Filosofia: Verdade, Realidade e Conhecimento

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Introdução

A verdade é uma propriedade de certas declarações que:

  • Ou correspondem ao mundo;
  • Ou são aceitas como válidas por uma comunidade;
  • Ou podem ser inseridas em um sistema sem causar contradição.

A verdade se apresenta em 3 níveis:

  • O nível do mundo ou a realidade que a ciência estuda;
  • O nível real das teorias científicas sobre o mundo (nível 1);
  • O nível das teorias filosóficas sobre teorias verdadeiras do mundo (nível 2).

A Palavra "Verdade"

Definições não são fáceis, muito menos de conceitos tão abstratos como "verdade". Na história da filosofia, houve três definições principais:

  • Grécia clássica: os primeiros filósofos gregos conceberam a verdade como "descascar para trás", algo que está por trás da aparência e explica tudo.
    "A verdadeira natureza das coisas ama se ocultar". Heráclito.
    Essa concepção da verdade é objetivada, isto é, a coisa torna-se uma espécie de tesouro que é procurado e se esconde em algum lugar.
  • Idade Média: houve um avanço na busca da definição de verdade.
    Filósofos medievais definiam a verdade como "o resultado de um jogo entre a inteligência e o mundo".
    A verdade seria, então, uma relação adequada entre o intelecto e o mundo, chamada de correspondência sintonizada.
  • Filosofia Analítica do Século XX: dá a última reviravolta na definição da verdade. Neste século, houve uma virada linguística: a filosofia se concentra no conhecimento da linguagem. A verdade passa a ser uma propriedade abstrata de certas declarações.

Tipos de Verdade

De acordo com os critérios de classificação de validade, podemos distinguir dois tipos de verdade:

  • Verdades necessárias ou finais: são válidas para sempre ou necessariamente, e não podem ser de outra forma, não importa o que aconteça. É impensável o contrário. Ex: 2 + 3 = 5.
    Kant as chamou de verdades analíticas: aquelas que, para serem formuladas, necessitam de uma análise conceitual simples, ou seja, do significado dos termos utilizados na frase que é expressa. Tais verdades são fornecidas pelas ciências formais.
    O problema com estas verdades é que elas são vazias, não oferecem nenhum conhecimento novo. Dizer que A = A é o mesmo que dizer que todo solteiro é um homem não casado, é necessário, mas inútil.
  • Verdades contingentes ou provisórias: são o oposto das verdades finais. Estas verdades são verdadeiras e oferecem novas informações, permitindo sua revisão, ou seja, o oposto é sempre possível.
    Estas verdades são produzidas pela maioria das ciências.
    Kant as chamou de verdades sintéticas: aquelas que, para serem formuladas, é necessário contar com a experiência, extraímos uma propriedade para aplicar a um determinado conceito.

Os Critérios da Verdade

Permitem-nos distinguir se uma proposição é verdadeira ou não.

  • Evidências: sei que uma proposição é verdadeira quando a vejo. "Agora está chovendo" é verdade, porque através da janela vejo a chuva cair. A evidência implica uma realidade direta, aqui e agora.
    Existem dois tipos de evidências:
    • Sensível: são os sentidos que me dão a prova.
    • Intelectual: por mais simples que seja, requer algum conhecimento anterior. Exemplo: operação aritmética 5 + 3 = 8.

    Se aumentarmos a dificuldade, nos deparamos com teoremas matemáticos muito complexos, como o de Fermat, acessível a poucos. Aqui entra o critério da autoridade.

    Assim, a característica fundamental da evidência é seu caráter relacional: as coisas não são autoevidentes, mas sempre em relação a alguém. Isto também se aplica às evidências sensoriais.

  • Autoridade: segundo este critério, é verdade o que determina a autoridade competente no assunto. Na vida cotidiana, usamos com frequência e quase inconscientemente este critério (tomamos os medicamentos que são prescritos pelo médico porque ele é a autoridade neste assunto).
  • Consenso: de acordo com esta abordagem, é verdadeiro o que a maioria decide, em diálogo racional.
    Se o consenso é alcançado através do diálogo e é racional, é uma evidência.
    Se o consenso é alcançado por poucos e se supõe que a maioria concorda, é autoridade.
    Existem dois tipos de acordo: maioria e unanimidade.
  • Coerência: é uma espécie de teoria da verdade. Aplica-se a sistemas de proposições, não a proposições isoladas, e consiste na ausência de contradição. Não é um critério único de verdade, mas de racionalidade.
    É um critério necessário, mas não suficiente. De acordo com este critério, para que uma dada proposição possa ser aceita como verdadeira dentro de um sistema, não pode contradizer nenhuma outra dentro do mesmo (deve ser coerente com as outras).
  • Implicações práticas: segundo este critério, um sistema de crenças é aceito como verdadeiro por suas consequências práticas positivas.

