Economia Brasileira: Do PSI ao Milagre e Crises da Dívida

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Resumo P1 – Economia Brasileira

Processo de Substituição de Importações (PSI)

O processo de industrialização por substituição de importações caracteriza-se pela ideia de construção nacional, ou seja, alcançar o desenvolvimento e a autonomia com base na industrialização, de forma a superar as restrições externas e a tendência à especialização na exportação de produtos primários.

Nesse processo, a indústria vai-se diversificando e diminuindo as necessidades de importação em relação ao abastecimento doméstico.

Mecanismos de Proteção Utilizados no PSI

  1. Desvalorização Cambial: Aumento do preço dos produtos importados frente aos nacionais, protegendo assim os produtos nacionais.
  2. Controle de Câmbio: Redução do número de licenças para importar com base no critério de essencialidade ou de existência de similares nacionais.
  3. Taxas Múltiplas de Câmbio: Encarecimento dos preços de alguns produtos nas exportações, favorecendo, portanto, a indústria nacional.
  4. Elevação de Tarifas Aduaneiras: Aumento do custo das tarifas de importação, diminuindo as importações.

Características do PSI

  1. Industrialização Fechada: Visa o atendimento do mercado interno.
  2. Estrangulamento Externo: Queda do valor das exportações com manutenção da demanda interna, gerando escassez de divisas (moeda estrangeira) devido à demanda por importações.
  3. Desvalorização da Taxa de Câmbio: Aumentando a competitividade e a rentabilidade da produção doméstica, dado o encarecimento dos produtos importados.
  4. Onda de Investimentos: Gera-se uma onda de investimentos nos setores de substituição de importação, produzindo-se internamente parte do que antes era importado, aumentando a renda e consequentemente a demanda.
  5. Novo Estrangulamento Externo: Observa-se um novo estrangulamento externo, dado que parte dos investimentos e do aumento de renda se traduziram em importações, retomando-se o processo.

Ou seja, cada vez mais era necessário importar (> demanda), necessitando assim cada vez mais se exportar para a maior entrada de capital externo. Por isso ocorria o estrangulamento (queda do valor das exportações), a retomada do processo.

Portanto, o motor dinâmico do PSI era o estrangulamento externo, este funcionava como estímulo e limite ao investimento industrial: quando o investimento e a produção avançavam em determinado setor, geravam-se pontos de estrangulamento em outros. A demanda pelos bens desses outros setores era atendida através de importações.

Com o tempo, estes bens passavam a ser objetos de novas ondas de investimento.

A pauta (regulamento) de importação ditava a sequência dos setores objetos de investimentos industriais que, a grosso modo, foi a seguinte (a chamada industrialização por etapas):

  • Bens de consumo (leves): alimentos, bebidas, têxteis, calçados;
  • Bens de consumo duráveis: aqueles que prestam serviços por um tempo relativamente longo, como: eletrodomésticos, automóveis;
  • Bens Intermediários: bens manufaturados ou matérias-primas processadas e empregadas para a produção de outros bens ou produtos finais, como: ferro, aço, cimento;
  • Bens de capital: aqueles que servem para a produção de outros bens, especialmente os bens de consumo, como: máquinas, equipamentos.

Principais Dificuldades na Implementação do PSI

(1°) Tendência ao desequilíbrio externo, devido:

  • Ao confisco cambial, que foi a transferência de renda da agricultura para a indústria, desestimulando as exportações de produtos agrícolas;
  • Elevada demanda por importações, por causa do investimento industrial e do aumento da renda;
  • Indústria sem competitividade, por causa do protecionismo, que visava apenas atender o mercado interno.

(2°) Aumento da participação do Estado, através:

  • Da adequação do arcabouço institucional à indústria (criação da legislação trabalhista);
  • Geração de infraestrutura básica no transporte e na energia;
  • Fornecimento dos insumos básicos: pois o Estado deveria atuar de forma complementar ao setor privado, entrando em áreas cuja necessidade de capital e riscos envolvidos inviabilizavam a presença da atividade privada naquele momento, como a criação da Vale do Rio Doce, Petrobrás, hidrelétricas, etc.

