Filosofia da Ciência: Fundamentos, Métodos e a Verdade
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Definição de Ciência
A ciência é um tipo de conhecimento. O conhecimento comum se contenta com o "quê", enquanto o conhecimento científico busca o "porquê". Conectando conceitos uns aos outros, podem-se formular leis.
Definição de Saber
Sejam o sujeito S e a proposição p. Diz-se que S conhece p se, e somente se:
1) S acredita que p;
2) A crença de S em p é justificada racionalmente;
3) p é verdadeira.
As três condições devem ser adequadas e suficientes.
Definição de Conhecimento Científico
Sejam a comunidade C e a teoria T. Diz-se que C conhece T se, e somente se:
1) C acredita que T;
2) A crença de C em T é racionalmente justificada.
Uma importante contribuição da filosofia moderna da ciência é a de Thomas S. Kuhn, em A Estrutura das Revoluções Científicas, que acentua as relações de poder institucional, a concorrência entre grupos de pesquisa, a influência do financiamento e a pressão da sociedade em uma comunidade científica.
Critérios de Demarcação
Os critérios de demarcação servem para distinguir ciência e pseudociência. Originam-se no Círculo de Viena, no desejo de desenvolver uma filosofia científica. Também são chamados de recursos de informação científica, que incluem:
- Linguagem rigorosa: os termos devem ser precisos, possuindo uma referência inequívoca.
- Sistematização: abordar as questões de forma ordenada, distinguindo entre primário e secundário, sem lacunas.
- Inclusão de leis e teorias: a ciência deve fornecer relações precisas e bem definidas sistematicamente.
- Coerência: a ciência não deve ter contradições.
- Verificabilidade ou testabilidade: a experiência deve mostrar o que é científico.
Classificação das Ciências
- Formais: Lógica e Matemática.
- Empíricas:
- Do Homem:
- Teóricas (Sociologia, Psicologia, História, Economia).
- Aplicadas (Psicoterapia, Economia Aplicada, Política, Sociologia Aplicada).
- Naturais:
- Teóricas (Física, Química, Biologia).
- Aplicadas (Medicina, Engenharia, Farmácia).
- Do Homem:
A Concepção Clássica ou Proposicional de Teorias Científicas
Há três etapas básicas:
- A primeira fase clássica: Epistemologia dos filósofos do Círculo de Viena. É um conceito teórico que distingue o conceito X do conceito de observação em qualquer teoria científica, concebida como um conjunto de proposições. Hilary Putnam chamou esse conceito de "visão recebida" (received view).
- A segunda fase ou período historicista: Começa com A Estrutura das Revoluções Científicas de Kuhn, surgindo como uma reação à filosofia clássica da ciência. Critica a epistemologia clássica por dizer muito sobre o que a ciência deve ser, mas pouco sobre o que ela realmente é.
- A terceira fase ou período de síntese: Reutiliza as formalidades do período clássico aplicadas a exemplos concretos e relevantes (a ciência real).
Os teóricos concordam que o mais importante na ciência é a teoria, composta por uma série de conceitos que podem gerar hipóteses, as quais, ao serem contrastadas positivamente, tornam-se leis. Uma teoria é um conjunto de leis dispostas em um sistema hierárquico que serve para explicar um fragmento da realidade ou fenômenos e predizer eventos futuros. Diferenciam-se em conceitos observacionais e conceitos teóricos. Rudolf Carnap, membro do Círculo de Viena, partindo da posição empirista, alcançou uma posição intermediária, afirmando que a mudança entre o teórico e o observacional ocorre em graus, e não de forma radical.
O Projeto Estrutural das Teorias Científicas
Este projeto surgiu para superar as insuficiências do conceito clássico. O trabalho decisivo é o de Kuhn, que introduz novas ideias:
- A ideia de paradigma: uma grande teoria e métodos de pesquisa compartilhados por uma comunidade científica. É o critério de demarcação.
- A distinção entre períodos de ciência normal e ciência revolucionária.
- A irrelevância de experiências cruciais e a imunidade da teoria à falsificação experimental imediata.
- O progresso da ciência por meio de revoluções que transformam o estilo de pensamento.
- Paradigmas diferentes são incompatíveis ou incomensuráveis entre si.
- Teorias são estruturas complexas de natureza lógica.
Essas ideias produziram uma revolução. Analistas lógicos acusaram Kuhn de eliminar o progresso da ciência. Lakatos, utilizando uma tese holística, disse que as teorias possuem um núcleo e uma periferia. Se uma experiência contradiz a teoria, a periferia sofre releituras para proteger o núcleo. A visão estruturalista das teorias científicas, representada por Balzer, Moulines e Sneed, com Stegmüller como promotor e Patrick Suppes como precursor, utiliza linguagens formais para explicitar estruturas ocultas.
