organização
. Pilantrice
. Falta de educação
. Provincianismo
Compra, a mulher da água fresca sentando-se na sombra a catar o filho);
O trintanário que fora comprar o bilhete de Craft demora-se em discussão com o bilheteiro, que não tem troco de uma libra; Craft apeia-se para ir resolver o problema e é insultado;
As pessoas em trajes domingueiros;
Traços realistas: a descrição do calor, do colorido, dos sons e dos costumes de uma cidade estagnada.
Falta de motivação e entusiasmo pelo fenómeno desportivo em causa;
Provincianismo.
2.2. Entrada do hipódromo (repetição)
- «... abertura escalavrada num muro de quintarola...»;
- Primeira desordem / discussão;
- Motivo: um sujeito queria entrar sem pagar a carruagem, porque o sr. Savedra lho tinha prometido;
- Os insultos dos ocupantes;
- A intervenção deselegante da polícia;
- O grande rebuliço e a poeirada;
. Falta de organização
. Pilantrice
. Falta de educação
. Provincianismo
2.3. Descrição do hipódromo
- Situado numa colina, sob a aragem vinda do rio, provoca uma sensação de frescura e paz;
- A gente apinhada;
- As precárias condições das tribunas e do espaço envolvente;
- A tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de repartição;
- As tribunas públicas com o feitio de traves mal pregadas - o hipódromo parecia um palanque de arraial - mal pintadas e com fendas;
- O recinto da tribuna fechado por um tapume de madeira;
- As pessoas não sabem ocupar os seus lugares: «... havia uma fila de senhoras quase todas de escuro encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado...»;
2.4. Durante as corridas
- Fuma-se e fala-se baixo → falta de à-vontade;
- As pessoas pasmam → pasmaceira;
- Dois brasileiros queixam-se do preço dos bilhetes e consideram as corridas
- Uma «sensaboria de rachar»;
- A chegada do rei é saudada com o «Hino da Carta».
2.5. Descrição do bufete
- Instalado debaixo da tribuna;
- Pobreza: «... o tabuado nu, sem sobrado, sem um ornato, sem uma flor.» — assemelha-se a uma taberna;
- Falta de higiene e aspeto nojento: «... dois criados, estonteados e sujos, achatavam à pressa as fatias de sanduíches com as mãos húmidas da espuma da cerveja.»;
- A animação fictícia, com hurras a Clifford e a Carlos.
As corridas
1.ª corrida: 1.º Prémio dos «Produtos»
- Os dois cavalos «passavam num galope sereno»;
- Os assistentes não sabem quem ganhou e, mal a corrida termina, regressam ao silêncio, à lassidão e ao desapontamento;
- O desinteresse pela corrida confirma-se na atitude dos que se encontram de costas voltadas para a pista, fumando e contemplando as mulheres;
- O provincianismo bacoco dos homens que ficam parados e embasbacados a admirar Clifford;
- A ausência de apostas;
- A falta de autoridade e de respeito para com o rei, cuja proximidade não impede a desordem;
- A corrida termina com uma cena de insultos e pancadaria por causa de uma burla (segunda desordem):
- «Isto é um país que só suporta hortas e arraiais...»;
- «Corridas, como muitas outras coisas civilizadas lá de fora, necessitam primeiro gente educada.»;
- «Do que gostamos é de vinhaça, e viola, e bordoada...».
