Formação e prática docente no ensino de Turismo

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Ensinar, aprender e apreender

Um dos elementos básicos de discussão da ação docente refere-se a ensinar, a aprender e a apreender. Ações essas que muitas vezes são executadas de forma disjunta. Isso decorre da ideia de que ensinar é apresentar ou explicar o conteúdo numa exposição. A compreensão do que seja ensinar é um elemento fundamental nesse processo. Todavia, é sabido que o significado das palavras varia em razão das práticas sociais dos povos, revelando as diferentes concepções que decorrem dessa prática (Anastasiou e Alves, 2012).

Perfis docentes e saberes

Com relação à postura dos docentes em sala de aula, autores como Freire (2014), Perrenoud (1993) e Bourdieu (1972) destacam a ação docente e a existência de perfis diferentes de docentes em sala de aula. Para Freire (2014), os docentes devem possuir alguns saberes no que se refere ao ato de ensinar, entre os quais se destacam:

  • Rigorosidade metódica;
  • Pesquisa;
  • Respeito aos saberes do educando;
  • Exige-se criticidade;
  • Estética e ética;
  • Corporificação das palavras pelo exemplo;
  • Risco e aceitação do novo;
  • Rejeição a qualquer forma de discriminação;
  • Reflexão crítica sobre a prática;
  • Reconhecimento e assunção cultural.

Já Perrenoud (1993) comenta que a ação docente, cada vez mais, precisa dar conta de situações planejadas, conhecidas e esperadas, assim como de situações inusitadas, o que provoca e permite ao docente desenvolver uma infinidade de práticas adaptadas às circunstâncias. Por fim, Bourdieu (1972) valoriza a questão do perfil docente atrelado às experiências passadas, que em cada momento possibilitam a concretização de tarefas infinitamente diferenciadas graças às transferências analógicas que permitem resolver problemas da mesma natureza.

Contexto social e escolar

E é nesse cenário que uma parte dos docentes atua no ensino brasileiro. O docente, sua formação, sua prática em serviço: como é que ele se define nesse contexto? Será que ele percebe sua própria trajetória (Fonseca e Magalhães, 2016)? O professor, em relação à escola, é ao mesmo tempo determinante e determinado (Fonseca e Magalhães, 2016). DOI: 10.14210/rtva.v19n3.p566-588; p. 570. Disponível em: www.univali.br/periodicos.

Há uma variedade de fatores que determinam seu perfil e suas manifestações. A escola, analisada em diferentes momentos históricos, certamente mostrará realidades também diferenciadas. Esse jogo de relações entre a escola e a sociedade precisa ser cada vez mais desvendado para que se possa compreender e interferir na prática pedagógica. Uma visão simplista diria que a função do professor é ensinar e poderia reduzir este ato a uma perspectiva mecânica, descontextualizada. Entretanto, sabe-se que o professor não ensina no vazio. O ensino é sempre situado, com alunos reais em situações definidas. Nessa definição interferem os fatores internos da escola, assim como as questões sociais mais amplas que identificam uma cultura e um momento histórico-político (Cunha, 2012).

O jogo de relações entre a escola e a sociedade está presente no ensino de Turismo em todos os continentes, inclusive no europeu e no africano, fazendo com que seja necessária uma grande quantidade de trabalho e perseverança para fomentar o aprendizado (Bhandari, 2017).

Formação e titulação em Turismo

A leitura dos principais pensadores brasileiros leva a perceber que há o reconhecimento comum de alguns aspectos fundamentais na formação de professores, em que a proposta de formação depende da concepção que se tem de educação e de seu papel na sociedade desejada (Fonseca e Magalhães, 2016). Quase todas as propostas atuais contemplam o saber específico, o saber pedagógico e o saber político-social como partes integrantes da formação dos professores, como ressalta Cunha (2012).

Os cursos de mestrado e doutorado voltados para o turismo ainda são recentes no Brasil, mas aos poucos promovem um aumento da visão teórica, técnica e profissional no preparo de profissionais para atuarem na docência do turismo (Lara, 2010). A busca por formação em nível de mestrado e doutorado em Turismo no Brasil ocorreu principalmente por influência da legislação educacional a partir da LDB de 1996, que cria obrigações de titulação para a docência no ensino superior (Silveira, Medaglia e Gândara, 2012).

