Guia de Avaliação e Reabilitação do Equilíbrio Humano

Classificado em Medicina e Ciências da Saúde

Escrito em em português com um tamanho de 2,2 MB

Definições de Equilíbrio

Equilíbrio é quando o conjunto de forças a atuar sobre um objeto se anula. É a capacidade de manter a projeção do centro de gravidade sobre a base de sustentação.

  • O ato de realizar, manter ou restaurar um estado de equilíbrio durante uma determinada postura ou atividade.
  • A capacidade de manter, alterar ou restaurar, de forma eficiente, uma postura ou um estado cinemático, seja durante um movimento planeado ou durante a aplicação de uma força externa.

Sistemas que Contribuem para o Equilíbrio Humano

  • Sensoriais: Somatossensorial, Vestibular e Visual.
  • Motores: Músculos, Articulações, Tendões, ligamentos, etc.
  • Integração: Sistema Nervoso Central (SNC).

Equilíbrio Dinâmico

Produção de movimento:

  • a) Tibiotársica
  • b) Bacia
  • c) Tronco/Cervical
  • d) Cabeça/Olhos

Output: Padrões contráteis.
Integração: SNC.
Input: Deteção de posição.
Interação com ambiente: Somatossensorial, vestibular e visual.

Fatores de Alteração do Equilíbrio

  • Sensoriais
  • Integridade musculoesquelética
  • Planeamento e integração motora
  • Capacidade cognitiva/atenção
  • Autoconfiança (no próprio equilíbrio)
  • Fatores extrínsecos (naturais ou não)

Reflexos e Mecanismos de Recuperação

Reflexos: Somatossensoriais, Vestíbulo-espinhais, Cérvico-espinhais, Cérvico-cólicos e Vestíbulo-oculares/Cérvico-oculares.

Mecanismos de recuperação: Compensação, Habituação, Adaptação, Substituição e Neuroplasticidade.

Por que Avaliar o Equilíbrio?

  • Vertigens e tonturas são das causas mais frequentes de visita ao médico.
  • A avaliação do equilíbrio é essencial para a avaliação do risco de quedas.
  • Quedas são responsáveis por fraturas que poderão ter altos índices de morbilidade e mortalidade.
  • Evidência sugere que intervenções direcionadas ao problema do paciente são eficientes no aumento de equilíbrio e na redução do risco de quedas.
  • É possível identificar o(s) principal(ais) problema(s) do paciente.
  • É necessário reavaliar o paciente.

História Clínica

  • Caracterizar o desequilíbrio (constante, induzido por atividade, piora na ausência de luz, em superfícies instáveis...).
  • Se roda, desvia ou inclina quando anda.
  • Se teve uma queda recentemente.
  • Tonturas e Vertigens.
  • Alterações de visão.
  • Doenças sistémicas (diabetes, doença vascular/cardíaca, hiper/hipotensão).
  • Acidentes, lesões antigas, dores de cabeça ou depressão.
  • Falta de força/coordenação (outras red flags).
  • Medicação e fatores de risco (álcool/drogas/fumo).
  • Obstáculos/dificuldades nas AVD’s.

Instrumentos e Escalas de Avaliação

A seleção deverá ser feita tomando em conta o objetivo funcional, condição do paciente, tempo/recursos, variável a medir, fiabilidade e existência de normativas.

  • Gold Standard: Sensory Organization Test (SOT), Romberg/Tandem.

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  • Single Leg Stance
  • CTSIB: Pouco dispendioso e fácil de administrar. Usa o tempo como medida. Possui normativas para adultos e boa validade teste-reteste.
  • Functional Reach: Simples de aplicar. Boa correlação com risco de quedas:
    • < 6 polegadas: Risco elevado
    • 6-10 polegadas: Risco moderado
    • > 10 polegadas: Risco reduzido
  • Berg Balance Scale: Amplamente utilizado em pacientes neurológicos. Scores abaixo de 36 indicam 100% de risco de quedas.
  • Activity-Specific Balance Confidence Scale (ABC): Questiona a confiança no equilíbrio. Muito usado em casos vestibulares.
  • Dynamic Gait Index (DGI): Avalia o equilíbrio na marcha. Scores < 19/24 indicam risco acrescido de quedas.

Princípios de Tratamento

  • Segurança em primeiro lugar.
  • Tratamento baseado na disfunção e orientado para o objetivo.
  • Alteração de parâmetros simultânea.
  • Integrar setores e sistemas (Base de sustentação, Postura, Cognição).

Estratégia da Tibiotársica e da Bacia

Equilíbrio durante a marcha e uso da Wii Balance Board.

