História e Progresso: Filosofia, Ciência e Cultura

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História e progresso

Século XIX: descoberta da história do homem, da arte, das ciências e da sociedade. Comte: "saber para prever; prever para prover". Hegel: "A história é a realidade, a razão, a verdade e os seres humanos históricos."

Ideia de progresso

No século XIX predominou a ideia de que o desenvolvimento social se faria através das ciências e do aumento do conhecimento e do controle da sociedade. No século XX percebeu‑se que a história é descontínua e não necessariamente progressiva. Também se percebeu que:

  • cada sociedade tem sua própria história;
  • em cada sociedade os conhecimentos e práticas possuem sentidos e valores próprios;
  • não há transformação contínua, acumulativa e necessariamente progressiva da humanidade.

As ciências e as técnicas

No século XIX a filosofia entusiasmada com a ideia de progresso confiava plenamente no saber científico e na tecnologia para dominar a natureza, a sociedade e a humanidade. No século XX a filosofia começou a desconfiar dessa crença. Surgiu uma escola alemã em Frankfurt que elaborou a concepção conhecida como teoria crítica, na qual se distingue duas formas de razão:

  • Razão instrumental: aquela que transforma as ciências e as técnicas num meio não de libertação, mas de instrumentalização, intimidação, medo, terror e desespero.
  • Razão crítica: aquela que analisa e interpreta os limites e perigos do pensamento instrumental e afirma que as mudanças sociais, políticas e culturais só se realizam verdadeiramente se tiverem como finalidade a emancipação do gênero humano, e não o controle técnico-científico sobre a natureza, a sociedade e a cultura.

Os ideais políticos revolucionários

No século XIX, em função dos ideais de progresso, a filosofia apostou em projetos de sociedade justa: anarquismo, socialismo, comunismo. No século XX, com o surgimento das chamadas "sociedades totalitárias" (nazismo, stalinismo e fascismo), a filosofia passou a desconfiar e a indagar: como os seres humanos poderiam derrubar esse imenso poderio que os governa e determina sua vida cotidiana?

A cultura

No século XIX a filosofia descobriu a cultura como própria e específica da existência dos seres humanos. A cultura é a criação coletiva de ideais, símbolos e valores; realiza‑se porque os seres humanos são capazes de linguagem, trabalho e relação com o tempo; manifesta‑se como vida social — arte, política e religião.

Conclusões históricas:

  • Século XIX: culturas nacionais eram consideradas efeitos culturais relativamente estáveis e temporários.
  • Século XX: a história é descontínua; não há uma única cultura, mas culturas plurais e multiculturais. Cada cultura inventou seu modo de relacionar‑se com o tempo, de criar linguagem, elaborar mitos e crenças, organizar o trabalho e as relações sociais, e produzir pensamentos e obras de arte. Assim, o presente volta‑se para o futuro e não apenas para a restauração do passado.

O fim da filosofia

No século XIX o otimismo científico levou alguns a supor que, num futuro em que tudo seria ciência, a filosofia poderia desaparecer. No século XX mostrou‑se que as ciências não possuem princípios totalmente certos para todas as investigações, que resultados podem ser duvidosos e precários e que frequentemente uma ciência desconhece os limites de sua investigação ao entrar no domínio de outra. A filosofia assumiu, então, o papel de investigar esses limites. Husserl propôs que a filosofia fosse o estudo e o conhecimento rigoroso da possibilidade do próprio conhecimento científico, examinando fundamentos, métodos e resultados das ciências.

A maioridade da razão

No século XIX o otimismo filosófico afirmou que os seres humanos haviam suplantado a superstição e alcançado a maioridade racional; a razão desenvolver‑se‑ia plenamente para atingir o conhecimento completo da realidade e das ações humanas.

Marx

Voltado para a economia e a política, Marx mostrou que temos a ilusão de pensar com nossa própria cabeça e de agir por vontade livre e racional porque desconhecemos as condições econômicas e sociais nas quais a classe dominante exerce poder sobre as mentes de todos, transformando suas ideias em verdades universais. Esse poder social invisível que nos força a pensar e a agir como agimos foi chamado por ele de ideologia.

Freud

Freud mostrou que os seres humanos têm a ilusão de que tudo quanto pensam, fazem, sentem e desejam estaria sob o pleno controle da consciência, porque desconhecemos a existência de uma força invisível — um poder psíquico e social — que atua sobre nossa consciência sem que a pessoa a perceba. Esse poder que domina e controla, invisível e profundamente, nossa vida consciente ele chamou de inconsciente.

Infinito e finito

No século XIX prevaleceu uma tradição filosófica que valorizava o infinito: a natureza eterna, o Deus eterno, o desenvolvimento pleno e total da história ou do tempo como totalização de todos os seus momentos. Em contraste, no século XX deu‑se maior importância ao finito, ao que surge e desaparece, ao que tem fronteiras e limites. Esse interesse pela finitude apareceu, por exemplo, na corrente existencialista, que definiu o humano como "um ser‑para‑a‑morte", isto é, um ser temporal que precisa encontrar em si mesmo o sentido de sua existência. Outro exemplo é a filosofia da diferença, mais interessada pela singularidade e particularidade do que pelas semelhanças e identidades.

Nossos dias: a pós‑modernidade

A pós‑modernidade corresponde à sociedade pós‑industrial. O que era modernidade? Conjunto de ideias e valores que nortearam a filosofia e as ciências desde o fim do século XVIII até os anos 1980, resumidos brevemente nos seguintes aspectos:

  • No campo do conhecimento:
    • racionalismo: confiança no poder da razão para distinguir aparência e realidade e para conhecer e transformar a realidade;
    • distinção entre interior e exterior, sujeito e objeto;
    • afirmação da capacidade da razão humana para conhecer a essência ou a estrutura interna dos seres.
  • No campo da prática:
    • afirmação da diferença entre a necessidade que rege a ordem natural (leis da natureza) e a ordem humana da cultura;
    • afirmação de que os seres humanos são indivíduos e agentes;
    • distinção entre público e privado;
    • afirmação dos ideais da Revolução Francesa: igualdade, liberdade e fraternidade;
    • afirmação de um sentido progressivo da história.

O pensamento pós‑moderno critica e recusa esses pressupostos da modernidade.

Temas, disciplinas e campos filosóficos

Epistemologia: ciência do conhecimento. Ao longo do tempo, a filosofia reduziu‑se em parte à teoria do conhecimento, à ética e à epistemologia. Filósofos passaram a interessar‑se primordialmente pelo conhecimento das estruturas e formas da consciência e também pelo seu modo de expressão: a linguagem. Isso deu origem à fenomenologia, iniciada por Edmund Husserl. O estudo das formas e modos de funcionamento da linguagem desenvolveu a filosofia analítica, com pensadores como Ludwig Wittgenstein.

No fim do século XX o alvo principal tornou‑se a crítica de todos os conceitos e valores que sustentam o pensamento ocidental: razão, saber, sujeito, objeto, história, espaço, tempo, liberdade, necessidade, acaso, natureza, homem, etc.

Campos próprios da filosofia: ontologia ou metafísica, lógica, epistemologia (teoria do conhecimento), ética, filosofia política, filosofia da história, filosofia da arte (estética), filosofia da linguagem e história da filosofia.

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