Fundamentalismo Islâmico: Análise de Bernard Lewis

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Fundamentalismo Islâmico: Causas e Confronto de Civilizações

São várias as causas que podem explicar o aflorar do fundamentalismo islâmico, isto é, entender o Islão não apenas como uma religião, mas como um sistema que também governa os imperativos políticos, económicos e culturais do estado, quebrando assim o paradigma de estados laicos, sobretudo no Médio Oriente.

A Soberania de Allah e a Separação entre Religião e Política

A ideia de que a religião e a política devem estar separadas é um conceito ocidental, tal como indica o ditado cristão: "Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Os muçulmanos, por outro lado, nunca seguiram esta doutrina. Aliás, pensadores do Islão como Mawdudi, Sayyid Qutb ou Khumayni, defendem que a fonte da lei está nos ensinamentos do Corão, ou seja, Allah é a lei que todos os homens devem seguir, visto que este é o único soberano do mundo.

A "Guerra Santa" que atualmente se trava pode ser explicada no sentido em que, se Allah é o único soberano e o líder supremo do Islão, então os soldados que lutam em nome do Islão são soldados de Deus. Neste sentido, o exército muçulmano é o exército de Allah, e os inimigos com quem se degladiam são, portanto, inimigos de Deus.

O Ocidente como Inimigo: Uma Rivalidade de 14 Séculos

Ora, o maior inimigo apontado pelos islamitas radicais é o mundo ocidental, com especial destaque para os Estados Unidos, onde encontram uma civilização distinta da sua, inspirada por outra religião. Esta rivalidade entre cristãos e muçulmanos não é recente; a luta entre estes dois sistemas rivais data já de há 14 séculos.

Mas foi sobretudo durante o século XX, especialmente na segunda metade, que houve uma escalada do descontentamento muçulmano face ao mundo ocidental, e, portanto, com o desejo de restaurar a grandeza e os valores do Islão de outrora.

As Três Principais Fontes de "Raiva" Muçulmana

Digamos que a "raiva" dos muçulmanos face ao Ocidente pode ser resumida em três pontos:

  1. A sucessiva perda de domínio sobre o mundo, com o desenvolvimento dos Estados Unidos e da Rússia.
  2. A gradual perda da sua autoridade no seu próprio país, através da "invasão" de ideias estrangeiras, leis, estilos de vida, e por vezes a sua perda de soberania para países estrangeiros (caso do Egito que ficou sob domínio britânico, ou a França que deixou a Argélia).
  3. Finalmente, a violação de uma das suas cidades santas, com a criação do Estado de Israel pelas potências ocidentais.

Influências Externas no Sentimento Anti-Ocidental

Nesta conceção, este modo anti-ocidental, e especialmente anti-América, teve influências vindas da Europa, quando a Alemanha sob domínio Nazi percecionava a América como um exemplo de uma cultura: materialmente avançada mas artificial, mecânica em vez de orgânica, tecnologicamente avançada mas com falta de espiritualidade. Isto enquanto os Alemães eram "autênticos". Outra influência terá sido a versão soviética anti-América, que denunciava o capitalismo e a exploração ocidental.

Imperialismo e a Luta contra a Imoralidade

Contudo, de todas as ofensas que possam ser proferidas pelos muçulmanos, a mais frequente é, sem dúvida, o imperialismo, que é associado a uma conotação religiosa por muitos defensores do Islão, no sentido de missionários, o que demonstra uma forma de ataque tal como foram as Cruzadas e o estabelecimento de impérios coloniais modernos.

O facto de os verdadeiros crentes serem dominados por infiéis é inconcebível, visto que estes criam uma sociedade baseada na imoralidade sem qualquer fundamento na lei divina. A adoção, por parte do Médio Oriente, dos sistemas político e económico apenas trouxe pobreza e tirania, sendo que o Islão é o catalisador para a sua salvação, isto é, retomando o verdadeiro caminho de Deus.

As Duas Frentes de Batalha: Secularismo e Modernismo

Em suma, a luta dos fundamentalistas faz-se em duas frentes:

  • O Secularismo: A guerra contra o secularismo, como já explicado, pretende derrotar a soberania do homem e devolvê-la ao seu verdadeiro senhor: Deus, regressando assim aos preceitos do Corão.
  • O Modernismo: A guerra contra a modernidade é levada a cabo no sentido de reverter o processo de mudanças que o mundo islâmico sofreu no último século e que transformou as suas estruturas políticas, económicas e culturais.

Segundo o autor, isto trata-se de um confronto de civilizações.

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