2.ª corrida: Grande Prémio Nacional
- Alguns sujeitos examinam o «Rabino», «com o olho sério, afetando entender», entre os quais se inclui Carlos, que também admira o cavalo, mas nota-lhe o peito estreito;
- Finalmente, aposta-se;
- Estão quatro cavalos inscritos na corrida;
- O favorito é o «Rabino» e todos querem tirar o bilhete deste;
- Carlos, por «divertimento» («... gostara da cabeça ligeira do potro, do seu peito largo e fundo...»), e «... para animar mais aquele recanto da tribuna, ver brilhar»;
Conclusões — Intenção crítica de Eça
- O oportunismo e a cupidez dos que se pretendem aproveitar de Carlos apostar no cavalo menos favorito;
- O desejo português de ser o primeiro em tudo;
- A tendência de as pessoas se aperceberem do que é óbvio e de se colarem ao vencedor, evidenciada pelo facto de mesmo os que não haviam apostado no «Minhoto» o aplaudirem, pois esperavam que fosse ele o vencedor;
- O patriotismo provinciano que vê em jogo, numa corrida de cavalos, o prestígio do nosso país: como «Minhoto» era um cavalo português, a sua vitória seria um ato patriótico;
- O cansaço rápido que se apodera de nós e que permite que outros venham, de seguida, colher o fruto do nosso esforço desordenado: o jóquei inglês deixou primeiro que «Minhoto» se cansasse, para depois o vencer facilmente;
- O não saber perder, patente na reação das personagens quando o cavalo em que apostaram perdeu;
- «... o adido italiano (...) empalideceu...»;
- «... atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas...»;
- «... a vasta ministra da Baviera, furiosa...»;
- «... o secretário lento e silencioso...».
- Gulosamente os olhos interesseiros das mulheres, decide apostar tudo em «Vladimiro», apesar do potro ir em último lugar na corrida;
- Todos os outros decidem apostar contra Carlos, procurando «aproveitar-se daquela fantasia de homem rico...»;
- Contra todas as expectativas, «Vladimiro» vence «Minhoto» por duas cabeças, o que permite a Carlos ganhar a poule e provoca a irritação dos restantes, que perderam;
- Finalizada a corrida, o torpor volta a instalar-se enquanto as pessoas se dispersam;
- «Mas uma indiferença, um tédio lento, ia pesando outra vez, desconsoladoramente...»;
- Os rapazes bocejavam, com um ar exausto;
- A música desanimada;
- «As senhoras tinham retomado a imobilidade melancólica...»;
- «E sujeitos, de mãos atrás das costas, pasmavam...».
Conclusões — Intenção crítica de Eça (repetição)
- O oportunismo e a cupidez dos que se pretendem aproveitar de Carlos apostar no cavalo menos favorito;
- O desejo português de ser o primeiro em tudo;
- A tendência de as pessoas se aperceberem do que é óbvio e de se colarem ao vencedor, evidenciada pelo facto de mesmo os que não haviam apostado no «Minhoto» o aplaudirem, pois esperavam que fosse ele o vencedor;
- O patriotismo provinciano que vê em jogo, numa corrida de cavalos, o prestígio do nosso país: como «Minhoto» era um cavalo português, a sua vitória seria um ato patriótico;
- O cansaço rápido que se apodera de nós e que permite que outros venham, de seguida, colher o fruto do nosso esforço desordenado: o jóquei inglês deixou primeiro que «Minhoto» se cansasse, para depois o vencer facilmente;
- O não saber perder, patente na reação das personagens quando o cavalo em que apostaram perdeu;
- «... o adido italiano (...) empalideceu...»;
- «... atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas...»;
- «... a vasta ministra da Baviera, furiosa...»;
- «... o secretário lento e silencioso...».
3.ª corrida: Prémio de El-Rei
Um cavalo solitário atravessa a meta, sem se apressar, num galope pacato, e só muito tempo depois chega outro cavalo, uma pileca branca arquejando, num esforço doloroso, numa altura em que o jóquei do cavalo vencedor se encontrava já a conversar com os amigos, encostado à corda da pista.
4.ª corrida: Prémio da Consolação
- Todo o interesse fictício desaparecera e regressa a indiferença geral;
- Junto à meta, um dos cavaleiros caía;
- Já à saída, o Vargas, bêbado, esmurrara um criado de bufete → «... tudo é bom quando acaba bem.».