(3°) Aumento do grau de concentração de renda, devido:

  • Ao êxodo rural, devido também ao desincentivo à agricultura, com falta de investimentos no setor e a não concessão de legislação trabalhista do setor;
  • Caráter intensivo de investimento industrial.

Estes dois pontos geraram um excedente de mão de obra e, consequentemente, baixos salários. E o protecionismo (ausência de concorrência) e a concentração industrial permitiram preços elevados e altas margens de lucro para as indústrias (acúmulo de lucros).

(4°) Escassez de fontes de financiamento, devido:

  • À quase inexistência de um sistema financeiro, em decorrência da lei da usura que limitava a taxa de juros nominal a 2% a.a, desestimulando a poupança;
  • À ausência de uma reforma tributária ampla, pelo fato de a arrecadação continuar sendo centrada nos impostos de comércio exterior, sendo difícil ampliar a base tributária. Restando apenas recursos provenientes da recém-criada Previdência Social e outras.

Presidente Juscelino Kubitschek

Em 31 de Janeiro de 1956, Juscelino tomou posse da presidência com J. Goulart como vice-presidente.

Houve uma forte oposição da União Democrática Nacional (UDN) que tomou uma série de medidas para impedir a posse do candidato vitorioso nas urnas, mas sua eleição e posse foram garantidas pela aliança dos partidos criados por Getúlio Vargas: PSD e PTB e pelas forças armadas.

Com sua posse, Juscelino lançou o Plano de Metas, um programa de industrialização e crescimento econômico, com o objetivo de realizar 30 metas divididas em 5 setores + a construção de Brasília. O conhecido projeto de industrialização “50 anos em 5”. Que foi a continuação do Processo de Substituição de Importações - PSI. E onde JK obteve o apoio de ampla camada da população urbana e do setor industrial (os principais beneficiários), apesar dos desequilíbrios econômicos da época.

O Plano de Metas previa investimentos em cinco setores básicos: energia, transporte, indústria, alimentação e educação. E também a construção de Brasília e a transferência da capital do país.

O cumprimento das metas estabelecidas foi bastante satisfatório, o que mostrou o rápido crescimento econômico do período. Foi dado incentivo e apoio (subsídios, câmbio, etc.) ao setor privado para a industrialização vertical.

Construção de Brasília

As obras iniciadas para a construção de Brasília foram iniciadas em 1956 e sua inauguração em 1960, ou seja, Brasília foi feita em 4 anos. Cerca de 12 mil pessoas trabalharam para isso. A construção custou cerca de 1 bilhão de dólares.

Crise Ocasionada pelo Excesso de Gastos

  • Plano de estabilização anti-inflacionário que foi formulado pelo Ministro da Fazenda Lucas Lopes;
  • Empréstimos de 300 milhões de dólares do FMI;
  • Posteriormente JK rompe negociações com o FMI e solicita novos empréstimos com juros maiores e prazos mais curtos, principalmente na Europa.
  • Consequências Positivas: Aumento da diversificação do parque industrial, o Plano de Metas foi um sucesso, alcançando a maioria das metas estabelecidas tanto para o setor público como para o setor privado.
  • Consequências Negativas: Endividamento externo, aumento dos gastos públicos, retorno do processo inflacionário, favorecimento à concentração de capital.

Da Crise ao Milagre (1960-1973)

Os Governos Militares e o PAEG

O golpe militar de 1964 chegou impondo de forma autoritária uma solução para a crise política, foi uma pré-condição ao encaminhamento “técnico” das medidas de superação da crise econômica – reformas institucionais e condução da política econômica de forma adequada e segura. O governo Castelo Branco lançou o Plano de Ação Econômica do Governo – PAEG, com vista em resolver os problemas econômicos, tendo como mentores Roberto Campos e Octavio Gouvêa de Bulhões.

