A Origem da Filosofia Grega: Do Mito ao Logos e à Physis
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I. O Pensamento Grego Antes do Surgimento da Filosofia
A filosofia ocidental surgiu na Grécia no século VI a.C., como resultado de um processo complexo através do qual o pensamento tradicional baseado no mito foi substituído pelo Logos ou explicação racional.
De qualquer forma, convém notar que o pensamento mítico e o racional (filosófico e científico) convivem ao longo do ciclo da filosofia grega. Tanto o conhecimento mítico quanto o racional são tentativas de explicar a realidade como um todo, uma vez que proporcionam uma interpretação do universo físico, das peculiaridades do ser humano e dos fundamentos do comportamento moral e da organização sociopolítica.
Em geral, o Logos ou explicação racional, ao contrário do conhecimento mítico, caracteriza-se pelo fato de não recorrer a deuses e forças sobrenaturais em suas explicações.
Do século XII a.C. ao século VI a.C., houve a gestação do pensamento ocidental. Houve um acúmulo de experiência e conhecimento de todas as civilizações antigas, de uma forma coerente e sistemática. A sociedade grega desta época é fundamentalmente aristocrática, agrícola e bélica. A organização política e econômica é relativamente estável: a pólis ou cidade-estado. As pólis são pequenas unidades independentes economicamente, em que há uma consciência política unificada forte e uma estrutura social sustentada pela existência de uma grande população de escravos e a presença de duas classes sociais: a nobreza, composta por comandantes militares, e pessoas que lidam com a agricultura e a pecuária.
Nesta época, desenvolveram-se inúmeras técnicas, artes e ofícios e, consequentemente, surgiram as primeiras formas de atividade científica. Do ponto de vista educacional, não existia um sistema organizado na Grécia nem livros sagrados disponíveis que pudessem servir como guia. A educação estava nas mãos de poetas como Homero e Hesíodo, e a linguagem usada para a transmissão de conhecimentos valiosos era a linguagem da poesia épica.
II. O Logos ou Explicação Racional
Desde o século VII a.C., houve uma mudança profunda na sociedade grega como resultado do aumento da agitação social e do nascimento de uma sociedade democrática. Do ponto de vista intelectual, testemunhamos no século VI a.C. o surgimento de uma nova concepção de conhecimento: o Logos, que substituirá gradualmente a sabedoria convencional baseada em mitos.
O Logos fornece uma explicação racional universal da realidade e da relação do homem com ela, a fim de alcançar a essência das coisas, usando argumentos e justificativas, sem recorrer a deuses e forças sobrenaturais. Através do conceito de Logos, o pensamento grego classifica o reino da realidade e do conhecimento através dos opostos. Portanto, o termo abrange tanto o campo da realidade (objetos ou coisas) quanto o campo do conhecimento dessa realidade.
A realidade é classificada pelo Logos entre o que é necessário (não pode deixar de ser) e o que é contingente (é de uma forma, mas poderia ser de outra). O Logos também classifica a realidade com os conceitos opostos de permanente e mutável, distinguindo o que é constante nas coisas do que muda nelas. Além disso, a realidade é classificada como essencial e o que é apenas aparente. Por último, o Logos classifica os aspectos da realidade que dão unidade a esta e os responsáveis por sua pluralidade e diversidade.
Os conceitos de necessário, permanente, essência e unidade são facetas de uma única forma de compreensão da realidade e referem-se ao conceito filosófico de Physis ou natureza. Inter-relacionados estão o contingente, a mudança, a aparência e a pluralidade.
O termo Logos para classificar o campo de conhecimento da realidade emprega os opostos do conhecimento sensível e do conhecimento racional (sentidos e razão). Os sentidos fornecem conhecimento sensorial, opinião e o particular do contingente, das aparências e da pluralidade. A razão é um conhecimento universal e necessário, voltado para o permanente, a essência das coisas e a unidade.
III. O Conceito de Physis ou Natureza
Esse conceito é de particular importância no pensamento grego antigo, pois permite vincular os conceitos opostos de uma explicação racional ou Logos. É permanente, mas pode explicar as alterações. É a essência das coisas, servindo como base das aparências. Identifica-se com a unidade das coisas, sendo um princípio capaz de gerar a pluralidade. A Physis possui as seguintes características:
- É viva: concebida como um organismo vivo com atividade e movimento interno. Por isso, seres naturais diferem dos artificiais.
- É dinâmica: uma realidade em constante processo e transformação. O fenômeno da mudança é o mais geral do universo.
- É ordenada: um cosmos onde cada ser tem seu lugar e comportamento programado.
- É misteriosa: a tarefa do filósofo é descobrir seus segredos.
- É finita e eterna: o finito aparece como perfeição e o tempo é interpretado como um eterno retorno.
- É sagrada: mas não identificada com o sobrenatural; não possui significado religioso, gerando um respeito que não visa transformá-la.
Em termos gerais, o conceito de Physis inclui dois significados: um cosmos (universo ordenado) e a essência de cada substância natural. A questão da natureza das coisas leva à busca pelo princípio fundamental da realidade: o Arché.
O termo grego Arché tem três significados: origem (de onde tudo gera), causa (explica a transformação) e substrato permanente (do que os seres consistem).
Os Modelos Explicativos da Physis
Monismo Dinâmico de Heráclito de Éfeso: Defende a necessidade da reflexão e convida a fugir das aparências dos sentidos. A estrutura da Physis é explicada pela mudança, pelo Logos e pelo fogo. Para Heráclito, tudo flui (panta rhei). A mudança ocorre pela luta dos contrários, regulada pelo Logos, que é a lei interna e a unidade por trás da mudança. O fogo é o Arché, o constituinte cósmico original.
Monismo Estático de Parmênides de Eleia: Primeiro a oferecer um tratamento conceitual da Physis. A razão afirma que só há uma realidade: o Ser. A realidade é única, indestrutível, homogênea e imóvel. A pluralidade e o movimento são ilusões dos sentidos, pois o que é não pode deixar de ser.
Dualismo de Pitágoras: A matemática fornece a chave para o universo. Os elementos do universo são o par (ilimitado) e o ímpar (limitado), compondo uma estrutura harmônica.
Filosofia Pluralista
Desenvolvem modelos para superar as dificuldades do monismo. Os principais são:
- Empédocles: Propõe quatro elementos (terra, água, ar e fogo) movidos pelas forças do Amor e da Discórdia.
- Anaxágoras: Afirma que tudo sempre existiu em partículas chamadas homeomerias. O movimento e a ordem são causados pelo Nous (Inteligência Universal).
- Demócrito de Abdera (Atomismo): Proposto por Leucipo e Demócrito. Os elementos originais são o ser (cheio/átomos), o vazio e o movimento eterno. Os átomos são indivisíveis e invisíveis, movendo-se no vácuo. Corpos visíveis são resultados de colisões entre esses átomos.