Saberes na formação docente

A formação de profissionais para o ensino no Brasil envolve diversas abordagens, dentre elas o Saber Específico, o Saber Pedagógico e o Saber Político-Social. Segundo Fiorentini e Melo (1998), o Saber Específico alcançou seu auge na década de 1960 e tem como característica principal a valorização quase exclusiva do conhecimento que o professor tinha sobre a sua disciplina. Na década de 1970, começa a se destacar o Saber Pedagógico, com a valorização dos aspectos didático-metodológicos e sua relação com as tecnologias de ensino, passando assim para um segundo plano o domínio do conteúdo. Na década seguinte, o discurso educacional é dominado pelo Saber Político-Social na prática pedagógica, quando as pesquisas sobre o ensino e a formação do professor passaram a priorizar o estudo dos aspectos políticos e pedagógicos amplos. (Revista Turismo - Visão e Ação - Eletrônica, Vol. 19, n. 3, set.–dez. 2017; p. 571. ISSN: 1983-7151).

Concepções sobre conhecimento e aprendizagem

Levar em conta essas premissas é também refazer as concepções sobre o conhecimento e sobre a ação de ensinar e aprender esse conhecimento. A concepção de ensino e as práticas realizadas pelo professor certamente terão de ser diferenciadas conforme os objetivos se direcionem à internalização ou à conscientização. Isso significa ter uma concepção nova da relação existente entre o sujeito socialmente situado e o conhecimento. Significa entender que aprender não é estar em atitude contemplativa ou absorvente frente aos dados culturais da sociedade, e sim estar ativamente envolvido na interpretação e na produção desses dados (Cunha, 2012).

Desenvolvimento profissional e trajetórias

A educação do professor, nesse sentido, deverá passar por uma nova concepção do processo ensino–aprendizagem, derivando da recolocação do conhecimento na perspectiva histórico-social. É necessário caminhar por um ensino que favoreça a produção de conhecimento. Considera-se, assim, que o professor, em sua trajetória, constrói e reconstrói seus conhecimentos conforme a necessidade de sua utilização, suas experiências e seus percursos formativos e profissionais (Nunes, 2001). Cabe ressaltar que os percursos formativos e profissionais dos professores de Turismo no Brasil vêm evoluindo desde o século passado, com melhoria no nível de formação e titulação (Sogayar e Rejowski, 2011).

Metodologia e práticas no ensino de Turismo

Quando se fala de metodologia, faz parte do senso comum e é ratificado pelos órgãos institucionais que o professor possui um saber que lhe é próprio, cujo saber possui duas grandes direções: o domínio do conteúdo do ensino e o domínio das ciências da educação que lhe permitirão compreender e realizar o processo pedagógico (Cunha, 2012). Contudo, é importante ressaltar que, no ensino de Turismo, pode ser relevante a noção de experiências do mercado, proporcionando aos alunos uma compreensão mais clara da realidade das empresas e dos problemas que enfrentam, além de fomentar habilidades de comunicação, liderança, resolução de problemas e criatividade (Daniel, Costa, Pita e Costa, 2017).

Prática docente: desafios e responsabilidades

E diante do que foi dito, a prática docente segue algumas características que podem ser utilizadas independentemente da metodologia de ensino adotada. Porém, é importante ter consciência de quais metodologias estão sendo utilizadas ou desenvolvidas, para que haja um melhor aproveitamento da prática docente, mesmo havendo dificuldades e desafios no processo, o que acaba interferindo na nova forma de organizar o processo de ensino. Para o discente, isso altera a forma memorativa e a passividade do assistir às aulas e passa para o desafio de realizar operações mentais. Porém, essa ação do estudante só se efetivará a partir do direcionamento dado pelos professores ao processo, com a escolha e a efetivação de diferentes estratégias, constituindo-se assim como responsabilidade coletiva (Anastasiou e Alves, 2012).

Considerações finais

Compreende-se que vários são os determinantes que interferem na alteração do fazer docente e das escolhas e ações diferenciadas no processo de aprendizagem (Fonseca e Magalhães, 2016). Nenhuma forma de conhecimento é, em si, isoladamente racional; portanto, ela dialoga com outras formas de conhecimento. Na visão de docentes universitários, o conhecimento a ser construído na sala de aula inclui a absorção de sinais adquiridos cotidianamente e elementos já existentes na base cognitiva. É o resultado da investigação científica e de um processo de interação com a realidade observada e vivenciada (Anastasiou e Alves, 2012).

É nesse contexto que se constrói o trabalho docente e que o professor se vê frente a frente com a necessidade e o desafio de organizá-lo e operacionalizá-lo, como ressaltam as autoras. O professor deve se tornar um estrategista quando tem pela frente estudar, selecionar, organizar e propor as melhores ferramentas que facilitem ao estudante apropriar-se do conhecimento.

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