O PAEG pode ser dividido em duas linhas de atuação:

  • Políticas conjunturais de combate à inflação;
  • Reformas estruturais.

A associação das duas permitiu o equacionamento dos problemas inflacionários e das dificuldades que se colocavam ao crescimento econômico.

Objetivos do PAEG:
  • Acelerar o ritmo de desenvolvimento econômico;
  • Conter o processo inflacionário;
  • Diminuir os desequilíbrios setoriais e regionais;
  • Aumentar o investimento e com isso o emprego;
  • Corrigir a tendência ao desequilíbrio externo.
Medidas de Combate à Inflação do PAEG:

O diagnóstico sobre a inflação, que em 1963 chegou a 83,2% a.a, apontou como principais causas: o excesso de demanda, o déficit público e também a falta de controle sobre a expansão do crédito. Desta forma, as principais metas do PAEG foram:

  • Redução do déficit público, através da redução de gastos e da ampliação das receitas por meio da reforma tributária e do aumento das tarifas públicas.
  • Restrição do crédito, aumentando as taxas de juros reais e consequentemente os passivos das empresas, causando inúmeras falências e gerando capacidade ociosa.
  • Para a contenção da demanda o governo passou a determinar reajustes salariais, tendo por consequência grande redução do salário real.

Independente do tipo de inflação diagnosticada pelos governantes do regime militar, eles acabaram por implementar uma forma especial de lidar com ela: a inflação é vista como um mal inevitável do acelerado desenvolvimento brasileiro, de modo que em vez de acabar com ela, deve-se diminuir seus impactos negativos, ou seja, aprender a conviver com ela. Ou seja, a partir de agora eles passaram a tomar medidas gradualistas, baixando pouco a pouco o patamar inflacionário.

E com essas medidas, a inflação reduziu-se, entre os anos de 1964 e 1968, de 90% a.a para os 20% a.a. E isso também foi resultado em grande parte da própria retração nas taxas de crescimento econômico.

Reformas Institucionais PAEG:

Nesse contexto, era necessária a redução das taxas de inflação, mas também era necessário criar mecanismos que possibilitassem o crescimento econômico em um ambiente de inflação moderada. As principais reformas instituídas pelo PAEG foram:

A – Reforma Tributária:

  • A introdução da correção monetária no sistema tributário;
  • A alteração do formato do sistema tributário. Criou-se o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), o ICM (Imposto sobre Circulação de Mercadorias) e o ISS (Imposto sobre Serviços);
  • A redefinição do espaço tributário entre as diversas esferas do governo, que foram divididos entre a União, os Estados e o Município. Os critérios de distribuição dos recursos baseavam-se na área geográfica, na população e no inverso da renda per capita, para favorecer estados mais pobres.
  • Surgiram também o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e o PIS (Programa de Integração Social), que se constituíram em importantes fontes de poupança compulsória, direcionadas ao setor público.

Consequências: Aumento da arrecadação, grande centralização tanto da arrecadação como das decisões em termos de política tributária.

B – Reforma Monetária - Financeira

Medidas:

  • Instituição da correção monetária (eliminando uma série de ineficiências do sistema financeiro, permitindo inclusive, a prática de taxas de juros reais positivas, estimulando a poupança e a capacidade de financiamento da economia) e a criação da ORTN (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional), cuja variação determinaria o índice de correção monetária, dando maior credibilidade ao mercado.
  • Criação do CMN (Conselho Monetário Nacional), com a função de definir as regras e as metas a serem atingidas pela política monetária e do Bacen (Banco Central do Brasil), para ser o agente executor da política monetária e também o agente fiscalizador e controlador do sistema financeiro, ou seja, o agente bancário do governo.
  • Criação do SFH (Sistema Financeiro da Habitação), com o objetivo de eliminar o déficit habitacional existente e do BNH (Banco Nacional da Habitação), tendo como papel regulamentar e fiscalizar a atuação dos agentes do sistema, bem como prestar serviços a estes.
  • Reforma do Mercado de capitais, definindo as regras para a atuação do mercado financeiro. O quadro institucional se formou baseado no modelo financeiro norte-americano, caracterizado pela segmentação do mercado, existindo instituições especializadas que atenderiam a segmentos específicos do mercado.

