Evolução Histórica do Processo Saúde-Doença

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O PROCESSO SAÚDE-DOENÇA

  • É um processo dinâmico, que indica movimento, transformação, alternância e mudança permanente.
  • A explicação do que seja saúde e doença depende de questões objetivas e subjetivas (forma como é organizada a produção e a reprodução da vida material e espiritual e de como o homem explica o mundo ao seu redor), o que pode levar a diferentes estados de saúde e a diferentes percepções do que seja estar saudável ou doente.
  • Para entender as diferentes formas de explicar o processo de adoecimento, deve-se buscar entender como os homens viveram em cada época histórica, como se relacionavam com a natureza e com os outros homens, como produziam e reproduziam a sua vida material e espiritual.
  • Em cada um desses períodos, uma das interpretações ou concepções do processo saúde-doença teve influência predominante (modelo explicativo hegemônico).
  • Cada concepção ou teoria do processo saúde-doença deriva de determinadas maneiras de compreender e explicar o mundo e leva a práticas sociais diferentes em relação aos cuidados para evitar ou curar a doença e preservar a saúde — ou seja, dão suporte a diferentes projetos de intervenção na realidade.
  • As diferentes teorias ou explicações sobre o processo saúde-doença ao longo da história humana basearam-se nas supostas causas das doenças.

Concepção Mágico-Religiosa

Nomadismo: Sem habitação fixa, os povos mudavam-se constantemente, pois sobreviviam da caça e pesca.

  • A maioria dos antigos povos nômades tornou-se sedentária com a descoberta da agricultura, passando a domesticar e criar animais, fabricar objetos de barro, etc.
  • A terra e a produção eram coletivas e a divisão do trabalho era por sexo e idade.
  • Havia uma explicação sobrenatural para os fenômenos naturais.
  • A doença é interpretada como uma ocorrência sobrenatural, tal como os ventos e as tempestades — um poder mais forte, exterior, que dominava a pessoa enferma, um espírito malévolo.
  • A doença é o resultado da ação de forças alheias ao corpo — forças sobrenaturais — que neste se introduzem por causa do pecado ou de maldição.
  • Em algumas culturas, era o xamã, o feiticeiro tribal, quem se encarregava de expulsar, mediante rituais, os maus espíritos que se tinham apoderado da pessoa. A tarefa do xamã é convocar espíritos capazes de erradicar o mal; para isso, utilizava-se de plantas com substâncias alucinógenas, chamarizes para os espíritos capazes de combater a doença (SCLIAR, 2007).

Antiguidade Clássica (VIII a.C. a V d.C.)

Na Grécia, a explicação para a saúde e doença estava na mitologia. A cura era obtida pelo uso de plantas e de métodos naturais, incluindo a valorização das práticas higiênicas, contudo ainda realizavam-se rituais para a obtenção da cura. Exemplos de deuses gregos relacionados à saúde são: Asclepius ou Esculápio (deus da medicina); Higéia (deusa da saúde); Panacea (deusa da cura).

A partir de meados de 460 a.C., ainda na Grécia, Hipócrates desenvolveu a TEORIA DOS HUMORES, presente na obra Corpus Hipocraticus. A Teoria dos Humores aos poucos foi assimilada como explicação hegemônica, contudo ainda estavam presentes as concepções do processo saúde-doença anteriores. Hipócrates de Cós formulou uma visão racional da medicina, bem diferente da concepção mágico-religiosa. Ele postulou a existência de quatro fluidos (humores) principais no corpo: bile amarela, bile negra, fleuma e sangue. A saúde seria um estado de equilíbrio entre estes elementos, influenciados pelas estações do ano, clima, alimentação, exercícios físicos, entre outros.

A obra hipocrática caracteriza-se pela valorização da observação empírica. O texto conhecido como Ares, águas, lugares discute os fatores ambientais ligados à doença, defendendo um conceito ecológico de saúde-enfermidade. A Teoria dos Humores constituiu o principal corpo de explicação racional da saúde e da doença entre o Século IV a.C. e o Século XVII.

Concepção Religiosa Cristã

A concepção religiosa cristã foi hegemônica no período da Idade Média (476 d.C. - século XV) no modo de produção feudalista. Na Idade Média europeia, a influência da religião cristã manteve a concepção da doença como resultado do pecado e a cura como uma questão de fé. O cuidado de doentes estava entregue a ordens religiosas, que administravam inclusive o hospital — instituição que o cristianismo desenvolveu muito, não como um lugar de cura, mas de abrigo e conforto.

