Escola Francesa e a Perspectiva Socioespacial
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A Escola Francesa e a Produção do Espaço
Uma segunda perspectiva, a **Anti-Mainstream** ou da **Economia Política Urbana** ou do **Sistema-Mundo**, pode conceber-se em função de dois momentos. Nos dois momentos, a cidade e o urbano são entendidos como uma estrutura central da economia capitalista transnacional, sendo esta a concepção global em causa. Mas, enquanto num primeiro momento o urbano é estudado em função de circuitos de capital e como máquinas de crescimento e expressão de classe e do conflito de classes face a casos concretos ou em termos teóricos, muito no quadro de Estados-Nação, num segundo momento a lógica transnacional é finalmente atingida, com dois modelos: o da(s) cidade(s) global(ais) e o do espaço de fluxos.
Em relação a esta segunda perspectiva, é possível distinguir dois momentos. Um primeiro, tendo **Henri Lefebvre**, **Michel Foucault**, **Manuel Castells** e **David Harvey** como autores que são usualmente associados à chamada **Escola Francesa**, procuraram identificar os processos económico-sociais que explicam a *produção do espaço*, o *planeamento urbano* e a *forma urbana*. Num segundo momento, a economia política urbana centrou-se na estrutura da economia global e na sua relação com as cidades, num sentido já planetário, sustentando-se nas posições anteriores, mas também na teoria do sistema-mundo de **Wallerstein** e **Braudel**. Os autores principais são **Friedman**, **Sassen** e **Castells**.
É em função do momento específico da década de 60, de mudança de paradigma da Modernização para a Globalização (ver capítulo 3), pelos movimentos de libertação e autodeterminação e subsequente descolonização, e pela renovação social, política e intelectual do Ocidente, que se pode compreender o surgimento da Escola Francesa. Esta surge como uma renovação da Sociologia Urbana, em função de análises que procuram refundar o estudo do espaço urbano como um todo. Castells identificou quatro correntes fundamentais nesta Escola.
O grande contributo de Lefebvre é conceber o espaço nas suas diversas dimensões como produzido socialmente e, especificamente, em função dos modos de produção e dos dois circuitos de capital que identificou (o industrial e o imobiliário). Harvey centrou-se na questão dos circuitos de capital, acrescentando aos dois circuitos identificados por Lefebvre um terceiro (reprodução da força de trabalho e investimento em áreas científicas e profissionais), estabelecendo a relação entre circuitos de capital e investimento em diferentes zonas da cidade. Henri Lefebvre procurou construir uma ciência do espaço (1998, c1974: 7), considerando que a análise do espaço estava fragmentada por diversas disciplinas. A teoria unitária do espaço de Lefebvre tem o objetivo de descobrir ou construir uma unidade teórica entre campos, identificando um campo Físico (natureza, cosmos); um campo mental (incluindo as abstrações lógicas e formais) e um campo social (da prática social).
É este campo do espaço social que possibilita, para Lefebvre, uma análise crítica da realidade urbana por um lado, e da vida quotidiana, indissoluvelmente ligada àquela primeira, por outro (Lefebvre, 1968 e 1972: 151). Para Lefebvre, o espaço social é um produto social, sendo que cada sociedade do passado, em função do modo de produção, criou o seu próprio espaço.
A Perspectiva Socioespacial
A **Perspectiva Socioespacial** (**SSP**), é inspirada no trabalho de Lefebvre e foi aplicada à sociologia urbana por **Feagin** (1983, 1988) e **Gottdiener** (1977, 1985) e seus colaboradores (1988). Gottdiener caracteriza a Perspectiva Socioespacial como uma perspectiva integrada que tem como principais referências **Max Weber**, os marxistas e, especificamente, **Althusser** e **Lefebvre**.
As características da Perspectiva Socioespacial são:
- Incorpora diferentes fatores que devem ser tidos em conta no desenvolvimento e mudança, em vez de enfatizar um ou dois. Especificamente, procura uma análise equilibrada dos fatores de atração e repulsão (*push and pull*) no crescimento metropolitano e regional.
- Considera o papel do setor imobiliário no desenvolvimento como uma combinação de atividades de agência e estrutura. O investimento em terra é um setor de acumulação de capital com as suas próprias fações e ciclos de crescimento e retração (*boom and bust*). As categorias da economia política, tal como lucro, renda, juro e valor são tão aplicáveis ao desenvolvimento metropolitano como a qualquer outra parte da economia.
- Inclui uma perspectiva atenta à política que enfatiza o papel dos indivíduos e grupos no processo de desenvolvimento. A PSS focaliza-se nas atividades de determinadas redes de crescimento (*growth networks*) que agregam escolhas relativas às direções e impactos da mudança.
- A PSS considera que os fatores culturais, como a raça, o género, o contexto simbólico do espaço são tão importantes como os aspectos económicos e políticos. Considera também determinados aspectos das formas espaciais e o seu papel na organização da sociedade, tendo em conta que a vida metropolitana se desenvolve numa região multicentrada em contínua expansão.
- A PSS, tal como outras perspectivas, adota uma concepção do desenvolvimento global sem defender que a economia mundial é a única responsável pela reestruturação do espaço de assentamento. As mudanças globais são particularmente relevantes para compreender como as cidades, subúrbios e regiões têm sido afetadas pela economia nos anos recentes. Os novos espaços da indústria, comércio e serviços redefiniram os padrões do desenvolvimento regional multicentrado, mas a intervenção governamental e o setor imobiliário também representaram um papel essencial na reestruturação do espaço.