Esportes de Aventura: História, Conceitos e Sustentabilidade

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História e Fundação dos Clubes de Montanhismo

Esporte de Aventura: 1857 — Fundação do Clube de Excursionismo Britânico.

  • 1863 — Fundação do Clube Alpino Suíço e Italiano.
  • 1869 — Fundação do Clube Alpino Alemão.
  • 1874 — Fundação do Clube Alpino Francês.
  • 1883 — Fundação do Clube Alpino Belga.
  • 1906 — Fundação do Clube de Montanhismo do Canadá.
  • 1910 — Fundação do Clube de Montanhismo dos Estados Unidos.

Um pouco mais tarde na América Latina:

  • 1919 — Centro Excursionista Brasileiro.
  • 1931 — Clube Andino de Bariloche.
  • 1933 — Clube Andino do Chile.

Segundo Dias, Melo e Alves Júnior, em "Os estudos dos esportes na natureza: desafios teóricos e conceituais", a organização de clubes é uma das marcas do desenvolvimento do campo esportivo, e grande parte deles existe até os dias de hoje.

Evolução das Vivências Lúdico-Recreativas

O lócus das vivências lúdico-recreativas não é um fenômeno recente. No século XIX, houve uma nova organização nos modos de diversão, buscando o afastamento dos centros urbanos para praias, rios e bosques nas periferias “selvagens”. Desenvolveu-se uma boa estrutura de entretenimento que permitia aos frequentadores simular “aventuras” e “contatos com o campo” com considerável conforto e segurança.

Dias Atuais: Empresas especializadas oferecem viagens que conciliam aventura e conforto. Algumas tornaram-se conhecidas por oferecer “aventura com estilo”. Exemplos incluem passeios em Fernando de Noronha regados a champanhe; acampamento no Jalapão com colchões infláveis, banheiros químicos portáteis e cardápio com crepe flambado; e viagens pelos rios da Amazônia. Férias na maior floresta do planeta não significam mais se embrenhar pela mata e passar apertos. As aventuras vistas em livros ou filmes podem ser vividas em roteiros confortáveis montados por agências e hotéis. (Fonte: O Globo. Na selva, mas sem sustos. Rio de Janeiro: Caderno Boa).

Definições e Conceitos de Esporte

Esporte: Refere-se a uma atividade corporal de movimento com caráter competitivo (Bracht, 2003). O Esporte na Natureza pode ser cooperativo e colaborativo, além do princípio do rendimento.

Equívocos Comuns:

  1. Vislumbrar o esporte apenas como prática competitiva: O esporte como reprodução fiel do mundo do trabalho, eliminando elementos lúdicos.
  2. Interpretação dos esportes na natureza como não dotados de competição: O elemento competitivo migra do adversário para si mesmo (autocompetição) ou para a natureza. Exemplo: No rafting, o rio é visto como uma força superior a ser vencida através da cooperação e do uso do remo.

Não há um esporte absoluta e univocamente competitivo ou cooperativo. Ele transita entre o competitivo, performático, lúdico e cooperativo.

Classificações das Atividades na Natureza

AFAN (Atividades Físicas de Aventura na Natureza): Segundo Betrán (2003), são práticas recreativas diferentes do esporte tradicional pelo modelo corporal, motivação, condições de prática e objetivos.

  • Esporte de Deslize: Esportes com prancha, onde o equipamento define a prática.
  • Esporte ao Ar Livre (Outdoor Sports): Foco no local de prática em contato com a natureza.
  • Esportes Alternativos: Ambiente imprevisível, caráter inovador, liberdade de movimentos e prevalência do lúdico.
  • Esportes Californianos: Conotação do local de surgimento (Califórnia, EUA).
  • Esporte na Natureza: Relações intersubjetivas com a natureza para extrair prazer.
  • Esportes de Aventura: Sentido de risco e incerteza. Embora urbanos atualmente, seus simbolismos vêm do ambiente natural.
  • Esportes Radicais ou Extremos: Ênfase em “sensações extremas” e manobras acrobáticas.

