Literacia Mediática: Modelos, Privacidade e Algoritmos

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Modelo do British Film Institute (BFI)

O Modelo do BFI é um quadro de análise abrangente que decompõe os media em seis componentes interligadas. Desenvolvido por uma instituição com uma longa história na educação para os media, visa promover uma compreensão holística de como os media funcionam e nos afetam.

Foco do Modelo BFI

A sua principal força reside na análise detalhada e contextualizada dos media, considerando tanto a sua produção como a sua receção e representação. É particularmente útil para desconstruir narrativas complexas e identificar as múltiplas camadas de significado presentes nos conteúdos mediáticos.

Componentes Desenvolvidas

  • Instituições: Examina as organizações que criam e distribuem os media. Questiona os seus objetivos (lucro, influência, arte), as suas estruturas de poder e como estas moldam o conteúdo. (Ex: Como o modelo de negócio da Netflix influencia as séries que produz?)
  • Linguagens: Analisa os códigos e convenções específicas de cada meio (visual, sonoro, narrativo, etc.). Compreender estas linguagens é crucial para decifrar as mensagens implícitas e explícitas.
  • Tecnologias: Considera as ferramentas e processos técnicos envolvidos na criação e disseminação dos media. A tecnologia não é neutra e influencia a forma e o alcance das mensagens.
  • Categorias: Identifica os géneros (ficção, notícia, publicidade) e formatos (curta-metragem, podcast) dos media. As categorias estabelecem expectativas no público e influenciam a produção. (Ex: Como as convenções do género terror são usadas num filme?)
  • Audiências: Explora quem são os públicos dos media, como os interpretam e como interagem com eles. A receção não é passiva e varia consoante o contexto social e cultural. (Ex: Como diferentes gerações interpretam uma campanha publicitária?)
  • Representações: Analisa como os media retratam a realidade, as pessoas, os lugares e os eventos. As representações nunca são neutras e podem reforçar estereótipos ou ideologias. (Ex: Como diferentes culturas são representadas num filme?)

Modelo do Center for Media Literacy (CML)

O Modelo CML é uma abordagem concisa e prática, centrada em quatro perguntas-chave poderosas. O seu ponto forte reside na desconstrução rápida e eficaz das mensagens, especialmente daquelas com intenção persuasiva ou informativa.

Perguntas-Chave do CML

  • Autoria: "Quem criou esta mensagem?" Considerar os seus possíveis vieses, motivações e interesses. (Ex: Quem está por detrás de um artigo de opinião e qual a sua agenda?)
  • Formato: "Que técnicas são usadas para atrair a atenção?" Elementos de design, estratégias de persuasão (apelo à emoção, celebridades, humor) e como estes moldam a receção da mensagem.
  • Conteúdo: "Que valores, estilos de vida e pontos de vista são representados ou omitidos?" Incita a uma análise ideológica do conteúdo, questionando que perspetivas são privilegiadas e quais são silenciadas. (Ex: Que imagem de sucesso é veiculada numa série de televisão?)
  • Propósito: "Por que esta mensagem foi criada?" Estimula a reflexão sobre a intenção do criador (informar, vender, entreter, persuadir) e a identificação do público-alvo. (Ex: Qual o objetivo de um post de uma figura pública nas redes sociais?)

Tipologia de Ferrés & Piscitelli

A Tipologia de Ferrés & Piscitelli oferece um quadro para entender as múltiplas dimensões da competência mediática que um cidadão plenamente literado deve possuir. Vai além da análise crítica, abrangendo também a capacidade de usar, interagir e criar com os media de forma ética e eficaz.

Dimensões da Competência Mediática

  • Linguagem: Refere-se ao domínio dos códigos e convenções dos diferentes meios (audiovisual, digital, impresso). Inclui a capacidade de interpretar e utilizar estas linguagens de forma expressiva e compreensiva. (Ex: Compreender a gramática do vídeo ou a estrutura de um website.)
  • Tecnologia: Envolve o conhecimento e a capacidade de usar as ferramentas tecnológicas para aceder, criar e partilhar media de forma segura e informada. (Ex: Utilizar software de edição de imagem ou configurar as definições de privacidade numa rede social.)
  • Interação: Diz respeito à capacidade de participar ativamente nos ambientes mediáticos, comunicando, colaborando e construindo relações online de forma responsável. (Ex: Participar em discussões online de forma construtiva.)
  • Produção e Difusão: Envolve a habilidade de criar conteúdos mediáticos originais e de os partilhar eficazmente, considerando aspetos éticos e legais. (Ex: Produzir um podcast ou gerir uma conta de rede social de forma responsável.)
  • Ideologia e Valores: Identificar os valores, as ideologias e os vieses implícitos ou explícitos. (Ex: Reconhecer a representação de estereótipos num programa de televisão.)
  • Estética: Capacidade de apreciar e analisar a qualidade estética e expressiva dos conteúdos mediáticos, reconhecendo o seu valor artístico e cultural.

