Envelhecimento: Geriatria, Gerontologia e Avaliação Funcional

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Geriatria e Gerontologia

Geriatria
- Ramo da medicina que foca o estudo, a prevenção e o tratamento de doenças e da incapacidade em idades avançadas.
- Diferentes subespecialidades.
- Trabalho em articulação com outros profissionais de saúde.

Gerontologia
- Área do conhecimento científico, de caráter interdisciplinar, voltada para o estudo do envelhecimento numa perspetiva ampla.
- Gerontologia social: aborda aspetos não orgânicos.
- Gerontologia biomédica: estuda o envelhecimento do ponto de vista molecular e celular.

Senescência e senilidade

Senescência:
- Processo natural, inevitável e progressivo de degeneração do ser humano e perda da funcionalidade corporal.
- Constitui o envelhecimento biológico e gradual a nível celular, tecidual e orgânico de todo ser vivo.

Senilidade:
- Processo patológico que se pode apresentar durante o envelhecimento e que pode ou não surgir.

Idade cronológica vs. idade biológica

Idade cronológica:
- Limite de idade entre o indivíduo adulto e o idoso: 65 anos em países desenvolvidos e 60 anos em países em vias de desenvolvimento.
- Critério cronológico é normalmente adotado por instituições para intervenção no idoso, fins legais e investigação científica.

Idade biológica:
- Dificuldade em definir a idade biológica.
- Relação entre a idade funcional e a idade biológica.

Idade psicológica e social

Características do envelhecimento

Características:

  • Universal
  • Progressivo
  • Intrínseco
  • Destruidor / lesivo

Programas e estratégias nacionais

Programa Nacional para a Saúde das Pessoas Idosas (PNSPI)

- Visa a manutenção da autonomia, independência, qualidade de vida e recuperação global das pessoas idosas, prioritariamente no seu domicílio e meio habitual de vida.
- Exige ação multidisciplinar dos serviços de saúde, em estreita articulação com a Rede de Cuidados Continuados de Saúde criada pela Lei n.º 281/2003, de 8 de novembro.

A promoção de um envelhecimento saudável diz respeito a múltiplos setores, que envolvem:

  • Saúde
  • Educação, Justiça, Planeamento, Habitação
  • Segurança social, Trabalho, aspetos económicos
  • Novas tecnologias, etc.

Pilares de suporte

  • Promoção de um envelhecimento ativo ao longo de toda a vida;
  • Maior adequação dos cuidados de saúde às necessidades específicas das pessoas idosas;
  • Promoção e desenvolvimento intersetorial de ambientes capacitadores da autonomia e independência das pessoas idosas.

Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável 2017–2025

Fundamentação

“A Constituição da República Portuguesa (CRP) salvaguarda o reconhecimento da dignidade da pessoa humana. No que se refere especificamente à pessoa idosa, o artigo 72.º da CRP, sob a epígrafe ‘terceira idade’, determina que as pessoas idosas têm direito à segurança económica e a condições de habitação e convívio familiar e comunitário que respeitem a sua autonomia pessoal e evitem e superem o isolamento ou a marginalização social, bem como o direito à realização pessoal e a uma participação ativa na vida da comunidade.”

Objetivos

Objetivos gerais

  • Sensibilizar para a importância do envelhecimento ativo e da solidariedade entre gerações; promover a mudança de atitudes em relação ao envelhecimento e às pessoas idosas;
  • Promover a cooperação e a intersetorialidade na concretização da Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável;
  • Contribuir para o desenvolvimento de políticas que melhorem a qualidade de vida das pessoas idosas.

Objetivos específicos

  • Promover iniciativas e práticas para reduzir a prevalência e o impacto das doenças crónicas e da redução das capacidades físicas e mentais nas pessoas idosas; melhorar o acesso e a qualidade dos serviços de saúde e cuidado;
  • Incentivar iniciativas para a promoção da autonomia das pessoas idosas;
  • Promover a educação e formação ao longo do ciclo de vida, focando a promoção da literacia em saúde;
  • Incentivar a criação de ambientes físicos e sociais protetores e potenciadores da integração e participação das pessoas idosas;
  • Apoiar iniciativas para promoção do bem-estar e segurança das pessoas idosas;
  • Promover medidas para redução do risco de acidentes na pessoa idosa;
  • Fomentar investigação científica na área do envelhecimento ativo e saudável.