A Realidade: Espírito e Matéria

Filósofos distinguem entre duas realidades: a realidade material e a realidade espiritual (imaterial). Estas duas realidades mantêm três tipos de relações:

  • Exclusão: de acordo com essa relação, a existência de um desses tipos de realidade se opõe à existência do outro. Qualquer que seja a posição assumida, é possível distinguir entre materialistas metafísicos e espiritualistas metafísicos.
  • Justificativa: de acordo com essa relação, uma das realidades é baseada na outra. Material → Espiritual ou Espiritual → Material.
    Se falamos de Espiritual → Material, estamos falando de reducionismo, ou seja, reduzir o espiritual ao material. Esta posição é uma variante da relação de exclusão.
  • Coexistência: de acordo com essa relação, ambas as realidades existem independentemente, mas podem interagir entre si, o que apresenta diferenças na forma como se relacionam.

Platão e Aristóteles: O Dilema Fundamental

Segundo Platão, a realidade é dividida em dois mundos diferentes:

  • O mundo sensível (material): é tudo o que podemos perceber pelos sentidos. Neste mundo tudo muda, e as coisas nascem e morrem. É uma cópia do mundo suprassensível/inteligível, portanto, é um mundo falso.
  • O mundo suprassensível/inteligível: é capturado através da inteligência. É um mundo onde tudo é eterno, composto de ideias, das quais os outros seres participam. Essas ideias expressam a verdade e só existe uma ideia de cada coisa. É copiado pelo mundo sensível.

Platão representa a prevalência do espiritual/imortal (mundo suprassensível) sobre o material.

Aristóteles (aluno de Platão) representa a prevalência do mundo sensível, o material, sobre o mundo espiritual. O que realmente existe é o material, e o espiritual está dentro dele.

O Espírito

De acordo com a metafísica, o espiritualismo é a visão filosófica que defende que a natureza fundamental da realidade é o espírito. Também argumenta que os fenômenos psíquicos são prioritariamente espirituais, ou seja, os fenômenos psíquicos não podem ser explicados sem assumir a existência de uma realidade espiritual/imaterial.

A Prova da Existência do Espiritual/Imaterial: A Dupla Perspectiva Objetivo-Subjetiva

Existem vários fenômenos que levam à ideia da existência de uma realidade espiritual/imaterial além da realidade material.

Todas as realidades materiais podem ser acessadas de fora, objetivamente, são realidades externas que estão fora, ocupando espaço e tempo. No entanto, dentro de mim, encontro fenômenos que se encontram apenas no tempo, não no espaço: minhas vivências, às quais só eu tenho acesso.

As causas subjacentes às minhas vivências e os processos que ocorrem no meu cérebro são uma realidade objetiva, mas não as minhas vivências, nem os meus sentimentos. O que eu sinto posso transmitir em palavras, mas é difícil transmitir uma vivência a alguém que não tenha experimentado algo semelhante.

O Ego é Ilusório

Por trás do subjetivo está a subjetividade, e esta assume a forma de autoconsciência, que é um fenômeno indescritível/esquivo (não pode ser capturado). Sempre que tento objetivá-la, ela escapa.

A peculiaridade do ser, do sujeito, é que ele sempre fica para trás, é a condição de toda representação, de todo pensamento, e não pode ser capturado por nenhuma representação ou pensamento. Este é o "ego transcendental" de Kant, mais um indício da existência do espiritual.

Matéria

No conceito de matéria, podemos distinguir entre duas concepções:

  • Filosófica: nesta perspectiva, a matéria é aquilo de que são feitas as coisas que percebemos através dos sentidos, que podem ser sólidas, líquidas ou gasosas, mas no final todas têm em comum o fato de serem feitas de átomos e partículas subatômicas, que não são perceptíveis pelos sentidos.
    Outra definição de matéria dentro desta visão é "aquilo de que é feito ou pode ser feito algo", o que implica que existem coisas feitas de conjuntos de outras coisas. Assim, é possível distinguir diferentes níveis: primeiro, segundo, terceiro...
    Por outro lado (na concepção filosófica), a matéria é aquilo de que são feitas as coisas que foram feitas ou eram feitas. Ou seja, coisas que eram uma coisa e agora mudaram para se tornar outra coisa. Para explicar isso de forma racional, é necessário assumir uma base imutável sobre a qual a mudança ocorre.
    Com tudo isso, o conceito de matéria filosófica/metafísica é definido como:
    • substrato de mudança;
    • elemento (a matéria é aquilo de que as coisas são feitas);
    • objeto de percepção (todas as coisas que são percebidas pelos sentidos).
  • Concepção científica: o argumento mais forte a favor do materialismo é fornecido pela ciência natural, que concebe a matéria como "aquilo que preenche o espaço".
    Pode assumir duas formas:
    • Passiva: como extensão.
    • Ativa: como energia.

