Epidemiologia da Saúde Bucal: Índices e Panorama no Brasil

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Fase de transição epidemiológica: Diminuição das doenças infectocontagiosas; aumento das doenças crônico-degenerativas, cardiovasculares e por causas externas. Este é um quadro característico de países com grandes desigualdades sociais e alta concentração de renda. A saúde bucal reflete esta situação epidemiológica, sendo agravada por:

  • Um sistema de prestação de serviços deficiente;
  • Uma prática odontológica iatrogênico-mutiladora;
  • Crescente perda dos dentes;
  • Atuação pouco expressiva da epidemiologia: carência de estudos de base local, regional e nacional (apenas em 1986 foi realizado o 1º estudo de base nacional).

Há estudos dos fatores que determinam a frequência e distribuição das doenças em populações humanas (OMS, 1973) que propõem medidas específicas de prevenção, controle e erradicação de doenças, fornecendo indicadores para o planejamento, gerenciamento e avaliação dos serviços de saúde. A epidemiologia lida não só com a incapacidade, doença ou morte, mas também com indicadores positivos de saúde e com maneiras de promovê-la.

Histórico e Indicadores na Saúde Bucal

Na saúde bucal: Inicia-se na década de 30 (caráter científico); utiliza-se o Índice CPOD (Cariado, Perdido e Obturado). Estudos sobre teores de flúor na água versus fluorose dentária demonstraram que a fluorose foi o primeiro problema de saúde bucal controlado coletivamente por meio de medidas sanitárias.

Quais os principais problemas de saúde bucal?

  • Cárie dentária;
  • Doença periodontal;
  • Câncer bucal;
  • Problemas oclusais, fluorose, etc.

Quais as informações importantes para organização e planejamento de um serviço de saúde bucal?

  • Quais as doenças bucais mais prevalentes?
  • Qual seria a prevalência de cárie?
  • Existem programas coletivos preventivos?
  • Como as doenças se distribuem na população?
  • A água de abastecimento público é fluoretada?
  • É realizado algum controle de qualidade?

Lembrar sempre que o recurso financeiro e estrutural é limitado. Como planejar? Como organizar? O que devo priorizar?

Estudos e Bases Científicas

Estudos (bases científicas): Manuais elaborados por centros de pesquisa, pelo Ministério da Saúde ou Secretarias Estaduais. Finalidade: Possibilitar comparações e parâmetros com dados nacionais e internacionais, além do acompanhamento longitudinal das intervenções.

  • Prevalência: Número de casos da doença em relação à população em um determinado local e período de tempo. Exemplo: De um total de 286 jovens de 18 anos, em 1999, 246 apresentaram sangramento gengival em pelo menos 1 sextante; portanto, 246/286 = 0,86 ou 86%.
  • Incidência: Número de casos novos durante um período de tempo em relação à população sob risco de adoecer no começo do período. Exemplo: De um total de 123 indivíduos, 21 desenvolveram candidíase oral durante 3 anos; então, 21 indivíduos/123 = 0,17 ou 17%.

Índices de Cárie Dentária

  • Índice ceod: Mede a experiência de cárie da dentição decídua. c = cariado; e = extraído devido à cárie; o = obturado. A unidade de medida é o dente (d). Variação de dentes: 0 a 20.
  • Índice CPOD e CPOS: Medem a experiência de cárie da dentição permanente. Variação de dente: 0 a 32; variação de superfície: 0 a 160 (32 x 5 superfícies).

Critérios de avaliação (OMS):

  • Cariados: Restaurados com cárie = componente “C” do CPOD ou “c” do ceod.
  • Perdidos devido à cárie: Componente “P” do CPOD ou “e” do ceod.
  • Obturados: Componente “O” do CPOD ou “o” do ceod.

Exemplos de Cálculo do Índice CPOD:

  • Indivíduo: Número de dentes cariados, perdidos e obturados (dado de prevalência).
  • Exemplo 1: Renato, 12 anos, possui 2 dentes permanentes cariados. CPOD: 2+0+0 = 2.
  • Exemplo 2: Sofia, 12 anos, possui 2 dentes permanentes cariados + 1 dente perdido por cárie + 4 dentes obturados + 21 dentes hígidos. CPOD: 2+1+4 = 7.
  • Média CPOD do Grupo (n=2): (Renato + Sofia) / 2 = (2 + 7) / 2 = 4,5.
  • Prevalência de cárie do Grupo (n=2): 100%.