Medidas de intervenção: gestão dos processos de comorbilidade

6. Elaborar e executar Planos Individuais de Cuidados (PIC) baseados na promoção da saúde e das capacidades funcionais:

  • Adotar a linguagem classificada CIF na avaliação diagnóstica e de resultados;
  • Orientar as intervenções para a otimização da capacidade funcional;
  • Promover a contratualização de cuidados a pessoas idosas com base em planos de intervenção.

Teorias biológicas do envelhecimento

Teorias do envelhecimento
O termo envelhecimento descreve as mudanças de forma e função ao longo da vida que ocorrem nos indivíduos após a maturação sexual e que progressivamente comprometem a resposta ao stress ambiental e a manutenção da homeostasia.
Definição simples: “O que acontece com o organismo com o passar do tempo”.

Inúmeras teorias foram propostas; todas têm em comum a noção de degeneração da função e da estrutura dos sistemas orgânicos e células, perda de funcionalidade progressiva com a idade, aumento da suscetibilidade para incidência de doenças e aumento da probabilidade de morte.

Teorias estocásticas

- A perda de funcionalidade que acompanha o envelhecimento é causada pela acumulação aleatória de lesões em moléculas vitais, provocando declínio fisiológico progressivo.
- Para além da acumulação de lesões endógenas, existem fatores exógenos que influenciam a velocidade de envelhecimento.

Teoria das mutações somáticas
Mutações no DNA induzidas por agentes ambientais (ex.: radiações).

Teoria do uso e desgaste
As células e os tecidos são desgastados como resultado do envelhecimento, lesionando partes corporais por uso repetido, matando células e tecidos e, eventualmente, comprometendo a sobrevivência.

Teoria do stress oxidativo / radicais livres (O2)

- Acumulação de lesões moleculares provocadas pelas reações dos radicais livres (RL) nos componentes celulares ao longo da vida.
- Os RLOs (radicais livres do oxigénio) constituem um grupo de substâncias químicas com eletrões desemparelhados, conferindo-lhes grande instabilidade química.
- Os sistemas antioxidantes são incapazes de contrabalançar todos os radicais livres gerados continuamente durante o funcionamento celular, resultando em dano oxidativo celular e tecidual.
- Animais velhos mostram maior índice de oxidação que os jovens: acumulam lípidos oxidados, formas de DNA oxidadas e proteínas oxidadas.

Teoria imunológica

- A diminuição da capacidade de defesa do organismo pode ser consequência do envelhecimento e não necessariamente uma causa isolada.
- A alteração da resposta imunológica com o envelhecimento pode resultar da ação de inúmeros fatores estocásticos que interferem com os mecanismos de defesa.

Teorias genéticas

- Sugerem que mudanças na expressão genética causam modificações senescentes nas células; as alterações podem ser gerais ou específicas, intra ou extracelulares.

Teoria da instabilidade cromossómica
Envelhecimento como resultado da instabilidade estrutural e/ou desregulação genética associada à perda da integridade do genoma.

Teoria dos telómeros

  • O encurtamento dos telómeros ocorre porque a maioria das células somáticas não sintetiza telomerase.
  • Sem essa enzima, a cada duplicação celular a célula perde entre 50 e 201 pares de bases de DNA telomérico.
  • Isto contribui para instabilidade cromossómica.

Outras teorias

Apoptose
O stress oxidativo desempenha papel primário na fisiopatologia da apoptose induzida pela idade a partir do acúmulo de danos no DNA mitocondrial.

Teoria da velocidade de vida
A longevidade seria indiretamente proporcional à taxa metabólica; relaciona-se com a acumulação de radicais livres de oxigénio.

Teoria do envelhecimento celular
As células somáticas têm um potencial limitado de duplicação, possivelmente devido a um “relógio” mitocondrial.
Longevidade programada: diferenças entre espécies devido a constituições genéticas específicas que regulam fidelidade do material genético e replicação.

Teoria neuroendócrina
Existem alterações hormonais do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, resultantes de modificações na expressão genética.

