A Embriaguez e a Cultura na Visão de Vilém Flusser

Classificado em Filosofia e Ética

Escrito em em português com um tamanho de 3,84 KB.

  • O texto Nossa Embriaguez de Vilém Flusser visa mostrar a posição central da droga em nossa sociedade atual, assim como a relação que a arte tem com as drogas e com a cultura. Flusser inicia o texto dizendo que a vida humana não é fácil por ser sempre uma vida em cultura. Cultura é, ao mesmo tempo, desalienação e alienação, mediação (ato de chegar a um entendimento entre as partes) e encobertura, emancipadora (libertadora, aquela que torna independente) e condicionante (um fator que favorece algo a se tornar uma condição, condição que pode ser entendida como uma obrigação, algo que se impõe e se aceita). Essa ambivalência (dualidade de sentimentos, sentimentos opostos proporcionados) do ambiente cultural cria tensões externas (homem x ambiente) e internas (homem x própria consciência). Para suportar tais tensões, o homem inventa meios entorpecentes para escapar; o homem procura se embriagar.

    A ambivalência desta relação “homem-cultura” se estende também para os entorpecentes resultantes, sendo vistos pela cultura como droga e por aqueles que os utilizam como “salva-vidas”. O próprio termo droga exprime essa ambivalência, significando veneno e medicina. Como resultado dessa tensão entre homem e cultura, as drogas são um espelho da cultura da qual se visa escapar, como o ópio nas regiões do Oriente Extremo, o álcool em nossa cultura e o haxixe na cultura islâmica (podemos entender que, por tal razão, o álcool é lícito aqui e o haxixe não, assim como o inverso ocorre por lá). Para Flusser, um caso-limite é o da cultura mexicana, pois lá o entorpecente é tido como meta, cultura que busca negar a si mesma por meio de cogumelos.

    Flusser busca discutir a posição central que o problema da droga ocupa no cenário atual, posição que nunca tinha sido ocupada anteriormente; o uso da droga seria um sintoma da modificação profunda que estamos passando. O uso da droga seria sintoma enquanto problema e discussão em torno dele.

    A questão que Flusser levanta sobre a embriaguez é: até que ponto está ela no programa atual dos aparelhos e como está programada?

    Qual método é mais funcional: que os aparelhos nos programem sóbrios ou embriagados?

    Os aparelhos agem no sentido de despolitizar a sociedade. De forma objetiva, ao darem consciência à sociedade de que cada ação política é fútil/frívola/insignificante, e de forma subjetiva, ao entorpecerem/debilitarem a faculdade crítica da razão. O problema da droga se inclui aqui, justamente por entorpecer a consciência política.

    A arte é um meio de proporcionar a experiência imediata e é um instrumento que serve para escapar da ambivalência por parte da mediação cultural vista lá no início. Entretanto, ao contrário das outras drogas, a arte não serve apenas como mediação entre o homem e a experiência imediata; ela inverte essa relação, ela faz com que o imediato experienciado seja mediatizado em direção à cultura. Como aquela que torna dizível o inefável e audível o inaudito, a arte trabalha para transformar esse recuo/fuga da cultura em um avanço em direção à mesma; por meio da arte, se sai da cultura para reinvadi-la.

    Para Flusser, a arte é uma espécie de magia, pois, ao tornar público esse privado, ao "tornar consciente o inconsciente", ela serve como mediação do imediato, feito de magia. Ao contrário de outras drogas, a observação da chamada "viscosidade ontológica" não é como um espetáculo repugnante, mas sim beleza. A cultura precisa da arte porque, sem essa mediação, sem essa recepção de novas informações, a cultura cairia em entropia, em desordem. Os aparelhos não conseguem simplesmente transformar esse gesto da arte em um simples funcionamento, pois, se o fizerem, não teríamos mais informações novas, seria redundante.


Entradas relacionadas: