Mecanismos de defesa e suas características

Classificado em Psicologia e Sociologia

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Defesas primárias/imaturas

Retirada extrema ou primitiva

· Fuga e evitamento, face a situações percebidas como ameaçadoras... envolve retirada ou perda do contato com a realidade, fazendo acesso ao plano da fantasia (por exemplo, adormecer durante uma conversa difícil, consumo de substâncias, alucinações, delírios, ...)

Negação ou recusa

· Envolve a recusa da realidade ou de um aspecto concreto, manifesto e incontornável, seja este um aspecto da realidade externa ou uma característica ou experiência pessoal (por exemplo, morte ou doença grave de alguém significativo; falha ou fracasso pessoais) (“Oh não!... Isso não é verdade”; “não aconteceu”)

· Vestígio de um processo arcaico com raízes no egocentrismo, narcisismo e omnipotência infantil e na crença fantasiosa e mágica de que 'se eu não reconhecer, então não acontece/não existe'

· A negação envolve uma distorção significativa da realidade e, portanto, é pouco adaptativa e pode estar associada a processos psicóticos ou a perturbações de personalidade narcísicas (em casos mais graves) ou a sintomas maníacos e hipomaníacos (casos menos graves)

Controlo omnipotente

· Deriva da crença no poder infinito do Ego e radica também no egocentrismo e narcisismo primário, mas desta vez na ideia de que o sujeito pode provocar e/ou controlar os acontecimentos

· Omnipotência infantil primária - o bebé sente-se a fonte de todos os acontecimentos porque ainda não percebe a divisão entre self e o objeto

· Pode manifestar-se em comportamentos de excesso de assertividade, persuasão ou autoritários

· Tem facetas adaptativas que advêm de um resquício saudável de acreditar na capacidade de influência no meio e nos acontecimentos, mas... nas facetas menos adaptativas pode estar associado a uma extrema intolerância à frustração, delírios de grandeza e comportamentos de megalomania

Idealização/desvalorização primitiva

· Olhar que distorce as características dos objetos relacionais, vendo-os sob uma perspetiva idealizada ou de desvalorização

· Deriva também das fantasias de omnipotência secundária - crença de que os objetos e cuidadores primários são omnipotentes ou, pelo contrário, impotentes

· Decorre da angústia inconsciente de aniquilamento pela perda do objeto e, consequentemente, de que a hostilidade pode destruir o objeto e/ou a ligação a este

· A percepção de dependência e a dificuldade de separação-individuação intensificam a necessidade de idealizar o objeto relacional... por outras palavras, de forma a evitar qualquer ameaça à relação com o objeto real, o sujeito protege a relação com o objeto interno idealizando-o

· Como forma de lidar com o medo da dependência, podem, paradoxalmente, desvalorizar-se os objetos relacionais, como forma de evitar a ligação e o afeto

Projeção, introjeção, identificação projetiva

· Associados à posição esquizoparanoide de Melanie Klein e à incapacidade/dificuldade de separar o self dos objetos e do mundo exterior

· Envolvem frequentemente processos de clivagem de aspetos do ego

· Na projeção, as partes (geralmente) malignas do self e as experiências dolorosas são percebidas como da responsabilidade do(s) objeto(s) relacionais (por exemplo, se eu sinto raiva foi porque o outro me fez sentir assim) ou as projeções ou características do self são vistas como pertencentes ao outro/objeto (por exemplo, questionar o afeto do outro quando somos questionados sobre o nosso afeto pelo objeto)

· Na introjeção, as mensagens e acontecimentos exteriores são percebidos como parte do self (por exemplo, a vítima responsabiliza-se pelo abuso; a criança sente-se responsável pela depressão da mãe ou conflito/divórcio dos pais; “identificação com o agressor” que se verifica quando o/a abusado/a se torna agressor/a, por identificação com o/a agressor/a e rejeição do papel de vítima)

· Na identificação projetiva, depois de projetar no outro partes do self ou dos objetos internos, o sujeito relaciona-se com essas partes do self fazendo-as substituir às características e comportamentos do objeto relacional

· A tentativa é a de controlar o objeto e a relação com este

· É possível que o objeto se comporte indo ao encontro das expectativas que nele foram projetadas (não é obrigatório que assim aconteça) - dimensão interpessoal

Clivagem + dissociação

Sobre a clivagem

· Olhar dicotomizado ou polarizado sobre o ego (clivagem do ego) ou objeto (clivagem do objeto), dividindo-os em bons vs maus

· Decorre da incapacidade de tolerar a ambivalência e de reconhecer a existência simultânea de características boas e más, quer no self quer nos outros com quem este se relaciona.

Sobre a dissociação

· Desligamento de uma parte da consciência face a um sofrimento insuportável. Comum em situações extremas e traumáticas. Pode ser acompanhada por uma experiência de saída do corpo; de personalidades múltiplas,...)

Sexualização/Erotização

· Recurso à fantasia, com contornos eróticos, como forma de coping

· Pode envolver passagem ao ato quando o desejo fantasioso é agido

· Na sociedade contemporânea, há várias ações, interações e objetos relacionais ou materiais que são erotizados (por exemplo, fama; dinheiro, poder, carros, as figuras de autoridade ou conhecimento)

· Em casos extremos e menos benignos, uma vítima pode erotizar o abuso, uma pessoa pode sentir-se incapaz de experienciar prazer sem dor

Defesas secundárias ou maduras

· Formação reativa: um impulso inaceitável ou não desejado é reprimido e o seu oposto desenvolvido/manifestado de forma exagerada

· Passagem ao ato (mais primitiva; consta aqui pela frequência com que acontece): ação comportamental de uma pulsão sem mediação verbal/cognitiva, ou seja, a pulsão é agida em vez de pensada

· Regressão: retorno a um funcionamento mais primitivo e mais vulnerável (pode ter vantagens terapêuticas)

· Identificação: versão madura da introjeção que corresponde ao processo de se rever e identificar com características dos objetos relacionais.

· Racionalização: recurso a explicações lógicas e plausíveis, embora (pelo menos parcialmente) falsas, para uma ação ou para uma experiência a fim de esconder os seus verdadeiros motivos e/ou evitar os afetos associados

· Intelectualização: descrever experiências emocionalmente impactantes e afetos de forma (aparentemente) fria e superficial.

· Isolamento do afeto: os aspetos afetivos são mantidos afastados do cognitivos (por exemplo, útil em situações de catástrofe ou face a um acidente)

· Sublimação: expressão alternativa, mas não distorcida, de um conteúdo pulsional ou afetivo (por exemplo, a expressão artística)

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