Elementos abióticos dos ecossistemas costeiros e marinhos
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Os elementos abióticos dos ecossistemas costeiros e marinhos fazem parte de sistemas ambientais complexos e interligados com ecossistemas terrestres, resultando em paisagens especiais e singulares. Devido às suas características e importância, destacam-se três tipos de ecossistemas costeiros: manguezais, pradarias marinhas (seagrasses) e recifes de coral. A seguir descrevemos cada um deles, bem como os recursos, usos e impactos associados às zonas costeiras.
Manguezais
O manguezal é típico de áreas costeiras em latitudes intertropicais. Ocorre em zonas influenciadas pelas marés e com baixa exposição ao oceano aberto, como estuários, baías, lagoas e desembocaduras de rios. Os manguezais ocupam grandes áreas de águas rasas e fundos de silte e argila, não rochosos. Além da água do mar, estes sistemas recebem água doce proveniente dos rios que deságuam nessas zonas.
O nome vem da planta dominante, o mangue, que desempenha papel fundamental na proteção da costa contra a erosão provocada pelo vento e pelas ondas.
Pradarias marinhas (seagrasses)
As pradarias marinhas aparecem no infralitoral de grandes áreas costeiras com fundos moles, principalmente de areia. Consistem em ervas marinhas, isto é, plantas com folhas, flores e frutos que colonizam o substrato. Estas zonas costeiras são fundamentais para os ecossistemas marinhos pelos seguintes motivos:
- Estabilizam sedimentos marinhos através dos seus rizomas;
- Atuam como área de refúgio, descanso, alimentação e reprodução para muitas espécies;
- Alguma produção é exportada para ecossistemas adjacentes, aumentando a superfície útil para organismos epifíticos.
Recifes de coral
Os recifes de coral são estruturas sólidas no fundo costeiro da zona intertropical. Consistem principalmente na acumulação de corais rígidos que necessitam de temperaturas entre 19–27 °C, por isso aparecem sobretudo em baixas latitudes (trópicos e equador). Embora a maioria dos corais que formam a estrutura não realize fotossíntese, eles estabelecem associações simbióticas com microalgas dinoflageladas (zooxantelas) e outras algas calcárias.
Esses ecossistemas ocorrem na zona fótica, normalmente a menos de 50 metros de profundidade, e a rocha calcária do recife é de origem orgânica, depositada pelos corais ao longo de milhares de anos.
A importância dos recifes de coral pode ser agrupada em três áreas principais:
- Biodiversidade: fornecem abrigo para inúmeras espécies;
- Proteção costeira: funcionam como barreira natural, protegendo a costa contra erosão e ação das ondas;
- Serviços e usos humanos: do ponto de vista humano, os recifes são um recurso único que deve ser preservado e utilizado com sabedoria, incluindo atividades de pesca costeira e turismo sustentável.
Pesca e marisqueio
Nos recursos das áreas costeiras distinguem-se duas modalidades principais de exploração pesqueira: pesca costeira e marisqueio. Também é necessário destacar a aquicultura, um setor em rápido crescimento.
Pesca costeira
A pesca costeira é realizada próxima à linha de costa. É feita com embarcações pequenas, geralmente com até 10 tripulantes, e, muitas vezes, não dura mais de um dia fora do porto. As capturas diárias são normalmente desembarcadas e comercializadas em leilões locais.
Marisqueio
O marisqueio é a captura de moluscos bivalves e outros invertebrados na zona intertidal. Pode ocorrer a pé na maré baixa ou de barco na maré alta. Os organismos podem ser selvagens ou cultivados, e as técnicas dependem da época, das artes utilizadas e das espécies alvo.
Aquicultura
A aquicultura é o cultivo de espécies de interesse comercial (peixes, crustáceos e moluscos). O objetivo é reproduzir e melhorar as condições ambientais para garantir o desenvolvimento das espécies. A aquicultura tem apresentado enorme progresso nas últimas décadas, produzindo atualmente cerca de 50% dos frutos do mar consumidos no mundo.
Podem distinguir-se dois tipos principais de aquicultura:
- Água doce: utilizada em explorações em viveiros e gaiolas em rios ou lagos;
- Aquicultura marinha: desenvolvida em viveiros e fazendas de mar com bons resultados para espécies como cherne, linguado, enguia e robalo, bem como para moluscos.
Entre os grandes desafios da aquicultura estão a qualidade do produto e a proteção ambiental.
Recursos minerais e energéticos
- Sal marinho: o halite (NaCl) tem sido usado desde a antiguidade e é extraído por evaporação da água do mar;
- Fertilizantes: fosforita e apatita são rochas sedimentares marinhas de onde se obtêm fosfatos para fertilizantes agrícolas;
- Materiais de construção: areia e cascalho são extraídos de fundos costeiros para fins construtivos;
- Combustíveis fósseis: a maior parte das reservas de petróleo e gás encontra-se na plataforma continental, nas proximidades das costas.