C – Reforma da Política Externa

Tinha como principal objetivo estimular o desenvolvimento econômico, evitando pressões sobre o balanço de pagamentos, eliminando assim uma das principais distorções do PSI. Metas:

  • Melhorar o comércio externo: através de estímulos e diversificações das exportações mediante uma série de incentivos fiscais (isenções fiscais – IPI, ICM, IR, etc.) e através da modernização e dinamização dos órgãos públicos ligados ao comércio internacional.
  • Atrair o capital estrangeiro: com uma reaproximação da política externa norte-americana (a chamada Aliança para o Progresso) e em seguida a renegociação da dívida externa, firmando-se um acordo de garantias para o capital estrangeiro. E dando início ao processo de internacionalização financeira do Brasil.

Portanto, percebe-se que as reformas do PAEG mudaram praticamente todo o quadro institucional da economia brasileira, adaptando-o às necessidades de uma economia industrial. A política adotada no PAEG obteve grande êxito na redução das taxas inflacionárias e em preparar o terreno para a retomada do crescimento.

O Milagre Econômico (1968-1973)

Esse período (governo Costa e Silva e Médici) caracterizou-se pelas maiores taxas de crescimento do produto brasileiro na história recente, com relativa estabilidade de preços. Essa performance foi decorrência das reformas institucionais e da recessão do período anterior, que geraram capacidade ociosa no setor industrial e as condições necessárias para a retomada da demanda.

Nessa fase alterou-se o diagnóstico sobre as causas da inflação, a inflação que era vista como uma inflação de demanda no início dos governos militares passou a ser vista como inflação de custos, assim sendo, teve início à política de controle de preços, na qual os reajustes deveriam ter aprovação prévia do governo, para tal fim, foi criado o Conselho Interministerial de Preços – CIP.

As principais fontes de crescimento foram:

  • A retomada do investimento público em infraestrutura: possibilitada pela recuperação financeira do setor público, devido à reforma fiscal.
  • Aumento de investimento nas empresas estatais, como Petrobras, e outras.
  • Aumento da demanda por bens duráveis: devido à grande expansão do crédito ao consumidor pós-reforma financeira.
  • Crescimento do setor de construção civil, cerca de 15% a.a, devido à expansão do crédito do Sistema Financeiro da Habitação (SFH).
  • Crescimento das exportações, devido aos incentivos fiscais.

A expansão econômica gerava pressão por importações, causada pela insuficiência de oferta interna. E essa pressão poderia levar à necessidade de recursos externos, para cobrir o balanço de pagamentos, se não fosse o elevado crescimento do valor das exportações brasileiras. Levando tanto ao crescimento da quantidade exportada como à melhoria dos termos de troca, obtendo uma balança comercial equilibrada no período. Além disso, houve um endividamento externo, ocasionando ampla entrada de recursos, assim percebe-se que a situação cambial estava bem tranquila. O volume de reservas existentes em 1973 correspondia a mais de um ano de importações, enquanto o critério técnico usado pelo FMI recomendava um volume de reservas equivalentes a três meses de importações.

Um ponto importante que merece destaque nesse período é a elevada participação e intervenção do setor público na economia:

  • O Estado controlava os principais preços da economia – câmbio, salário, juros, tarifas – além de praticar uma política de preços administrados via CIP;
  • O Estado respondia pela maior parte das decisões de investimento, quer por meio dos investimentos da administração pública e das empresas estatais, que correspondiam praticamente a 50% da formação bruta do capital.

