A Evolução da Arquitetura Moderna Brasileira
Classificado em História
Escrito em em
português com um tamanho de 6,23 KB
A Influência de Wright e a Escola Paulista
O reflexo decisivo da obra de Wright no Brasil dá-se, porém, através de João Batista Vilanova Artigas (1915-1984), e sintomaticamente em São Paulo, já que o Rio de Janeiro se consolidara como o “território dos corbusianos” desde a segunda visita do mestre em 1936 e sua participação no projeto do Ministério da Educação e Saúde (1936-42). Em 1942, Artigas realiza em São Paulo pequenas residências nas quais sua busca por uma compreensão e desenvolvimento do pensamento wrightiano são legíveis.
A apreciação de Artigas a Wright distancia-se de formalismos e cópias: trata-se de uma interpretação seletiva e crítica dos princípios orgânicos, inteligentemente inter-relacionados com valores da obra de outros mestres, como a pureza estrutural de Mies van der Rohe, e sob a égide de uma visão socialista. Sua crítica a Wright dá-se no que chama de “dionisíaco” na obra deste e, a nível urbanístico, opondo-se veementemente ao caráter bucólico, “medieval” da visão de Broadacre City. A partir de 1960, a obra de Artigas atinge maturidade e independência de linguagem, e virá a profundamente influenciar toda uma geração de arquitetos em São Paulo.
O Modernismo e a Vanguarda em São Paulo
1925 é genericamente considerado o ano inaugural do modernismo brasileiro. Gregori Warchavchik, arquiteto de origem russa, chegara ao Brasil em 1923 após terminar seus estudos na Escola Politécnica de Roma, e publica nesse ano artigos pró-funcionalismo na imprensa paulista e carioca. Quase concomitantemente, o jovem Rino Levi, ainda como estudante na mesma escola italiana, tem sua "carta de leitor" com teor semelhante publicada em São Paulo.
Aos espetaculares projetos de concurso de Flávio de Carvalho somam-se as primeiras realizações de Warchavchik, entre elas a Casa do Arquiteto à Rua Santa Cruz de 1927-28 e a Casa da Rua Itápolis em São Paulo, esta inaugurada com a exposição A Casa Modernista em 1929, e a Casa Nordshild na Rua Toneleros, no Rio de Janeiro, em 1931. Le Corbusier, a convite de Paulo Prado, rico cafeicultor paulista e mecenas dos modernistas, havia estado em São Paulo, Buenos Aires, Montevidéu e no Rio de Janeiro em 1929, onde suas conferências e propostas haviam causado grande impacto. Warchavchik é designado por Siegfried Giedion, a sugestão de Le Corbusier, representante da América Latina para o CIAM de Bruxelas em 1930.
O Embate entre o Neocolonial e o Moderno
A arquitetura moderna encontra no chamado “estilo neocolonial” seu mais relevante contraponto nesses anos. Nomes como os de José Mariano Filho, Ricardo Severo e Victor Dubugras promovem uma “redescoberta” da herança colonial brasileira através dessa arquitetura de natureza acadêmica que, independentemente de suas qualidades, perfeitamente adequava-se aos anseios de representação da burguesia ascendente e aos discursos nacionalistas do país, que em 1922 celebrara seu centenário da independência. Em 1930 ocorre no Rio o IV Congresso Pan-Americano de Arquitetos, no qual o antagonismo entre o neocolonial e as tendências da arquitetura nova chega a seu auge.
A Renovação do Ensino e a Escola Carioca
No ensino de arquitetura, prevaleciam os modelos da Ecole de Beaux Arts. Com a chamada Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, inicia-se um rápido processo de renovação, e personalidades jovens são designadas para posições decisórias no poder público e em instituições. Lúcio Costa (1902-1997) desconhecia os desenvolvimentos das avant-garde até 1929, quando ocasionalmente presencia uma das palestras de Le Corbusier na Escola Nacional de Belas Artes, sem lhe atribuir grande importância. Ao assumir a direção da escola em dezembro de 1930, Costa convoca, entre outros, Gregori Warchavchik e Alexandre Buddeus para o departamento de arquitetura. Buddeus mostra-se um propagador das ideias da Bauhaus. O jovem Affonso Eduardo Reidy é assistente de Warchavchik. É também Costa o organizador da seção moderna (inoficial) do Salão Nacional de Belas Artes ou Salão de 31. A radicalidade da mudança no ensino introduzida pelo grupo acarreta a demissão sumária de Lúcio Costa em setembro desse ano, e desencadeia uma greve estudantil que estará em andamento exatamente quando da chegada de Wright ao Rio de Janeiro.
A Identidade Cultural e o Brutalismo Paulista
A gestação da arquitetura moderna brasileira ocorreria nesse ambiente, perseguindo a consolidação de uma ambicionada identidade cultural nacional que montava da década anterior. Contagiado pelo clima nacionalista, Lúcio Costa associava-se ao pensamento intelectual e político presente, propondo uma arquitetura moderna brasileira sob a unidade da teoria de uma expressão nativa, a qual logo mostrou-se mais ampla e complexa do que ele supunha; estabelecendo gradualmente um constructo teórico que buscava dar sustentação à produção exótica – aos olhos estrangeiros – da Escola Carioca rumo ao êxito internacional.
Sedimentada paralelamente, a Escola Paulista surgia como alternativa a essa convergência “internacionalizada”. Um segundo momento importante da arquitetura moderna brasileira seria reconhecido no chamado Brutalismo Paulista, que germinou ao longo dos anos 50 e floresceu à entrada da década de 60. Nessa ocasião, João Batista Vilanova Artigas seria o mentor de uma nova cruzada nacionalista, a partir de seu engajamento ideológico ao comunismo. Artigas considerava alienado o posicionamento a-histórico dos construtivos e imperialistas as demais expressões convergentes ditas internacionalizadas. A arquitetura representativa do realismo socialista, com a qual tomou contato na viagem à URSS (1953), decepcionou o arquiteto, que se empenhou na difícil tarefa de constituir uma expressão nacional renovada, ainda sob os resíduos de uma mítica nativa; expressão que originou uma escola regional, contrapondo-se à supremacia na qual os paulistas foram meros coadjuvantes nas décadas anteriores. Afinal, não bastava apenas lutar contra o inimigo capitalista: também era necessário suplantar aos eternos rivais cariocas.