Métodos da Ciência
Método significa "caminho". Os principais procedimentos são:
- Indução: Inferência do caso particular para o geral. É uma generalização, mas assenta em pressupostos metafísicos não demonstráveis.
- Abdução: Passo que leva dos fatos da experiência a uma lei ou teoria. É um processo criativo. Charles Sanders Peirce chamou-a de inferência para a melhor explicação.
- Dedução: Inferência do geral para o particular. É logicamente segura, mas limita-se a explicitar o que já está contido nas premissas.
- Hipotético-dedutivo: Síntese de abdução e dedução. O cientista faz suposições, deduz consequências e as confronta com a experiência. Se confirmadas, a hipótese torna-se lei. Filósofos como Fleck, Feyerabend, Hanson e Toulmin argumentam que as teorias criam seus próprios fatos, pois a observação já é "carregada de teoria".
- Modelagem: Simplificação da realidade complexa para facilitar a investigação. Tipos de modelos:
- Analógico: Procede por semelhança.
- Icônico: Variedade do analógico (miniaturas ou maquetes).
- Intuitivo: Para realidades de difícil representação.
- Matemático: Traduz a realidade para a linguagem formal matemática.
A Definição de Verdade
Os filósofos gregos concebiam a verdade como aletheia (desencobrimento). Heráclito dizia que "a natureza gosta de se esconder". Na Idade Média, a verdade era a adequação (adaequatio) entre o intelecto e a coisa. Na filosofia analítica contemporânea, a verdade é vista como uma propriedade de certas declarações.
Tipos de Verdade
- Verdades Necessárias ou Definitivas: Válidas para sempre (analíticas, segundo Kant). Não oferecem conhecimento novo sobre o mundo.
- Verdades Contingentes ou Provisórias: Oferecem novas informações, mas estão sujeitas a revisão (sintéticas, segundo Kant).
Critérios de Verdade
- Evidência: Quando se "vê" a verdade diretamente (sensível ou intelectual).
- Autoridade: Aceitação do que é decidido por uma autoridade competente ou paradigma científico.
- Consenso: O que a maioria decide em diálogo racional.
- Coerência: Ausência de contradição em um sistema.
- Consequências práticas: Assume-se como verdadeiro o que tem impacto positivo na prática.
Teorias da Verdade
- Redundância (Ramsey e Ayer): Os predicados "verdadeiro" e "falso" seriam logicamente supérfluos; dizer "p é verdadeiro" é o mesmo que dizer "p".
- Figura ou Imagem (Wittgenstein): A proposição é um espelho do mundo. A linguagem e o mundo compartilham a mesma estrutura isomórfica.
- Semântica (Tarski): Esclarece a teoria clássica distinguindo linguagem objeto de metalinguagem para evitar paradoxos.
- Coerência: A verdade não é a correspondência com fatos externos, mas a inserção harmoniosa de uma declaração no sistema total da linguagem.
Glossário de Termos
- Abdução: Inferência que conduz de um evento para a melhor explicação.
- Axioma: Proposição clara que não necessita de prova para ser aceita como ponto de partida.
- Comunidade Científica: Termo de Kuhn para o grupo de cientistas que decide a aceitação de teorias.
- Contingência: Propriedade do que é, mas poderia não ter sido.
- Contradição: Dizer simultaneamente uma coisa e o seu oposto.
- Critério de Demarcação: Traço usado para distinguir ciência de pseudociência.
- Dedução: Inferência do universal para o particular.
- Dogmática: Filósofo que afirma que a realidade é integralmente cognoscível.
- Evidência: Propriedade do que é tão claro que não se pode duvidar.
- Falácia: Argumento que parece verdadeiro, mas busca enganar.
- Filosofia: Amor à sabedoria; disciplina que analisa a racionalidade universal.
- Indução: Inferência do particular para o geral; não é formalmente infalível.
- Lógica: Especialização que analisa a regularidade dos argumentos.
- Metateoria: Teoria que estuda outras teorias (ex: epistemologia).
- Paradigma: Contexto teórico e prático compartilhado por cientistas.
- Objeto: O que está diante do sujeito; a realidade independente.
- Preconceito: Opinião acrítica sem fundamentação.
- Princípio: Primeira proposição de onde derivam as outras.
- Pseudoproblema: Falso problema resultante de confusão linguística.
- Polissêmica: Palavra com múltiplos significados.
- Subjetivismo: Ver as coisas apenas do ponto de vista do sujeito.
- Teoria: Conjunto de leis que explicam a experiência.
- Consistência: Propriedade de um sistema livre de contradições.
- Consenso: Parecer compartilhado por um grupo.
- Holismo: Ideia de que o todo tem primazia sobre as partes.
- Isomorfismo: Quando duas realidades têm a mesma estrutura.
- Reducionismo: Tendência a identificar elementos complexos com outros mais simples.
- Verdade: Propriedade de afirmações que correspondem ao mundo ou são coerentes em um sistema.