Nenhuma teoria isolada explica o envelhecimento.
A divisão das teorias biológicas deve ser entendida no contexto das variáveis em estudo e não como explicação única do processo. Da interação entre o genoma e fatores estocásticos resulta maior ou menor velocidade de envelhecimento. Se a capacidade de adaptação do organismo for reduzida e/ou a ação dos fatores estocásticos for exagerada, aumenta a suscetibilidade para acumular lesões e défices celulares, levando ao envelhecimento celular, tecidular e orgânico.

Alterações no envelhecimento

As alterações decorrentes da senescência desenvolvem-se nos diferentes sistemas. Apesar da variabilidade interindividual, elas acontecem intraindivíduos.

  • Cabelo – perda de cor, fio mais fino, eventualmente calvície nos homens.
  • Olhos – ficam mais amarelados e perdem transparência.
  • Orelhas – maiores.

Pele perde elasticidade havendo queda da face, rugas e manchas na pele exposta ao sol.

Audição

  • Perda de capacidade para ouvir em altas frequências.

Visão

  • Diminuição da acuidade visual para perto.
  • Diminuição do campo de visão.
  • Lentificação na adaptação a diferenças de iluminação.

Olfato e paladar

  • O olfato diminui consideravelmente.
  • O paladar raramente sofre alterações significativas.

Somatosensorial

  • Vibração e propriocepção diminuídas, assim como o toque.

Composição corporal

  • Perda de massa magra, aumento da massa gorda.

Ideal: 20 < IMC < 25
Abaixo de 20 → perda de tecido muscular e/ou ósseo.
Acima de 25 → excesso de peso (massa gorda) e aumento de fatores de risco cardiovascular.

Sistema urinário

- Filtragem mais lenta e capacidade da bexiga diminui.

Sistema reprodutor

- Homem: descida dos níveis de testosterona.
- Mulher: descida dos níveis de estrogénio.

Sistema respiratório

- Diminuição da complacência pulmonar.
- Aumento da rigidez da caixa torácica.
- Maior volume residual; menor capacidade vital.
- Diminuição da atividade ciliar; aumento das secreções brônquicas.

Sistema cardiovascular

- Aumento da resistência periférica.
- Degeneração das células endoteliais; hipertensão arterial.
- Hipotensão postural.
- Aumento da resistência ventricular esquerda, válvulas cardíacas e aorta; diminuição do volume de ejeção do ventrículo esquerdo.
- Lentificação da contração com aumento do período refratário.

Sistema nervoso central

- Atrofia cortical.
- Diminuição do peso do cérebro devido à perda de fluido e células nervosas.
- Diminuição do aporte sanguíneo cerebral; declínio da neurotransmissão.
- Diminuição da velocidade de condução nervosa (aumento do tempo de reação); lentificação do movimento motor voluntário.

Sistema muscular

a) Redução da força
- Redução nas fibras; atrofia das fibras tipo II; irregularidades na estrutura do sarcómero.

b) Contração lenta
- Alterações enzimáticas da miosina; mudança de função do retículo sarcoplasmático; diminuição da excitabilidade (desidratação e níveis baixos de potássio).

c) Aumento de rigidez
- Aumento de tecido conjuntivo entre as fibras musculares; perda de elastina; modificações do colagéneo e elastina existentes.

d) Redução do metabolismo aeróbico

Matriz extracelular (ECM)

a) Estruturalmente:

  • Aumento da concentração de colagéneo;
  • Alterações das fibras elásticas;
  • Aumento da infiltração de tecido adiposo no músculo.

b) Bioquímicas:

  • Diminuição da taxa de renovação do colagéneo;
  • Potencial acumulação de ligações cruzadas de colagéneo mediadas enzimaticamente e por glicosilação.

c) Celulares:
Alterações da mecanotransdução, pobre ativação de células satélite, respostas inflamatórias retardadas, alterações dos moduladores do ECM.

Os efeitos do envelhecimento nos sistemas neuromuscular e sensorial acarretam dificuldades no controlo sinérgico de grandes grupos musculares envolvidos em tarefas posturais. Alterações do controlo postural podem afetar a independência funcional e a qualidade de vida, nomeadamente:

Parâmetros funcionais

  • Andar (marcha)
  • Subir / descer escadas
  • Levantar-se de uma cadeira
  • Elevar-se
  • Baixar-se
  • Correr

Atividades da vida diária

Cuidados pessoais, compras, trabalho de casa, jardinagem, desporto, viagens.

