A Oficialização do Cristianismo e as Heresias Primitivas
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Oficialização do Cristianismo
Em 380 d.C., o cristianismo foi proclamado a religião oficial do Império Romano por meio do Édito de Tessalônica, promulgado pelo imperador Teodósio I. Este decreto estabeleceu o cristianismo niceno como a única religião válida do império, exigindo que todos os súditos seguissem a fé cristã ortodoxa conforme definida pelo Concílio de Niceia. Este acontecimento marcou a transformação do cristianismo de uma religião perseguida para a religião predominante e oficial do império.
A união entre a cruz e a espada representa tanto a promoção da fé cristã quanto o uso dessa fé como uma ferramenta de poder político e militar. Esta relação complexa influenciou a evolução do cristianismo e do império, impactando profundamente a história posterior da Europa e do mundo ocidental.
Tendências Heréticas na Igreja Primitiva
- Tendência Judaizante Radical: Insistia na observância rigorosa da lei judaica;
- Tendência Judaizante Moderada: Buscava um meio-termo entre a lei judaica e a nova fé cristã;
- Tendência Helenista: Incorporava elementos filosóficos gregos ao cristianismo;
- Tendência dos Helenistas Radicais: Levava a incorporação de elementos filosóficos ao extremo, divergindo significativamente da ortodoxia.
A Igreja e o Império Romano
A Igreja foi pouco a pouco repelida pelo judaísmo. Nos três primeiros séculos, a igreja se desenvolvia e procurava se defender do império. O Império Romano considerava a religião uma instituição pública. O cristianismo se recusa a defender a ideia de que o império era uma entidade religiosa, assim como recusa adorar o imperador como deus. O judaísmo apresentava-se como uma religião ligada à vida.
Em fevereiro de 313, em Milão, foi selado um acordo, o Protocolo de Milão (ou Édito de Milão), dando a liberdade de culto aos cristãos. Só nesse período o cristianismo foi equiparado às demais religiões, não sendo mais ilícito. Constantino não se limitou a professar a neutralidade entre o cristianismo e o paganismo; soube apoiar a religião anteriormente perseguida. Foi além da tolerância, deu novo sentido e multiplicou os favores à Igreja, como, por exemplo, a construção de templos, isenções fiscais ao clero (dispensa de impostos e prestação de serviços), doações de propriedades e terras. Sua reforma administrativa permitiu o reforço e a sobrevivência do aparato estatal por mais de um século. Sua trajetória religiosa foi marcada por uma busca e evolução, ao ponto de atingir um nível de fé cristã profunda.
Principais Correntes e Heresias
- Apolinarismo: Afirmava que Jesus Cristo tinha um corpo humano e uma alma sensível, mas sua mente (ou espírito) era divina, não humana.
- Arianismo: Negava a consubstancialidade do Filho com o Pai, afirmando que Jesus Cristo foi criado por Deus e, portanto, não era eterno nem igual a Deus Pai.
- Gnosticismo: Os gnósticos geralmente viam o mundo material como mau ou inferior e acreditavam que a salvação vinha através do conhecimento espiritual (gnosis).
- Maniqueísmo: Central à sua doutrina estava o dualismo absoluto entre o bem e o mal, com o mundo material sendo uma criação do mal.
- Marcionismo: Afirmava que o Deus do Antigo Testamento era um deus inferior e distinto do Deus supremo revelado por Jesus.
- Montanismo: Enfatizava a profecia contínua e a iminente segunda vinda de Cristo.
- Nestorianismo: Afirmava que Jesus Cristo tinha duas naturezas separadas, uma humana e outra divina.
- Monofisismo: Acreditava que Jesus Cristo tinha uma única natureza, que era divina, ou uma fusão das naturezas divina e humana.
O Concílio de Calcedônia e a definição do dogma cristológico, embora fundamentais para a ortodoxia cristã, tiveram consequências profundas e duradouras para a unidade da Igreja e a estabilidade do Império Romano. As divisões teológicas resultaram em cismas, perseguições e conflitos internos, que não só fragmentaram a Igreja, mas também enfraqueceram a estrutura política e social do Império, contribuindo para sua eventual fragmentação e queda.
Conflitos de Identidade e o Helenismo
Não há nenhuma necessidade nem esforço para "judaizar" os pagãos convertidos. Os helenistas pregavam liberdade em frente à Lei e às tradições judaicas. Os mais radicais desprezavam tudo o que vinha do judaísmo. Rejeitavam radicalmente a Lei e alimentavam posicionamentos hostis ao judaísmo. Exageravam tanto a liberdade a ponto de participar dos cultos pagãos e se rebelavam contra a Lei, permitindo certa licenciosidade. Nesta tendência se radicalizará, mais tarde, Marcião, que rejeitará todo o Antigo Testamento e seu deus guerreiro e vingador, assumindo uma postura nitidamente antissemita. Entre estes helenistas radicais, pode-se colocar com certeza os nicolaítas.
O arianismo é uma heresia cristã que surgiu no início do século IV, proposta por Ário, um presbítero de Alexandria. Ário ensinava que Jesus Cristo, o Filho de Deus, não era coeterno nem consubstancial (da mesma substância) com Deus Pai. Segundo Ário, o Filho foi criado por Deus Pai e, portanto, teve um início. Essa doutrina implicava que Jesus, embora divino, era subordinado ao Pai e não igual a Ele em essência ou eternidade. O arianismo foi uma das maiores crises teológicas do cristianismo primitivo e teve um impacto duradouro na definição da doutrina cristológica ortodoxa. A rejeição do arianismo ajudou a moldar a crença cristã na Trindade como três pessoas consubstanciais e coeternas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O Legado de Ambrósio e Agostinho
Ambrósio e Agostinho tiveram papéis fundamentais na crítica e transformação das tradições romanas. Seus escritos e ações não apenas questionaram e desmantelaram simbolicamente o legado cultural pagão, mas também criaram bases para a cultura cristã. Por meio de suas profundas críticas e da incorporação de elementos romanos na teologia cristã, eles contribuíram para formar uma nova identidade cultural e espiritual que substituiu a antiga ordem romana, preparando o terreno para a predominância do cristianismo no mundo ocidental.
O termo "pagão" e o conceito de "paganismo" começaram a ser utilizados no início do século V, principalmente nos escritos de autores cristãos como Santo Agostinho e Paulo Orósio. No Império cristianizado, o judaísmo foi considerado uma recusa significativa da verdade proclamada pelo cristianismo. Isso se deu em um contexto de crescente cristianização do Império Romano, especialmente a partir do século IV, quando o cristianismo começou a se estabelecer como a religião dominante.