Origens e Consequências da Primeira Guerra Mundial
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As origens da Primeira Guerra Mundial
Paz armada (1890–1914)
Após a unificação alemã (1871), a Alemanha tornou‑se a potência dominante na política internacional, graças à ação do chanceler Otto von Bismarck. Isso criou um sistema de alianças envolvendo a Alemanha, a Áustria e, em relações distintas, a Itália e a Rússia, que procuravam atingir dois objetivos principais:
- Isolar a França — desde a perda da Alsácia e da Lorena na guerra de 1870‑1871, havia um desejo de revanche por parte da França.
- Manter o equilíbrio nos Bálcãs — a Áustria e a Rússia tinham interesses concorrentes na região, o que gerava tensões que poderiam dar origem a um conflito europeu.
Com a morte do imperador Guilherme I, Guilherme II subiu ao trono; o seu imperialismo mais agressivo e de expansão levou à demissão de Bismarck em 1890. Iniciou‑se assim a chamada paz armada (1890–1914):
- As potências europeias agruparam‑se: Alemanha, Áustria‑Hungria e Itália assinaram a Tríplice Aliança, enquanto França, Rússia e Reino Unido aproximaram‑se na Tríplice Entente. A Rússia afastou‑se progressivamente da aliança com a Alemanha devido aos conflitos nos Bálcãs.
- O medo mútuo levou a uma corrida armamentista entre as principais potências.
Confrontos armados entre as potências
O conflito de interesses entre antigas potências coloniais e novas potências era fonte de problemas: os novos Estados procuravam colónias para obter matérias‑primas e mercados.
As duas crises em Marrocos (1905–1911): Alemanha e França disputaram a influência em Marrocos. Na Conferência de Algeciras (1906) foi reconhecida a preponderância francesa (com zonas de influência espanholas). Em 1911 a Alemanha acusou a França de não respeitar os acordos de Algeciras e, em troca do reconhecimento do protetorado francês, obteve compensações territoriais no Congo.
A crise dos Bálcãs: o Império Otomano estava em declínio, e Áustria‑Hungria e Rússia procuravam tirar vantagem. A Rússia apoiou Estados eslavos (Bulgária e Sérvia) e tentou impedir a expansão austríaca; a Áustria procurava expandir‑se pelo litoral do Adriático. Entre 1908 e 1913 ocorreram várias crises graves na região.
A crise no verão de 1914
Em junho de 1914, o arquiduque e herdeiro do Império Austro‑Hungaro, Franz Ferdinand, visitou Sarajevo, na Bósnia, para afirmar a soberania austríaca. Foi assassinado por um nacionalista sérvio.
O atentado foi usado pela Áustria contra a Sérvia. Em 23 de julho de 1914 a Áustria‑Hungria apresentou um ultimato à Sérvia, exigindo, entre outras medidas, a autorização de investigação do crime. A Sérvia, apoiada pela Rússia, rejeitou parte do ultimato e, em 28 de julho, a Áustria declarou guerra à Sérvia.
A Rússia começou a mobilizar‑se em defesa da Sérvia; a Alemanha exigiu que a Rússia cessasse operações. Ao considerar a resposta insuficiente, a Alemanha declarou guerra à Rússia e, por antecipação, também à França, antecipando o apoio francês à Rússia.
O plano alemão previa uma rápida invasão da França através da Bélgica (Plano Schlieffen). A violação da neutralidade belga e a ameaça à segurança do Reino Unido levaram o Reino Unido a declarar guerra à Alemanha.
A Itália optou por não apoiar imediatamente a Alemanha e a Áustria, acabando por abandonar a Tríplice Aliança e declarar neutralidade — mais tarde entraria ao lado dos Aliados.
O desenvolvimento da Primeira Guerra Mundial (1914–1918)
Países beligerantes e fases do conflito
A guerra tornou‑se global. As Potências Centrais foram apoiadas pelo Império Otomano e pela Bulgária. A Tríplice Entente contou com a adesão da Itália (a partir de 1915), Roménia, Grécia e, mais tarde, dos Estados Unidos. Outros Estados da África, América e Ásia também intervieram de diversas formas.
Guerra de movimento (agosto 1914)
O objetivo inicial alemão era alcançar uma vitória rápida sobre a França e depois voltar‑se contra a Rússia. O Plano Schlieffen previa um ataque de surpresa à França pela Bélgica em grande escala, mas as forças alemãs foram travadas na Batalha do Marne (setembro de 1914), perto de Paris.
A Rússia, atendendo aos pedidos da França, lançou um ataque precipitado contra a Alemanha e foi derrotada em Tannenberg (setembro de 1914), mas forçou os alemães a desviar tropas para o leste, aliviando a pressão sobre Paris.
Guerra de posições (1914–1917)
O fracasso da ofensiva alemã permitiu a consolidação de frentes estáticas defendidas por trincheiras e pontos de metralhadora. Para romper a estagnação, optou‑se por ataques massivos e ofensivas de desgaste.
Os alemães tentaram romper as linhas na Batalha de Verdun (1916) e os britânicos lançaram a ofensiva no Somme (julho de 1916); ambos os ataques falharam em obter uma decisão rápida e causaram pesadas perdas.
Dada a estabilidade das frentes principais, os Aliados lançaram operações em teatros secundários:
- No Mediterrâneo, os britânicos tentaram isolar a Turquia, mas falharam em Gallipoli (1915).
- As colónias alemãs na África foram ocupadas pelos britânicos e pelos aliados asiáticos, como o Japão.
- No Oriente Médio, os Aliados ocuparam possessões otomanas na Palestina, Síria, Arábia e Iraque, com o apoio de movimentos nacionalistas árabes.
- A marinha britânica impôs um bloqueio à Alemanha; em resposta, a guerra submarina foi usada para tentar aliviar o bloqueio.
A crise de 1917
Em 1917 ocorreram mudanças decisivas no quadro militar e político:
- Revolução russa: o czar foi derrubado; após a sequência revolucionária, instalou‑se um governo comunista que, em dezembro de 1917, iniciou negociações de paz. Em março de 1918 foi assinado o armistício e o tratado de Brest‑Litovsk, pelo qual a Rússia saiu da guerra e cedeu vastos territórios à Alemanha.
- Entrada dos Estados Unidos: inicialmente neutros, os EUA forneciam material aos Aliados. A intensificação da guerra submarina alemã e o afundamento de navios levaram os Estados Unidos a declarar guerra aos Poderes Centrais, trazendo mais de um milhão de soldados e uma poderosa capacidade industrial para o esforço aliado.
Ofensiva de 1918 e fim da guerra
A retirada russa permitiu à Alemanha concentrar forças e organizar uma grande ofensiva no oeste em 1918, mas a chegada de tropas americanas e a exaustão material e humana das Potências Centrais fizeram fracassar a ofensiva.
Os Aliados lançaram uma contra‑ofensiva (entre elas a Segunda Batalha do Marne) e, perante o esgotamento e a falta de homens e recursos, as Potências Centrais não puderam resistir e acabaram por render‑se.
As consequências do conflito e a organização da paz
Consequências
A guerra provocou um número elevado de vítimas: morreram mais de 8 milhões de combatentes e cerca de 9 milhões ficaram feridos.
- Houve um excedente de mulheres nas faixas etárias jovens e uma diminuição significativa da taxa de natalidade.
- Instaurou‑se uma economia de guerra: a liberdade de produção e comércio foi limitada, com o Estado a decidir sobre a produção em vez de empresas ou consumidores.
- Produziu‑se a incorporação massiva das mulheres no mercado de trabalho.
- A propaganda foi usada pelos Estados para manter o moral das populações e desmoralizar o inimigo.
- Surgiram novas armas e tecnologias militares, como morteiros, gás venenoso, carros de combate (tanques) e blindagens metálicas.
Tratado de Paz de Versalhes e conferências de Paris (1919–1920)
Os tratados de paz de Paris foram assinados com os países derrotados: o Tratado de Versalhes (com a Alemanha), Saint‑Germain (com a Áustria), Trianon (com a Hungria), Sèvres (com a Turquia) e Neuilly (com a Bulgária).
Os objetivos principais desses acordos foram: prevenir o ressurgimento da Alemanha, restabelecer um equilíbrio de poder entre as potências vencedoras e manter a Rússia isolada, criando um cordão sanitário para evitar a propagação da revolução.
Mudanças territoriais
O Império Alemão, o Império Austro‑Húngaro e o Império Otomano deixaram de existir na sua forma anterior e sofreram perdas territoriais:
- A Alemanha perdeu todas as suas colónias, que passaram a mandatos administrados pela França e pelo Reino Unido; perdeu ainda territórios na Europa: Alsácia‑Lorena voltou à França e partes da Prússia foram cedidas à Polónia.
- O Império Austro‑Hungaro foi desmembrado em novos Estados — Áustria, Hungria e Checoslováquia — e perdeu territórios em favor da Jugoslávia, Polónia e Roménia.
- O Império Otomano transformou‑se na República da Turquia e cedeu territórios: a França recebeu mandatárias sobre Síria e Líbano, o Reino Unido recebeu Palestina e Iraque, e várias ilhas foram atribuídas à Grécia e à Itália.
Para isolar a Rússia foram reforçados Estados vizinhos:
- A Polónia recebeu territórios antes controlados pela Rússia, Áustria e Alemanha e obteve acesso ao mar por meio do corredor de Danzig; Danzig tornou‑se uma cidade livre, administrada pela Liga das Nações.
- A Transilvânia foi cedida à Roménia pelo antigo Império Austro‑Hungaro.
- Para estabilizar os Bálcãs criou‑se o novo Estado da Iugoslávia, reunindo Sérvia, Croácia, Eslovénia, Bósnia, Montenegro e Macedónia.
Outras consequências da guerra
O Tratado de Versalhes considerou a Alemanha e seus aliados como responsáveis pela guerra e impôs pesadas reparações económicas. A Alemanha sofreu ainda a desmilitarização de regiões fronteiriças, como a Renânia.
Os Estados Unidos não ratificaram o Tratado de Versalhes nem participaram da Liga das Nações, pois procuraram manter‑se isolacionistas em parte da década seguinte.
Finalmente, promovendo a criação da Liga das Nações, instituída em 1920, pretendia‑se que as principais potências resolvessem conflitos por meios pacíficos. A Liga falhou em resolver muitos dos problemas graves das décadas de 1920 e 1930, mas foi um precursor das Nações Unidas.