Equilíbrio — Quedas

Quedas – causas e consequências

A queda é um evento frequente e limitante, sendo considerado um marcador de fragilidade, morte, institucionalização e declínio na saúde de idosos. As intervenções mais eficazes baseiam-se na identificação precoce dos idosos com maior probabilidade de sofrer quedas e, particularmente, daqueles que apresentam risco aumentado de lesões graves decorrentes da queda.

Devem distinguir-se dois grupos de fatores:

  • Fatores de risco ou predisponentes: aumentam a probabilidade de quedas.
  • Fatores causais: agentes etiológicos presentes na determinação da ocorrência de um evento de queda específico; razões que levaram o idoso a cair, potencializadas por fatores intrínsecos e extrínsecos.

Nota sobre evidência:
- se alta: fator presente na maioria dos estudos;
- se moderada: fator presente em boa parte dos estudos, mas não na maioria;
- se baixa: fator presente em um ou dois estudos apenas.

Equilíbrio corporal, marcha e mobilidade — distúrbio neuromuscular

  • Fraqueza muscular de membros inferiores (MMII).
  • Fraqueza de preensão.
  • Diminuição de reflexos.
  • Dor em joelho ou quadril; problemas nos pés.
  • Tempo de reação aumentado.

Uso de medicações

  • Psicotrópicos (ex.: benzodiazepínicos).
  • Bloqueadores de canal de cálcio.
  • Analgésicos.
  • Número elevado de medicações (polimedicação).

Que idoso tem maior probabilidade de sofrer uma queda?

O controlo postural

O controlo postural envolve a manutenção da posição do corpo no espaço com dois propósitos:

  • Estabilidade ou equilíbrio postural;
  • Orientação postural.

Estabilidade (equilíbrio): capacidade de manter o centro de massa do corpo (CM) dentro dos limites da base de suporte (BS), em pé ou em marcha.

Orientação postural: capacidade de manter relação apropriada entre o corpo e o ambiente para realizar uma tarefa.

O controlo de equilíbrio requer:

  • Uso dos inputs aferentes sensoriais (visuais, vestibulares e somatossensoriais);
  • Integração desses inputs e ativação de respostas posturais sinérgicas;
  • Ativação dos músculos posturais com força e temporização adequadas.

Input sensorial e equilíbrio

Objetivo:

  • Fornecer ao SNC informação sobre a direção e magnitude das forças desestabilizadoras;
  • Monitorizar os efeitos das forças internas estabilizadoras.

Sistema somatossensorial
- Por estar distribuído pelo corpo, os receptores somatossensoriais resolvem ambiguidades entre a informação visual e vestibular.
- Detecta o movimento do corpo em relação à superfície de suporte e o movimento relativo dos segmentos corporais.

Reflexos posturais (mesencéfalo)
- Reflexos de realinhamento que mantêm cabeça e corpo direitos.
- Utilizam informação do aparelho vestibular (posição da cabeça) e receptores cervicais (músculos do pescoço).

Forças que atuam nos segmentos

Forças desestabilizadoras externas:

  • Gravidade
  • Distribuição e posição da massa
  • Inércia
  • Forças externas

“Momentos internos” estabilizadores:

  • Forças musculares
  • Forças ligamentares
  • Distribuição e posição da massa

Determinantes do equilíbrio funcional

Equilíbrio

Tarefa: aspectos biomecânicos e de processamento de informação.

Contexto ambiental: aspectos biomecânicos e de processamento de informação.

O equilíbrio e a tarefa

As forças de aceleração que atuam no corpo são:

  • a) mínimas na posição de pé; aumentam com o movimento ou manipulação do braço;
  • b) maiores na marcha, ao girar e ao correr, com ou sem movimentos de braços.

Realizar atividades requer mudança contínua dos padrões de movimento, desafiando o equilíbrio estático e dinâmico. Depois de categorizar a base de suporte (BS) como estática ou dinâmica, as tarefas devem ser divididas segundo as perturbações impostas ao corpo.

