História da Espanha (1808–1936): Guerras e Transformações
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Guerra contra os franceses (1808)
Causas e contexto: O confronto começa com a crise da monarquia de Carlos IV, a oposição às ideias revolucionárias francesas e o Tratado de Fontainebleau. O motim de Aranjuez e as pressões sobre a família real culminam na abdicação e na intervenção napoleónica.
Intervenção francesa: Napoleão instala José Bonaparte no trono espanhol. Em 2 de maio de 1808 ocorrem levantes populares contra as tropas francesas — episódio que marca o início da Guerra Peninsular. A sociedade divide‑se entre afrancesados e patriotas. O conflito termina com o retorno de Fernando VII, após o Tratado de Valençay.
Cádiz e a Constituição de 1812
Cortes de Cádiz (1812): Em Cádiz elaborou‑se uma constituição liberal que reconheceu a soberania nacional, a separação dos poderes e uma declaração de direitos. As Cortes surgiram das Juntas formadas durante a guerra e procuraram responder às causas políticas do conflito.
Restauração do absolutismo (1814)
Fernando VII regressa em 1814, rejeita a Constituição de Cádiz e restaura o antigo regime. O período caracteriza‑se pela repressão aos liberais: prisões, perseguições e exílios de opositores.
Trienio Liberal (1820–1823)
Em 1820 o pronunciamento liderado por Rafael de Riego obriga o rei a jurar a Constituição e promove eleições e reformas liberais. Este avanço será entretanto sufocado pela intervenção estrangeira e pela restauração do absolutismo.
Guerra Carlista e crise dinástica
Após Fernando VII surge um problema dinástico: a sucessão por Isabel (a filha) contraria a pretensão de D. Carlos, originando a Primeira Guerra Carlista. O conflito opõe carlistas e liberais; o acordo de Bergara encerra a guerra com triunfo relativo dos liberais.
Liberalismo, Isabel II e transformações sociais
Regência e reformas
Maria Cristina assume a regência a favor de Isabel II. As medidas liberais incluem a desamortização de Mendizábal e outras reformas progressistas. A instabilidade política provoca alternância entre moderados e progressistas.
Governo de Espartero e regresso da monarquia
Em 1840 Espartero governa e, por vezes, exerce poder forte; Isabel II é declarada maior de idade e assume o trono aos treze anos. Nos anos seguintes instala‑se uma década de governos moderados sob Narváez (Constituição de 1845), com restrição do sufrágio e limitação de liberdades de imprensa, e a centralização do Estado.
Movimentos e partidos (meados do século XIX)
- 1849: formação do Partido Democrata.
- 1854: pronunciamento de O'Donnell, novas fases de crise e mudança de governos.
Crise final do reinado de Isabel II e Revolução de 1868
As persistentes revoltas e problemas financeiros culminam na Revolução de 1868 (La Gloriosa), que derruba Isabel II. Segue‑se um governo provisório e tenta‑se uma nova constituição.
Monarquia de Amadeu, Primeira República e restauração
Amadeu de Saboia (1870–1873)
Em 1870 é eleito rei Amadeu de Saboia. O reinado enfrenta conflitos: insurreições coloniais (ex.: Cuba), movimentos carlistas e a forte instabilidade política. Amadeu acaba por abdicar.
Primeira República e instabilidade
A Primeira República (1873) vê a divisão entre republicanos e monárquicos, enfrentamentos regionais (incluindo nova actividade carlista) e golpes militares, contribuindo para um período de grande instabilidade.
Paz Armada e a Primeira Grande Guerra (1890–1919)
Paz Armada (1890–1914)
O cenário europeu nesta época é marcado pela ascensão da Alemanha (Bismarck e depois Guilherme II), pela formação de sistemas de alianças (Tríplice Aliança e Tríplice Entente) e pela crescente militarização e tensão inter‑blocos.
Primeira Guerra Mundial (1914)
O atentado ao arquiduque em Sarajevo precipita a crise de julho de 1914, com ultimatos e declarações de guerra: a Rússia mobiliza em defesa da Sérvia, a Alemanha declara guerra à Rússia e à França e o conflito escala para uma guerra geral na Europa.
Tratados de Paz de 1919
O sistema de paz pós‑guerra reúne vários tratados em Paris, destacando‑se o Tratado de Versalhes com a Alemanha e o Tratado de Saint‑Germain com a Áustria. As propostas de Wilson (os 14 pontos) procuram prevenir a ressurgência do poder alemão e promover um novo equilíbrio internacional. As alterações territoriais e as novas fronteiras na Europa marcam a ordem de 1919.
Crise de 1898 e regeneracionismo
A derrota na Guerra Hispano‑Estadunidense (1898) e a perda de Cuba, Porto Rico e Filipinas geram frustração na classe política e impulsionam o regeneracionismo, representado por figuras como Joaquín Costa, que procuravam renovar o país.
Reinado de Alfonso XIII e ditadura de Primo de Rivera (1902–1930)
Período político e crises
Durante o reinado de Alfonso XIII alternam governos conservadores (Maura) e liberais (Sagasta). Persistem problemas como o caciquismo e a desigualdade. Episódios de violência social (Semana Trágica de 1909, crise de 1917) abalam a ordem pública.
Ditadura de Primo de Rivera (1923–1930)
Em 1923 Primo de Rivera, com o consentimento do rei, dá um golpe, suspende a Constituição, dissolve partidos e as Cortes, e instala uma ditadura de caráter autoritário apoiada por setores conservadores e financeiros. O regime perde apoio durante a crise económica de finais da década de 1920 e, em 1930, o rei retira o seu apoio.
Segunda República (1931–1936)
Proclamação e Governo Provisório
Nas eleições de 1931 vencem os republicanos; Alfonso XIII sai para o exílio e proclama‑se a Segunda República. O Governo Provisório, com Alcalá‑Zamora, promove a elaboração de uma nova Constituição (1931) que consagra liberdades individuais, sufrágio universal, Estado laico e medidas de caráter reformista e descentralizador.
Biênio reformista (1931–1933)
O período é marcado por reformas agrárias, políticas de acesso à terra, reformas militares, trabalhistas e educativas, e pela concessão de autonomia à Catalunha.
1933–1935: reação e oposição
Entre 1933 e 1935 surgem governos mais conservadores; a influência da CEDA e a atuação de ministros conservadores provocam forte contestação da esquerda. Em outubro de 1934 ocorre uma insurreição nas Astúrias que é duramente reprimida; o governo central limita autonomias e reprime movimentos sociais.
Frente Popular e escalada para a guerra civil (1936)
A Frente Popular une setores de esquerda (socialistas, comunistas, republicanos e anarquistas) e vence as eleições de 1936. O clima político polarizado, os atos de violência e o assassinato de Calvo Sotelo precipitam o levantamento militar que dará origem à Guerra Civil. O conflito internacionaliza‑se com apoio de potências estrangeiras a ambos os lados.
Cultura e movimentos intelectuais
Modernização da cultura catalã (Noucentisme)
O período vê um processo de normalização e promoção da cultura catalã: criação do Palau de la Música, do Institut d'Estudis Catalans e da Biblioteca de Catalunya; incentivo a escritores, cientistas e artistas.
"Idade de Prata" da cultura espanhola
As gerações literárias destacam‑se pela reflexão sobre a crise espanhola e pela busca de soluções culturais e sociais:
- Geração de 1898: intelectuais marcados pela perda das colónias e pela crítica à situação do país.
- Geração de 1914: novos grupos intelectuais com preocupações de modernização.
- Geração de 1927: artistas e escritores abertos a influências internas e internacionais.
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