Categorização por Meio e Ação

Esportes de Ação: Foco no movimento, gesto técnico complexo (manobra) e atitude ligada a “tribos” (linguagem e vestimenta próprias).

Esportes de Aventura: Foco no desconhecido e imprevisível, envolvendo esforço físico, privação e incerteza.

Classificação por Meio:

  • Aquáticos: Ação: Surf, Windsurfe. Aventura: Mergulho, Canoagem, Rafting, Caiaque, Aquaride, Canyoning.
  • Aéreos: Ação: Base Jump, Sky Surf. Aventura: Paraquedismo, Balonismo, Voo Livre.
  • Terrestres: Ação: Bungee Jump, Sandboarding. Aventura: Montanhismo, Escalada (rocha/gelo), Técnicas Verticais, Tirolesa, Rapel, Arvorismo, Mountain Bike (Downhill, Cross Country), Trekking.
  • Mistos: Ação: Kitesurf. Aventura: Corrida de Aventura.
  • Urbanos: Ação: Escalada Indoor, Skate, Patins In-line, Bike Trial, BMX. Aventura: Le Parkour.

Mercado e Sustentabilidade

A demanda por AFANs gerou uma indústria de entretenimento e consumo. O mercado oferece desde equipamentos sofisticados até pacotes de “emoção e risco”.

  • Ecoturismo: Foco na preservação do patrimônio natural/cultural e estudos científicos.
  • Turismo de Aventura: Planejamento e venda de experiências (trilhas, botes) com conforto e segurança.

Relação Homem-Natureza e Discursos Ambientais

A sociedade contemporânea apresenta diversos discursos sobre a natureza:

  • Relação Natureza/Sociedade: O trabalho transforma a natureza. Visão antropocêntrica onde o homem é o centro.
  • Crise Ambiental: Reflexo do desenvolvimento capitalista que trata a natureza como mercadoria.
  • Discurso dos Ecologistas: Movimento social que contesta o modo de vida industrial. No Brasil, ganhou força na década de 70.
  • Desenvolvimento Sustentável: Proposta de manter o progresso humano para as próximas gerações (Relatório Brundtland, 1987).
  • Ecodesenvolvimento: Busca pela harmonia entre produção humana e leis da natureza.
  • Natureza como Patrimônio: Criação de áreas protegidas e espaços públicos de lazer.
  • Medo Ecológico: Foco em catástrofes (chuva ácida, buraco na camada de ozônio, efeito estufa).
  • Discurso da Universidade: Produção de conhecimento científico e conscientização ambiental.

Impactos Ambientais das AFANs

A prática desordenada causa impactos negativos:

  • Balonismo: Queima de gases, barulho, lixo e compactação do solo.
  • Paraquedismo/Base Jump: Compactação do solo e alteração da vegetação no pouso.
  • Atividades Aquáticas: Poluição por combustível, barulho, distúrbios na fauna e danos a rochas.
  • Trekking/Mountain Bike: Erosão de trilhas e compactação do solo.

Propostas de Intervenção e Educação

Para conciliar lazer e conservação, propõe-se:

  1. Planejamento Responsável: Análise da capacidade de carga das áreas e envolvimento de equipes multidisciplinares.
  2. Formação Profissional: Guias especializados em educação ambiental e gestão de riscos.
  3. Outdoor Education: Utilizar a aventura como ferramenta pedagógica.
  4. Políticas Públicas: Planos de manejo, fiscalização e parcerias com federações esportivas.
  5. Condutas de Mínimo Impacto: Campanhas como o "Pega Leve!" (criada pelo CEU/USP em 1970) para sensibilizar visitantes.

Conclusão: A imersão na natureza, quando baseada em frequência, tempo e estímulo individual, é capaz de transformar percepções e ressignificar o lazer, promovendo um contato ambientalmente coerente e ético.

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