A principal crítica ao milagre: foi à concentração de renda que ocorreu no período. Os críticos argumentaram que as autoridades tinham a concentração como estratégia necessária para aumentar a capacidade de poupança da economia, financiar os investimentos e com isso o crescimento econômico, para que depois todos pudessem usufruir. Esta ficou conhecida como a “Teoria do Bolo”, segundo o qual o bolo deveria crescer primeiro para depois ser dividido.

Do Crescimento Forçado à Crise da Dívida

II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND)

O rápido crescimento econômico ao longo do Milagre, com a ocupação de toda a capacidade ociosa (o que caracteriza a situação de pleno emprego), levou ao aparecimento de alguns desequilíbrios, que gerariam pressões inflacionárias e problemas na balança comercial.

A manutenção do ciclo expansionista, em fins de 1973, dependeria cada vez mais de uma situação externa favorável. Porém essa situação foi rompida pela crise internacional desencadeada pelo primeiro choque do petróleo em 1973, quando os países membros da OPEP quadruplicaram o preço do barril.

O balanço de pagamentos apresentou déficits, provocados não só pelo aumento do valor das importações de petróleo, mas também em função dos bens de capital e insumos básicos, necessários para manter o nível de produção corrente do milagre econômico. Esse déficit não foi totalmente coberto pela entrada de recursos, levando a uma queima de reservas, o que revelava o elevado grau de vulnerabilidade externa da economia brasileira.

Internamente, a situação política aparecia como uma complicação adicional, em ano de mudança de presidente começavam a surgir várias pressões por melhor distribuição de renda e maior abertura política. O novo presidente eleito foi Ernesto Geisel que representava uma facção diferente no seio militar brasileiro (a facção castelista) diferente de seu antecessor Médici (facção linha dura).

O debate sobre o que fazer em 1974 situou-se na dicotomia entre o ajustamento ou financiamento, o choque do petróleo significava transferência de recursos reais ao exterior, nesse contexto percebe-se que as opções de crescimento se haviam estreitado, e a tendência natural da economia seria a desaceleração da expansão.

As opções que se colocavam naquele momento eram:

  • Ajustamento: conter a demanda interna, evitando a inflação;
  • Financiamento do crescimento: manter o crescimento elevado e fazendo um ajuste gradual dos preços relativos (alterados pela crise do petróleo), enquanto houvesse financiamento, supondo uma crise passageira.

O ano de 1974 iniciou-se com a opção do ajustamento, porém, essa política não pode ser levada adiante, devido a outras pressões. Então o governo optou pela continuidade do processo de desenvolvimento e lançou o II PND (II Plano Nacional de Desenvolvimento), colocando-se a estratégia de financiamento, mas promovendo um ajuste na estrutura de oferta de longo prazo, simultaneamente à manutenção do crescimento econômico.

Essa alteração na estrutura de oferta significava alterar a estrutura produtiva brasileira de modo que, em longo prazo, diminuísse a necessidade de importações e fortalecesse a capacidade de exportar de nossa economia. Assim, quando essa reestruturação estivesse completa, os problemas da balança de Transações Correntes estaria superado. Enquanto isso não fosse alcançado, era necessário o financiamento do desequilíbrio externo decorrente do crescimento econômico e da crise do petróleo por meio de empréstimos externos.

A meta do II PND era manter o crescimento econômico em torno de 10% a.a, com crescimento industrial em torno de 12% a.a. Mas as metas não conseguiram ser cumpridas, porém manteve-se elevado o crescimento econômico.

O plano significou uma mudança completa nas prioridades da industrialização brasileira do período anterior (milagre): de um padrão baseado no crescimento do setor de bens de consumo duráveis, a economia deveria passar a crescer com base no setor produtor de meios de produção – bens de capital e insumos básicos. Aumentando a produção do setor metalúrgico, alumínio, zinco, minério de ferro, etc.

A lógica do modelo estava em que, conforme as empresas estatais avançassem seus projetos de investimento no setor de insumos, gerariam demanda derivada que estimularia o setor privado a investir no setor de bens de capital. Além da garantia de demanda, vários incentivos foram dados ao setor privado, como: o crédito ao IPI, a isenção de impostos de importação, etc. A indústria em sua totalidade cresceu 35% entre 1974 e 1979. Os principais setores foram: metalúrgico, de material elétrico, de papel, de papelão, químico, têxtil, alimentos, transportes.

