A mulher amada em Camões: beleza e originalidade

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Mulher amada

Por Camões ter retratado a mulher nos mesmos moldes que Petrarca — longos cabelos «de ouro», ondulados; pele branca e delicada; olhos claros e cintilantes que refletem um temperamento sereno e uma alegria discreta — diz‑se que ele representa a mulher amada por influência petrarquista.

A mulher tem normalmente as seguintes características:

  • Angélica: um ser divino, de pele e cabelos claros, elementos físicos reveladores das qualidades da alma;

  • com um poder transformador da natureza e do homem.

No entanto, por influência de outras culturas, nasce um novo conceito de beleza feminina — distante do de Petrarca (pele e cabelos escuros) — capaz de provocar fascínio e tranquilidade no amador.

A representação da mulher amada na poesia de Camões liga‑se diretamente àquele que é um dos grandes temas da sua obra: o amor. Por essa razão, uma parte importante da poesia de Camões está centrada na representação da mulher amada e na reflexão sobre o amor.

Na representação da mulher amada, Camões segue Petrarca, poeta italiano do século XIV, que nos seus sonetos cantou o amor e a mulher amada segundo um padrão que todos os poetas renascentistas acabariam por adotar. Camões é, assim, influenciado pelo petrarquismo. A mulher amada é a personificação de um ideal de beleza e perfeição: longos e ondulados cabelos de ouro, pele branca e delicada, boca e dentes como rubi e pérolas, olhos claros e luminosos — tal como sucede no soneto Ondados fios de ouro reluzente. Tudo nela é reflexo da bondade, sensatez, serenidade, discreta alegria e suavidade. Ela é a beleza, a perfeição intocável e inatingível, cópia do modelo divino. Alma predestinada para ser amada pelo poeta, é amando‑a sem vacilar que ele atingirá a perfeição. Um exemplo paradigmático da perfeição moral da amada encontra‑se no soneto Um mover d'olhos brando e piedoso.

Contudo, nem sempre, na poesia de Camões, a mulher retratada corresponde ao ideal feminino renascentista; nem sempre, na obra camoniana, o amor está isento de sensualidade. É sobretudo nos poemas marcados pela experiência vivida que a diferença se evidencia. Deste modo, do contacto com outras culturas nasce um novo conceito de beleza feminina, distante do de Petrarca, capaz de provocar fascínio e tranquilidade no amador.

Exemplo disso é o poema Endechas a Bárbara, composição em que o poeta subverte o padrão de beleza da época — que valorizava os cabelos louros — enaltecendo os cabelos negros de Bárbara, escrava, de tal forma que alguns elementos naturais, como a neve, a reconhecem e estão dispostos a mudar a sua cor para se assemelharem à beleza da exótica Bárbara. Também o povo muda de opinião, deixando de considerar os louros os mais belos.

Do mesmo modo, o vilancete Descalça vai para a fonte afasta‑se da estética clássica de cunho renascentista, ao mostrar que o retrato de Leonor resulta da conjugação de elementos petrarquistas com elementos camponeses, associados ao seu vestuário, que destaca a origem camponesa da mulher. Estas são algumas originalidades de Camões.

Conclui‑se, assim, que, por um lado, Camões — embora siga o ideal petrarquista na maioria dos seus poemas de amor — cria um modelo de beleza que foge aos cânones da época, evidenciando o seu talento e originalidade. Por outro lado, conclui‑se que a poesia lírica de Camões mostra marcas de uma subjetividade intensa que traduzem uma experiência de vida, bem como as suas emoções, os seus sentimentos e os seus valores através de um discurso pessoal.

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