Energia das marés: fonte renovável que utiliza o ciclo das marés para produzir eletricidade em instalações que armazenam água durante a maré alta e a libertam na maré baixa.
Dessalinização: a dessalinização da água do mar é uma oportunidade importante para produção de água para irrigação e consumo humano em áreas com problemas de abastecimento.
Transporte marítimo: continua a ser um modo válido de transporte devido ao seu baixo custo e à possibilidade de transportar grandes quantidades de mercadorias.
Lazer e turismo: o lazer costeiro é um dos principais usos do mar, principalmente através do turismo.
Impactos e poluição costeira
As atividades humanas geram vários tipos de impactos e poluição nas zonas costeiras:
- Águas residuais urbanas: provenientes de atividades domésticas e de serviços em cidades costeiras; apresentam alto teor de matéria orgânica e poluição térmica. Se houver sistema de esgoto ligado a estações de tratamento, os efluentes devolvidos ao mar apresentam níveis reduzidos de contaminação;
- Efluentes industriais e agrícolas: caracterizam-se por uma grande variedade de poluentes, incluindo metais pesados e substâncias químicas nocivas;
- Derrames de petróleo: podem ser acidentais (colisões ou naufrágios) ou resultar de descargas ilegais de tanque no mar, causando manchas de petróleo e alcatrão nas costas;
- Resíduos sólidos: historicamente muitos resíduos foram depositados no mar, incluindo plásticos e fios que são armadilhas mortais para organismos marinhos; também existem preocupações com tambores e outros conteúdos perigosos;
- Resíduos nucleares: preocupam pelo seu risco persistente e pela contaminação ambiental.
Impactos na dinâmica costeira
A ação humana altera processos naturais da costa e da paisagem:
- Mudanças no transporte litorâneo (drift): numerosas obras públicas, especialmente barragens, portos e molhes, alteram o transporte de sedimentos ao longo do litoral;
- Mudanças na sedimentação: intervenções podem causar aumento ou diminuição do assoreamento de áreas costeiras, por alterações no aporte de sedimentos pelos rios que desaguam numa praia;
- Impacto paisagístico: o desenvolvimento urbano descontrolado em zonas turísticas costeiras tem transformado a paisagem: acessos, edifícios altos, passeios e infraestruturas quebram a harmonia do ambiente natural;
- Sobrespesca: a sobrepesca é um dos maiores impactos humanos sobre os recursos marinhos explorados comercialmente. Repovoamentos biológicos podem ser úteis, mas muitas vezes são insuficientes ou mal aplicados.
Perigos costeiros
Destacam-se vários perigos naturais que afetam as zonas costeiras:
Ondas
As ondas são geradas pela ação do vento (ondas forçadas) e propagam-se, podendo atingir 15 metros de altura em casos extremos, com grande duração e longa propagação até a costa. Ao aproximarem-se das praias, as ondas são muitas vezes desviadas e provocam correntes de deriva litorânea, que têm grande importância no transporte de sedimentos. Quando ocorrem ondas de tempestade, como é frequente no Mar do Norte e na Costa Leste dos EUA, podem causar grande devastação costeira, forte erosão e perdas de vidas e bens materiais.
Tsunamis
Tsunamis são ondas gigantes, que podem atingir dezenas de metros de altura (por vezes até cerca de 40 metros), produzidas por sismos submarinos ou por quedas de grandes massas (colapsos vulcânicos ou de icebergs) em áreas costeiras. Os tsunamis são extremamente devastadores. Muitas vezes precedem-se de uma retirada anômala da água do mar minutos antes da chegada da onda, e podem penetrar várias centenas de metros em terra, destruindo tudo ao seu caminho e causando numerosas vítimas e perdas econômicas.
Marés
As marés são movimentos periódicos de subida e descida do nível do mar, causados pela ação gravitacional do Sol e da Lua. Além do deslocamento vertical, existe deslocamento horizontal das massas de água que constitui as correntes de maré: o fluxo (na enchente) e o refluxo (na vazante). Essas correntes podem ser muito intensas (por exemplo, até 4 m/s em passagens estreitas), representando riscos para a navegação. As marés são previsíveis e existem tábuas que permitem antecipar os tipos de maré e tomar medidas preventivas.
Dunas
As dunas correm risco de deslocamento pelo vento e podem ocupar terras produtivas, impedir comunicações, obras de infraestrutura e assentamentos humanos, além de promover processos erosivos. Os mecanismos de proteção contra o avanço das dunas incluem planeamento territorial, instalação de barreiras ou estacas e, sobretudo, a fixação por vegetação.
Nota: a gestão sustentável das zonas costeiras requer conhecimento integrado das componentes bióticas e abióticas, a proteção dos habitats-chave (manguezais, pradarias marinhas e recifes de coral) e a regulação das atividades humanas para minimizar impactos ambientais e riscos naturais.