Manifestações Oculares de Doenças Sistêmicas

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1. Diabetes Mellitus (Retinopatia Diabética)

A hiperglicemia crônica causa danos microvasculares (perda de pericitos, espessamento da membrana basal), levando à quebra da barreira hematorretiniana, isquemia e liberação de fatores vasoproliferativos (VEGF). Isso resulta em vazamento vascular (edema) e neovascularização.

  • Sintomas: Visão embaçada, manchas (moscas volantes), perda de campo visual ou cegueira súbita (hemorragia vítrea).
  • Tratamento: Controle glicêmico rigoroso. Ocularmente: fotocoagulação a laser, injeções intravítreas de anti-VEGF ou corticoide, e vitrectomia em casos avançados.

2. Hipertensão Arterial Sistêmica (Retinopatia Hipertensiva)

A elevação da pressão arterial induz vasoconstrição arteriolar (fase vasoconstritiva), seguida de esclerose da parede vascular (fase esclerótica) e, finalmente, quebra da barreira com exsudação (fase exsudativa). Pode evoluir para papiledema na hipertensão maligna.

  • Sintomas Oculares: Geralmente assintomática até fases avançadas. Pode haver diminuição da acuidade visual se houver edema macular ou neuropatia óptica isquêmica.
  • Tratamento: Controle da pressão arterial sistêmica. Não há tratamento ocular específico para a retinopatia hipertensiva isolada, exceto tratar complicações.

3. Doença de Graves

  • Fisiopatologia: Doença autoimune onde anticorpos (TRAB) estimulam fibroblastos orbitários, causando inflamação, produção de glicosaminoglicanos e edema dos músculos extraoculares e gordura orbitária.
  • Sintomas: Proptose (exoftalmia), retração palpebral, diplopia (visão dupla), olho seco, dor e, em casos graves, neuropatia óptica compressiva.
  • Tratamento: Controle tireoidiano, lubrificantes, selênio, corticoides sistêmicos (pulsoterapia), radioterapia orbitária ou cirurgia descompressiva.

4. Artrite Reumatoide

  • Fisiopatologia: Doença inflamatória crônica autoimune. Nos olhos, a deposição de complexos imunes e a ativação de células T levam à inflamação da esclera e córnea, além de destruição das glândulas lacrimais.
  • Sintomas Oculares: Sensação de corpo estranho (olho seco/Síndrome de Sjögren secundária), dor ocular profunda e vermelhidão (esclerite), afilamento corneano.
  • Tratamento: Imunossupressores sistêmicos (metotrexato, biológicos). Topicamente: lubrificantes, ciclosporina e corticoides (com cautela em afilamentos).

5. Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)

A deposição de imunocomplexos nos vasos sanguíneos causa vasculite. Na retina, gera infartos da camada de fibras nervosas (exsudatos algodonosos) e oclusões vasculares.

Sintomas Oculares: Olho seco, dor (esclerite), baixa visual se houver acometimento retiniano ou do nervo óptico.

Tratamento: Imunossupressão sistêmica (hidroxicloroquina, corticoides, ciclofosfamida). Tratamento das complicações oclusivas.


6. Síndrome de Sjögren

  • Fisiopatologia: Infiltração linfocítica das glândulas exócrinas (lacrimais e salivares), levando à destruição tecidual e hiposecreção (ceratoconjuntivite sicca).
  • Sintomas Oculares: Queimação, sensação de areia, fotofobia, hiperemia e visão flutuante.
  • Tratamento: Lágrimas artificiais, oclusão de pontos lacrimais, ciclosporina tópica, estimulantes de secreção (pilocarpina oral) e imunossupressão sistêmica.

7. Sarcoidose

  • Fisiopatologia: Doença granulomatosa sistêmica de causa desconhecida. Formação de granulomas não caseosos nos tecidos uveais devido a resposta imune celular exagerada.
  • Sintomas Oculares: Visão turva, fotofobia, dor, precipitados ceráticos ("gordura de carneiro"), nódulos na íris. Causa uveítes anteriores, intermediárias ou posteriores.
  • Tratamento: Corticoides tópicos, perioculares ou sistêmicos. Agentes poupadores de corticoide (metotrexato) em casos crônicos.

8. Espondilite Anquilosante

  • Fisiopatologia: Forte associação com o antígeno HLA-B27. A inflamação sistêmica (entesite) se manifesta ocularmente como uma reação inflamatória aguda no trato uveal anterior.
  • Sintomas Oculares: Dor ocular intensa, fotofobia e hiperemia súbita (Uveíte Anterior Aguda), geralmente unilateral e recorrente.
  • Tratamento: Corticoides tópicos intensivos e midriáticos (para evitar sinéquias). Tratamento da doença base com anti-TNF ou outros biológicos.

9. Arterite de Células Gigantes (Arterite Temporal)

  • Fisiopatologia: Vasculite granulomatosa de grandes e médias artérias. A inflamação das artérias ciliares posteriores curtas leva ao infarto da cabeça do nervo óptico (Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior Arterítica).
  • Sintomas Oculares: Perda visual súbita, profunda e indolor (muitas vezes altitudinal ou total), amaurose fugaz prévia, diplopia. Sintomas sistêmicos: cefaleia, claudicação de mandíbula.
  • Tratamento: Emergência médica. Corticosteroides sistêmicos em altas doses (pulsoterapia com metilprednisolona) imediatos para prevenir cegueira no olho contralateral.

10. Esclerose Múltipla

  • Fisiopatologia: Doença desmielinizante do sistema nervoso central. A desmielinização inflamatória do nervo óptico prejudica a condução dos impulsos nervosos.
  • Sintomas Oculares: Baixa visual (neurite óptica) que piora com calor (Fenômeno de Uhthoff), dor à movimentação ocular, discromatopsia (perda da visão de cores).
  • Tratamento: Pulsoterapia com corticoides para acelerar a recuperação visual na fase aguda. Terapias modificadoras da doença a longo prazo.

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