Mecanismos de Defesa: Primários e Secundários

Classificado em Psicologia e Sociologia

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Defesas Primárias ou Imaturas

Retirada Extrema ou Primitiva

  • Fuga e evitamento: Ocorre face a situações percebidas como ameaçadoras. Envolve a retirada ou perda do contacto com a realidade, recorrendo ao plano da fantasia (ex.: adormecer no contexto de uma conversa difícil, consumo de substâncias, alucinações, delírios, etc.).

Negação ou Recusa

  • Envolve a recusa da realidade ou de um aspeto concreto, manifesto e incontornável, seja este um aspeto da realidade externa ou uma característica/experiência pessoal (ex.: morte ou doença grave de alguém significativo; falha ou fracasso pessoais). Expressa-se em frases como: "Oh não! Isso não é verdade" ou "Não aconteceu".
  • É um vestígio de um processo arcaico com raízes no egocentrismo, narcisismo e omnipotência infantis, baseando-se na crença mágica de que "se eu não reconhecer, então não acontece/não existe".
  • A negação envolve uma distorção significativa da realidade, sendo pouco adaptativa. Pode estar associada a processos psicóticos, perturbações de personalidade narcisistas (em casos mais graves) ou a sintomas maníacos e hipomaníacos (em casos menos graves).

Controlo Omnipotente

  • Deriva da crença no poder infinito do Ego e radica no egocentrismo e narcisismo primário, baseando-se na ideia de que o sujeito pode provocar e/ou controlar os acontecimentos.
  • Omnipotência infantil primária: O bebé sente-se a fonte de todos os acontecimentos porque ainda não percebe a divisão entre o self e o objeto.
  • Pode manifestar-se em comportamentos de excesso de assertividade, persuasão ou autoritarismo.
  • Possui facetas adaptativas que advêm de um resquício saudável de acreditar na capacidade de influência no meio; contudo, em facetas menos adaptativas, pode estar associado a uma extrema intolerância à frustração, delírios de grandeza e comportamentos de megalomania.

Idealização e Desvalorização Primitiva

  • Um olhar que distorce as características dos objetos relacionais, vendo-os sob uma perspetiva idealizada ou de desvalorização.
  • Deriva das fantasias de omnipotência secundária — a crença de que os objetos e cuidadores primários são omnipotentes ou, pelo contrário, impotentes.
  • Decorre da angústia inconsciente de aniquilamento pela perda do objeto e da ideia de que a hostilidade pode destruir o objeto e/ou a ligação a este.
  • A perceção de dependência e a dificuldade de separação-individuação intensificam a necessidade de idealizar o objeto relacional. Para evitar ameaças à relação com o objeto real, o sujeito protege a relação com o objeto interno, idealizando-o.
  • Como forma de lidar com o medo da dependência, podem, paradoxalmente, desvalorizar-se os objetos relacionais para evitar a ligação e o afeto.

Projeção, Introjeção e Identificação Projetiva

  • Associados à posição esquizoparanoide de Melanie Klein e à dificuldade de separar o self dos objetos e do mundo exterior. Envolvem frequentemente processos de clivagem de aspetos do ego.
  • Na projeção: As partes (geralmente) malignas do self e as experiências dolorosas são percebidas como responsabilidade dos objetos relacionais (ex.: "se eu sinto raiva, foi porque o outro me fez sentir assim") ou características do self são vistas como pertencentes ao outro (ex.: questionar o afeto do outro quando questionamos o nosso próprio afeto pelo objeto).
  • Na introjeção: Mensagens e acontecimentos exteriores são percebidos como parte do self (ex.: a vítima responsabiliza-se pelo abuso; a criança sente-se responsável pelo divórcio dos pais). Inclui a "identificação com o agressor", onde o abusado se torna agressor por identificação e rejeição do papel de vítima.
  • Na identificação projetiva: Após projetar no outro partes do self ou objetos internos, o sujeito relaciona-se com essas partes, fazendo-as substituir as características reais do objeto. A tentativa é controlar o objeto e a relação. É possível que o objeto se comporte indo ao encontro das expectativas projetadas (dimensão interpessoal).

Clivagem e Dissociação

Sobre a clivagem:

  • Olhar dicotomizado ou polarizado sobre o ego (clivagem do ego) ou objeto (clivagem do objeto), dividindo-os em "bons" vs "maus".
  • Decorre da incapacidade de tolerar a ambivalência e de reconhecer a existência simultânea de características boas e más no self ou nos outros.

Sobre a dissociação:

  • Desligamento de uma parte da consciência face a um sofrimento insuportável. Comum em situações extremas e traumáticas. Pode ser acompanhada por experiências de saída do corpo ou personalidades múltiplas.

Sexualização e Erotização

  • Recurso à fantasia com contornos eróticos como forma de coping. Pode envolver a passagem ao ato quando o desejo fantasioso é agido.
  • Na sociedade contemporânea, várias interações e objetos (fama, dinheiro, poder, autoridade) são erotizados.
  • Em casos extremos, uma vítima pode erotizar o abuso ou sentir-se incapaz de experienciar prazer sem dor.

Defesas Secundárias ou Maduras

  • Formação Reativa: Um impulso inaceitável é reprimido e o seu oposto é desenvolvido ou manifestado de forma exagerada.
  • Passagem ao Ato (Acting Out): Embora mais primitiva, consta aqui pela frequência. É a ação comportamental de uma pulsão sem mediação verbal ou cognitiva; a pulsão é agida em vez de pensada.
  • Regressão: Retorno a um funcionamento mais primitivo e vulnerável (pode ter vantagens terapêuticas).
  • Identificação: Versão madura da introjeção; corresponde ao processo de se rever e identificar com características dos objetos relacionais.
  • Racionalização: Recurso a explicações lógicas e plausíveis, embora parcial ou totalmente falsas, para uma ação ou experiência, a fim de esconder os verdadeiros motivos ou evitar afetos associados.
  • Intelectualização: Descrever experiências emocionalmente impactantes e afetos de forma aparentemente fria, técnica e superficial.
  • Isolamento do Afeto: Os aspetos afetivos são mantidos afastados dos cognitivos (ex.: útil em situações de catástrofe ou acidentes).
  • Sublimação: Expressão alternativa, mas não distorcida, de um conteúdo pulsional ou afetivo (ex.: a expressão artística).

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