Avaliação e Tratamento de VPPB

Teste de Dix-Hallpike

  • Utilizado para testar VPPB nos canais posterior e anterior.
  • Paciente em long-sitting; cabeça rodada 45º, deitar o paciente em hiperextensão cervical.
  • Observar nistagmo (direção e duração).
  • Realizar em ambiente escuro com lentes de Frenzel ou óculos IV.

Roll Test

  • Utilizado para testar VPPB no canal horizontal.
  • Paciente em decúbito dorsal, 25º de flexão cervical. Rodar a cabeça 90º para cada lado.
  • Diagnóstico pelo nistagmo geotrópico ou ageotrópico.

Manobras de Reposicionamento (Epley)

  1. Paciente em long-sitting, cabeça rodada 45º para o lado afetado.
  2. Deitar com hiperextensão.
  3. Rodar cervical 90º para o lado não afetado.
  4. Rolar o tronco para o lado do ouvido não afetado.
  5. Rodar mais 90º com ligeira flexão (queixo no peito).
  6. Sentar com ajuda do terapeuta.

Nota: Aguardar 30 seg. após os sintomas passarem entre cada passo.

Manobra de Semont (Liberatória)

  1. Paciente sentado, cabeça rodada 45º para alinhar o canal.
  2. Movimento rápido na direção do canal a tratar até bater na almofada.
  3. Repousar 30 seg. e rodar 180º na direção oposta.

Manobra de Barbecue (Canal Horizontal)

  1. Decúbito dorsal, flexão 25º, ouvido afetado para baixo.
  2. Rotações sucessivas de 90º para o lado não afetado até completar a volta.

Recomendações Pós-Tratamento

  • Dormir semissentado (45º) por 2 dias.
  • Evitar movimentos extremos de flexão/extensão e rotações rápidas por 3 dias.
  • Reavaliar em uma semana.

Reabilitação Vestibular

Funções do Sistema Vestibular

  • Perceção de aceleração linear e movimento angular.
  • Orientação espacial em relação à gravidade.
  • Regulação da fixação visual (RVO).
  • Manutenção da estabilidade postural.

Sinais e Sintomas de Patologia Vestibular

  • Vertigem, tonturas e visão desfocada (Oscilopsia).
  • Nistagmo, náuseas, vómitos e desorientação espacial.
  • Inclinação da cabeça e reação de tilt ocular.

Interação Visuo-Vestibular

  • Sistema de perseguição fina: Mantém o objeto na fóvea.
  • Movimentos sacádicos: Corrigem a posição de objetos rápidos.
  • Sistema optocinético.

Anatomia do Labirinto

O labirinto ósseo contém a cóclea, 3 canais semicirculares (Horizontal, Posterior, Anterior) e o vestíbulo (Sáculo e Utrículo). A endolinfa (rica em K) e a perilinfa (rica em Na) são os fluidos essenciais.

Leis de Ewald

  • 1ª: Movimentos ocorrem no plano do canal estimulado.
  • 2ª: Fluxo ampulopetal é mais excitatório nos canais horizontais.
  • 3ª: Fluxo ampulofugal é mais excitatório nos canais verticais.

Reflexo Vestíbulo-Ocular (RVO)

Garante a estabilidade da imagem na retina durante o movimento da cabeça. Em lesões unilaterais, ocorre um desequilíbrio tónico que gera nistagmo para o lado mais ativo.

Patologias Vestibulares Comuns

  • Neurite Vestibular: Crise aguda de vertigem sem sintomas auditivos.
  • Labirintite: Crise aguda acompanhada de perda de audição.
  • Hipofunção Bilateral: Frequentemente causada por ototoxicidade (gentamicina).
  • Doença de Menière: Episódios de vertigem, náuseas e zumbidos.
  • Enxaqueca Vestibular: Vertigem associada a sintomas de migrânea (fotofobia).
  • VPPB: Vertigem posicional por cristais (otocónias) nos canais.

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Exames Clínicos e Escalas

  • Exame óculo-motor (nistagmo, sacadas).
  • Head-Thrust / Head-Shake.
  • Teste de Fukuda, Tinetti, Berg e DGI.
  • Posturografia dinâmica.

Exercícios de Reabilitação

Exercícios de Habituação (MSQ)

Baseados nos exercícios de Cawthorne-Cooksey. O paciente repete movimentos que provocam sintomas para promover a tolerância do SNC. Devem ser feitos 1-2 vezes ao dia, com 3-5 repetições.

Exercícios de Fixação Visual

Visam a adaptação neuronal através do "desvio retinal".

  • Progressão: Aumentar duração, complexidade do fundo visual, variar a posição (sentado para andar) e aumentar a velocidade.
  • Cuidados: Observar movimentos sacádicos corretivos e evitar sobre-estimulação (sintomas não devem durar mais de 30 min após o treino).

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