Contudo, é importante sublinhar que as ideias hipocráticas se mantinham através das orientações de temperança no comer e beber, na contenção sexual e no controle das paixões. Procurava-se evitar o contra naturam vivere (viver contra a natureza). O advento da modernidade mudará essa concepção religiosa. Desenvolveu-se, neste período, a Medicina Monástica, caracterizada pelo uso de ervas e orações. Um marco foi a fundação do Mosteiro de Montecassino em 529 por São Bento, cuja Regula Benedicti estabelecia a necessidade de cuidar dos enfermos, surgindo a figura do irmão enfermeiro, enfermarias e boticas.

Teoria Contagiacionista e Teoria Miasmática

Ambas desenvolveram-se ao longo da Idade Moderna (século XIV ao XVIII). É o período de transição do feudalismo para o capitalismo e criação dos Estados Modernos. O Renascimento recuperou a cultura clássica e laica, enquanto o Iluminismo impulsionou a ciência experimental. Paracelso (1493-1541) afirmava que as doenças eram provocadas por agentes externos. No Século XVII, o Mecanicismo de Descartes concebeu o corpo como uma máquina, intensificando estudos anatômicos e localizando a doença nos órgãos, afastando a teoria dos humores.

Com a Revolução Industrial e o crescimento urbano insalubre, o trabalho passou a ser essencial para a riqueza das nações, tornando a doença um problema econômico (ROSEN, 1999). Neste momento, conviviam duas teorias:

  • Teoria do Contágio: Substância patológica gerada pelo corpo; o contágio ocorreria de pessoa a pessoa, pelo ar e fômites (origem da quarentena e isolamento).
  • Teoria Miasmática: Miasmas seriam emanações de regiões insalubres (maus ares) capazes de causar doenças como a malária.

No Século XIX, surge a Medicina Social (França, Inglaterra e Alemanha), defendendo que a doença resulta de problemas sociais como pobreza e fome. Destacam-se estudos epidemiológicos como os de John Snow (cólera) e William Farr.

Teoria dos Germes - Era Bacteriológica

Iniciada por Pasteur (1860) no final do século XIX, a Teoria dos Germes defende que para cada doença um agente etiológico deve ser identificado e combatido (vacinas e químicos). É um modelo biológico onde a doença é uma disfunção causada por agentes físicos, químicos ou biológicos, retirando o caráter social da enfermidade. Até então, os modelos eram predominantemente unicausais.

Teoria da Multicausalidade

A bacteriologia não explicava doenças carenciais ou crônico-degenerativas. Na segunda metade do século XX, a epidemiologia revelou que doenças infectocontagiosas não eram mais as principais causas de morte em países desenvolvidos. Em 1948, a criação da OMS trouxe o conceito: "Saúde é o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas ausência de enfermidade".

A Teoria da Multicausalidade indica que a doença é causada pela organização da sociedade e cultura, além de agentes biológicos. Em 1974, Marc Lalonde formulou o conceito de campo da saúde:

  • Biologia humana (genética e envelhecimento);
  • Meio ambiente (solo, água, moradia);
  • Estilo de vida (hábitos e exercícios);
  • Organização da assistência à saúde (serviços médicos e saneamento).

Surge a noção de Promoção da Saúde (Carta de Ottawa, 1986). No Brasil, a VIII Conferência Nacional de Saúde (1986) definiu saúde como um direito garantido pelo Estado através de condições dignas de vida.

Teoria da Determinação Social da Saúde

Foca no coletivo e não apenas no indivíduo. Diferencia-se da causalidade por entender processos sociais complexos sem isolar variáveis.

  • Causa: Relação unidirecional de causa e efeito (uni ou multicausalidade).
  • Determinação: Interação recíproca entre dimensões sociais e biológicas.

A saúde e a doença são socialmente produzidas e historicamente determinadas. A organização social determina o perfil epidemiológico de cada classe (BARATA, 2005). O caráter social da doença é apreendido no estudo dos perfis patológicos dos grupos sociais, que se modificam com o tempo. A história social do paciente condiciona sua biologia e a probabilidade de adoecer de modos específicos. Saúde e doença são a síntese das determinações que operam em uma sociedade concreta.

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