A Economia Brasileira e a Crise de 1930: Análise de Furtado

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“A economia havia desenvolvido uma série de mecanismos pelos quais a classe dirigente cafeeira lograra transferir para o conjunto da coletividade o peso da carga nas quedas cíclicas anteriores” (p. 264).

O mecanismo de manipulação da taxa cambial, utilizado até então, tornou-se inviável devido aos elevados estoques e às precárias perspectivas de financiamento, que fizeram o preço do café despencar. Acumularam-se, assim, crises de oferta e de procura. O baixo preço do café e a depreciação cambial fizeram com que o grosso das perdas fosse “socializado” com a coletividade por meio da alta dos preços das importações. O mecanismo cambial era insustentável, dada a queda consecutiva dos preços do café, estimulada pelo crescimento da produção devido ao incentivo artificial das desvalorizações. Tampouco seria conveniente usar a expansão do crédito, uma vez que ela também geraria socialização de perdas, agravamento do desequilíbrio externo e depreciação da moeda, não obstante beneficiasse indiretamente o setor exportador.

Furtado afirma que o preço do café é determinado por condicionantes do lado da oferta, e não da procura, observando que os preços durante a década de 1930 permaneceram estáveis, apesar da recuperação dos países industrializados. Além disso, o consumo de café por esses países manteve-se constante.

A garantia de um preço mínimo de compra do café assegurava a manutenção do nível de emprego no setor cafeeiro e nos setores correlatos. Colher grandes safras evitava a queda da renda do setor, mesmo com a desvalorização da moeda nacional. Esses fatores, juntos, mitigaram os efeitos do multiplicador do desemprego entre 1931 e 1939. Sob esse ângulo, Furtado enxerga a política de defesa do café como um programa de fomento da renda nacional, de caráter anticíclico, que colaborou para amenizar a queda dos investimentos na economia brasileira no início da década de 1930. Em 1933, período de maior colheita, as inversões líquidas brasileiras foram de 1 milhão de contos; contudo, somadas aos estoques de café (1,1 milhão de contos), o total atingiu 2,1 milhões, valor próximo aos 2,3 milhões de 1929. Sendo assim, Furtado conclui que a recuperação da crise internacional não ocorreu via fatores externos.

Deslocamento do Centro Dinâmico

Ao mesmo tempo que a política de defesa assegurava a manutenção da renda, ela gerava um desequilíbrio na balança de pagamentos, pois, com a expansão interna do crédito, as divisas geradas pelo setor exportador tornavam-se insuficientes para cobrir as importações. Esse fator, aliado à fuga de capitais e à necessidade de correção do desequilíbrio por meio da redução do poder aquisitivo externo da moeda, reduziu ainda mais o coeficiente de importação da economia. Essa situação criou uma oportunidade inédita para o setor voltado à demanda interna, que passou a oferecer melhores oportunidades de inversão, tornando-se o principal fator dinâmico da economia brasileira.

A rentabilidade no setor voltado ao mercado interno foi beneficiada tanto pela demanda nacional quanto pelo corte das importações. Simultaneamente, o setor exportador registrava queda nos lucros, favorecendo a migração de capitais para o mercado interno. Mesmo com a limitada capacidade de importar equipamentos, esse setor aproveitou intensamente a capacidade já instalada. Essa condição estimulou a instalação de indústrias de bens de capital, embora o processo fosse complexo em uma economia subdesenvolvida. Contudo, as indústrias de ferro, aço e cimento registraram crescimento a partir de 1931, demonstrando que a economia brasileira encontrou instrumentos de enfrentamento da crise dentro de seu próprio sistema. Segundo Furtado, entre 1929 e 1937, a produção industrial cresceu cerca de 50%, a produção primária para o mercado interno mais de 40% e a renda nacional aumentou 20%, evidenciando a recuperação brasileira frente ao cenário internacional.

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