Dois problemas centrais para a execução do plano eram:

  • Apoio político;
  • Financiamento do processo: o Estado se transformou em Estado-empresário e centrou o plano em si, tendo como agente central das transformações as empresas estatais.

A dívida externa cresceu rapidamente no período, U$$ 15 bilhões entre 1974 e 1977 e mais U$$ 17 bilhões em 1978 e 1979. Mas a partir de 1976 o país voltou a acumular reservas. E como a demanda de crédito nos países desenvolvidos estava retraída, os países em desenvolvimento voltaram a ser vistos como clientes preferenciais.

A deterioração da capacidade de financiamento do Estado, que socializou todos os custos no período do II PND (com grande aumento de gastos, sem criar mecanismos adequados de financiamento), constituir-se-ia no grande problema enfrentado posteriormente pela economia brasileira.

A Heterodoxia Delfiniana

A situação brasileira no final da década de 70 e no início da década de 80 era a seguinte:

  1. Em 1979, ocorreu o segundo choque do petróleo e a reversão nas condições de financiamento internacional, em um momento em que o endividamento externo brasileiro era crescente. Nesse ano, os juros líquidos da dívida externa já correspondiam a 28% do valor das exportações e o país apresentou um déficit em transações correntes da ordem de U$$ 10,8 bilhões, que foi apenas parcialmente coberto pela entrada de capitais de U$$ 7,7 bilhões, ocasionando uma queima de reservas de U$$ 2,2 bilhões. Pode-se considerar 1979 o ano do início da crise cambial;
  2. O desequilíbrio externo, os choques da oferta (petróleo) e os déficits públicos geravam pressões inflacionárias, com isso a inflação em 1979 saltou para 77% a.a, com tendência aceleracionista.

A década de 70 e o início da de 80 é marcada pela mudança de governo, passagem de Geisel para Figueiredo, que deveria aprofundar a abertura política, com anistia aos exilados, maior liberdade sindical, reforma partidária, etc.

Esse governo começou com Mário Henrique Simonsen no comando central da economia. E o diagnóstico básico, tanto para o desequilíbrio externo como para a aceleração inflacionária, era o excesso de demanda interna, materializada no déficit público. Sendo assim a política econômica procurou centrar-se no controle da demanda agregada.

A ameaça de profunda queda da atividade econômica levou à grande reação política e à substituição do ministro em agosto de 1979.

O ministro Delfim Neto assumiu a Seplan (Secretaria do Planejamento) com discurso desenvolvimentista e de combate à inflação com crescimento econômico, procurando reeditar o milagre econômico.

As principais medidas adotadas foram:

  • Controle da taxa de juros;
  • A expansão do crédito para a agricultura, com vista em expectativas de uma supersafra para 1980, e contenção dos preços dos alimentos;
  • A criação da Secretaria Especial das Empresas Estatais (Sest), para controlar as empresas estatais, e a aceleração dos reajustes das tarifas para melhorar a situação das empresas;
  • A eliminação de alguns incentivos fiscais às exportações, visando controlar o comércio externo por meio da política cambial e tarifária;
  • O estímulo à captação externa, reduzindo o custo do dinheiro externo via diminuição dos impostos sobre a remessa de juros;
  • A maxidesvalorização do cruzeiro em 30%;
  • A prefixação da correção monetária e cambial em 50% e 45%, respectivamente, para o ano de 1980, visando combater a inflação com um golpe psicológico;
  • A aprovação da nova lei salarial em novembro, que instituía a semestralidade dos reajustes salariais, bem como reajustes diferenciados por faixas de salários.