Diferenças e Semelhanças entre os Modelos

Os modelos partilham o objetivo fundamental de promover a literacia mediática, capacitando os indivíduos a compreender, analisar e interagir com os media de forma crítica e eficaz. Todos reconhecem a importância de examinar a linguagem específica dos media, seja ela visual, sonora ou textual, como um elemento chave na construção e transmissão de significados. Adicionalmente, a análise crítica é um fio condutor comum, incentivando os utilizadores a questionar as fontes, as intenções subjacentes, os valores veiculados e os potenciais impactos dos media na sociedade. Estes modelos servem como ferramentas valiosas no contexto educativo, oferecendo estruturas para o desenvolvimento de competências essenciais para a literacia mediática.

Apesar destas semelhanças cruciais, os modelos distinguem-se em vários aspetos. O Modelo do BFI destaca-se pelo seu âmbito abrangente, oferecendo uma análise detalhada que engloba desde a produção e as instituições mediáticas até à receção e às representações. O seu foco reside numa desconstrução contextualizada e aprofundada dos media, sendo particularmente útil para analisar narrativas complexas. Em contraste, o Modelo do CML adota uma abordagem mais direta e concisa, centrada num conjunto de perguntas-chave poderosas que estimulam um pensamento crítico imediato. O seu foco principal é a desconstrução rápida de mensagens, especialmente aquelas com intenção persuasiva. Por sua vez, a Tipologia de Ferrés & Piscitelli desloca o foco para as competências individuais, definindo as múltiplas dimensões que um cidadão plenamente literado deve possuir, abrangendo não só a análise crítica, mas também a capacidade de usar, interagir e criar com os media.

Em termos de metodologia, o BFI utiliza um sistema de categorias interligadas para estruturar a análise, enquanto o CML se baseia num conjunto de perguntas-chave para orientar a investigação. A Tipologia de Ferrés & Piscitelli, por outro lado, apresenta um quadro de dimensões de competência. Quanto à aplicação, o BFI é ideal para análises aprofundadas de formatos complexos, o CML é eficaz para análises rápidas de mensagens do quotidiano, e a Tipologia de Ferrés & Piscitelli é mais utilizada em contextos educativos para avaliar e desenvolver a literacia mediática.


Privacidade e Proteção de Dados

A privacidade é entendida como a capacidade de controlar quem tem acesso à nossa informação pessoal e íntima. No contexto digital, a privacidade torna-se mais vulnerável, como aponta *Christian Fuchs*, que argumenta que, embora defendida como um direito humano, é frequentemente violada pelas empresas para fins lucrativos (vigilância capitalista). Existe um paradoxo onde, apesar de desejarmos privacidade, aceitamos mecanismos de vigilância para conveniência, como em redes sociais e aplicações. *Garton Ash* destaca que a privacidade é relativa ao contexto, variando entre culturas, épocas e grupos sociais, refletindo-se nas diferenças entre leis de proteção de dados. *Carissa Véliz* reforça a essencialidade da privacidade para a liberdade individual, alertando que a sua perda concede a outros o poder de moldar os nossos pensamentos e ações. A vigilância e a violação da privacidade ocorrem quando, ao usar a internet, entregamos dados como localização, hábitos de navegação e gostos, muitas vezes involuntariamente. Empresas como Facebook e Google, segundo os resumos, não vendem diretamente os nossos dados, mas vendem a possibilidade de nos influenciar através de publicidade segmentada e manipulação de conteúdos. Esta vigilância invisível cria riscos para a autonomia e ameaça direitos fundamentais. No que toca ao público e privado na era digital, hoje é fácil partilhar publicamente e difícil manter privado. *Garton Ash* alerta que a maior oportunidade da internet, o acesso aberto ao conhecimento, é também o seu maior perigo: a perda de controlo sobre a vida privada. Assim, é necessário pensar antes de partilhar e proteger conscientemente as informações que disponibilizamos online.


A Pegada Digital

A pegada digital é definida como tudo o que deixamos na internet: posts, pesquisas, localizações, fotos, mensagens. *Arlindo Oliveira* sublinha que estas pegadas não desaparecem, ficando armazenadas em servidores por todo o mundo, fora do nosso controlo. Controlar a pegada digital é, portanto, proteger a privacidade, o que implica usar configurações de segurança, limitar partilhas e refletir sobre a nossa atividade online.

Desinformação e Verificação de Factos

A desinformação é definida como informação falsa, criada para enganar ou obter algum ganho, podendo afetar áreas como saúde, segurança, política ou ambiente, e é caracterizada como algo feito de propósito, não um simples erro. Neste ponto, é fundamental introduzir o trabalho de *Claire Wardle*, que desenvolveu um quadro conceptual detalhado sobre a "Desordem Informativa". Wardle argumenta que a tecnologia social criou uma "poluição da informação" em escala global, caracterizada por uma complexa rede de motivações, tipos de conteúdo, técnicas de amplificação e velocidades de comunicação.