Possui cinco características:

  • A matéria é impenetrável.
  • Tem uma estrutura atômica.
  • É única (a mesma para todos os objetos do universo).
  • É constante (seja como massa ou como energia), não pode ser criada nem destruída, apenas transformada.
  • É o ingrediente principal de qualquer mudança.

Materialismo

Robert Boyle introduziu o termo materialista como sinônimo de filosofia a favor da energia nuclear. Descartes estabeleceu sua divisão radical da realidade: a realidade material e a realidade espiritual (S. XVII).

Este havia identificado o materialismo metafísico, mas existem seis tipos:

  • Materialismo epistemológico: qualquer afirmação, de acordo com este materialismo, para ter sentido cognitivo (relacionado ao conhecimento), deve estar relacionada a corpos materiais.
  • Monista: de acordo com este materialismo, a realidade material básica existe e reduz todas as outras a ela.
  • Hিলোzoísta: de acordo com este materialismo, a realidade material é uma espécie de máquina.
  • Mecanicista: como essa máquina, a realidade material é um tipo de materialismo.
  • Materialismo dialético: de acordo com este materialismo, a realidade material é uma substância que é um processo.
  • Histórico: de acordo com este materialismo, na história humana o material da estrutura econômica é vital.

No século XIX, há um aumento do materialismo, surgem as seis variantes anteriores, entre as quais se destaca o materialismo monista natural e de corte mecânico.

No século XX, a discussão continua: materialistas contra espiritualistas, mas de uma forma mais moderna, agora a pergunta é: pode uma máquina pensar?

Pode uma Máquina Pensar? Matéria ou Espírito

O problema matéria-espírito questiona se os fenômenos mentais são inteiramente materiais ou se têm algo de espiritual.

De uma perspectiva materialista, o cérebro é o órgão da mente e é um objeto material. Pensar é um processo físico que ocorre bioquimicamente no cérebro. Assim, os materialistas acreditam que outras conexões físicas complexas, como um computador, também serão capazes de pensar.

Por outro lado, as diferenças nas habilidades/competências entre o cérebro e o computador são graduais. Em muitos aspectos, o computador supera o cérebro humano (Kasparov).

Há materialistas que veem o computador como a última fase da evolução da inteligência. Turing, a fim de detectar a possível diferença, propôs um teste.

Alguns dizem que, se o teste de Turing for bem-sucedido, não haverá diferenças radicais entre a mentalidade de um ser humano e a computação de um computador.

Estas diferenças radicais são:

  • Intencionalidade: o pensamento humano tem intencionalidade. Quando se pensa ou se formula um pensamento linguisticamente, os sinais que são usados são significativos porque pretendem apontar para algo objetivo. O pensamento humano tem uma natureza semântica, em oposição à natureza sintática dos computadores.
    Para os humanos, "mesa" tem um significado, mas para os computadores é uma simples sequência de números (1, 0, 1, 0, 0...).
  • Representacionismo: os seres humanos têm a capacidade de representar um objeto em nossa mente. Associamos uma determinada coisa a uma imagem mental, e isso um computador não pode fazer.
  • Autoconsciência: o ser humano tem a capacidade de ter consciência de si mesmo, de seu orgulho e de sua liberdade. No entanto, o computador se baseia em dados fornecidos a ele e não tem autoconsciência.

Outra diferença fundamental é que, enquanto o computador trabalha sequencialmente, os seres humanos são capazes de operar em paralelo, realizando várias tarefas ao mesmo tempo. A mente humana funciona melhor porque é vaga.

Conclusões

  • Dualistas: defendem a existência de duas realidades. Isso levanta a dificuldade de interação entre duas coisas muito diferentes: o material e o imaterial, e deduzem que:
    substâncias materiais, ao interagirem favoravelmente com o meu corpo, podem produzir um estado de bem-estar/vigília, um estado espiritual, e vice-versa.
    A explicação é fornecida pelo emergentismo: o espiritual é uma realidade emergente do material.
  • Monistas: argumentam que tudo é matéria. Esta redução (a mais comum) consiste em identificar todo o espiritual com o material, eliminando assim o espiritual e deixando apenas a realidade material.
  • Reducionistas: argumentam que tudo é espírito. Ninguém defende essa posição hoje em dia, porque seria responder a um problema difícil com uma solução ainda mais difícil.

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