Levantamentos Epidemiológicos no Brasil

Levantamento Epidemiológico MS - Brasil, 1986:

  • Limitado à zona urbana;
  • Um dos maiores índices de cárie em todo o mundo;
  • Somente 40% dos indivíduos aos 18 anos apresentavam todos os dentes;
  • 72% dos indivíduos entre 50-59 anos já haviam extraído todos os dentes em pelo menos uma das arcadas.

Distribuição dos componentes do CPOD aos 12 anos de acordo com a faixa de renda (Brasil, 1986):

  • Renda mais baixa = 20% de dentes obturados;
  • Renda mais elevada = 55% de dentes obturados.

Cárie dentária (Brasil, 2010):

  • 35-44 anos: CPOD = 16,75 e 28% não possuem nenhum dente funcional (desdentados).
  • 65-74 anos: CPOD = 27,5 e 75% de desdentados.

Perdas Precoces e Progressivas

IMPORTANTE: Somente o tratamento restaurador não garante o controle da doença, sendo necessário intervir nos determinantes para evitar novas lesões e recidivas nas restaurações.

  • Abordagem coletiva: Ações de vigilância sobre riscos e necessidades em saúde bucal; ações de promoção de saúde; ações educativas e preventivas; universalização do acesso à escova e dentifrício fluoretado.
  • Abordagem individual: Diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção.

Fluorose Dentária

A fluorose dentária é um distúrbio induzido pelo íon flúor durante o período de mineralização do esmalte. Provoca um aumento na porosidade do esmalte, afetando a translucidez. É o resultado da ingestão crônica de flúor, sendo bilateral e afetando dentes homólogos.

Aspectos clínicos da Fluorose Dentária: As manifestações clínicas vão desde finas linhas brancas que acompanham as linhas incrementais de desenvolvimento do esmalte até a perda quase total de sua superfície, provocando uma alteração da forma geral do dente.

Fatores de risco para a fluorose:

  • Teores de flúor na água acima do recomendado (limite máximo de ingestão para não comprometer a estética = 0,05 a 0,07 mg F/dia/Kg de peso corporal);
  • Uso concomitante de duas ou mais formas de flúor sistêmico;
  • Ingestão crônica de dentifrício fluoretado na fase de mineralização do esmalte dental (período crítico: 20-36 meses);
  • Ausência de heterocontrole de fluoretação.

Fatores que podem influenciar a severidade: Temperatura, jejum (quantidade de alimento no estômago), baixo peso corporal, desnutrição, problemas renais crônicos, distúrbios metabólicos e exposição múltipla a fluoretos.

Fluorose Dentária (Brasil, 2010): Prevalência de 17,7% aos 12 anos. As regiões Sudeste (19,1%) e Sul (14,8%) apresentaram prevalências mais elevadas. Consideram-se aceitáveis níveis entre 15-25% de fluorose nas suas formas mais leves (graus muito leve/leve) em populações com acesso à água fluoretada.

Outras Condições de Saúde Bucal

Doença Periodontal: Doença infecciosa de progressão lenta e contínua, mas que pode ter padrões variáveis. É um importante fator de risco para parto prematuro de baixo peso e diabetes.

Câncer Bucal: Inclui casos de câncer do lábio e cavidade oral (mucosa bucal, gengiva, palato duro, língua e assoalho da boca). É uma causa importante de morbimortalidade, com maior prevalência no sexo masculino. Cerca de 70% dos casos são diagnosticados em indivíduos acima de 70 anos, sendo 90-95% do tipo carcinoma epidermoide. A doença pode ser facilmente prevenida com ênfase na promoção de saúde, aumento do acesso aos serviços e diagnóstico precoce.

Oclusopatias (Brasil, 2010):

  • 5 anos: 52,5% apresentam alterações oclusais (chave de canino, sobressaliência, sobremordida ou mordida cruzada posterior).
  • 12 anos: Condição severa ou muito severa/incapacitante em 19%.
  • 15-19 anos: Condição severa ou muito severa/incapacitante em 17%.

Conclusão e Medidas Epidemiológicas

Para o controle das doenças bucais, é fundamental conhecer a etiologia, os fatores de risco e os determinantes, aplicando tanto a abordagem coletiva quanto a individual.

  • Abordagem Coletiva: Ações de Vigilância em Saúde (riscos), Levantamentos Epidemiológicos (L.E.) e monitoramento, promoção de saúde e educação em saúde.
  • Medidas em epidemiologia: Índices, indicadores, coeficientes, taxas e medidas do tipo razão (risco).

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