Os homens
- Visconde de Darque: dono do «Rabino», o favorito, considera a sua participação um sacrifício: «... não podia apresentar um cavalo decente, com as suas cores, senão daí a quatro anos»; não apurava cavalos para «aquela melancolia de Belém», para aquele «horror»; quando há qualquer problema ou dúvida, requisitam-no de imediato: «Eu sou o dicionário...».
- Alencar: elegantemente vestido; sempre cortês e bem penteado nesse dia, beija fidalgamente a mão de D. Maria da Cunha; encontra nas corridas «... um certo ar de elegância, um perfume de corte...».
- O barão de Craben: pequenino, aos pulinhos.
- Craft: que apresenta Clifford a Carlos.
- Sequeira: «... entalado numa sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapéu branco...»; considera uma «sensaboria» «... aquela corrida insípida, sem cavalos, sem jóqueis, com meia dúzia de pessoas a bocejar em toda...»; «... um divertimento que não estava nos hábitos do país...».
- Clifford: «... parecia achar tudo aquilo ignóbil...», acabando por retirar a «Mist».
- Steinbroken: aposta sem conhecer os cavalos.
- Conde de Gouvarinho: e os seus dislates e ignorância: «... todos os requintes da civilização se aclimatavam bem em Portugal.»; «O nosso solo (...) é um solo abençoado!».
- Teles da Gama: encarregado de organizar as apostas.
- Eusebiozinho: acompanhado pela Concha e pela Carmen.
- Dâmaso: o seu «chique a valer»; a gabarolice, a falta de educação e de respeito para com as mulheres, traduzida numa linguagem rude: «... tinha estado (...) com uma gaja divina...»; a queixa da troça que o seu véu provocara.
cortês e bem penteado nesse dia, beija fidalgamente a mão de D. Maria da Cunha; encontra nas corridas «... um certo ar de elegância, um perfume de corte...».
- Sequeira: «... entalado numa sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapéu branco...»; considera uma «sensaboria» «... aquela corrida insípida, sem cavalos, sem jóqueis, com meia dúzia de pessoas a bocejar em toda...»; «... um divertimento que não estava nos hábitos do país...».
- Clifford: «... parecia achar tudo aquilo ignóbil...», acabando por retirar a «Mist».
- Steinbroken: aposta sem conhecer os cavalos.
- Conde de Gouvarinho: e os seus dislates e ignorância: «... todos os requintes da civilização se aclimatavam bem em Portugal.»; «O nosso solo (...) é um solo abençoado!».
- Teles da Gama: encarregado de organizar as apostas.
- Eusebiozinho: acompanhado pela Concha e pela Carmen.
- Dâmaso: o seu «chique a valer»; a gabarolice, a falta de educação e de respeito para com as mulheres, traduzida numa linguagem rude: «... tinha estado (...) com uma gaja divina...»; a queixa da troça que o seu véu provocara.
Em suma, neste episódio, o narrador critica e caricatura uma sociedade que aplaude a organização das corridas na sua ânsia de imitar o que de melhor há «lá fora», sobretudo em Paris, modelo de civilização. Porém, como em Portugal não havia a tradição nem o hábito de realização de tais eventos, em vez de um grande acontecimento mundano, assistimos a um grande fiasco, a mais uma manifestação do gosto pela aparência e pelo postiço, em detrimento daquilo que seja autêntico e genuinamente português. Os alvos visados por Eça de Queirós são, basicamente, dois:
- A Monarquia, pela falta de autoridade que o Rei demonstra, pois a sua presença não consegue impedir as várias desordens;
- A incivilização;
- O fracasso total dos objetivos da corrida;
- A falta de decoro e de educação;
- A incultura;
- A grosseria;
- O desinteresse;
- O carácter mimético;
- O atraso generalizado;
- O provincianismo: a organização das corridas, que pretendia emprestar-lhes um toque de civilização, acaba por pôr a nu o quanto há de postiço e de reles no decoro solene da assistência;
- Os gritos de «Fora! Fora!», «ordem» e «morra»;