Figuras do Estrangeiramento na Cidade Moderna
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Figuras do Estrangeiramento
Introdução
Em sociedades urbanas modernas, os tipos humanos surgem como função social. A individualidade se desenvolve em correlação com a expansão do grupo social, impulsionada pela modernidade urbana. Tipos sociais modernos, como o estudante Erasmus, o turista e o agricultor urbano, são formas sociais analisadas através dos indivíduos.
O indivíduo é uma construção urbana das cidades modernas. Nas cidades tradicionais, a sobreposição do coletivo pelo individual impedia sua existência. O estrangeiramento em relação ao grupo surgia quando um membro não cumpria sua função social, representando um perigo.
A convivência entre estranhos construiu o indivíduo. Com as sociedades industriais, o estrangeiramento tornou-se um fenômeno de massas e a solidão, um atributo. Baudelaire (Paris) e Edgar Allan Poe (Londres) foram pioneiros na compreensão desse fenômeno.
A relação moderna com o estrangeiramento é complexa, marcada por ansiedade e incompletude. Há uma tensão entre integrar a multidão e assumir a individuação, entre igualdade e liberdade.
O Homem na Multidão (Poe, 1840) apresenta a dualidade do homem urbano moderno. O narrador e o homem da multidão são duas faces da mesma personagem, revelando a complexa relação entre multidão e individuação, o desejo de alienação e de individuação observadora.
A figura do estrangeiro aparece em obras como Frankenstein (dualidade humano/inumano), Dr. Jekyll e Mr. Hyde (dualidade urbana) e O Retrato de Dorian Gray (fronteira entre ego e Id).
O Vagabundo e o Estrangeiro
Walter Benjamin caracterizou o estrangeiramento através do Flâneur (vagabundo), conectando a solidão do homem da multidão (séc. XIX) com a do homem do centro comercial (séc. XX).
Simmel (séc. XX) define o estrangeiro na metrópole. Não se trata de nacionalidade, mas de alguém que pertence ao grupo, porém, com proximidade e distância. O estrangeiramento de si não é completo: há a necessidade de reserva mental e o desejo de causar forte impressão.
Recordando: Em A Metrópole e a Vida Mental, Simmel aborda a influência do espaço na vida mental. Na metrópole, a racionalidade prevalece sobre a sensibilidade, com ênfase no "espírito objetivo". Aspectos do racionalismo: economia monetária, padronização espaço-temporal, justiça formal, ciência e personalidade blasé.
A figura do estrangeiro corporifica a racionalidade e a personalidade blasé. Em The Stranger (1908), Simmel relaciona-o ao viajante/vagabundo e, historicamente, ao judeu, figura "móvel" com proximidade e distância em relação aos outros.
O estrangeiro não é tratado como indivíduo, mas como um tipo. Sua objetividade combina indiferença e envolvimento, definida pela liberdade de lidar objetivamente com as relações.
Vagabundo vs. Estrangeiro
- Viajante: sem trabalho fixo, faz biscates.
- Proletário: iminência de perder o trabalho.
- Estrangeiro próximo: mantém distâncias socioespaciais.
- Estrangeiro distante: desconhecido.
O estrangeiro que fica permanece estrangeiro, mediador entre mundos (ex: comerciante). A escrita, elemento de poder, produz negociação e distância.
Simmel precursor de Wirth, que definiu a diferença entre urbanismo e ruralismo. Chicago, cidade-fronteira, era um local de vagabundos e estrangeiros. Wirth propôs a teoria da hierarquia das cidades.
O Cosmopolita e o Refugiado
No século XX e XXI, as figuras do estrangeiramento são moldadas pela proximidade e distância geocultural. Para Simmel, o estrangeiro chega e fica, permanecendo estrangeiro. Para Wirth, a metrópole é constituída por estrangeiros.
Hannah Arendt define o refugiado como aquele que perdeu a pátria, mas não se assimila à nova cultura. O surgimento dessa figura relaciona-se com a 1ª Guerra Mundial e as mudanças territoriais e demográficas na Europa.
