A Evolução e o Nascimento da Antropologia: Uma Análise
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A Evolução e o Nascimento da Antropologia
Origens
A evolução representa um conjunto de ideias que postulam que o universo, ou partes dele, está sujeito a mudanças irreversíveis e cumulativas, aumentando sua variedade e complexidade. Esta visão contrapõe-se à crença de um universo estático ou imutável desde a criação. Segundo o filósofo americano Arthur Lovejoy, existia a concepção de uma hierarquia ou "cadeia" de criaturas, indo do ser mais simples ao ens perfectissimum (o mais perfeito).
No século XVIII, dois princípios definiam a "cadeia do ser":
- Princípio da plenitude: O universo contém todas as formas de vida concebíveis; a diversidade está presente desde o início.
- Princípio da continuidade: Um ser move-se gradualmente para o outro, sem saltos.
Esses princípios começaram a ruir no século XVIII, dando lugar à ideia de um avanço histórico do simples ao complexo. Autores como Buffon, Maupertuis e Diderot introduziram noções de transmutação, adaptação e materialismo dinâmico, preparando o terreno para as teorias de Darwin.
A Evolução Social Clássica
Herbert Spencer (1820-1903)
Spencer aplicou o conceito de evolução à sociedade, definindo-a como uma tendência de mudança da homogeneidade incoerente para a heterogeneidade coerente. Ele via a sociedade como um sistema orgânico, onde as partes são interdependentes e a mudança em uma afeta as outras.
Edward Burnett Tylor (1822-1917)
Tylor utilizou o conceito de "sobrevivências" para demonstrar sequências evolutivas culturais. Ele dividiu a pré-história em três etapas: selvageria, barbárie e civilização, focando especialmente na evolução da religião como um processo cognitivo racional.
Lewis Henry Morgan (1818-1881)
Em A Sociedade Antiga, Morgan descreveu estágios de desenvolvimento baseados no nível tecnológico e na organização social (Societas vs. Civitas). Ele analisou a evolução da família, da propriedade e do governo, prevendo um futuro de igualdade e fraternidade.
Epistemologia e Causas da Evolução Cultural
Os evolucionistas clássicos oscilaram entre leis direcionais (Spencer) e explicações causais. Enquanto Morgan focava na tecnologia e subsistência como motores da mudança, outros autores enfatizavam o desenvolvimento intelectual. Fatores como a propriedade privada, a guerra e o surgimento do Estado foram centrais para explicar as transformações sociais.
O Marxismo e a Evolução
O materialismo histórico de Marx, embora não seja um evolucionismo clássico, compartilha a ideia de progresso histórico. A tese da primazia das forças produtivas e a periodização da história (tribal, antigo, feudal, capitalista) são fundamentais. Engels, em sua obra sobre a família e o Estado, utilizou amplamente os estudos de Morgan.
Antropologia Anti-Evolucionista
Franz Boas e a escola boasiana criticaram o método comparativo e o evolucionismo unilinear, defendendo o método histórico e o estudo detalhado de cada cultura em seu contexto. Posteriormente, Malinowski e Radcliffe-Brown consolidaram o funcionalismo, focando na análise sincrônica e no trabalho de campo, rejeitando a reconstrução histórica conjectural.
Revitalização da Evolução: Neoevolucionismo
No final da década de 1930, autores como Leslie White e Julian Steward revitalizaram o pensamento evolutivo:
- Leslie White: Focou na evolução universal e no aumento da energia per capita como critério de progresso cultural.
- Julian Steward: Desenvolveu a ecologia cultural e a evolução multilinear, explorando como variáveis ambientais interagem com a tecnologia.
Posteriormente, autores como Marshall Sahlins, Elman Service, Morton Fried e Marvin Harris (com seu materialismo cultural) refinaram essas teorias, focando na estratificação social, na economia política e na causalidade infraestrutural.