Wardle propõe uma tipologia que distingue três tipos de desordem informativa:

  • A Misinformação (informação falsa, mas não intencional);
  • A Desinformação (conteúdo falso criado para enganar, como definido nos teus resumos);
  • A Má-informação (informação verdadeira usada para prejudicar).

Esta distinção é crucial para uma análise mais precisa do fenómeno.

Os tipos de desinformação incluem conteúdos totalmente falsos, propaganda ou informação tendenciosa, clickbait, conteúdos distorcidos que misturam verdade e mentira, pseudociência, conteúdos patrocinados apresentados como notícias, conteúdos humorísticos ou satíricos que podem ser mal interpretados e teorias da conspiração. Wardle, na sua análise da desordem informativa, enfatiza que para compreender estes tipos, é essencial considerar os "elementos" da desordem da informação:

  • O Agente (quem cria e distribui a mensagem e qual a sua motivação);
  • A Mensagem (tipo, formato e características);
  • A Audiência/Intérprete (como a mensagem é recebida e interpretada e que ação é tomada).

Além disso, destacam-se as "fases" da desordem da informação: a "Criação", a "(Re)Produção" e a "Distribuição" da mensagem.

As motivações para desinformar incluem ganhar dinheiro (motivações económicas), ganhar poder (motivações políticas ou ideológicas), denegrir a imagem de alguém ou entidade, confundir (lançar o caos e desinteresse) e fazer rir (motivações humorísticas), conforme os resumos. Wardle ajuda-nos a perceber que estas motivações interagem com os elementos e fases da desordem informativa de formas complexas.

A desinformação dificulta o acesso à verdade, confunde, desorienta e pode levar ao descrédito da informação e ao desinteresse (news avoiders). Além disso, motiva tomadas de decisão baseadas em informações falsas e emoções, em vez de informações factuais e decisões racionais, pode motivar discursos e comportamentos de ódio, descredibiliza fontes de informação fidedignas e ameaça direitos fundamentais em democracia, onde sem informação de qualidade, não há verdadeira liberdade de opinião e escolha. Wardle reforça a urgência de combater a desordem informativa para proteger a integridade da informação e a saúde da sociedade.

Para combater a desinformação, existem 5 princípios para avaliar a informação:

  1. Desconfiar e ser crítico;
  2. Adotar uma escala de credibilidade;
  3. Investigar;
  4. Sair da zona de conforto;
  5. Aprender técnicas mediáticas.

Empresas Tecnológicas, Algoritmos e Bolhas de Filtro

As Empresas Tecnológicas exercem uma influência crescente no panorama mediático, moldando de forma subtil as tendências, a popularidade e a relevância da informação. Esta influência é muitas vezes determinada por interesses comerciais, o que levanta questões sobre a neutralidade e a objetividade da informação que consumimos. *Eli Pariser*, no seu livro "The Filter Bubble", explora profundamente este fenómeno, argumentando que a personalização das nossas experiências online por empresas como a Google e o Facebook tem implicações significativas na nossa perceção do mundo.

O Papel dos Algoritmos

Os Algoritmos desempenham um papel central nesta dinâmica, estando presentes em redes sociais, motores de busca e plataformas de streaming. Eles influenciam ativamente o conteúdo que vemos, as opiniões que formamos e as decisões de compra que tomamos.

Para navegar criticamente neste ambiente, é essencial desenvolver a literacia dos algoritmos, que envolve a consciência da sua existência e influência, a compreensão básica do seu funcionamento, a capacidade de procurar fontes de informação diversas e a habilidade de usar ou mesmo manipular os algoritmos. Pariser descreve os algoritmos de personalização como "motores de previsão" que constroem e refinam continuamente modelos de quem somos e do que pretendemos.

As Bolhas de Filtro

A personalização algorítmica leva à criação das Bolhas de Filtro, um conceito central na obra de Pariser. Estas bolhas são ecossistemas de informação personalizados que nos isolam de perspetivas divergentes, expondo-nos principalmente a conteúdos que confirmam as nossas crenças. Pariser argumenta que este isolamento pode ter consequências negativas para a democracia, limitando o debate público e a capacidade de compreender diferentes pontos de vista. *Claire Wardle*, no seu trabalho sobre desordem informacional, também destaca o papel das bolhas de filtro e das câmaras de eco na amplificação da desinformação e na polarização da sociedade.

Em resposta a estes desafios, a educação mediática assume um papel crucial. É necessário compreender o funcionamento das plataformas digitais, desenvolver uma postura crítica face aos conteúdos e fazer escolhas informadas e responsáveis. Pariser apela à transparência dos algoritmos e ao design de plataformas que promovam a descoberta acidental de informação, incentivando a diversidade de perspetivas. Tanto Pariser como outros autores defendem que os cidadãos devem estar capacitados para navegar criticamente no ambiente mediático digital e para exigir responsabilidade das empresas tecnológicas.

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