Os resultados obtidos foram:

  1. Aceleração inflacionária para os 100% a.a, em função do aumento dos preços públicos, da semestralidade salarial e da maxidesvalorização cambial, que aumentou o custo dos produtos importados;
  2. O agravamento da maior crise econômica internacional no pós-guerra, em função da segunda crise do petróleo (o preço do barril subiu de 15 para 35 dólares), e da elevação das taxas de juros internacionais. Além disso, as políticas adotadas pelas autoridades se mostraram em função da aceleração inflacionária. Esses fatos somados provocaram a deterioração das contas externas, ampliando a dívida externa e levando à maior perda de reservas;
  3. A acentuação do processo especulativo (analisado), que ocorreu por duas razões: devido à maxidesvalorização cambial e devido à prefixação, gerando perda de ativos financeiros.

A Crise da Dívida Externa

A piora da situação levou o governo, já em 1980, a reverter a política econômica e a adotar uma política ortodoxa, chamada ajustamento voluntário, pois ainda não pretendia recorrer ao FMI à renegociação da dívida. E o diagnóstico permaneceu sendo o tradicional excesso de demanda interna.

As dificuldades crescentes para a renovação dos empréstimos externos, juntamente com seu encarecimento, fizeram com que a política interna se regulasse pela redução da necessidade de divisas, por meio do controle de absorção interna.

Um ponto central é a alteração de política econômica norte-americana. A partir de 1979, o FED adotou uma política monetária restritiva, visando conter a tendência de desvalorização do dólar. Para tal, restringiu o crédito e dificultou o financiamento do tesouro americano, tentando forçar o ajustamento da economia. Quando Reagan assumiu a presidência americana em 1980, e adotou a política econômica do “reaganomics”, a situação fiscal do governo se deteriorou ainda mais, elevando-se as taxas de juros, que transformou os EUA no grande absorvedor da liquidez mundial.

Nesse contexto de taxas de juros mais elevadas e maior dificuldade de obter recursos, muitos países em desenvolvimento se viram em problemas com a dívida externa, levando à insolvência polonesa e argentina e à moratória mexicana no chamado setembro negro (1982).

No Brasil esse processo de ajustamento externo, de busca de superávits, iniciou-se de forma voluntária em 1980, e aprofundou-se a partir de fins de 82, sob a proteção do FMI, órgão que visava fundamentalmente garantir o pagamento da dívida externa. A política adotada foi:

  1. Contenção da demanda agregada, através: da redução do déficit público (com redução dos gastos públicos), aumento das taxas de juros internas e restrição do crédito, redução do salário real;
  2. Tornar a estrutura de preços relativos favorável ao setor externo, através: da intensa desvalorização do cruzeiro, elevação dos preços dos derivados do petróleo, estímulo à competitividade da indústria brasileira, por meio da contenção de alguns preços públicos e de subsídios e incentivos à exportação.

O resultado da política de ajustamento foi uma profunda recessão em 1981 e 1983, e baixo crescimento em 1982, com grande queda na renda per capita no período. A inflação, inicialmente estabilizada em 100% nos anos de 1981 e 1982, acelerou-se em 1982 devido alguns choques de oferta e à deterioração da situação financeira do Estado. A política foi bem sucedida em relação ao comércio exterior, observando-se profunda reversão no saldo da balança comercial, passando de um déficit em 1980 para superávits da ordem de U$$ 6,5 bilhões em 1983 e um recorde de U$$ 13 bilhões em 1984.

O sucesso do ajustamento deveu-se em parte à própria recessão, que levou a uma grande queda nas importações, paralelamente aos estímulos ao aumento das exportações.

O lado problemático do ajustamento era o equacionamento (análise) das contas internas, que não se resolveria com a geração de superávits externos. A dificuldade básica estava em que as obrigações da dívida externa não estavam distribuídas entre os setores da economia em proporção à importância desses setores. Assim o ônus (peso) da dívida recaía de forma mais violenta sobre alguns setores, que precisavam realizar um esforço de poupança para adquirir as divisas e remetê-las ao exterior. Esse foi o problema interno do ajuste externo.

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