O ambiente

Patla (1997) reconhece a importância do contexto ambiental no equilíbrio, alcançado através de mecanismos proativos e preditivos:

  • Monitorização proativa do ambiente externo;
  • Previsão dos efeitos de forças geradas pelo movimento voluntário;
  • Ajustamentos necessários para manter postura e equilíbrio.

Quando os ajustes falham ou ocorre desestabilização inesperada, os mecanismos reativos são ativados para gerir a crise.

Equilíbrio e ambiente
- Padrões de marcha ajustam cinemática e cinética para diferentes superfícies (areia, relva, piso escorregadio).
- O ambiente influencia estratégias de prevenção e performance motora.

Processamento de informação no controlo do equilíbrio

- A capacidade de processamento das regiões centrais não é infinita; isto é demonstrado pela redução de performance em tarefas secundárias (paradigma da dupla tarefa).

A tarefa, o ambiente e a performance motora

A tarefa e o ambiente afetam a performance motora de duas formas:

  • Alteram características biomecânicas da atividade;
  • Aumentam a quantidade de informação a processar para alcançar equilíbrio e objetivo motor, alterando requisitos de equilíbrio.

Mecanismos do equilíbrio

Mecanismos proativos

- Baseados no sistema visual.
- Informação sobre condições ambientais e alterações é recebida e interpretada à luz da experiência para avaliar impacto na estabilidade.

Mecanismos preditivos

- O controlo preditivo das forças é alcançado pelos ajustes posturais antecipatórios.
- Padrões de atividade muscular começam antes da maior parte dos movimentos voluntários.
- Dependem de representação interna do corpo e de experiência sobre como movimentos alteram relações intersegmentares e com a superfície de suporte.

Mecanismos reativos

- Respondem às falhas dos componentes proativos ou a perturbações externas inesperadas (reflexos de proteção).

O equilíbrio e a 3.ª idade

- Alterações fisiológicas na 3.ª idade aumentam a influência da tarefa e do ambiente nos aspetos biomecânicos da atividade:

  • Diminuição da acuidade visual afetando mecanismos proativos;
  • Diminuição da acuidade vestibular com a idade;
  • Diminuição do input sensorial; o idoso precisa de mais concentração para manter o equilíbrio.

Consequências da diminuição do processamento central

  • a) Aumento da frequência e amplitude de oscilação do centro de massa em posição de pé;
  • b) Diminuição da oscilação do centro de massa no equilíbrio dinâmico; aumento da percentagem de atenção dispensada à tarefa;
  • c) Diminuição da velocidade da resposta escolhida;
  • d) Resposta motora sinérgica inapropriada;
  • e) Diminuição da força muscular;
  • f) Diminuição das unidades motoras;
  • g) Predominância de fibras musculares lentas;
  • h) Diminuição da flexibilidade.

Processamento da informação na 3.ª idade

- A necessidade de processar informação relacionada com tarefa e ambiente pode competir por recursos centrais.
- Idosos podem ter dificuldade em andar e, simultaneamente, falar ou transportar objetos sem prejudicar o equilíbrio.
- Ambientes novos ou dinâmicos e tarefas múltiplas representam grande desafio ao processamento de informação.

Vertente psicossocial

Alterações de memória, cognitivo e de humor podem afetar motivação, adesão e resultados da intervenção do fisioterapeuta, com impacto significativo na qualidade de vida do adulto sénior.

Cognição

Principais alterações:
- Atenção: flutuações;
- Perceção: lentificação e imprecisão;
- Pensamento: lentificação e rigidez;
- Resolução de problemas: tendência para conservar estratégias, menor capacidade de adaptação.

Memória

- A memória de longa duração é relativamente preservada, mas surgem dificuldades na recuperação de informações.
- A memória de curto prazo e o armazenamento sensorial diminuem progressivamente com a idade.

Cuidados a ter:

  • Falar em voz alta e lentamente;
  • Falar com clareza;
  • Abordar um tema de cada vez;
  • Usar linguagem simples (evitar metáforas);
  • Ser breve e repetir se necessário;
  • Dar suporte em papel ou digital à informação;
  • Envolver familiares/cuidadores.

Depressão

A depressão é causa importante de disfunção no adulto sénior. Imobilidade, pobre adesão médica e auto-negligência que acompanham a depressão podem exacerbar doenças coexistentes e fragilidade. Depressões representam proporção substancial da utilização de serviços de saúde por adultos séniores. A perda de função, isolamento e tempo passado na cama podem ter impacto social e emocional semelhante ou superior ao de muitas doenças.