Agamben propõe o homo sacer (excluído de direitos civis) como figura do estrangeiramento. A perda da cidadania/pátria leva à perda de direitos. O 11 de Setembro agravou a situação, com a transmutação de estrangeiro/refugiado para inimigo/terrorista.
Hannerz distingue cosmopolitas (padrão de vida nacional) e locais (padrão de vida urbano). O cosmopolitismo é uma perspectiva de abertura ao Outro, combinando "aficionado" e "competência" cultural. Hannerz diferencia viajantes (turistas, exilados, migrantes) de cosmopolitas (intelectuais).
O expatriado aproxima-se do cosmopolita. Os intelectuais buscam outras culturas e se "sentem em casa" em diferentes geografias. O cosmopolita de Hannerz assemelha-se ao estrangeiro de Simmel.
Martinotti identifica a população transnacional da metrópole atual, de estrato médio-alto e grande mobilidade. Metrópoles atrativas tornam-se cidades globais. Hannerz categoriza quatro populações transnacionais: negócios, 3º mundo, cultura e turistas.
Síntese
- Imigrante: vive num local sem poder voltar à origem, adaptando-se a uma sociedade diferente.
- Refugiado.
- Terrorista: evidenciado após 11 de Setembro.
- Cosmopolita/estrangeiro-inimigo/denizens: "direito a ter direitos" em questão.
- Cosmopolitismo/hospitalidade/citizens: homem de negócios metropolitano, figura hegemônica.
O mundo assemelha-se a um híbrido de parque temático e campo de concentração, com imigrantes-refugiados explorados e cosmopolitas privilegiados. A tensão, desconfiança e solidão permeiam as relações.
O Indivíduo, a Cidade e o Mundo
Balibar (2006) analisa cenários-fronteira e a figura do estrangeiro-inimigo em quatro modelos: Clash of Civilization (Huntington), Global Network (Castells), Center-periphery e Cross-over. Esses modelos demonstram a construção glocal da globalização.
Mapeando por Questões e Regiões
No século XXI, mais de 50% da população mundial é urbana. Europa, América do Norte/Latina/Caribe são regiões urbanizadas (75%). Ásia e África preveem transição demográfica. A revolução do urbanismo planetário está em curso.
Apesar das diferenças, a elite urbana dos PED assemelha-se à dos PD. Há semelhanças nas funções das cidades e na estruturação urbana. Vivemos num Arquipélago Urbano Global, com urbanismo regional diferenciado e cidades periféricas esquecidas. O urbanismo transnacional é crucial para compreender o planeta urbano.
Cidades e Desenvolvimento
A análise dos relatórios da HABITAT (1996 e 2001) revela as transições. Em 1996, o foco era o desenvolvimento, com seis questões: papel das cidades, tendências urbanas, conquistas sociais, habitação, governação e sustentabilidade. Em 2001, a globalização era o tema central, com sete questões: desigualdade, desequilíbrio, aglomerações humanas, descentralização, cooperação, desenvolvimento político e governança.
Relatório de 2004
Três impactos da globalização na cultura urbana: diversidade, medo e padronização. A "era da migração transnacional" criou "espaços étnicos urbanos". Consequências: econômicas (desigualdade, desemprego), sociais (pobreza), institucionais (enfraquecimento do setor público), espaciais ("geometria variável") e demográficas (crescimento populacional). A agenda para gestão urbana inclui: cidades inclusivas, estabilidade, capacitação, planejamento de longo prazo, infraestrutura, financiamento e sustentabilidade.
Norte/Sul
Norte (MDR): América do Norte, Europa, Japão, Nova Zelândia, Austrália. Sul (LDR): América Latina, África, Ásia (exceto Japão). Norte: crescimento populacional próximo de zero. Sul: crescimento entre 1% e 2% até 2030. Norte: maior número de cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Sul: maior crescimento de megacidades. Processos urbanos no Norte: urbanização, suburbanização, desurbanização, reurbanização. Sul: maior diversidade, com destaque para o crescimento das grandes cidades e a urbanização acelerada na Ásia e América Latina. África apresenta um atraso na reestruturação urbana em relação à globalização.
[1] Ego: aspecto racional que controla os instintos.
[2] O que levou à construção de uma sociedade de contratos.