Sintomatologia frequente

  • Boca seca, obstipação, má digestão;
  • Anorexia, emagrecimento;
  • Sensação permanente de frio;
  • Sono irregular, despertar frequente ou precoce;
  • Opressão ou pontada no tórax;
  • Amenorreia, falta de libido;
  • Medo da doença, da morte, de ficar pobre;
  • Queixas de atenção e memória;
  • Pessimismo, falta de esperança;
  • Desocupação, desinteresse total;
  • Ir para a cama durante o dia; desleixo na casa e/ou na higiene pessoal;
  • Sentir-se inútil.

Características associadas

  • Doenças acumuladas, longa evolução, cronicidade;
  • Baixa capacidade funcional;
  • Dependência por carências múltiplas (sociais, familiares, económicas).

Atitudes da família

  • Maior tolerância à doença;
  • Atraso nas consultas;
  • Rejeição quando inválidos ou muito dependentes;
  • Ambivalência quando internados (reparos e queixas sobre o tratamento);
  • Projeção de culpas sobre o pessoal de saúde.

Sentimentos e atitudes de alguns profissionais de saúde

  • Incompreensão do que o doente sente e procura comunicar;
  • Terapêutica descoordenada e sem objetivos claros (tentar tratar tudo, querer curar definitivamente, limitar-se a acudir às queixas);

Recomendações gerais

  • Adaptar-se às incapacidades;
  • Comunicar abertamente;
  • Respeitar defesas, personalidade e valores do doente;
  • Valorizar o que o doente ainda pode fazer;
  • Ouvir antes de decidir sobre ele;
  • Ver a pessoa além da doença ou dos défices.

Envelhecer — aspetos negativos e positivos

Aspetos negativos:

  • Sofrimento físico;
  • Reduzida mobilidade;
  • Inatividade;
  • Perda de poder;
  • Isolamento;
  • Dependência.

Aspetos positivos:

  • Menos obrigações;
  • Mais tempo livre;
  • Maior disponibilidade familiar;
  • Maior disponibilidade para ajudar os outros;
  • Maior riqueza espiritual.

Avaliação diagnóstica e de resultados

Estruturas a avaliar

  • Sistema muscular (avaliação da força; aptidão física);
  • Sistema cardiorrespiratório;
  • SNC (equilíbrio, memória, cognição);
  • Estado alimentar.

Atividades

  • Independência e funcionalidade;
  • Atividade física;
  • Inatividade física.

Participação

  • Qualidade de vida;
  • Ansiedade e depressão;
  • Medo de cair.

Aspetos a considerar ao selecionar um instrumento de medida

  • Adequação das medidas à população em estudo;
  • Aspetos práticos de aplicação;
  • Características métricas (fiabilidade, validade).

Estado de saúde

SF-36 (Medical Outcomes Study 36-Item Short Form Health Survey)
Apresenta 8 subescalas:

  • Função física;
  • Desempenho físico;
  • Dor corporal;
  • Perceção do estado de saúde;
  • Função social;
  • Desempenho emocional;
  • Saúde mental;
  • Vitalidade.

Atividades da vida diária

Índice de Katz
Mede a independência funcional nas atividades básicas cotadas em 3 pontos:

  • Tomar banho;
  • Vestir-se;
  • Usar a casa de banho;
  • Transferências;
  • Continência;
  • Alimentação.

Escala de Barthel (original)
Instrumento que avalia o nível de independência para 10 atividades básicas (comer, higiene pessoal, uso do sanitário, tomar banho, vestir/despir, entre outras).

Escala de Barthel (modificada)
Propõe subdivisão da pontuação total em categorias. Uma pontuação de 60 corresponde ao ponto de viragem entre independência e dependência. Pontuações acima de 60 indicam que a maioria dos pacientes são independentes para cuidados pessoais essenciais (deslocar-se sem auxílio, comer, higiene pessoal, etc.).

Equilíbrio

Escala de Berg

- A Berg Balance Scale, desenvolvida e validada por Berg et al. (1996), é uma medida objetiva das habilidades de equilíbrio estático e dinâmico (ex.: alcançar, girar, transferir-se, permanecer em pé e levantar-se), muito utilizada para determinar fatores de risco para perda de independência e quedas em idosos.
- Serve para descrição quantitativa da habilidade de equilíbrio funcional, acompanhamento do progresso e avaliação da efetividade das intervenções.

Boa confiabilidade: interexaminadores (ICC = 0,98), intraexaminadores (ICC = 0,99), consistência interna (α de Cronbach = 0,96).

Itens da Berg (exemplos)

  1. Sentar sem suporte de costas
  2. Levantar de uma cadeira
  3. Sentar numa cadeira
  4. Transferir-se de uma cadeira para outra
  5. Estar de pé sem suporte
  6. Estar de pé com os olhos fechados
  7. Estar de pé com os pés juntos
  8. Estar de pé com um pé à frente do outro
  9. Subir e descer um degrau
  10. Estar de pé apoiado só num pé
  11. Rodar o corpo 360º
  12. Na posição de pé, apanhar um objeto do chão

14 tarefas, graduadas de 0 (incapaz) a 4 (independente), pontuação máxima de 56. Material necessário: relógio, régua, banco e cadeira. Tempo de execução aproximado: 30 minutos.

Aptidão física

Provas de esforço nem sempre são aplicáveis à população sénior e a indivíduos com mobilidade reduzida:

  • Podem ser barreira ao início da atividade física;
  • Diferenciação entre intensidade moderada e vigorosa é difícil;
  • Existe evidência de aumento de eventos cardiovasculares ou mortalidade durante a prova.

Recomenda-se anamnese e exame físico para identificar contraindicações cardíacas e estratificar pacientes.

Teste de Marcha de 6 minutos

- Indicada para avaliar capacidade de esforço em pacientes com doença pulmonar ou cardíaca moderada a severa.
- Não substitui uma prova de esforço; complementa-a. Não permite avaliar VO2max nem os fatores determinantes da limitação ao esforço.
- Validade: ICC = 0,97–0,99; fiabilidade intra e interobservador: ICC = 0,74 e ICC = 0,78.
- Monitoriza-se a frequência cardíaca e, se disponível, a SpO2. Medição da pressão arterial e Escala de Borg também devem ser aplicadas. Incentivos e hora do dia devem ser padronizados.

Levantar e sentar da cadeira em 30 s

- Objetivo: avaliar força muscular do hemicorpo inferior.
- Descrição: número de levantamentos completos em 30 s, com os braços cruzados ao nível do peito.
- Zona de risco: menos de 8 levantamentos não assistidos (homens ou mulheres).

Flexão do braço

- Objetivo: avaliar força muscular do hemicorpo superior.
- Descrição: número de contrações do bíceps em 30 s, segurando um peso de 2,27 kg (mulheres) ou 3,63 kg (homens).
- Zona de risco: menos de 11 flexões corretas (homens ou mulheres).

Teste do degrau de 2 minutos

- Objetivo: teste aeróbio alternativo ao teste de marcha de 6 minutos.
- Descrição: número de degraus completos em 2 minutos, levantando o joelho até ponto médio entre rótula e crista ilíaca; pontua-se pelo número de vezes que o joelho atinge a altura pretendida.
- Zona de risco: menos de 65 degraus (homens e mulheres).

Sentar e alcançar

- Objetivo: avaliar flexibilidade do hemicorpo inferior.
- Descrição: sentado, inclinar-se para frente com pernas esticadas e mãos em direção aos dedos dos pés; mede-se a distância (cm) entre dedos e ponta do hálux.
- Zona de risco: Homens: ≤ -10 cm; Mulheres: ≤ -5 cm.

Alcance nas costas

- Objetivo: avaliar flexibilidade do hemicorpo superior.
- Descrição: uma mão alcança por cima do ombro e a outra por trás das costas; mede-se a distância entre os dedos em extensão.
- Zona de risco: Homens: ≤ -10 cm; Mulheres: ≤ -5 cm.

2,4 m: levantar, caminhar e voltar

- Objetivo: avaliar agilidade/equilíbrio dinâmico.
- Descrição: tempo para levantar da posição sentada, andar 2,4 m e retornar à posição sentada.
- Zona de risco: mais de 9 segundos (homens e mulheres).

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